quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Fragmentos de minha adolescência - parte 1

1986. Tenho 10 anos. Sou um menino muito tímido. Não consigo entender porque eu sou tão tímido assim. Na escola, eu tiro notas muito boas, mas eu percebo que as meninas da minha idade não conversam comigo. Elas preferem conversar com os meus colegas, que são muito mais falantes que eu mas que não tiram notas tão boas quanto as minhas. Na verdade, eu falo muito pouco. A mamãe e o papai disseram que na escola é lugar para estudar, então eu vou lá apenas para estudar. No final do bimestre, eu tenho que mostrar o meu boletim com as notas para o papai. Antes de mostrar para o papai, eu mostro pra mamãe. A mamãe é mais boazinha, o papai é mais bravo. Ele não quer que eu tire notas baixas na escola. Ele quer muito que eu seja alguém na vida. Quer que eu estude, que faça faculdade. Ele diz que quer que eu seja o que ele não foi, mas eu não consigo entender bem o que isso quer dizer com isso. Na turma em que estudo há uma menina muito bonita. Eu sento longe dela e nunca conversei com ela. Eu tenho vergonha... Quando chego perto dela, meu coração dispara. Por isso, eu fico só de longe, admirando como ela é bonita. O nome dela é Andréia. Todos os meus colegas acham que ela é muito bonita, mas eu não contei pra ninguém que eu gosto dela. Eu tenho medo que eles espalhem e toda a escola fique sabendo do que eu sinto por ela. Mas eu sei que a Andréia não gosta de mim. Ela gosta do Anderson, um colega loirinho que apelidamos de “Branco”. Quando fiquei sabendo que ela gostava dele, senti um aperto no coração. Naquele dia, quando cheguei em casa, passei chorando a tarde inteira. À noite, eu sonhei com ela. Ela parecia estar sem roupa. Achei muito estranho e fui perguntar pra mamãe se era pecado. Ela ficou com uma expressão de assustada e desconversou, dizendo que eu ainda estava na casca do ovo. No dia seguinte eu comecei a notar que havia outras meninas bonitas além da Andréia, mas que nenhuma delas dava bola para mim. Mas eu não conseguia entender por quê, já que a maioria dos meus colegas passava os recreios conversando com meninas de outras classes. E eu... Bem, eu passo a maior parte dos recreios sozinho, sem ter com quem conversar. É, ninguém quer conversar comigo. Às vezes eu me sinto muito sozinho... Será que meus colegas me acham esquisito? Hoje o papai está em casa. Ele é motorista de caminhão e passa a maior parte do tempo viajando. Como eu tenho vergonha de perguntar para os meus colegas por que as meninas não olham pra mim, eu decidi perguntar pra o papai. Pelo menos eu sei que ele não vai contar pra ninguém... Vou esperar ele sair do banho e perguntar. Quando eu ouço a porta se abrir, eu vejo o papai se enxugando como pode e chamando pela mamãe, para que ela enxugue suas costas. Enquanto ele a aguarda no corredor, eu pergunto: “Papai, lá na escola todos os meus colegas estão com namorada. Por que eu não consigo uma namorada bonita?”. Enquanto ele passa a toalha pelo rosto, ensaia um sorriso de canto de boca e diz: “Uai, meu filho, você não namora menina bonita porque você é feio...” Agora tudo faz sentido. Estou triste, porque agora vejo que realmente sou feio. Era o que eu pensava... É, não vai ser fácil encontrar uma menina que queira ser minha namorada... Será que algum vou ter coragem de conversar com alguma menina? E será que algum dia eu vou ter uma namorada, mesmo sendo feio?

Nenhum comentário: