quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

O preço de se fazer bem feito

15 de dezembro de 2006. Acordo às 6h30min. Sinto-me como se meu corpo tivesse sido surrado na noite anterior. Na verdade, a dor generalizada que sinto agora, em especial na base da coluna, é fruto do stress a que tenho sido submetido, face ao grande número de coisas que tenho para fazer e à forma incompetente com que tenho lidado com o pouco tempo disponível. O fato é que tive que dormir por volta das 2h30min. Até este horário eu permaneci digitando as perguntas que formulei para o exame de qualificação de uma aluna de mestrado. Diante da dor que me incomoda, decido ficar deitado mais alguns minutos. Quando o despertador do celular toca, eu imediatamente toco o dedo no botão que adia em 6 min o tempo que ele levará para tocar novamente. Eu imagino que devo ter feito isso consecutivas vezes, pois quando dou-me conta do horário, já são 7h30min. O exame de qualificação estava marcado para as 9h. Considerando que o período de viagem é de mais ou menos 40min, e que eu levarei uns 20min para sair de casa, chegou rapidamente à conclusão que estou atrasado. Até parece que isso é novidade em minha rotina... Após uma viagem tensa, trafegando em velocidade levemente acima da permitida (110km/h), estaciono em frente ao laboratório às 9h05min. Enquanto imagino uma desculpa (mais outra...) para justificar meu atraso, fecho a porta e sigo caminhando em direção ao anfiteatro onde o exame de qualificação será realizado. Percebo então que a porta está fechada... Sigo então para o laboratório, onde encontro o orientador da aluna navegando tranquilamente pela internet, respondendo e-mails. “Ah, eu esqueci de te falar... A hora da qualificação foi mudada para as 9h30min”, diz ele com naturalidade. “Não se preocupe. Achei que tivesse atrasado.”, respondo, totalmente confuso, sem saber se devo rir ou irritar-me.” Após 40min de espera, a qualificação tem seu início. A aluna está ligeiramente nervosa. Para que ela se sinta mais à vontade, desvio os olhos da apresentação, como se não tivesse prestando atenção. Decido fazer isso porque sei que ela está preocupada com o nível de argüição que farei. Na verdade, as quase duas folhas que preparei de perguntas são todas perguntas conceituais, relacionadas a tópicos que ela mencionou no texto de sua qualificação. Eis que eu levanto os olhos por um momento e avisto ela explicando um mecanismo de forma completamente equivocada... Mais alguns minutos e vejo a aluna cometendo erros conceituais também na área de cromatografia... Terminada a apresentação oral, segue-se a argüição. Já no início da apresentação o presidente da banca estabelece o horário para o término do exame. No final das contas, eu terei apenas 35min para argüir a aluna, tempo menos que suficiente para esgotar a primeira folha de perguntas... Tudo isso por causa da mudança no horário do exame... Ao final desta experiência posso concluir que parte do meu desgaste vem do fato de tentar fazer as coisas sempre bem feitas e de me empenhar sempre ao máximo. Certamente este esforço não é reconhecido ou medido por ninguém, mas a sensação de deitar a cabeça no travesseiro e ter a consciência tranqüila por ter feito o melhor realmente não tem preço. E eu sinto, sim, algo de muito divino quando isso acontece...

