domingo, 29 de outubro de 2006

O esforço valeu a pena

Domingo, 29 de outubro de 2006. São 8h36min. Estou sozinho aqui em casa, pensativo. Certo, tenho que admitir que não gosto das situações em que a mamãe e o papai não estão em casa. No entanto, ao contrário do que ocorreu no último feriado (dia 12/10), desta vez eu não me sinto verdadeiramente sozinho. Há um sentimento de preenchimento completo e de uma felicidade plena. Em outras épocas de minha vida, certamente eu não estaria me sentindo assim, pois o papai está lá no hospital, internado com cólicas ocasionadas por três pedras no rim esquerdo (graças a Deus não é o mesmo rim em que ele sofreu a cirurgia para a remoção do câncer...). Estou em paz, tranqüilo. Sei que ele está bem e que a volta dele para casa é só uma questão de tempo. Não, isso está longe de tirar minha felicidade... Em momentos raros como este, eu começo a olhar para a semana que passou. Foi uma semana muito atípica. Faltei às aulas do colégio na terça-feira de manhã e na quinta-feira à noite para poder terminar a palestra, que seria apresentada na sexta-feira. Não havia como ser de outro jeito, eu tinha que fazer o possível para me preparar para aquela palestra. Afinal, em situações como esta o nosso “nome” profissional fica em xeque. É preciso defender com unhas e dentes as oportunidades que nos são dadas e eu, obviamente, não queria fazer feio. No entanto, em plena sexta-feira, às 2h da matina, eu não só não me sentia preparado como também não havia deixado a apresentação do jeito que eu gostaria... Acordei, então, às 6h. Eu deveria me sentir um trapo mas, por incrível que pareça, eu não me sentia cansado. Sentia-me motivado, renovado!Talvez o meu estado de humor estivesse tão elevado que sequer tive tempo para pensar no cansaço. Segui então para Ribeirão Preto, ouvindo músicas no mp3 para espantar o sono que, pela primeira vez, sequer apareceu. Quando o professor foi apresentar-me para os alunos, percebi que ele sabia a minha carreira acadêmica completa. Achei engraçado, pois eu não havia fornecido nenhuma informação a ele. Percebi então que ele estava com uma versão impressa do meu Curriculum Lattes em mão. Tive que conter um tímido sorriso, pois notei naquele momento que tudo o que a gente coloca na internet é de acesso público, assim como é este blog... A platéia era pequena, aproximadamente umas 15 pessoas, todos pós-graduandos. A formação dos mesmos era bem heterogênea, abragendo desde biólogos a fisioterapeutas. Tentei ser o mais didático possível e, no final, parece que acabei “convencendo”. Afinal, mesmo em uma sala completamente escura, ninguém dormiu enquanto eu falava. Ou eu consegui realmente prestar a atenção ou aquele pessoal é muito educado... Terminada a palestra, segui para a USP. Reencontrei lá bons e velhos amigos da época de pós-graduação, tanto no laboratório como na moradia estudantil. O que me chamou a atenção foi a forma como eu os tratei. Eu literalmente via um irmão em cada um deles, como se eu fosse capaz de enxergar em cada um a “centelha divina” de que o meu amigo Serjão tanto fala. Neste momento eu só tenho a agradecer a Deus por tudo o que tenho vivido nos últimos dias. Parece que, após tanto tempo me sentindo sozinho e abatido, eu encontrei o caminho certo. Deus, que eu havia deixado de procurar, agora está em todas as coisas que olho. Isso, sim, é a felicidade verdadeira e plena!

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Lidando com dias ruins

É muito engraçado como a forma com que lidamos com as situações depende muito do nosso estado de espírito que estamos experimentando naquele momento. Hoje o dia não foi nada fácil. Acordei tarde, pois fiquei até tarde preparando o roteiro para a aula prática de hoje. Acordei cedo, mas adormeci de novo e acordei aos frangalhos. Acabei chegando tarde na faculdade e a todo instante era interrompido pelos alunos que oriento. Enfim, a palestra que tenho que apresentar na sexta-feira em uma universidade de Ribeirão Preto ainda está bem crua. No entanto, meu humor manteve-se o mesmo durante todo o dia. Embora eu jamais tenha me alterado com alguém, confesso que às vezes é uma luta interior muito grande conter-me para não demonstrar minha irritação e contrariedade interiores com relação a estas situações. Pois bem. Durante todos os dias experimentei uma alegria intensa que perdura até agora. Acho que os dias que passei de “ressaca” fizeram-me perceber o quanto eu sou feliz, e que todos estes obstáculos, compromissos ou desafios podem ser pequenos quando eu me disponho a enfrentá-los. O mais interessante: eu percebi que as pessoas gostam de me ver assim, alegre e feliz. A energia do ambiente parece mudar completamente. Que esta alegria, agora reencontrada dentro de mim, possa ser expelida pelos poros a cada dia que passa, para que eu possa fazer o que eu mais gostoo nesta vida: fazer as pessoas felizes.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Voltando à vida real

