quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Opções: tê-las ou não tê-las?

Ao longo da vida, vemo-nos diante de certas situações em que somos forçados a tomar uma decisão. Na maioria das vezes, tomar uma decisão é sinônimo de fazer uma escolha. Obviamente a coisa parece ir se tornando mais complicada à medida que o número de opções vai aumentando. Alguns ousam a dizer que pior do que não ter opção é ter várias Uma das primeiras escolhas marcantes que precisamos fazer é a escolha de nossa profissão. Somos praticamente forçados a decidir nosso futuro em uma idade que, reconhecidamente, não temos maturidade suficiente. Embora eu seja químico, nem sempre eu quis cursar Química. Naquela idade eu almejava cursar Engenharia Elétrica em São Carlos. Aquele era o curso em que eu havia me identificado “parcialmente”, já que minha vontade era – sim!!! - ser professor, mas todos tentavam fazer com que eu mudasse de opinião. E acabaram conseguindo... Entre indas e vindas, acabei ingressando no curso de Química. Por ironia, a Química era a disciplina exata com que eu menos me identificava. Para completar, a Química Orgânica era a área da Química que eu menos gostava na época de graduação... Quatro anos depois eu me via novamente em apuros. Precisava escolher se abandonava o emprego no almoxarifado agrícola da usina ou se chutava tudo para o alto e ia fazer a pós-graduação (mestrado e doutorado). Acabei optando pela segunda. Fiz uma escolha consciente que acabou mudando totalmente os rumos de minha vida. Passados tantos anos, eu percebo que a segunda decisão – a de fazer pós-graduação – foi conseqüência da primeira. Afinal, se eu não tivesse cursado Química, não teria conhecido as pessoas que tanto me incentivaram, ou talvez nem tivesse me interessado pela pós-graduação. Ironicamente, hoje eu me encontro novamente em uma situação onde eu preciso fazer uma escolha que poderá mudar radicalmente a minha vida. Obviamente, se eu não tivesse tomado feito as escolhas que fiz, eu não estaria nesta doce e confusa “enrascada”...

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Engraçadinho virtual

Final de bimestre é sempre uma loucura. Há pelo menos uma meia dúzia de pacotes de prova olhando para mim requisitando correções e as cadernetas das respectivas turmas precisando ser preenchidas. Sendo assim, o tempo me é escasso, mas achei melhor escrever uma atualização curta e rápida do que esperar mais tempo e escrever uma "bíblia"...
O domingo foi um dia muito especial. Na parte da manhã, fui convidado para uma homenagem no colégio estadual onde dou aulas. O motivo? Fizeram uma pesquisa entre os alunos (não sei de quais séries) e eu fui "eleito" o segundo professor mais querido da escola, com diferença de apenas um voto para a professora que ficou em primeiro lugar. Recebi também a visita de um professor amigo meu, lá de Ribeirão Preto. Sua visita trouxe-me muito ânimo e motivação.
No sábado à tarde, enquanto o MSN estava aberto, percebi que alguém havia me adicionado à sua lista de amigos. Um tal de "Lúcifer" (só o nome já causa arrepios). Na foto, o cara estava com um capuz preto e a parte do rosto que aparecia estava pintada de branco, com um reflexo avermelhado. O tal cara começou com um papo estranho, dizendo que "quanto mais amigos ele tivesse, melhor", e que havia me conhecido no Orkut. Disse também que tinha uma seita, mas que não queria falar do seu "trabalho". Perguntou se eu acreditava em Deus e disse que aquilo era só o começo, que em pouco tempo eu "pertenceria a ele".
Caramba, tem cada louco na internet... Por via das dúvidas, bloqueei o endereço do cara. Não quero outro demônio em minha vida. Os que eu já tenho (dores nas costas, stress, problemas com horário etc.) já me dão muito trabalho.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

