sexta-feira, 22 de setembro de 2006

A máquina lá de cima

Eu me lembro como se fosse hoje. Nenhuma daquelas pessoas com quem eu dividia aquela sala de aula conversava comigo. Isso, no entanto, não me incomodava. Afinal, éramos desconhecidos, eu para eles, eles para mim. Mas o que realmente me deixava intrigado era o fato de nenhum deles ter a iniciativa de vir conversar comigo. Eu bem que tentei algumas vezes, mas senti que não estavam muito dispostos a serem meus amigos. O fato é que eu era um estranho naquele ninho. Eu era aluno oriundo de uma outra universidade; uma universidade particular, um dos poucos que não havia me graduado na USP. Já eles eram, em sua maioria, graduados naquela instituição. Pareciam sentir-se superiores... Aquele período, o início do mestrado, foi o mais difícil de toda a pós-graduação. Coincidência ou não, foi o período do qual eu guardo as melhores lembranças, talvez porque as poucas boas que tive foram muito marcantes. Recordo-me, por exemplo, do primeiro diálogo que tive com alguém da turma da disciplina de “Métodos físicos de análise orgânica”. Este diálogo somente aconteceu porque o amigo a que me refiro teve a iniciativa de vir conversar comigo, pois eu já havia me rendido à idéia de não ter amigos naquela turma. Não tendo a amizade de nenhum deles, eu os via como adversários. Foi quando um grande amigo, no sentido literal da palavra (o cara é 23 cm mais alto que eu!!!!) parou ao meu lado, sentou-se e começou a conversar comigo. Quando ele estava de pé, eu tinha que olhar pra cima para poder conversar com ele. No entanto, eu senti pela primeira vez ali naquele lugar alguém não me olhava de cima para baixo (ele era o único que tinha tamanho para isso!). A forma como ele me tratava foi extremamente informal. Era como se nos conhecêssemos há vários anos. Desde as primeiras palavras da conversa pude notar que a humildade e a bondade daquele camarada eram proporcionais ao seu tamanho físico. Ele foi o único a conversar comigo, a me dar conselhos e a incentivar-me a enfrentar a falta de grana, o cansaço e as dificuldades que eu tinha para entender o conteúdo da disciplina. Nos primeiros dias, nossa conversa tinha um único assunto: o “Wagnão”, um colega aqui de São Joaquim da Barra que havia se graduado com ele. Sem querer, eu acabei entregando para esse meu amigo que o Wagnão era casado e que tinha uma filha. Ele se divertiu muito com a notícia. Os risos daquele amigo eram espontâneos, desmedidos. Eu nunca tinha visto ninguém sorrir tão naturalmente naquele ambiente como ele. Parecia não se importar com o que os outros fossem falar dele por rir daquele jeito. Ria alto, como se a alegria brotasse do fundo de sua alma. Uma alma bondosa, a primeira que eu havia encontrado em meio a pessoas aparentemente tão hostis. Com o passar dos dias e das semanas, nossa amizade foi se tornando cada vez mais forte. Quando nos encontrávamos no ‘bandex” (assim chamávamos o refeitório estudantil), ele e deixava seu “bandejão” e seguia ao meu encontro para abraçar-me, ali no meio de todo mundo. Como ele era mais alto que eu, ele precisava arquear o corpo para abraçar-me. Era como se um gigante abraçasse um pequeno anão... E eu realmente me sentia pequeno diante da grandeza daquele coração... O fato daquele “gigante” abraçar-me me deixava intrigado, pois até então eu tinha a idéia ignorante que homens não se abraçavam. Na primeira vez em nos encontramso no refeitório estudantil, ele apertou minha mão e me abraçou. Todos ficaram olhando. Confesso que tive vontade de empurrá-lo e dizer "Você tá ficando louco, cara?", mas acabei percebendo que ele fazia isso com todos os seus amigos, fossem homens ou fossem mulheres. Aos poucos fui percebendo que aquele amigo era um “meninão” crescido, que não havia sido ainda corrompido pelas maldades do mundo. Pela primeira vez eu