Aqueles que se aventuraram a escrever seus blogs vão entender o que quer dizer a frase: “O número e o tamanho de postagens em um blog é diretamente proporcional ao tempo daquele que o escreve”. Esta frase contém um bom argumento para justificar minha ausência durante a semana que se passou. Contudo, seria injusto atribuir à falta de tempo o abandono que este espaço experimentou durante a semana que se passou. Não, não foi só a falta de tempo. Na semana que se passou eu vivi dias difíceis, talvez por ter me acostumado ao período de recesso da “Semana do saco cheio”, que a antecedeu. Um turbilhão de idéias povoou minha cabeça e, como sabem, o tamanho do meu HD cerebral não é tão grande como alguns teimam em pensar. Houve então um conflito entre hardware e software, o que me forçou a reiniciar o computador. Agora, finalmente, as coisas parecem estar em seus devidos lugares e eu posso, enfim, voltar a postar. Além disso, eu achei que nos últimos posts eu estava muito “chorão” e “ranzinza”. De certa forma, eu senti numa certa tristeza ou energia negativa naquelas postagens quando as reli... Era realmente preciso dar um tempo e esperar a paz retornar. Hoje, em especial, estou muito alegre. Quando se está de bem com a vida, qualquer coisa traz sorriso e alegria... Tive um final de semana comum (ah, como eu estava com saudade disso!). Eu e a Débora assistimos a um DVD “92 flash backs” e nos divertimos bastante com as “velharias” que nos trazem lembranças de nossa adolescência. Uma das músicas, “We shall dance”, do Demis Roussos, lembrou-me as noites de sábado em que, aos 15 anos, eu me deitava no sofá da sala e chorava feito uma criança....E como chorava!!! Certo, muitos daquela época achavam que eu não era muito normal, mas quem é que pode saber o motivo do meu choro se nem eu mesmo consigo entender?? De manhã, fui à escola e levei para um aluno alguns gibis. Embora eu MORRA de ciúmes de minhas coisas, decidi que não posso apegar-me a elas, pois quanto mais eu fizer isso, mais facilmente vou perdê-las (são palavras do Serjão!!!). Ao entregar para ele, senti que ele estava muito feliz. Eu, de certa forma, me senti um pouco esvaziado, como se estivesse pronto para receber novas coisas boas. Hoje saí à tarde para pagar contas pela cidade. De bermuda, tênis, óculos escuros e mp3 (até parecia que eu era gente!!!), montei em minha bicicleta cumprir a minha “agenda.”No entanto, andei bem devagar, curtindo o vento que vinha de encontro ao meu rosto. Olhei para o céu e pude experimentar uma sensação divina, de quem realmente não está sozinho, nunca. Sorri e agradeci a Deus por aquele momento. Na volta, aproveitei para visitar minha avó, que há meses não me via em sua casa. Eu tinha preferido afastar-me de lá em função das brigas entre meu pai e os irmãos, mas percebi (ainda bem que não foi tarde demais...) que estava cometendo uma grande injustiça, aliás muito parecida com uma que meu pai cometeu com relação à minha bisavó.Amanhã, terça-feira, será um dia corrido. Tenho que preparar uma palestra para sexta-feira que está me tirando o sono... Que Deus me ajude!!! Vixi, e por falar em sono, preciso dormir!!!

domingo, 15 de outubro de 2006

Mais uma prova de desunião

Hoje fomos a um churrasco na casa de minha tia Nilce, em Cândia. O churrasco foi realizado em comemoração ao aniversário do Valter, esposo da tia Nilce. Chamou-me a atenção o fato de apenas o meu pai ter sido convidado para o churrasco. Mais uma vez presenciei a reunião de apenas dois membros de uma família despedaçada. É doloroso saber que alguns dos meus tios não conversam com o meu pai ou com a minha tia. Isso me faz lembrar de que as festas de fim de ano estão chegando... E em mais um ano, a família encontra-se desunida. Mas... atire a primeira pedra aquele em cuja família não tem nenhuma desavença. Algum dia vou entender por que existe tanta intolerância entre parentes próximos.

sábado, 14 de outubro de 2006

Meus desenhos - parte 2: Dia das crianças


Mais um desenho de 1988. Coincidentemente, este desenho foi feito em comemoração ao dia das crianças. Isso foi há 18 anos... Passado tanto tempo, eu percebo que o desenho era uma maneira de expressar o meu pequeno mundo e o que eu vivia naquela época. O menino jogando futebol tem o cabelo no estilo do Alambique, um personagem que saída em tirinhas do jornal "Notícias populares", que o papai trazia de Sorocaba, quando ele puxava argila de Uberaba. O detalhe da chuteira expressa o meu desejo de jogar em um campo gramado, o que viria a se realizar ainda naquele ano. O menino puxando o caminhãozinho era, na verdade, eu. Na época, o vovô Mila havia encontrado um caminhãozinho parecido com aquele, e eu brincava com meus carrinhos aqui no monte de areia atrás da casa. Notem que eu estou de calça, pois eu detestava usar bermuda! O estilo de roupa dos meninos correndo (naquela época, eu adorava correr!) era no do nosso uniforme de educação física. O bebezinho atravessando a rua expressa a inocência das crianças, a mesma inocência com que atravessei a rua pela primeira vez ao ir para a escola, aos 6 anos. Eu o desenhei inspirado em um pequeno bebê de plástico que era da minha irmãzinha, na época com 8 anos. O carro que está indo em direção à criança é, na verdade, um dos meus carrinhos mais antigos. Quanto ao menino brincando no canto superior esquerdo, trata-se do Alessandro, o único colega com quem eu dividia os meus carrinhos. Reparem que não há nenhuma menina no desenho. Eu procurava ao máximo evitar de desenhar as meninas... Além disso, naquela época eu sabia muito pouco sobre o universo feminino. Bom, neste ponto eu não evoluí muito, não...