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

O calvário de um professor

13 de dezembro. Hoje terminaram as provas substitutivas na faculdade. Para os alunos, essas provas representam a última chance de recuperarem suas notas e, desta forma, evitarem a tão temida dependência. Trata-se de um período extremamente estressante e cansativo, tanto para os alunos quanto para os professores. Neste ano assumi a disciplina de Química Orgânica em 6 turmas diferentes, sendo 5 delas no curso de Química Industrial e uma no curso de Engenharia Química. Das turmas de Química Industrial, 3 delas são 2a. séries (Química Orgânica I) e 2 são 3a. séries (Química Orgânica II). Dentre estas turmas, três delas tiveram alunos em dependência. Por mais que eu queira, é muito difícil expressar aqui a dor e a tristeza que vejo nos olhos de alguns alunos após saberem a nota final. Para os que ainda acessam este blog, não é nenhum segredo o fato de eu ter uma imensa dificuldade em lidar com essas situações. É difícil ser professor quando se quer ser amigo... Um dos alunos, que acabou se tornando meu amigo pessoal (inclusive criando uma comunidade no orkut em homenagem às piadas que conto no final da aula), acabou não conseguindo obter a nota que precisava. Na verdade, ele precisava de 10. Trata-se de um aluno que tem a mesma idade que eu, porém já tem quatro filhos e trabalha em uma usina, que lhe concede bolsa de estudos. Assumir dependência em Química Orgânica significou para ele perder a bolsa de estudos... Infelizmente ele não conseguiu a nota que precisava, aliás passou bem longe e eu não tive condições de “dar um empurrãozinho”. Mas ele lutou bravamente até o último minuto, sendo o último aluno a entregar a prova. Não foi nada fácil olhar para os olhos dele e dar a triste notícia que tanto interferiria em sua vida... Na verdade, eu compartilhei com ele da sua dor e decepção, embora me sentisse uma pessoa má naquele instante. Em princípio, eu poderia ter tornado as coisas diferentes para ele. No entanto, se eu tivesse agido de maneira diferente, teria sido injusto com outros alunos. Por outro lado, muitos desses alunos não precisam trabalhar e, mesmo tendo todo o tempo disponível para estudar, vêem as oportunidades escorrerem entre seus dedos sem nada fazerem. Fico então a me perguntar: o que é ser justo? Cabe a mim fazer este tipo de julgamento? Uma outra aluna, que também carregará dependência em Química Orgânica, enviou-me um e-mail pedindo para que eu fizesse algo por ela, pois ela não conseguia olhar nos olhos de seus pais para dar a triste notícia... Um outro aluno, a quem eu havia dado uma “mãozinha” no ano passado, veio novamente pedir-me ajuda em sua nota. Eu lembrei-lhe que havia lhe dado um voto de confiança, para que este ano ele se esforçasse mais. No entanto, penso que a minha atitude deixou-lhe em uma situação um pouco cômoda, como se ele confiasse em minha boa vontade de fazer a mesma coisa este ano... Pois bem: eu não fiz e expliquei-lhe minhas razões. Ele deixou a sala irritado, como se eu fosse o grande culpado por sua situação. Mas não são essas as imagens que quero guardar desta semana. A imagem que quero guardar é a de uma aluna que precisava tirar 9,0 na prova e que, após ter estudado muito, conseguiu recuperar sua nota. Ao saber a notícia, sua alegria foi tamanha ao ponto de abraçar-me tão violentamente e, sem querer, cabecear-me o nariz... A aluna saiu comemorando, levando consigo minha lapiseira, que eu havia lhe emprestado para fazer a prova... As dificuldades existem para todos. Nosso maior problema é acreditar que as nossas são sempre maiores que as dos outros. Qualquer dificuldade será sempre grande e todo obstáculo será sempre intransponível quando o esforço não for contínuo. Só a perseverança leva à vitória. Quanto maior o obstáculo, maior a perseverança e mais saborosa será a vitória...

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Fotos da noite de Natal

Na noite de Natal, o tio Wágner ("Buchudo"), o tio Válter (o "Tim") e a tia Vânia se reuniram na casa do vovô Válter para um churrasco. Aqui estão algumas fotos para registrar um momento que, do fundo do meu coração, espero que possa se repetir no próximo ano com a presença de todos, principalmente da vovó e do vovô e do papai.