havia encontrado alguém que não havia perdido a inocência, como a maioria de nós acaba perdendo ao longo da vida. Seu coração parecia não ter endurecido diante das dificuldades, que eu bem sabia, ele também havia enfrentado. Às vezes eu passava no laboratório em que ele trabalhava para irmos almoçar juntos no “bandejão” com o maior número possível de amigos. Confesso que por inúmeras vezes eu quase perdi a paciência, pois ele queria que todos os seus amigos fossem almoçar juntos. Graças a ele, eu fui aos poucos me ambientalizando e os colegas dele foram se tornando meus colegas também. Comecei a criar um círculo de amizades muito bom e, aos poucos, fui me sentindo à vontade e mostrando que eu era apenas alguém que precisava de amigos.
Certa vez, um dos alunos do laboratório em que este meu amigo trabalhava ficou sem bolsa de estudos. Então ele, mais do que depressa, ofereceu parte da grana que ele recebia mensalmente para ajudar o tal colega e, não bastasse, saiu fazendo uma “vaquinha” para que o tal aluno não precisasse desistir da pós-graduação. Eu nunca vi ninguém fazer isso antes e, pra ser sincero, nem depois... Os anos se passaram. Eu e este amigo deixamos de fazer disciplinas juntos e academicamente cada um tomou o seu caminho. Sempre que nos encontrávamos, ele me convidava para ir à pizzaria com a turma do laboratório dele, pois ele sabia que naquela época eu era fanático por rodízios. A vida seguiu e ele acabou se casando e as vezes que nos encontrávamos se tornaram cada vez mais raras. Mas eu tinha a certeza que a nossa amizade jamais acabaria. Passados 7 anos desde que o conheci, estou como docente em uma universidade aqui próximo à minha cidade. Nela nós desenvolvemos algumas atividades de pesquisa relacionadas à Química de Produtos Naturais. Devido à implantação do programa de Doutorado, a CAPES solicitou a contratação de mais três docentes. Um dos docentes que havia sido indicado pelos professores que estão há mais tempo no grupo acabou desistindo e apareceu uma oportunidade... E Deus novamente nos colocou um no caminho do outoro... Depois de tantas voltas que o mundo deu, estou novamente dividindo parte do meu tempo com aquele grande amigo, a quem chamamos de “Serjão”. Felizmente o mundo não conseguiu apagar a inocência e a pureza daquele olhar. O sorriso continua estampado no rosto dele. Hoje posso ouvir as palavras e as idéias daquele grande amigo, que muito fez por mim em um dos períodos mais difíceis de minha vida. Neste mundo cada vez mais maldoso e egoísta, eu tive o privilégio de encontrar (e de reencontrar!) um amigo de verdade, que apesar da sua enorme capacidade intelectual (eu não chego nem aos pés dele...), tem uma humildade incomparável. Ainda existe, sim, pessoas muito boas neste mundo. Aliás, pra ser sincero, às vezes eu penso que ele não é humano, pois é muito mais evoluído que eu e que a maioria dos que conheço. Eis que Deus, quando me vê novamente em uma fase difícil de minha vida, traz-me novamente o “anjo gigante” para amparar-me novamente com suas palavras. Como ele costuma dizer, “a gente nunca sabe o que a máquina lá de cima planeja pra nós”...

Um comentário:

Gilce disse...

Eduardo,

Pela pequenina parte que nos cabe, pelo presente dado por Deus, colocando o "Grandão", em nossas vida. Te agradecemos.
Foi com estes mesmos olhos e mesmo coração, feito os teus, que conhecemos o Sergio.
Obrigada pelas palavras de amigo, cheias de sensibilidade e carinho. Ele é assim mesmo, como vc escreve. Nos deu outro presente, lindo, minha netinha Duda.
Vc é, tbém nosso amigo. Creia, as jóias, realmente raras, não são vista ou notadas de imediato. A que se ter coração. Talvez por isso, naqueles dias difíceis de graduando, vc não tenha sido notado, de imediato !!
Grande abraço. Apareça. teremos imenso prazer em lhe receber.
Gilce (sogra/mãe Serjão)