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Meu maestro, o papai

13 de agosto de 2006. Hoje é dia dos pais. Por causa desta data, o comércio aqui da cidade experimentou um aumento significativo nas vendas durante esta semana que passou. Afinal, sempre houve uma grande preocupação dos filhos em presentear seus pais nesta data. Alguns filhos, menos providos financeiramente, limitam-se ao que chamam de “lembrança”, que nada mais é do que um presente de baixo valor, que se enquadra dentro das condições de quem está presenteando. Já os mais bem abençoados preferem dar presentes um pouco mais caros. Infelizmente existe a idéia errônea de que o valor do presente que cada filho dá ao seu pai é proporcional ao amor que sente por ele. É uma idéia completamente equivocada, pois não se pode quantificar um sentimento, principalmente por meio de coisas concretas. O amor que se sente por um pai deve, sim, ser demonstrado a cada dia. É muito mais válido abraçar um pai durante todos os dias do ano, mostrando o quanto ele é amado, do que lembrar-se de presenteá-lo em um único dia do ano... São 22h. Eu e a Débora estamos aqui na praça 7 de setembro, no centro da cidade, onde está sendo realizada a 2a. Feira do Livro. Lá no palco o repórter Caco Bacellos relata algumas de suas experiências vividas na pele de repórter. Coincidentemente, a que mais me chamou a atenção é a de um filho que foi criado pela mãe e que foi educado na ausência do pai. A história conta que o menino envolveu-se com o tráfico de drogas e acabou ameaçando seu padrasto, que batia em sua mãe. A história tem um triste desfecho: a morte do menino na disputa por uma boca de fumo. Começo então a pensar sobre a real importância de um pai na criação e na educação de seus filhos. Penso que tudo o que sou devo ao meu querido pai, que até hoje, aos 30 anos, chamo carinhosamente de “papai”. Eu e a “Fia”, a minha querida irmã, fomos educados para chamá-lo de “papai”, o que hoje em dia pode parecer muito estranho ou pouco comum, pois não me vem à memória quem ainda se refere ao pai desta maneira. Se eu sempre fui um menino estudioso, eu devo ao papai, que sempre exigiu que eu fosse o melhor. No primeiro ano do ensino fundamental, eu estudava em uma classe onde eu era o único aluno que não sabia ler nem escrever, pois era o único que não tinha estudado na pré-escola. Sem querer saber deste detalhe, o papai exigiu que eu fosse melhor que os outros alunos, o que acabou fazendo com que eu me acostumasse a correr atrás do prejuízo durante a vida inteira. Ele sempre quis que eu fosse o que ele não pôde ser, quis dar para mim a educação e o amor que ele não recebeu do pai dele. O papai sempre deu exemplos de força de vontade, pois sempre trabalhou doente para nos dar o que de melhor ele podia. O papai não fuma, não bebe, não desrepeita ninguém (embora muitos o chamem de “chato” e “sistemático”, por gostar das coisas certas). O papai é um homem que vive para a família e que, mesmo depois de crescidos, nos abraça e nos beija, coisa rara de se ver hoje em dia. Para ele, eu e a “Fia” nunca vamos envelhecer... Abraçado à Débora e mergulhado em minhas reflexões sobre a importância do papai em minha vida, tenho a minha atenção atraída por um som maravilhoso: o som da orquestra sinfônica de Ribeirão Preto. O espetáculo que se apresenta no palco à minha frente deixa-me emocionado. Homens e mulheres, devidamente vestidos, manipulam cada um seus próprios instrumentos musicais, todos regidos pelo maestro. O maestro... Eis uma figura que me chama a atenção. Com a intenção de obter o melhor de cada um dos músicos, ele parece empenhado e exigente. Obedientes, os músicos, por sua vez, atendem a cada movimento mínimo das mãos do maestro. O maestro se esforça tanto que o suor começa a brotar-lhe na testa e escorre-lhe pelo rosto. No final de cada música, o maestro se levanta e cumprimenta um dos músicos, solicitando aplausos da platéia para eles. Olho então para um canto da sarjeta e começo a me lembrar que o papai sempre tentou obter o melhor de mim, mesmo que para isso tenha que ter sido rude em algumas situações. Hoje o papai parece orgulhoso do filho que ciou, e esse orgulho é o maior presente que eu poderia dar a ele. Orgulhoso, o papai parece solicitar para mim, enfim, as palmas que eu sempre quis receber durante a adolescência. Sinto então um nó na garganta, pois percebo que o papai foi, é e sempre será o meu maestro. Para mim, o papai é o melhor maestro do mundo.

Troca de marchas

Em sua concepção física, a vida é como uma estrada. Mais cedo ou mais tarde essa estrada chega ao fim. O grande segredo é saber aproveitar a viagem. Há trechos do percurso que são mais íngremes e que exigem mais do nosso motor. Neste caso, precisamos reduzir a marcha para que consigamos superá-lo, mesmo que em uma velocidade menor. Há outros, no entanto, em que o motor é menos exigido e podemos trafegar por ele em quinta marcha, uma vez que o carro já está embalado. Desde que defendi o doutorado, em fevereiro de 2005, minha vida tem estado em quinta marcha. Era como se eu estivesse na “banguela”, embalado, em um ritmo alucinante. Assim eu trafegava até meados deste ano, quando minha coluna mostrou que era preciso reduzir a marcha, caso contrário eu não conseguiria vencer a subida íngreme que se apresentou diante de mim. Não bastasse as dificuldades intrínsecas desta parte da estrada, eu tive que lidar com alguns fatos, entender algumas situações e aceitar algumas verdades que nos são impostas pelo destino. Confesso que encontrei certa dificuldade neste percurso da estrada. Era como se eu tivesse parado para trocar um pneu...Pois bem. Após quase quatro meses atravessando esta longa subida em marcha reduzida, eu tenho a impressão que cheguei ao topo da subida e que estou, enfim, pronto para o embalo de mais uma descida. Agora com o pneu trocado, algo me diz que nos próximos meses eu atravessarei um dos períodos mais produtivos de toda a minha vida pessoal e profissional. Espero que esta seja a vontade de Deus. E que assim seja!!!

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Meus desenhos - parte 1

Fiz este desenho em 1988, quando tinha 12 anos e estava na 6a. série do ensino fundamental.

Fragmentos de minha infância - parte 12: A briga

1986. Tenho 10 anos. Sou um menino que não gosta de ver brigas nem tampouco participar delas. Até hoje eu nunca briguei com ninguém e, pra falar a verdade, eu não tenho a mínima vontade. Acho que é porque na maioria das vezes eu fico sempre sozinho e não tenho amizade com muitos colegas, por isso ninguém mexe comigo. Aqui na escola eu já vi muitas brigas (a gente percebe pelo tumulto que se forma...), mas graças a Deus eu nunca participei de nenhuma delas. Já vi trocas de chutes, de socos. São cenas tristes de se ver. Eu acho muito estranho o fato do pessoal da minha idade fazer uma classificação dos colegas de acordo com suas brigas. Por exemplo: “O “Panche” é mais forte que o “Piurna”, porque os dois já brigaram e o “Panche” bateu no “Piurna”. Já o “Piurna” é mais forte que o Betim, porque o Betim apanhou do Piurna. Esses nomes são os mais citados, pois são os apelidos dos caras mais brigões da escola. Estou sentado no alambrado onde se hasteia a bandeira. Daqui avisto, róximo ao portão de entrada, o Betim e o Panche. O Panche é um menino negro que anda quase sempre com um “kichute” preto, sem meias.. Ele gosta de andar com os braços à mostra, pra impor respeito. Eu não me lembro de tê-lo visto apanhar de ninguém aqui na escola. Já vi, sim, ele quebrar os dentes de vários colegas com quem ele brigou. Ele é muito bom com os socos e bate sem dó, até arrancar sangue... É talvez o mais respeitado aqui na escola. Já o Betim é um rapaz de estatura um pouco menor que a minha. Mesmo sendo pequeno, o Betim conquistou o respeito da turma dele por estar sempre brigando, às vezes apanhando, às vezes batendo. Percebo então que o Panche e o Betim bem próximos. O “Panche” olha para mim e, na tentativa de encontrar a sua briga do dia, começa a me insultar. E aí, “Tonhão”!!!!” Ele está dizendo em tom de provocação, pois sabe que eu não gosto que me chamem por este apelido. Certo, não é um apelido feio, mas o que me irrita é o tom com que os colegas o usam. Quando penso neste apelido, eu tenho vontade de dar umas porradas no Léo, que inventou este apelido... Sabendo da fama de brigão que o Panche tem aqui na escola, eu prefiro ouvir e ficar na minha. Quando o Betim vê que eu fico quieto, ele tenta me intimidar e também começa a me chamar pelo apelido. Como costumamos dizer, “ele quer fazer moral pra cima de mim”. Então eu falo para ele parar de me chamar pelo apelido. Ele levanta o queixo e me intimida, me chamando para a briga. Pego a minha mochila e saio, para não arranjar encrenca. Eis que o Betim covardemente me empurra pelas costas. Eu dou uns dois ou três passos à frente, desequilibrado e me viro. Mal tenho tempo de me virar e me deparo com o Betim de punhos cerrados. Sem ter tempo de reagir, sinto o seu punho vir de encontro ao meu queixo. Ele bate e se afasta. Eu fico um pouco tonto. Olho ao redor e a única coisa que consigo ver são os colegas, que a esta altura já fizeram uma roda e começaram a torcer. “Vai, Tonhão!” De ímpeto, o Betim se aproxima e desfere outro soco, desta vez acertando a minha testa esquerda. Novamente eu sinto tudo rodar, mas não caio. Por uns segundos eu vejo tudo parado ao meu redor. Quando volto a mim, percebo que eu estou envolvido em uma briga e que, pelos acontecimentos, eu estou apanhando. Então eu parto para cima do Betim e o puxo pelo pescoço. Agarro-o então pela ponta da mochila e pela calça e começo a rodá-lo. E rodo, rodo, rodo... “Me solta! Me solta!”, grita ele. “Se eu te soltar, você não vai gostar!”, respondo, já nervoso. Os colegas deliram. Eu acho que o Betim deve estar se sentindo humilhado sendo exposto àquela situação. Quando começo a ficar tonto de tanto rodar o Betim, eu solto minhas mãos e o projeto uns dois metros à frente. Ele sai catando cavaco e cai de peito no gramado. Viro-me, com a sensação de ter vencido aquela briga, mas... Já de pé, o Betim reaparece e, novamente de maneira covarde, me empurra novamente pelas costas. Desta vez, porém, antes de me virar, eu vejo a inspetora correndo em direção a nós dois. “Meu Deus, eu vou pra diretoria por estar brigando!”, penso. Sem pensar duas vezes, eu começo a chorar. “Dona Marta, o Betim está me batendo!”, digo, sob soluços cinematográficos. Ela então corre em direção ao Betim e o agarra pelo ombro, desferindo-lhe vários tapas. Seguimos então, a inspetora, o Betim e eu, para a diretoria e lá permanecemos sentados no banco, aguardando a chegada da professora, a dona Dalva. Quando eu a avisto, intensifico o choro. Um tanto que comovida, ela passa a mão em minha cabeça e, em contrapartida, dá um tapa (mais um...) no ombro do Betim. “Tinha que ser você, hein, Carlos Alberto? Manda chamar a mãe dele, por favor!”, diz ela, nervosa, para a inspetora.. “Filho, você machucou? Esse aqui é bonzinho, ele deve ser inocente”, diz ela. A professora me conduz à sala de aula, enquanto o Betim fica sentado no banco da diretoria, aguardando sua mãe chegar. Neste momento uma enorme vontade de rir toma conta de mim, mas tenho que contê-la. Certo, eu posso não ser bom de briga, mas não sou bobo. Hoje o Betim pôde aprender que nem sempre quem ganha a briga é aquele que bate mais, e que ser estudioso é muito mais interessante do que ser brigão...

domingo, 8 de outubro de 2006

Para ver algum dia...


Calma, não se assustem. Esse aí sou eu. Resolvi postar estas fotos aqui no blog para que os amigos que passarem por aqui possam materializar o cara que narra sua vida cotidiana neste espaço virtual.

Teorias da evolução

Mais uma vez deparo-me com o monitor à minha frente, à espera de palavras para preenchê-lo. Fico minutos olhando para a tela em branco, respiro, olho para o teclado. Está difícil organizar as idéias. Sinceramente, eu gostaria que houvesse uma forma mais simples de se fazer isso... Por que tanta dificuldade em expressar sentimentos através de palavras? Eu juro que gostaria de entender isso, mas há nesse momento coisas muito mais interessantes que eu gostaria de entender... Tenho andado muito inquieto nos últimos três dias. Não tenho conseguido me concentrar em assuntos acadêmicos ou de trabalho. Ao invés disso, tenho passado a maior parte do meu tempo refletindo sobre a vida, algo que há muito, mas muito tempo eu não vinha fazendo. Penso em tudo, ao som de “On my way home” da Enya, e sinto uma dor no coração. Não uma dor que premedita um infarto, mas uma dor gostosa. Uma dor divina, daquelas que vem do fundo da alma, como se houvesse tanto amor em mim que o coração não suportasse. As lágrimas, para variar, vão brotando e umedecendo meus olhos. É uma sensação divina... Toda esta situação teve início há cerca de dois ou três meses atrás, quando descobri via orkut dois primos distantes que eu nem sabia que existiam: o Dilermando e a Márcia. Coincidentemente, eles são irmãos. Nós sempre visitamos a casa dos pais deles, os adoráveis José Crotti e dona Cida, sempre que visitamos Cambira, mas eu nunca os havia visto lá. Sendo assim, o primeiro contato que tivemos foi na forma de recados deixados no orkut. Sempre bem humorado, porém sereno, o Dilermando foi inicialmente mais freqüente nos recados e nós acabamos nos encontrando quando fomos à Cambira. Tive a grata oportunidade de conhecê-lo e à sua família. Fui cordialmente recebido em sua casa e conversamos durante horas. Ao final da visita, eu estava certo de que um vínculo de amizade sincera e duradoura acabava de ser criado entre nós. O meu contato com a Márcia, sua irmão, limitou-se inicialmente a um “oi” ao telefone do Dilermando no dia em que o conheci. Infelizmente ela mora com a família em uma cidade distante de Cambira, chamada Inácio Martins. Contudo, pude sentir muita bondade em suas palavras e em sua voz. O mais interessante foi que sua voz pareceu-me familiar... De volta a São Joaquim, eu voltei a sentir as dores na coluna. Com o passar dos dias, minha guerra contra os bicos-de-papagaio foi se intensificando e minhas forças foram sendo minada rapidamente, conforme eu vinha deixando registrado aqui no blog. Para minha surpresa, a Márcia leu este blog e sensibilizou-se diante da minha situação. De uma forma que eu até então desconhecia, a Márcia e seu esposo Chamber começaram a cuidar de mim à distância, demonstrando um enorme carinho para comigo. A dedicação de ambos deixou-me tão surpreso, perplexo e grato que uma pergunta começou a ecoar aqui dentro de mim: como podem duas pessoas que eu jamais encontrei fisicamente se preocuparem tanto e terem tamanha consideração para comigo enquanto pessoas tão próximas não dão a mínima para as minhas dores? Aos olhos deles, o fato deles terem se identificado comigo se deve ao fato de termos sido muito próximos em vidas passadas. Sim, isso mesmo: em vidas passadas... Sem saber ao certo o que fazer e sem ter a Débora para desabafar (isso aconteceu durante esta semana...), eu procurei o meu amigo Serjão, o “anjo gigante” a que me referi no post “A máquina lá de cima”. O Serjão e eu passamos quase uma hora conversando. À medida que ele foi me expondo parte de seu conhecimento sobre o assunto, eu ia tentando “digerir” toda aquela informação e aplicá-la para aquele momento que eu estava vivendo. Ao final da conversa, eu e o Serjão estávamos com os olhos inundados em lágrimas. Abraçamo-nos e agradecemos um ao outro pela oportunidade. A semente em minha mente já estava germinando... Confesso que ainda estou muito confuso diante de tudo o que está acontecendo, e talvez eu nunca chegue a entender. No entanto, dois pontos estão muito claros para mim. O primeiro delas é que o período de escuridão pelo qual eu passei foi necessário para que eu enxergasse que eu preciso evoluir. Segundo o Serjão, há uma capacidade enorme adormecida em mim e que precisa ser desenvolvida. É minha obrigação desenvolvê-la! Eu associei o que ele disse à sensação que eu sempre tive de que eu tenho uma missão muito importante aqui na Terra. É uma sensação de responsabilidade, como se eu estivesse aqui para cumprir um papel que eu não estou conseguindo cumprir. Daí é que surgem as minhas dores... São dores necessárias para que eu evolua e, segundo o Serjão, elas só tentem a aumentar... Quanto maior a evolução, maior o conhecimento, maior a responsabilidade... e maior a dor. O segundo ponto, não menos importante, é que meu espírito estava doente. Segundo a Márcia, a doença começa no espírito e se reflete no físico. Suas palavras semearam dúvida em minha mente e, após um doloroso processo de aceitação, eu percebi que sou eu que estou causando o meu próprio sofrimento... O ponto mais positivo de tudo isso é saber que há pessoas verdadeiramente amigas com quem eu posso contar. Pessoas como o Serjão, que eu conheci na pós-graduação e que, como eu havia mencionado aqui, foram recolocado por Deus em meu caminho para auxiliar no meu processo de evolução, para que eu me torne uma pessoa melhor. Pessoas como a Márcia e o Chamber, que eu nunca encontrei pessoalmente, mas que têm demonstrado um cuidado, um respeito e um carinho enormes. Se para evoluir a gente precisa estar cercado de pessoas mais evoluídas do que a gente, então acho que finalmente encontrei o caminho. Começo então a analisar os fatos e me questionar: Será por acaso que Serjão e eu voltamos a conviver o mesmo ambiente após 6 anos? Por que somente agora eu fui saber da existência do Chamber e da Márcia? Por que justamente agora? Existe realmente um vínculo entre nós com relação a vidas passadas? Neste momento já são mais de 2h da madrugada. Não estou com sono, mas acho melhor eu ir deitar-me, caso contrário estas perguntas vão me enlouquecer...

sábado, 7 de outubro de 2006

Memórias de minha adolescência- 15 anos (parte 1)

