domingo, 12 de novembro de 2006

Vivendo entre espinhos e flores

Segunda-feira, 6 de novembro de 2006. Estou no colégio, seguindo para a última aula, na primeira série do ensino médio. Os alunos da sala vêm correndo pelo pátio em minha direção. “Fessor, fessor, a gente queria ver o fim do filme! A professora não deixou a gente assistir. “Calma, vamos para a sala de aula. Vou fazer chamada e lá a gente conversa.” E assim fazemos. Após fazer a chamada, levanto-me e sigo para a porta. De lá avisto o professor Fernando, de Artes, que está fechando a sala de vídeo. Sigo em direção a ele e peço para que não desinstale o DVD. Ele concorda e me passa as chaves. Sim, a televisão e a sala ficam protegidas por grades. Elas são necessárias, mas não foram suficientes para evitar o roubo de um outro aparelho de DVD da sala da Ivani, a nossa coordenadora pedagógica. Após levar um verdadeiro “banho” do DVD (eu nunca acerto a posição daqueles malditos fios coloridos na parte traseira da televisão!), conseguimos colocar o filme para assistirmos. Quando olho para a classe, noto que só há mulheres. Então não consigo resistir e pergunto: “Pessoal, cadê os rapazes da turma?” Elas se entreolham e uma delas, aparentemente assustada com o fato de não estar sabendo de nada, começa a contar. “Fessor, o pessoal foi pego tomando Gatorade com pinga dentro da sala na aula da professora de Inglês”. Meu queixo quase vai ao chão... Ela continua a narrativa, dizendo que a professora exagerou ao dizer que um dos alunos traz maconha pra vender na escola e que ela bem que podia ter deixado aquela passar. No final, diz: “Fessor, eu rezo pra que o carro dela saia inteiro do estacionamento, porque os meninos vão pegar ela! É a lei da favela, fessor.” Triste com aquela situação, e ao mesmo tempo inconformado com a atual crise no ensino em nosso país, eu limito-me a balançar a cabeça, em sinal de desaprovação. Embora não diga nada, as idéias vão se confrontando em minha mente. Neste momento, entretanto, é preciso guardar minhas memórias comigo... É tudo uma pena, não precisava ser desse jeito... Volto, enfim, os olhos para o filme. Chama-se “Jogos mortais 2”. Certo, o filme tem certas cenas fortes, mas não chega a tratar-se de um filme de terror. Faz mais o gênero policial. A história do filme conta que um psicopata reúne, em um mesmo lugar, pessoas que foram presas por um certo policial corrupto, que forjou provas contra todos eles. Junto com os “marginais” encontra-se o filho do policial. Eles têm 2h para encontrar a saída, caso contrário morrerão com um gás letal que estão respirando. O filme tem uma mensagem muito interessante: o cara que coloca todos os marginais em uma casa sofre de câncer terminou. Sua intenção é mostrar aos marginais que eles têm vida e saúde e não sabem fazer uso correto de suas vidas, enquanto ele, que quer tanto viver, não têm mais forças para lutar contra a doença. Realmente é uma pena que os rapazes desta sala, que a esta altura devem estar suspensos, não estejam assistindo a esse filme. Talvez conseguissem enxergar o tamanho do mal que estão fazendo a si mesmos agindo daquela forma...Enquanto assisto ao filme, abro a pequena garrafa de água mineral, abastecida com água filtrada, e dou alguns goles. Naquele mesmo instante, vejo na ela uma moça pegar uma seringa com o antídoto, porém a seringa está de cabeça para cima e o conteúdo se perde... Então em me empolgo, involuntariamente e, soltando um “putz”, bato a garrafa na carteira. Imediatamente a água fria espirra de dentro da garrafa e jorra sobre mim, desde a cabeça até a barriga. Nesta altura as alunas já estão tendo cólicas de risos. “Esse fessor é doido!”. Então eu não resisto e caio na risada. Se não podemos enxergar flores o tempo inteiro, pelo menos não precisamos conviver com os espinhos o tempo todo”... Tudo isso ainda vale muito a pena!

Um comentário:

Laura. disse...

Gostei do post primo, vc escreve mto bem!
Bjo grande p ti!
Fica com Deus!