Vovó Lourdes e eu. Ela estava tomando Coca-Cola

Vovô Valter Crotti e eu. Ele estava assistindo ao DVD do César Minotti e Fabiano.
Frederico e tio Natal. Papo de pai e filho.
Vovó Lourdes, Mariana e Ângela. Todos em silêncio, comendo e assistindo ao DVD do Marco Brasil.
Tio Buchudo, tia Vânia e Frederico. Péssimos churrasqueiros, porém bons degustadores...
Sílvia, que cuida da vovó Lourdes, e Ângela.

A cada Natal que passa...

25 de dezembro. É novamente Natal. Esta seria uma data para se celebrar a união e a saúde, permitindo que Jesus renasça no coração de cada um de nós. Deveria haver troca de presentes, amigo secreto, ceia. Deveria ser uma data marcada pela união e pelo amor nos corações. No entanto, a cada ano que passa, vejo que esta realidade vai se tornando cada vez mais um sonho... Não é à toa que em plena noite de Natal os bares estão cada vez mais cheios. Muitos preferem passar a noite longe da família, talvez decepcionados com as brigas que existem dentro de suas próprias famílias. À medida que os anos foram passando, percebi que dois irmãos podem ter (e geralmente têm!) formas completamente diferentes de pensar. As diferenças também se estendem aos pais, que por serem mais velhos, consideram-se portadores da verdade absoluta. Com o tempo essas diferenças vão se aguçando, ao passo que a tolerância vai se tornando cada vez menor. O desfecho desta situação é a dificuldade de convivência entre irmãos e entre pais e filhos. Aqui em nossa família não é diferente. Aos 30 anos de idade, relato aqui com muita dor que jamais vi os cinco filhos de meu avô Crotti reunidos. Quando se reúnem, sempre falta um. Pelo que tenho ouvido de cada um de meus tios, percebo que eles não vêem em meu avô um exemplo de bom pai e de homem dedicado à família. Meu avô, um senhor de 81 anos, é hoje um homem muito doente. Embora tenha sido um homem orgulhoso e autoritário, hoje precisa que seus filhos, em quem disseram que ele jamais deu um abraço sequer, contribuam para o pagamento de seu plano de saúde. Alguns de seus filhos, por causa de mágoas anteriores, recusam-se a pagar o plano. Ao agirem assim dão mostras de que querem se vingar de alguém que não tem mais forças para lutar... Não bastassem os problemas de relacionamento, existem também os problemas de saúde. Minha avó Maria, mãe da mamãe, teve paralisia facial. Minha avó Lourdes, mãe do papai, mal consegue andar. De vez em quando perde a lucidez e começa a ver coisas que existem em um mundo que somente é dela.Em meio a tanta desunião, desamor e intolerância, encontro-me mergulhado em mim mesmo. Cada vez mais estas linhas são a única maneira de exteriorizar a angústia que tenho vivido durante esses dias. O engraçado é ouvir que por agir assim, por preferir ouvir e respeitar opiniões diferentes das minhas e calar-me, sou taxado como ausente e pouco dedicado à família...

domingo, 24 de dezembro de 2006

Feliz Natal!