A máquina lá de cima

Eu me lembro como se fosse hoje. Nenhuma daquelas pessoas com quem eu dividia aquela sala de aula conversava comigo. Isso, no entanto, não me incomodava. Afinal, éramos desconhecidos, eu para eles, eles para mim. Mas o que realmente me deixava intrigado era o fato de nenhum deles ter a iniciativa de vir conversar comigo. Eu bem que tentei algumas vezes, mas senti que não estavam muito dispostos a serem meus amigos. O fato é que eu era um estranho naquele ninho. Eu era aluno oriundo de uma outra universidade; uma universidade particular, um dos poucos que não havia me graduado na USP. Já eles eram, em sua maioria, graduados naquela instituição. Pareciam sentir-se superiores... Aquele período, o início do mestrado, foi o mais difícil de toda a pós-graduação. Coincidência ou não, foi o período do qual eu guardo as melhores lembranças, talvez porque as poucas boas que tive foram muito marcantes. Recordo-me, por exemplo, do primeiro diálogo que tive com alguém da turma da disciplina de “Métodos físicos de análise orgânica”. Este diálogo somente aconteceu porque o amigo a que me refiro teve a iniciativa de vir conversar comigo, pois eu já havia me rendido à idéia de não ter amigos naquela turma. Não tendo a amizade de nenhum deles, eu os via como adversários. Foi quando um grande amigo, no sentido literal da palavra (o cara é 23 cm mais alto que eu!!!!) parou ao meu lado, sentou-se e começou a conversar comigo. Quando ele estava de pé, eu tinha que olhar pra cima para poder conversar com ele. No entanto, eu senti pela primeira vez ali naquele lugar alguém não me olhava de cima para baixo (ele era o único que tinha tamanho para isso!). A forma como ele me tratava foi extremamente informal. Era como se nos conhecêssemos há vários anos. Desde as primeiras palavras da conversa pude notar que a humildade e a bondade daquele camarada eram proporcionais ao seu tamanho físico. Ele foi o único a conversar comigo, a me dar conselhos e a incentivar-me a enfrentar a falta de grana, o cansaço e as dificuldades que eu tinha para entender o conteúdo da disciplina. Nos primeiros dias, nossa conversa tinha um único assunto: o “Wagnão”, um colega aqui de São Joaquim da Barra que havia se graduado com ele. Sem querer, eu acabei entregando para esse meu amigo que o Wagnão era casado e que tinha uma filha. Ele se divertiu muito com a notícia. Os risos daquele amigo eram espontâneos, desmedidos. Eu nunca tinha visto ninguém sorrir tão naturalmente naquele ambiente como ele. Parecia não se importar com o que os outros fossem falar dele por rir daquele jeito. Ria alto, como se a alegria brotasse do fundo de sua alma. Uma alma bondosa, a primeira que eu havia encontrado em meio a pessoas aparentemente tão hostis. Com o passar dos dias e das semanas, nossa amizade foi se tornando cada vez mais forte. Quando nos encontrávamos no ‘bandex” (assim chamávamos o refeitório estudantil), ele e deixava seu “bandejão” e seguia ao meu encontro para abraçar-me, ali no meio de todo mundo. Como ele era mais alto que eu, ele precisava arquear o corpo para abraçar-me. Era como se um gigante abraçasse um pequeno anão... E eu realmente me sentia pequeno diante da grandeza daquele coração... O fato daquele “gigante” abraçar-me me deixava intrigado, pois até então eu tinha a idéia ignorante que homens não se abraçavam. Na primeira vez em nos encontramso no refeitório estudantil, ele apertou minha mão e me abraçou. Todos ficaram olhando. Confesso que tive vontade de empurrá-lo e dizer "Você tá ficando louco, cara?", mas acabei percebendo que ele fazia isso com todos os seus amigos, fossem homens ou fossem mulheres. Aos poucos fui percebendo que aquele amigo era um “meninão” crescido, que não havia sido ainda corrompido pelas maldades do mundo. Pela primeira vez eu havia encontrado alguém que não havia perdido a inocência, como a maioria de nós acaba perdendo ao longo da vida. Seu coração parecia não ter endurecido diante das dificuldades, que eu bem sabia, ele também havia enfrentado. Às vezes eu passava no laboratório em que ele trabalhava para irmos almoçar juntos no “bandejão” com o maior número possível de amigos. Confesso que por inúmeras vezes eu quase perdi a paciência, pois ele queria que todos os seus amigos fossem almoçar juntos. Graças a ele, eu fui aos poucos me ambientalizando e os colegas dele foram se tornando meus colegas também. Comecei a criar um círculo de amizades muito bom e, aos poucos, fui me sentindo à vontade e mostrando que eu era apenas alguém que precisava de amigos.
Certa vez, um dos alunos do laboratório em que este meu amigo trabalhava ficou sem bolsa de estudos. Então ele, mais do que depressa, ofereceu parte da grana que ele recebia mensalmente para ajudar o tal colega e, não bastasse, saiu fazendo uma “vaquinha” para que o tal aluno não precisasse desistir da pós-graduação. Eu nunca vi ninguém fazer isso antes e, pra ser sincero, nem depois... Os anos se passaram. Eu e este amigo deixamos de fazer disciplinas juntos e academicamente cada um tomou o seu caminho. Sempre que nos encontrávamos, ele me convidava para ir à pizzaria com a turma do laboratório dele, pois ele sabia que naquela época eu era fanático por rodízios. A vida seguiu e ele acabou se casando e as vezes que nos encontrávamos se tornaram cada vez mais raras. Mas eu tinha a certeza que a nossa amizade jamais acabaria. Passados 7 anos desde que o conheci, estou como docente em uma universidade aqui próximo à minha cidade. Nela nós desenvolvemos algumas atividades de pesquisa relacionadas à Química de Produtos Naturais. Devido à implantação do programa de Doutorado, a CAPES solicitou a contratação de mais três docentes. Um dos docentes que havia sido indicado pelos professores que estão há mais tempo no grupo acabou desistindo e apareceu uma oportunidade... E Deus novamente nos colocou um no caminho do outoro... Depois de tantas voltas que o mundo deu, estou novamente dividindo parte do meu tempo com aquele grande amigo, a quem chamamos de “Serjão”. Felizmente o mundo não conseguiu apagar a inocência e a pureza daquele olhar. O sorriso continua estampado no rosto dele. Hoje posso ouvir as palavras e as idéias daquele grande amigo, que muito fez por mim em um dos períodos mais difíceis de minha vida. Neste mundo cada vez mais maldoso e egoísta, eu tive o privilégio de encontrar (e de reencontrar!) um amigo de verdade, que apesar da sua enorme capacidade intelectual (eu não chego nem aos pés dele...), tem uma humildade incomparável. Ainda existe, sim, pessoas muito boas neste mundo. Aliás, pra ser sincero, às vezes eu penso que ele não é humano, pois é muito mais evoluído que eu e que a maioria dos que conheço. Eis que Deus, quando me vê novamente em uma fase difícil de minha vida, traz-me novamente o “anjo gigante” para amparar-me novamente com suas palavras. Como ele costuma dizer, “a gente nunca sabe o que a máquina lá de cima planeja pra nós”...