1991. Tenho 15 anos. Sou um adolescente muito tímido. Uso óculos de grau por causa da miopia e não consigo encontrar um corte para o meu cabelo que me deixe satisfeito. Há mais cravos e espinhas em meu rosto do que a soma de todos os outros alunos da minha idade. Dizem que é por causa dos hormônios, os mesmos hormônios que fazem com que eu tenha uma das barbas mais espessas da escola, mesmo sendo um dos mais novos. Pelo corpo os pêlos não param de aparecer e de crescer. E eles crescem não apenas nas pernas, virilhas, axilas, peito e barriga, mas também em ombros e costas. Um dos colegas me apelidou de “Peposo”, em alusão a um ursinho de pelúcia cuja propaganda passa diariamente na televisão. Minha vida resume-se basicamente a estudar. Durante o período matutino eu curso o ensino médio regular na escola Pedro Badran. A escola fica muito longe de casa, por isso o papai comprou uma mobilete Zanella azul para eu chegar mais rápido até ela. À noite faço curso técnico em contabilidade na escola técnica São José, a que todos chamam de FEAM-COC. Lá a maioria dos alunos é mais velha do que eu. Sento-me no fundo da sala, na última carteira da fileira à esquerda do professor. Além de tímido, sou também discreto, mas sou bom aluno. Aqui nesta turma, a maioria dos alunos é mais velha do que eu. Não há, portanto, nenhuma jovem da minha idade com quem eu possa conversar de igual para igual, pois todos dizem que as mulheres amadurecem mais rapidamente que os homens. No entanto, há uma em especial que chama minha atenção. Seu nome é Lucimeire. Por ter uma estatura menor que as demais, ela me parece ter menos que os seus 18 anos. Ela não tem namorado, mas diz que tem um “paquera” que tem moto. Bem, eu não tenho namorada. Aliás, nunca tive... À medida que o tempo vai passando eu estou torno um bom amigo da Lucimeire. Ela ri das coisas que eu digo – bem, eu espero que seja do que eu falo e não de mim propriamente dito. Isso é algo novo para mim, pois ela é uma das primeiras jovens com quem eu converso de verdade. Aos poucos vou conseguindo vencer a insegurança e falar com ela sobre mim sem gaguejar ou atropelar as palavras. Nunca ninguém sorriu tanto para mim como a Lucimeire. Trata-se de uma pessoa simples, humilde e muito comportada, qualidades que, por si só., já me atraem a atenção. Todos os dias eu converso com ela para ver o seu sorriso. Minha vontade é vê-la sorrindo o tempo todo, pois ela tem dentes lindos. É bom ter a sensação de poder fazer alguém feliz. Mas a Lucimeire não tem namorado... Eu também não tenho namorada!!! Mas será que não estou confundido as coisas? Será que a atenção que a Lucimeire me dispensa é tem me machuca bastante... Certo dia eu cheguei na sala de aula e a vi conversando ao pé de ouvido com sua melhor amiga. Não gosto de ficar ouvindo conversas alheias, mas pude perceber que ela falava de do “cara” de moto. Disse que gostava dele.. Ouvir aquilo foi como cravar uma faca em meu coração... Agora somos dois disputando o coração de uma mesma jovem (embora ela não saiba que eu também estou no páreo). Para dar-lhe uma pista que eu estou “afim”, escrevi um poema e mostrei a ela. Ela se limitou a comentar que eu estava muito apaixonado Bem, eu acho que ela não leu as primeiras letras dos versos... Pelo menos agora eu sei que ela não entende nada de acrósticos...Acho que vou partir para outra.
Derrota
Luto com corpo e alma
um destino que é só meu.
Com unhas e dentes, com o coração
instante por instante, segundo por segundo.
Mas o corpo delira, a alma padece...
Eu luto por você, por seu amor.
Incessantes batalhas, seguidas derrotas,
rumo incerto, difícil vitória,
entrego-me aos poucos, derrotado...
Exército de um só homem
Um homem sem armas, indefeso.
Travo esta batalha - batalha de olhares
e tento, em vão, sair ileso.
Angustiado, perdi minha luta.
Morrendo, caído, chorando,
olhando-te em outros braços...