24 de dezembro. O relógio do celular acusa que faltam poucos minutos para que o dia natalino torne-se mais uma vez realidade. Dentro de poucos instantes deveremos (ou pelo menos deveríamos...) abrir nossos corações para a chegada do menino Jesus. Acho que não há um motivo mais forte neste mundo, pelo menos não agora, que me faça refletir sobre o período difícil que tenho atravessado... Talvez os que lerem este post entendam, em partes, a ausência de atualizações neste blog... É um pouco complicado escrever sobre este assunto e, ao mesmo tempo, expor publicamente minhas fraquezas, mas se este espaço é realmente um “diário virtual”, não há razões para esconder. O fato é que nos últimos meses tenho me sentido distante de Deus. Sei que ele está por perto, pois sei que se não estivesse com certeza eu estaria com problemas de saúde ou teria perdido algum ente querido... Mas a questão não é essa. Minha grande preocupação, e a que realmente me incomoda agora, é a postura de comodismo que tenho adotado diante do isolamento a que tenho me submetido. Tenho passado a maior parte do tempo trabalhando, sem deixar tempo para as coisas realmente importantes da vida... Aqueles fiéis amigos que acompanham este espaço devem se sentir decepcionados com a falta de atualizações neste espaço. Eis um outro fato que me entristece bastante... Não tenho sentido fôlego para escrever... Tantas são as coisas boas que têm acontecido comigo, e tantas outras situações interessantes que vivi no passado, que precisam ser narradas, e eu não tenho encontrado ânimo para fazê-lo... Não é problema de tempo: é falta de ânimo mesmo... Essas e outras coisas fazem com que eu me sinta interiormente confuso. Talvez seja a chegada iminente de um novo ano sem que eu tenha conseguido fazer o que eu precisava neste que está por terminar... Putz, cá estou novamente pensando em trabalho...Neste Natal, o que mais desejo é que Jesus possa renascer no coração de todos nós, e que a Luz por Ele trazida possa iluminar o nosso caminho, para que saibamos valorizar as coisas realmente importantes nesta vida...

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Despedida...

As férias escolares estão chegando. O ano letivo praticamente terminou, mas como o governo exige que sejam trabalhados 200 dias por ano, os professores da rede pública são obrigados a permanecer na escola no horário em que tinham suas aulas. Nesta época os professores tornam-se mais próximos uns dos outros, pois permanecem em contato durante um período maior que o de costume. Mas como aconteceu nos dois últimos anos, existe nesta época um clima diferente na escola. Não há alunos, e todos sabem que a escola não é nada sem os alunos. Às vezes, quando paro na porta da sala que separa a sala dos professores do pátio, fico olhando o chão de cimento, pintado com gravite preto, e fico imaginando os meninos correndo, se empurrando. Sei que todos estão de férias, e sei que a maioria deles estarão de volta em fevereiro. A maioria, mas não os alunos do terceiro colegial... Na última sexta-feira (8 de dezembro) vivi momentos inesquecíveis ao lado da turma de formandos do período diurno. Mais do que um vínculo aluno-professor, criou-se entre nós uma amizade e um respeito muito belos. Afinal, os alunos daquela turma estavam presentes nas minhas primeiras aulas no ensino médio, no final de 2004. Embora eu não tivesse aulas na sexta-feira e tivesse um churrasco marcado para a parte da tarde, fiz questão de participar do amigo secreto que promoveram, e de ir à festinha de “despedida” que estavam promovendo. Queria aproveitar meus últimos momentos com eles em sala de aula... Um dos alunos, o Michel, inventou uma espécie de caça ao tesouro, de forma que a aluna que foi presenteada por ele teria que procurar pela sala, de acordo com as instruções de um código. Já a Naira levou um pacotão enorme, que ao ser avistado por mim, fez-me suspeitar que se tratava de uma sacanagem, daquelas em que o sortudo tem que desembrulhar várias caixas, de tamanhos decrescentes, até chegar no pequeno presente desejado. Enquanto o amigo secreto corria normalmente, eu saía abachado da cadeira até a mesa onde estavam os salgadinhos e “filava” alguns quibes, para aliviar a fome... No final do amigo secreto, três alunos, Adriano, André e Alex quiseram prestar uma homenagem a mim. Ao parabenizar-me, notei que me entregaram pacotes cor-de-rosa contendo algo cilíndrico e comprido. “Isso está me cheirando à sacanagem”, pensei. Meus instintos novamente não falharam. Tratava-se, nada mais nada menos, do que uma banana, um pepino e uma berinjela... Agradeci aos rapazes pela homenagem e senti-me muito feliz, não pelos presentes, obviamente, mas por terem se disposto a fazer esta brincadeira. Recordei-me então que o André e o Adriano pareciam ser muito receosos com relação a mim. Às vezes lamentamos a rápida passagem do tempo. Neste momento,eu lamento tanto que esses alunos precisem ir embora que eu ousaria pedir que o tempo parasse... Mas é o caminho natural das coisas. Eles vão, os professores ficam. Não pode haver egoísmo em um professor, apenas doação. Então eu me vejo forçado a render-me à situação e contentar-me em ficar vendo e revendo essas fotos... Obrigado, meus amigos!