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Medo de dormir

O monitor está aqui à minha frente, olhando para mim. Nele vejo o reflexo de minha imagem, 8 kg mais leve do que há dois meses atrás. Perder peso foi uma das recomendações médicas para solucionar os problemas na coluna. A aparência física melhorou bastante e a sensação de poder novamente caber nas calças é confortante, mas as dores propriamente ditas perduram até hoje e, pior, tornaram-se cada vez mais constantes. Temo a hora de dormir. O temor vai se transformando em desespero à medida que o sono vem chegando. Eu já devia estar na cama agora, mas tenho medo de dormir, pois sei que amanhã acordarei com dores nas costas. E não é problema do colchão, nem tampouco de postura. Como disse minha prima Márcia, eu preciso parar para descansar. A verdade é que eu não tenho me dado o privilégio de fazer isso há um bom tempo. As coisas vêm acontecendo muito rápido na minha vida e a maioria delas não pode esperar. O peso sobre meus ombros é cada vez maior, e certamente aumentará quando eu sair de casa, casar-me e constituir uma família onde eu serei o pai. Não, eu não vejo solução para o meu problema, pois eu não enxergo qual é o meu problema... Não se pode enfrentar um inimigo que não se vê. Desde os 12 anos eu tenho desvio na coluna e sei que não cuidei deste problema como deveria. No entanto, as dores que sinto hoje são relativamente recentes. Se não me falha a memória, comecei a senti-las de uns dois ou três anos pra cá. Coincidentemente, faz três anos que comecei a lecionar na universidade. Naquela época eu era bolsista e tinha que fazer tudo escondido, pois todo bolsista é obrigado a assinar um papel dizendo que a bolsa de estudos é a sua única fonte de renda. Se descobrissem, eu não apenas perderia o direito à bolsa como também seria obrigado a devolver toda a quantia recebida até então... Também tinha que viver me escondendo dos colegas da moradia de pós-graduação, que embora desconfiassem que eu estava dando aulas, nunca souberam a verdade. Hoje levo uma vida de louco, cheia de viagens e horários (quem diria que há alguns anos atrás eu desejava tê-los...). Nunca pensei que fosse ganhar o que ganho hoje, mas também nunca pensei que fosse passar pelo que estou passando. Lá na universidade, quando fico sentado por um tempo prolongado, eu me levanto e começo a andar com o corpo torto para um dos lados. Até a coluna se acomodar, eu caminho praticamente como um velho de 80 anos... Pois bem. Tenho apenas 30 kg e estou praticamente no auge do meu vigor físico. O que será de mim daqui há alguns anos? Será esta mais uma preocupação a ser colocada sobre meus ombros? Sem ter respostas e sem ter tempo suficiente para escrever as inúmeras histórias que eu tenho pra contar, não vejo outra opção que não seja enfrentar chão da sala novamente (eu já desisti de dormir na cama...), pois minha coluna está começando a doer nesta posição em que estou escrevendo. Que Deus me ajude!