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Renascido

No mês passado este blog completou um ano de existência. Ainda não consigo definir a verdadeira razão dele ter nascido. A princípio, eu queria que fosse um espaço onde eu registrasse a minha maneira de pensar e a minha forma de analisar a vida. Eu queria transformá-lo em um espaço onde meus descendentes pudessem encontrar documentado o cotidiano do pai deles quando era jovem. Talvez esta minha iniciativa tenha se originado do meu grande interesse pela adolescência do papai. Eu sempre quis muito saber se ele era um adolescente tímido como eu fui e se tinha as mesmas inseguranças que eu. Hoje, no entanto, eu já não sei mais a verdadeira razão de escrever estas linhas, que geralmente me privam de um sono precioso... O fato é que escrever é algo que me dá um prazer enorme e que me faz muito bem. É como se eu tivesse a necessidade de me esvaziar ao final de cada dia, como se fosse um ritual de purificação. Ao contar pra todo mundo, ao expor a todos o que acontece comigo, eu me torno um livro aberto. É como se eu estivesse contando alguns milagres e confessando parte de meus pecados a todos aqueles que lerem estas linhas (certo, eu sei apenas os nomes de uma meia dúzia de pessoas que visitam este espaço...) As palavras têm sido uma ótima ferramenta para materializar alguns sentimentos meus, mas neste momento são simplesmente ineficazes na tarefa de exprimir o que sinto. Talvez as palavras que eu procuro não existam, ou talvez eu não seja, neste momento, capaz de encontrá-las ou mesmo usá-las adequadamente. O fato é que chorar sorrindo sempre me pareceu algo extremamente contraditório. Aos meus olhos, o júbilo de um sorriso sempre se opôs à tristeza derramada em uma lágrima. Pois bem. Ao som de “Íris”, a música que tem me perseguido há mais de um mês por algum motivo, eu digito estas palavras sorrindo, enquanto as lágrimas escorrem face abaixo e molham o teclado, tornando as teclas escorregadias. Sinto o peito doer, a garganta fechar, o fôlego falhar... até o pranto se desencadear. Aos soluços, sorrindo, eu sigo escrevendo estas linhas tentando entender as razões deste pranto, que certamente parece insano aos que tiveram paciência para correr os olhos até aqui. A coluna parece ter feito um pacto amigável com o resto do meu corpo e os bicos-de-papagaio têm dado uma trégua razoável. Há uma vontade enorme de fazer o bem, de ajudar as pessoas. O fôlego para o trabalho, aquele dos tempos áureos de pós-graduação, parece querer aflorar novamente. Penso no papai, na mamãe, no vovô, na vovó, na titia, na minha querida irmã, na divina Clarinha, na abençoada Bianca e todos os parentes e os vejo como se fossem anjos. Penso na minha querida e amada Débora e sinto vontade enorme de abraçá-la, como se fosse esgotar toda a saudade da semana em um único abraço. Em cada pessoa que eu penso eu só enxergo bondade. Há algo aqui comigo, uma vontade enorme de viver que me faz querer sair correndo pelas ruas, com os braços abertos, agradecendo a Deus por eu estar vivo. É como se eu tivesse adormecido e, após uma longa espera, acordasse para a vida. Embora esteja sozinho, sinto uma presença divina aqui neste quarto. Uma presença que eu posso apenas sentir, pois não me sinto suficientemente evoluído (ou esteja demasiadamente confuso) para visualizá-la. Talvez seja um anjo de Deus que esteja me observando enquanto eu digito estas palavras confusas. “And I don’t want the world see me cus I don’think they’d understand” (E eu não quero que o mundo me veja, pois eu sei que eles não entenderiam). Certo, eu concordo que tudo isso é insano, mas eu me sinto o homem mais feliz do mundo neste momento!!! Obrigado, meu Deus!!!

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Fragmentos de minha adolescência - parte 1

1986. Tenho 10 anos. Sou um menino muito tímido. Não consigo entender porque eu sou tão tímido assim. Na escola, eu tiro notas muito boas, mas eu percebo que as meninas da minha idade não conversam comigo. Elas preferem conversar com os meus colegas, que são muito mais falantes que eu mas que não tiram notas tão boas quanto as minhas. Na verdade, eu falo muito pouco. A mamãe e o papai disseram que na escola é lugar para estudar, então eu vou lá apenas para estudar. No final do bimestre, eu tenho que mostrar o meu boletim com as notas para o papai. Antes de mostrar para o papai, eu mostro pra mamãe. A mamãe é mais boazinha, o papai é mais bravo. Ele não quer que eu tire notas baixas na escola. Ele quer muito que eu seja alguém na vida. Quer que eu estude, que faça faculdade. Ele diz que quer que eu seja o que ele não foi, mas eu não consigo entender bem o que isso quer dizer com isso. Na turma em que estudo há uma menina muito bonita. Eu sento longe dela e nunca conversei com ela. Eu tenho vergonha... Quando chego perto dela, meu coração dispara. Por isso, eu fico só de longe, admirando como ela é bonita. O nome dela é Andréia. Todos os meus colegas acham que ela é muito bonita, mas eu não contei pra ninguém que eu gosto dela. Eu tenho medo que eles espalhem e toda a escola fique sabendo do que eu sinto por ela. Mas eu sei que a Andréia não gosta de mim. Ela gosta do Anderson, um colega loirinho que apelidamos de “Branco”. Quando fiquei sabendo que ela gostava dele, senti um aperto no coração. Naquele dia, quando cheguei em casa, passei chorando a tarde inteira. À noite, eu sonhei com ela. Ela parecia estar sem roupa. Achei muito estranho e fui perguntar pra mamãe se era pecado. Ela ficou com uma expressão de assustada e desconversou, dizendo que eu ainda estava na casca do ovo. No dia seguinte eu comecei a notar que havia outras meninas bonitas além da Andréia, mas que nenhuma delas dava bola para mim. Mas eu não conseguia entender por quê, já que a maioria dos meus colegas passava os recreios conversando com meninas de outras classes. E eu... Bem, eu passo a maior parte dos recreios sozinho, sem ter com quem conversar. É, ninguém quer conversar comigo. Às vezes eu me sinto muito sozinho... Será que meus colegas me acham esquisito? Hoje o papai está em casa. Ele é motorista de caminhão e passa a maior parte do tempo viajando. Como eu tenho vergonha de perguntar para os meus colegas por que as meninas não olham pra mim, eu decidi perguntar pra o papai. Pelo menos eu sei que ele não vai contar pra ninguém... Vou esperar ele sair do banho e perguntar. Quando eu ouço a porta se abrir, eu vejo o papai se enxugando como pode e chamando pela mamãe, para que ela enxugue suas costas. Enquanto ele a aguarda no corredor, eu pergunto: “Papai, lá na escola todos os meus colegas estão com namorada. Por que eu não consigo uma namorada bonita?”. Enquanto ele passa a toalha pelo rosto, ensaia um sorriso de canto de boca e diz: “Uai, meu filho, você não namora menina bonita porque você é feio...” Agora tudo faz sentido. Estou triste, porque agora vejo que realmente sou feio. Era o que eu pensava... É, não vai ser fácil encontrar uma menina que queira ser minha namorada... Será que algum vou ter coragem de conversar com alguma menina? E será que algum dia eu vou ter uma namorada, mesmo sendo feio?

