sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Meu maestro, o papai

13 de agosto de 2006. Hoje é dia dos pais. Por causa desta data, o comércio aqui da cidade experimentou um aumento significativo nas vendas durante esta semana que passou. Afinal, sempre houve uma grande preocupação dos filhos em presentear seus pais nesta data. Alguns filhos, menos providos financeiramente, limitam-se ao que chamam de “lembrança”, que nada mais é do que um presente de baixo valor, que se enquadra dentro das condições de quem está presenteando. Já os mais bem abençoados preferem dar presentes um pouco mais caros. Infelizmente existe a idéia errônea de que o valor do presente que cada filho dá ao seu pai é proporcional ao amor que sente por ele. É uma idéia completamente equivocada, pois não se pode quantificar um sentimento, principalmente por meio de coisas concretas. O amor que se sente por um pai deve, sim, ser demonstrado a cada dia. É muito mais válido abraçar um pai durante todos os dias do ano, mostrando o quanto ele é amado, do que lembrar-se de presenteá-lo em um único dia do ano... São 22h. Eu e a Débora estamos aqui na praça 7 de setembro, no centro da cidade, onde está sendo realizada a 2a. Feira do Livro. Lá no palco o repórter Caco Bacellos relata algumas de suas experiências vividas na pele de repórter. Coincidentemente, a que mais me chamou a atenção é a de um filho que foi criado pela mãe e que foi educado na ausência do pai. A história conta que o menino envolveu-se com o tráfico de drogas e acabou ameaçando seu padrasto, que batia em sua mãe. A história tem um triste desfecho: a morte do menino na disputa por uma boca de fumo. Começo então a pensar sobre a real importância de um pai na criação e na educação de seus filhos. Penso que tudo o que sou devo ao meu querido pai, que até hoje, aos 30 anos, chamo carinhosamente de “papai”. Eu e a “Fia”, a minha querida irmã, fomos educados para chamá-lo de “papai”, o que hoje em dia pode parecer muito estranho ou pouco comum, pois não me vem à memória quem ainda se refere ao pai desta maneira. Se eu sempre fui um menino estudioso, eu devo ao papai, que sempre exigiu que eu fosse o melhor. No primeiro ano do ensino fundamental, eu estudava em uma classe onde eu era o único aluno que não sabia ler nem escrever, pois era o único que não tinha estudado na pré-escola. Sem querer saber deste detalhe, o papai exigiu que eu fosse melhor que os outros alunos, o que acabou fazendo com que eu me acostumasse a correr atrás do prejuízo durante a vida inteira. Ele sempre quis que eu fosse o que ele não pôde ser, quis dar para mim a educação e o amor que ele não recebeu do pai dele. O papai sempre deu exemplos de força de vontade, pois sempre trabalhou doente para nos dar o que de melhor ele podia. O papai não fuma, não bebe, não desrepeita ninguém (embora muitos o chamem de “chato” e “sistemático”, por gostar das coisas certas). O papai é um homem que vive para a família e que, mesmo depois de crescidos, nos abraça e nos beija, coisa rara de se ver hoje em dia. Para ele, eu e a “Fia” nunca vamos envelhecer... Abraçado à Débora e mergulhado em minhas reflexões sobre a importância do papai em minha vida, tenho a minha atenção atraída por um som maravilhoso: o som da orquestra sinfônica de Ribeirão Preto. O espetáculo que se apresenta no palco à minha frente deixa-me emocionado. Homens e mulheres, devidamente vestidos, manipulam cada um seus próprios instrumentos musicais, todos regidos pelo maestro. O maestro... Eis uma figura que me chama a atenção. Com a intenção de obter o melhor de cada um dos músicos, ele parece empenhado e exigente. Obedientes, os músicos, por sua vez, atendem a cada movimento mínimo das mãos do maestro. O maestro se esforça tanto que o suor começa a brotar-lhe na testa e escorre-lhe pelo rosto. No final de cada música, o maestro se levanta e cumprimenta um dos músicos, solicitando aplausos da platéia para eles. Olho então para um canto da sarjeta e começo a me lembrar que o papai sempre tentou obter o melhor de mim, mesmo que para isso tenha que ter sido rude em algumas situações. Hoje o papai parece orgulhoso do filho que ciou, e esse orgulho é o maior presente que eu poderia dar a ele. Orgulhoso, o papai parece solicitar para mim, enfim, as palmas que eu sempre quis receber durante a adolescência. Sinto então um nó na garganta, pois percebo que o papai foi, é e sempre será o meu maestro. Para mim, o papai é o melhor maestro do mundo.

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