domingo, 17 de setembro de 2006

Revoltado, estressado e travado

Já é madrugada. Eu deveria estar dormindo, pois tenho que acordar amanhã cedo para as aulas no colégio. No entanto, cá me encontro diante deste monitor, um tanto que bêbado de sono, na vã tentativa de relatar neste espaço as minhas experiências cotidianas. Meu astral neste momento não é dos melhores. Uma gama de sentimentos negativos me abala neste momento, a ponto de quase fazerem com que eu desista de escrever. Mas vamos por partes. Tudo começou ontem de madrugada, mais precisamente às 3h30min da madrugada. Precisei acordar cedo, pois a Débora e eu havíamos confirmado participação em uma excursão para as Termas dos Laranjais, na cidade de Olímpia. Nós já havíamos visitado aquele lugar duas vezes, ambas em situações muito prazerosas, mas em nenhuma delas nós precisamos acordar tão cedo. Confesso que ter que acordar tão cedo em pleno domingo gerou, desde o início, a sensação de que aquela aventura não seria exatamente como nós esperávamos. Entretanto, eu fiquei na torcida para que eu estivesse enganado. Quando entramos no ônibus, reconheci o motorista. Era o amigo Gilmar, a quem apelidamos de “Gilmarzinho” por causa do tamanho (1,60, mais ou menos). Nos tempos de faculdade, era ele o motorista do nosso ônibus. Na cabine do motorista havia uma senhora de cabelos brancos que aparentava entre 60 e 75 anos. Após alguns minutos dentro do ônibus, descobri que ela era a coordenadora da excursão. Após coletar-nos no lugar combinado, o Gilmarzinho atravessou a cidade praticamente inteira, para que o restante do pessoal pudesse embarcar. Quando finalmente chegamos no outro ponto, do outro lado da cidade, adentrarse cerca de 30 pessoas, incluindo crianças, adolescentes e adultos. A maioria deles falava muito alto, como se houvesse necessidade de mostrar a todos que estavam ali. Limitei-me a ligar o tocador de mp3 e a ouvir as músicas que eu havia gravado. Graças a este “artifício”, desmaiei na poltrona do ônibus e sequer vi a viagem passar. Mas o pior estava por vir... Na entrada do parque aquático, os guias (ou melhor, os responsáveis pelas excursões) precisam adquirir os convites e passá-los para os membros da excursão. Pois bem. Aquela senhora de cabelos brancos comprou os ingressos e ingenuamente começou a distribuí-los para as pessoas que estavam na fila (e nós estávamos no final dela!) Havia apenas um pequeno problema: a fila era enorme e nem todos os que ali estavam eram da excursão. Sem notar, aquela senhora acabou “presenteando” pessoas que ela nunca havia visto, deixando inúmeras pessoas que haviam pago sem o ingresso (pra variar, eu e a Débora ficamos sem...) A minha irritação começou quando eu percebi que aquelas pessoas estavam agindo de má fé, pois estavam aceitando bilhetes que não eram delas e, não bastasse, não quiseram devolvê-los quando a senhora idosa pediu-lhes de volta. “Não, a senhora me deu, agora quer tomar? Eu não vou devolver, não!”, era o discurso daquelas pessoas, que me enojavam por causa de seu egoísmo egoístas e individualistas, que nem sequer se comoveram quando viram a pobre senhora retirar do bolso praticamente R$200,00 para comprar novos bilhetes de entrada... No trajeto de volta, fiquei indignado como há pessoas que só enxergam seu próprio umbigo. Quando colocaram os DVD’s do ABBA e dos Bee Gees, que eu e a Débora tanto gostamos, outros não gostaram e começaram a zombar daqueles conjuntos. Caramba, eu não me recordo de ter zombado em nenhum instante dos tais “Édson e Hudson”! Mas mesmo não gostando, eu preferi dormir a ficar reclamando o tempo inteiro. Mas e a nossa opinião, foi respeitada nesta viagem? Ora, por que é que eles não podiam ter respeitado o gosto de uma minoria (que somavam também outras pessoas, além de mim e a Débora). À noite, já cansado de pessoas que gostam de tirar vantagem em tudo o que fazem, eu me deparo com alunos da universidade querendo colar na prova. Putz, que raiva!!! Não preciso nem dizer que eu estressei e, adivinhem o que aconteceu? Isso mesmo: minha coluna travou novamente... Mas deixe estar. Amanhã eu mesmo terei um longo diálogo com meus alunos do colégio sobre a maneira como eles agiriam nesta situação. Como diria o Homem Aranha, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. E neste momento, na condição de professor, eu tenho o poder (e a oportunidade de contribuir para que isso mude algum dia).