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

É preciso olhar para trás

Faz quase dois anos que defendi o doutorado em Química. Após quase seis anos morando na casa de estudantes de pós-graduação, em Ribeirão Preto, voltei para a minha querida São Joaquim da Barra, cidade onde moro desde os 6 anos de idade. Naquela época eu levava uma vida um pouco difícil. Andava para cima e para baixo com uma mala enorme, repleta de roupas, comida e, às vezes, livros. Almoçava e jantava no refeitório estudantil, por nós apelidado de “bandejão”. A comida lá não era das melhores, mas com o orçamento apertado, eu não podia me dar ao luxo de comer em outros lugares do campus, onde se pagava por quilo. Quando a noite ia se caindo, eu sentia muito frio. Não raramente, minhas vias respiratórias ficavam congestionadas e eu começava a espirrar, como se estivesse resfriado. Eu ficava até tarde no laboratório, escrevendo e fazendo a parte experimental do projeto. Eu só voltava para casa de madrugada, geralmente depois da 1h. Vivia só para estudar. Mergulhado naquela vida repetitiva e convivendo em um ambiente altamente competitivo, onde os meus colegas me viam como um potencial concorrente às poucas vagas oferecidas nas universidades, eu não via a hora de defender e sair daquele meio de “cobras comendo cobras”. Eu gostava muito dali e sabia que ia sentir saudades, mas mesmo assim queria defender o mais rápido possível. O que eu mais queria naquela época era ser professor universitário e fazer pesquisa. Estas lembranças sempre estiveram aqui, guardadas comigo o tempo todo. Aliás, eu espero que elas jamais saiam daqui, pois são elas que me ajudam a valorizar minhas conquistas pessoais e profissionais. No entanto, eu sinto que elas às vezes permanecem adormecidas... Pois bem. Hoje, enquanto estava tentando preencher os diários da universidade, ouvi um barulho vindo aqui do computador. Era uma amiga de pós-graduação, que havia descoberto meu MSN por acaso. Aquela amiga vivenciou o primeiro semestre de mestrado e o primeiro semestre de doutorado e, portanto, sabe do quanto foi difícil para mim enfrentar disciplinas que exigiam uma carga teórica básica que eu não tinha. Afinal, ela presenciou a reação espantada dos professores diante de minhas perguntas “ridículas”, de quem não sabia nem o que estava perguntando... Após conversar alguns minutos com aquela colega e recordar tudo o que passei na pós-graduação, eu percebi que posso considerar-me um vencedor. Hoje sou o que eu queria ser desde aquela época, mas ao invés de agradecer a Deus por tudo, prefiro ficar lamentando que estou trabalhando muito, que estou cansado, que viajo muito etc. Parei um pouco e refleti sobre o assunto. Aproveitei e dormi tanto à tarde que acabei me esquecendo de ir à hidroginástica... O resultado... Bom, foi esplêndido!!! Para minha surpresa, minha coluna experimentou uma sensível melhora. Até as aulas da faculdade foram um pouco melhores. Estou começando a achar que meu problema é psicológico, e não físico...Quando o caminho à sua frente parece longo demais, pare e olhe o quanto você já caminhou. Talvez você não tenha forças para seguir adiante, mas pelo menos sentir-se-á feliz por ter conseguido caminhar até ali. A felicidade está no meio do caminho, e não no final dele.

domingo, 1 de outubro de 2006

Eleições - par ou ímpar?

Hoje a luz do sol não conseguiu vencer as nuvens escuras que cobriram o céu praticamente o dia todo. Foi um dia bom... para dormir. E dormi. Aliás, dormir foi praticamente a única coisa que fiz à tarde. Os meus cochilos se deveram basicamente a dois fatores. O primeiro deles foi o cansaço, que desabou sobre mim após uma semana marcada por várias viagens à Franca. Além de viajar de ônibus à noite, para dar aulas de segunda até quarta-feira, tive também que viajar na quarta, na quinta, na sexta-feira e no sábado... Na sexta-feira, fiquei incumbido de recepcionar um professor da Unesp que eu havia convidado para visitar a universidade, para dar uma palestra e conhecer o trabalho que estamos desenvolvendo. No sábado, tive que viajar para assisitir a uma outra palestra... O segundo fator foi o fato de ter passado praticamente a tarde inteira longe da Débora, que foi “escalada” para as eleições. Ah, as eleições... Eu quase estava me esquecendo... Hoje o país escolheu “os caras” que vão dirigir nosso país nos próximos quatro anos. A presidência está sendo disputada acirradamente por dois candidatos principais: Geraldo Alckmin e Lula, este último candidato à reeleição. Pois bem: não votei em nenhum dos dois. O primeiro praticamente destruiu a educação do Estado de São Paulo, onde ele foi governador. Instituiu a tal de “progressão continuada”, que basicamente se resume na “aprovação automática”. Em outras palavras: ninguém mais reprova... Como eu também leciono na universidade, eu sinto na pele os efeitos desastrosos desta medida. Um cara que toma uma atitude dessas não pode ser presidente. Da mesma forma, um cara como o Lula, que passa a maior parte do tempo viajando e deixando o país na mão dos corruptos – quem disse que ele também não é? – não merece ser reeleito. E pensar que eu praticamente pulei de alegria quando ele foi eleito em 2002... Certo, talvez eu tenha errado uma vez, mas não caio na mesma história de que “sou um homem que veio do povo e não tenho estudo, companheiro.” Um homem que diz que “livros são coisas chatas” também não merece ser presidente de um país tão grandioso como o nosso. O engraçado é que eu não tinha essa visão alguns anos atrás. Talvez eu esteja um pouco decepcionado com o que tem sido feito com a educação deste país em todos os níveis. Talvez o meu voto não faça a diferente, mas pelo menos eu tenho consciência de que tentei fazer a minha parte. Agora é só torcer para que outros 180 milhões de brasileiros também tenham pensado como eu – se bem que, a julgar pelos resultados parciais, algum brasileiro desinformado e ignorante, provavelmente fruto desta “progressão continuada” e que não vive em ambientes de salas de aula, irá dizer: “Você jogou seu voto fora porque seu candidato não ganhou”.... Até parece que eleições são jogos de "par-ou-ímpar. " Que Deus nos ajude...