sábado, 16 de setembro de 2006

Viagem ao PR - Dois filhos de José Crotti

Sexta-feira, 8 de setembro de 2006. Desperto com o barulho estridente e irritante do celular. De olhos fechados, saio à sua procura, para fazer cessar o barulho que interrompeu meu sono. Esta cena se repete há mais ou menos dois anos. Mas há algo diferente desta vez. Olho para cima e não vejo o teto do quarto, e sim o engradado sobre o qual está outro colchão. Na verdade, estou dormindo em um beliche. Só então dou-me conta que não estou em minha casa. Estamos em Cambira, mais precisamente na casa de nossa prima Edna. Estamos dormindo no quarto que a prima Priscila gentilmente nos cedeu. A mamãe e o papai está ocupando a cama de casal onde ela tanto gosta de dormir. Ouço alguns movimentos. É a mamãe e o papai preparando as coisas para sairmos. “Coitada! Ela tá dormindo lá no chão da sala...”, diz a mamãe, agora com a certeza que estamos incomodando. Tentando fazer o mínimo de ruído possível, trocamos de roupa, escovamos os dentes e saímos rumo à casa da tia Augusta, onde combinamos de tomar o café da manhã. São apenas três quadras que nos separam da casa da tia Augusta, mas mesmo assim vamos de carro. O trajeto é rápido e não leva sequer dois minutos. Embora seja bem cedo – umas 8h, pra ser mais exato – a casa da tia Augusta já está cheia de gente. Na varanda, a prima Ilda está de avental preparando uma massa de talharim para o almoço. Na cozinha, a Vanda e a Sônia estão preparando a mesa. Após trocar algumas palavras com elas, sinto que estou atrapalhando-as. Sigo então para o quarto, onde está a querida tia Augusta, enquanto o papai e a mamãe ficam sentados à mesa da cozinha. Sentada à beira da cama, a tia me recepciona com o abraço carinhoso de sempre. Olho para ela com olhos ternos. Há bondade em seus olhos, simplicidade e experiência (são 90 anos!!!) em suas palavras. Suas palavras são ditas lentamente, mas são interrompidas pela tosse que, segundo disseram, a incomoda há duas semanas. Ouço então uma voz masculina que vem da cozinha, que não é a do papai. Quem poderá ser? Passados alguns minutos, adentra o quarto um homem forte, aparentando uns 40 anos. Está vestindo uma jaqueta marrom e uma camisa laranja. Embora eu nunca o tenha visto pessoalmente, consigo reconhecê-lo. É o primo Dilermando, filho do José Crotti (o filho mais velho da tia Augusta). Há algum tempo nos conhecemos pela internet e trocamos alguns recados pelo Orkut. Não é preciso muito papo para perceber que se trata de uma ótima pessoa, que traz em seu semblante a mesma alegria de viver de seu pai. Estou muito feliz por conhecê-lo pessoalmente. Sentamos ao pé da cama e iniciamos uma conversa de amigos que parecem se conhecer há anos. Eu me espanto com a forma com que nos identificamos um com o outro. Após alguns minutos de conversa, ele se levanta, retira o celular da cintura e, seguindo em direção á porta do quarto, faz uma ligação. “Oi Márcia! Adivinha quem está aqui na minha frente? O Miller!” A Márcia, com quem ele está falando, é sua irmã. Eu também a conheço apenas pelo Orkut. Pelo que posso entender da conversa, ele parece estar convidando-a para vir conhecer-nos pessoalmente. Percebo, no entanto, que a distância que nos separa fisicamente é grande: 300 km. “Fale aqui com ele”, ouço-o dizendo, estendendo em seguida o braço e oferecendo-me o celular. Inexplicavelmente, sinto um frio no abdômen. Tomo o celular em mão. “Oi”. A voz que vem do outro lado me parece muito familiar. É como se já a tivesse ouvido antes... Uma voz que transmite bondade e paz. Uma voz de quem está visivelmente feliz por ouvir a minha. Ela me explica que gostaria muito de nos ver, mas que por causa do trabalho, só conseguiria chegar a Cambira amanhã à noite (quando estaremos em Maringá...). Eu entendo e lamento, mas não me entristeço. Pelo contrário. A alegria de poder conhecer o Dilermando e de ouvir a voz da Márcia já fez esta viagem valer a pena...

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Quedas de braço com a paciência

Visitar os parentes em Cambira e em Maringá foi uma verdadeira "faxina mental" (como diz minha prima Rosana). Foi como se tivesse tirado férias de mim mesmo. Com isso, comecei a semana da melhor maneira possível: sorrindo. Há tempos eu não me via acometido por tamanho bom humor. Entretanto, durante as aulas no ensino médio, tive a sensação de estar sendo constantemente testado pelos alunos. Isto ocorreu-me enquanto estava ditando o texto. Eles repetiam o que eu dizia, ao invés de escrever. Alguns se perdiam enquanto conversavam entre si. Não, nada daquilo tirou o meu bom humor. "Professor, o senhor não vai ficar nervoso com eles?", perguntou uma aluna. Não, eu não fiquei nervoso. Ao invés disso, usei o que estavam fazendo como motivo de piada. Nunca fui tão paciente em toda a minha vida. Certo, nesta queda de braços contra a falta de paciência eu ganhei...
Hoje, ao voltar da universidade, resolvi passar em frente à construção onde eu e a Débora pretendemos morar quando nos casarmos (se Deus permitir). O fato é que a construção está praticamente parada por causa do carpinteiro, que há quase dois meses disse que voltaria para terminar o telhado... Pois bem: os 15 dias que ele estipulou se tornaram 60... Hoje, por sorte (ou azar, não sei bem ao certo...) eu o encontrei em cima de um telhado, fazendo o madeiramento de uma casa próximo ao bairro onde moro. Decidi então parar e conversar com ele. "Queria saber por que você não quer fazer o serviço lá em casa". Ao ouvir o seu "não, a gente vai, sim", com um sorriso no rosto, eu continuei. "Você disse que voltaria dentro de 15 dias, mas já faz 60 dias. Neste meio tempo, você foi para outras construções e passou outros serviços na frente do que eu havia combinado com você. Se você vai realmente fazer o serviço lá em casa, eu quero que você o faça até o próximo sábado. Se não puder, diga agora. Mas se disser que vai fazer, dê a sua palavra de homem e honre-a. Caso não possa, eu vou procurar outro carpinteiro. No próximo sábado quero que tudo esteja pronto para colocarmos as telhas, entendeu?" Aparentemente assustado e sempre acostumado a ver-me sorrindo, ele limitou-se a balançar a cabeça, concordando com tudo o que eu falei. Minha paciência com relação a este assunto esgotou-se. Não se pode ganhar todas, né?

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Viagem ao PR - O reencontro

Quinta-feira, 7 de setembro. São 14h30min. O papai dá o sinal de seta e entra à esquerda. Estamos em Cambira. A cidade parece ter crescido bastante desde que estive aqui, há cinco anos. Assim que os pneus cruzam os trilhos do trem (e eu que achava que isso era coisa de desenho animado...), sinto um nó na garganta. Pressiono os olhos para conter as lágrimas. As lembranças do tio Chiquinho estão em toda parte, mas ele não está mais entre nós. Após alguns quarteirões, o papai vira à esquerda. Eu me lembro desta rua e me recordo da última vez que passamos por ela. Eu estava com um lenço em mãos, que a tia Augusta havia me dado para enxugar as lágrimas que eu derramei por ter que me despedir do tio Chiquinho pela última vez. E eu sabia que era a última vez que eu o veria... À esquerda avisto a pastelaria do primo José Crotti (o “Zezinho”), o filho mais velho do tio Chiquinho. Um pouco mais à frente, também à esquerda, há uma praça. Embora sejam poucos os detalhes que me chamam a atenção, sinto-me como se estivesse mergulhando em um mar de lembranças. Quieto, eu limito a observar e a tentar controlar a emoção. Mas apenas tento...Eis que avistamos um portão de metal, cuja altura não deve ultrapassar 1,20m. Enfim chegamos à casa do tio Chiquinho... O papai manobra o carro sobre as pedras do quintal e ali estaciona o carro. Olho para o fundo do quintal e avisto, no alto, a casa de madeira onde o tio Chiquinho criou sua família. Descemos então do carro e iniciamos nossa subida até a casa. Na varanda, desmaiado na rede, o camarada Fontana, esposo da prima Sônia, mal percebe que chegamos. Os primos mais jovens, ainda crianças, brincam pela varanda. Não os reconheço. Afinal, quando vim aqui pela última vez, eles eram apenas bebês... Na porta da varanda, a prima Vanda vem receber-nos. Olho para ela e enxergo a querida tia Alice... A prima Sônia, sempre batalhadora, interrompe a feitura dos pães e vem receber-nos. A prima Ilda, de São Paulo, e a Val, fazem o mesmo. Ali estão as filhas do tio Chiquinho. Todas permaneceram firmes ao seu lado, até os últimos instantes de sua vida. Algumas, como a Sônia, por exemplo, abdicaram de suas próprias vidas para dedicarem atenção e cuidado a ele. Uma dedicação no mínimo merecida para um homem que sempre foi admirado por todos por sua bondade e paciência. Paro à porta da cozinha. Olho para a cabeceira da mesa. Por um instante, relembro do tio Chiquinho sentado, com sua blusa de lã de mangas longas, de chapéu, com os braços apoiados sobre os joelhos, fumando o seu cigarro. Levanto os olhos, na tentativa de conter as lágrimas. É, está faltando alguma coisa...
Da cozinha avisto a tia Augusta em seu quarto. Ela está sentada na cama onde o tio Chiquinho estava quando me despedi dele há 5 anos atrás. Hoje é ela que ocupa o lugar deixado por ele na casa, embora ele ainda tenha o seu lugar assegurado no coração de todos nós. Toda a atenção é dispensada àquela bondosa senhora de 90 anos recém-completos, cujos cabelos brancos desconhecem jamais conheceram qualquer espécie de tinta ao longo da vida. Ao me ver, ela sorri e, em seguida, começa a tossir. Peço-lhe a bênção e deixo-me cair cansado, sentado ao lado dela. Ela me parece fraca. A história parece repetir-se. Meu Deus, eu espero não ter que conviver com a dor de uma nova perda...

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Anjinhos - o retorno

Mais um feriado vem chegando e, com ele, a oportunidade de "respirar" um pouco mais aliviado. Embora eu não tenha postado desde domingo, a curta semana, que praticamente se encerra hoje, foi tão proveitosa que hoje consigo dar risada de tudo o que aconteceu semana passada. Às vezes eu tenho a impressão de ter estado em TPM na semana que passou, pois nem mesmo eu estava me aturando... Graças a Deus, as coisas foram voltando aos seus devidos lugares e eu voltei a exibir o velho sorriso no rosto, aquele que todos estavam acostumados a ver. Voltei a ser o Eduardo (ou Miller, se preferirem...) que todos conhecem.
Vale deixar registrado aqui duas experiências muito interessantes. A primeira delas foi na terça-feira, no colégio. Os alunos começaram a "zuar" que uma aluna estava gostando de um dos alunos. O curioso é que ambos são tímidos. Quando começaram a falar sobre o futuro dos dois, os colegas disseram à ela que eles teriam filhos, inclusive especulando sobre o nome dos filhos. Sem se conter, a menina foi sorrindo, sorrindo e, com um enorme sorriso de felicidade estampado no rosto, deixou as lágrimas escorrerem. Quando vi aquela cena, tive que ser um verdadeiro ator para conter as minhas lágrimas também...
Hoje (quarta-feira), de volta da universidade, já na entrada da cidade, notei que uma mulher estava tentando sair com o carro, que estava estacionado à beira da calçada, e entrar na fila à sua frente. No entanto, os veículos não davam espaço para ela fazer a manobra. Quando ela me olhou, acenei para que ela pudesse entrar na minha frente. Foi quando, de dentro do carro, duas menininhas, aparentando ter entre 4 e 7 anos, começaram a acenar, sorrindo. E assim permaneceram durante o tempo em que aquele carro permaneceu em minha frente. Eu ouvia uma música que baixei da internet - uma tal de "Iris", um lindo dueto entre Avril Lavigne e Doo Doo girls. Por trás dos óculos escuros, pude chorar como não chorava há muito tempo, de felicidade, como se aquelas duas meninas fossem dois anjos enviados por Deus, aqueles que há tempos eu não percebia. Ah, meu Pai, como eu estava sentindo falta desses anjos...

domingo, 3 de setembro de 2006

Agradecimentos da semana

Agradeço a todos que, nesta semana difícil, tiveram paciência de ler os meus desabafos aqui neste espaço. Em especial, agradeço à Rose, que também é professora, à Cristine e à Adriene, que já são "freguesas" do Narrativas e, principalmente, ao Marcelo, do Ora bolas, que indicou este blog no dia do blog. Valeu!

Botando a casa em ordem

Nesta semana, senti-me como se estivesse em um túnel estreito e longo. Eu não via a hora de chegar sexta-feira, para que eu pudesse respirar um pouco. Na verdade, eu não me recordo (e olha que tenho uma memória relativamente boa) de ter vivido uma semana tão estranha como esta. Em alguns momentos estive prestes a entrar em pânico. Aos meus olhos, tudo parecia dar errado. Hoje, em pleno domingo, sinto um certo alívio por ter conseguido sobreviver e ter conseguido virar mais esta página de minha vida. Espero não escrever um outro rascunho como este. Rascunho, sim, pois não tive autocontrole para escrever uma boa história... Não bastassem os compromissos lá na universidade (aulas, atividades de pesquisa, orientações, projetos, artigos...), que estão me tomando boa parte do tempo útil e da massa encefálica (certo, eu estudei pra chegar até aqui, né?) e a correria, que tanto me irrita, precisei dividir meu tempo com um dilema pessoal enorme: a realização ou não de uma viagem para o norte do Paraná, mais precisamente Maringá e Londrina, onde mora parte de nossa família. A proposta de realizar a tal viagem partiu do vovô “Milla”, que é praticamente um pai para mim. Por causa da idade, ele e a vovó não têm mais condições de viajar para Maringá de ônibus. Lá mora a tia Alice, a irmã de quem a vovó Maria mais gosta. O vovô, por sua vez, adora viajar e conversar com o tio Luís, de quem ele é amigo desde a adolescência. Em viagens anteriores, o vovô convidou o papai para ser o motorista. Para aproveitar a viagem, o papai costuma deixar o vovô Milla e a vovó Maria em Maringá e segue com a mamãe até Cambira, onde mora a família do nosso saudoso tio “Chiquinho” Crotti, irmão do vovô Crotti (pai do papai). Pois bem. Desta vez o papai bateu o pé e disse que não ia se eu não fosse. Confesso que, no início, não entendi o porquê de sua atitude, já que ele foi visitar nossos parentes paranaenses sem mim. Surgiu daí um problema enorme: eu não gosto de viajar sem a Débora. Quando ela fica para trás, sinto como se estivesse “ao meio”, e eu bem sabia que ela não poderia ir conosco, pois tem que ministrar aulas na quinta e na sexta-feira. Ocorreu-me então que o vovô Milla já está velhinho e que talvez ele não tenha outra oportunidade para fazer uma viagem dessas. Lembrei também que o papai está receoso de ter que fazer uma nova cirurgia por causa da érnia que se formou no corte da cirurgia anterior, e que nesta cirurgia algo pode dar errado. Por fim, ficamos sabendo que a tia Augusta não anda bem de saúde e que, assim como aconteceu com o tio Chiquinho 5 anos atrás, esta pode ser a última oportunidade de vê-la nesta vida. Após muita reflexão e um diálogo aberto com a minha sempre compreensiva e amada Débora, decidi que viajarei com eles. Sei que para mim será um grande sacrifício físico, pois minha coluna não suportará ficar aproximadamente 8 h prensada em um carro apertado, mas sem dúvida esta dor será menos intensa que a de uma futura dor na consciência. Além disso, terei a oportunidade de passar um tempo com meus pais e com os meus avós, coisa que eu não faço há algum tempo. Acho mais do que justo passarmos esse tempo juntos. Somente hoje, no início da tarde, fui perceber porque o papai não queria ir sem mim. Quando recebemos a visita de parte da família Crotti paranaense, em novembro do ano passado, ele percebeu que todos gostaram muito de mim. Deitado na rede, o papai disse-me, pegando em minha mão, as palavras que o tio Eduardo pronunciou quando soube que eu levaria o seu nome: "Sempre fui um homem honesto e nunca fiz mal a ninguém. Deus há de abençoá-lo e ele se tornará um homem inteligente e uma pessoa de bom coração". Hoje ele disse que se o tio Eduardo ainda estivesse vivo, teria muito orgulho de mim, pois segundo ele, eu me tornei exatamente como o tio Eduardo queria. No final desta semana conturbada, consigo perceber o quanto meu pai e a minha família me amam e se preocupam comigo, e quão importante é ter uma companheira ao meu lado que sabe reconhecer a importância da família em minha vida.

No limite

Já é madrugada. Lá fora reina o silêncio. O único som que ouço é o da música que vem das pequenas caixas de som deste computador, tocando“Complicated”, de Avril Lavigne. Enquanto digito, consigo esquecer momentaneamente que já deveria estar dormindo. Esqueço também, por alguns instantes, que minha coluna dói e que, pra piorar, certamente estarei “travado” quando deixar esta cadeira. Diante desta situação cada vez mais complicada (certo, o título da música que estou ouvindo é bem sugestivo...), encontrei uma certa dificuldade para descrever aqui o que se passou comigo desde segunda-feira. Pois bem. Vamos aos fatos que ainda consigo lembrar. Ainda na segunda-feira, participei da reunião de pais. Conversei, inclusive, com a mãe do aluno que me perguntou as horas na segunda-feira. “Professor, eu queria saber o que o senhor me diz do meu filho”, perguntou ela. Naquele momento, eu senti que estava com a faca e o queijo em mãos. Eu poderia ter reclamado daquele aluno para sua mãe e relatado que ele está muito longe de ser um “anjinho inocente”, e que adora "brincar de mãos" (entenda-se: socos e tapas) com seus colegas, além de conversar muito durante as aulas. No entanto, ocorreu-me que tal atitude seria uma espécie de vingança. Preferi, então, reforçar para aquela mãe, que me pareceu tão sofrida, os pontos positivos de seu filho. “Seu filho conversa bastante, mas nunca me faltou com o respeito. Às vezes conversa durante a aula e se levanta para ir à carteira dos colegas para provocá-los, mas sempre me respeitou quando chamei sua atenção. Nunca tive problemas com ele. A senhora está de parabéns”, disse a ela, que ao ouvir-me, foi desenhando um sorriso tímido no rosto. O fato de ter conversado com a mãe do tal aluno trouxe-me um pouco de paz. Era como se, no fundo, eu tivesse a oportunidade de mostrar, por meio de um ato concreto, que eu o havia perdoado e que aquele problema estava superado. À noite, quando notei o desânimo de alguns alunos da faculdade, resolvi contar a história do “que horas são?”. Entretanto, não sei se foi uma boa idéia, já que a maioria dos alunos ficaram perguntando as horas, em tom de brincadeira. Na terça-feira, tive uma conversa muito franca com os alunos da 3ª. Série do ensino médio. Desculpei-me por ter ido embora e expliquei-lhes minhas razões. Disse que não ando muito bem de saúde (não sei se física ou mental...), mas que vou tentar agüentar até o final do ano por causa deles, que vão se formar. Fiquei surpreso com a reação deles. Além dos aplausos, uma das alunas mais falantes e pouco estudiosas da sala parou-me no corredor após a aula e abraçou-me, agradecendo-me pela decisão que eu havia tomado. À noite, na faculdade, encontrei-me com um professor, grande amigo, que me cumprimentou e perguntou se eu havia gravado o CD que ele havia pedido. O mais preocupante (e vergonhoso também!) é que eu sequer me lembrava do que tinha prometido gravar para ele... Senti então uma vergonha tão horrível que, juro, quis esconder-me debaixo de uma das mesas da sala dos professores... Para fechar o dia com chave de ouro, fui notar, antes de dormir, que havia perdido a tampa do mp3 player. Fui dormir à 1h30min, com os nervos à flor da pele. Afinal, o mp3 player foi um presente dado pela Débora. Para completar (ou seria extinguir?) a pouca paciência que me restava, ouvi o motorista dizer no dia seguinte (quarta-feira) que tinha achado a tampa que estava me tirando o sono, mas que por não saber do que se tratava, havia jogado no lixo. Que maré de azar é essa, meu Deus do céu??? Em conversa com o “primo” Crevelin (é assim que nos chamamos, embora não tenhamos nenhum grau direto de parentesco), encontrei, finalmente, a razão de tanto estresse: a minha casa. Tenho trabalhado muito e vivido uma rotina maluca para conseguir construir o que será o meu futuro lar. No entanto, a maioria das pessoas que trabalham com construção civil (pedreiros, carpinteiros, pintores...) são todas “enroladas”. Além de demorarem para irem fazer o serviço, parece haver uma nuvem negra sobre as pessoas com quem tenho lidado. Por exemplo: o rapaz responsável por colocar as calhas e os rufos contraiu uma pneumonia na semana em que ia fazer o serviço. O carpinteiro, por sua vez, caiu de um andaime dois dias antes de recomeçar o serviço que está faltando e, com a queda, acabou precisando ficar de repouso por quase uma semana. Às vezes eu começo a pensar que é muita coincidência negativa, mas prefiro tentar não acreditar nessas coisas, caso contrário acho que vou enlouquecer...
Amanhã eu termino. Este post está enorme e eu já estou morrendo de sono...