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Mais um ano, mais uma despedida (fotos)

Alex, eu, André e Adriano. "Queremos prestar uma homenagem ao professor Eduardo..."

... mas olha só com o que os caras me deram de presente: uma banana, um pepino e uma berinjela...

Eu e a Selma, que me presenteou com uma camisa.

Eu e a Aline. Deu a ela um anjinho da Hello Kitty.

Os "manos". De pé: Wellington, Alex, Michel, André, eu, Adriano e Éder. Agachados: Guilherme e Washington (Eduardo)

As "minas" do 3o. A e eu. Em cima do banco: Tuanny, Mayara, Poliana e Gabriela. De pé: Rosiane, Ana Cláudia, Layana, Naira, Aline Lourenço, Mayra, Naiara, Lívia, Karolina, Tatiana, Cristiane, Damyana e Ana Carla. Sentados: Talita, Raquel, Selma e Aline Lourenço

Essa é pra guardar em um quadro, como recordação.

sábado, 9 de dezembro de 2006

Quarta-feira estressante - parte 5: Recompensa

São 19h16min. Acabo de entrar na turma C do 2º. Ano de Química Industrial. “Boa noite!”, digo, como sempre faço. Embora uma boa parte dos alunos responda à minha saudação, percebo que outros me olham, um tanto que surpresos. “Uai, Miller, o que aconteceu? Você parece abatido, cansado...” Deixo então a bolsa de couro cair sobre a mesa e olho para a classe. Percebo então que estão todos aguardando minha resposta. O dia catastrófico que parece estar chegando ao fim passa-me então como um filme pela minha mente. Respiro fundo. “Não posso comportar-me como um derrotado!” Com um largo sorriso, faço uma cara de quem está surpreso com o que acabou de ouvir. “Estranho? Acho que é impressão de vocês. Está tudo certo. Ou não?”, digo, então verificando se o zíper da calça está aberto. Ouço risos. Dirijo-me então à porta da sala de aula e a fecho. Sempre faço isso, como se fosse um ritual. “Os problemas que tive hoje ficarão lá fora.” Concentro-me. Hoje é aula de revisão. São 22h38min. A aula acaba de terminar. Sinto-me cansado, porém aliviado. A aula foi divertida e, principalmente, proveitosa, pois percebi que muitos alunos conseguiram entender pontos difíceis do conteúdo. “Moçada, por hoje é só. Obrigado e até semana que vem!” Na porta da sala, uma aluna que assistiu à aula me pára. “Nossa, eu adorei a sua aula! Que diferença em relação ao professor anterior!” Limitando-me a dar um sorriso, talvez constrangido pela crítica ao outro professor, vejo naquelas palavras que é possível terminar um dia ruim com um sorriso no rosto...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Fotos - formandos do período noturno

Turma do 3o. supletivo. De pé: Naqueline, Sílvia, Wilson, Evandro, Gustavo e Marcelo Graciano. Sentados: André, Marcelo Tadeu, David, Alexandro e Ricardo Ferro.

Turma do 3o. B: Jesiel, Alex, Éder (Tynin), William, Rafaela, Maira, Jéfferson, João, Geisa, Jair, Flávio, Lucas e Alan.

Revendo os amigos do laboratório

Sexta-feira, 8 de dezembro de 2006. Mal acabo de me despedir dos alunos do 3o. A e já me dou conta de que preciso viajar a Ribeirão Preto. Como de costume, o pessoal do laboratório de Química Orgânica, onde eu passei seis anos de minha vida de pós-graduando, convidou-me para o churrasco de confraternização de final de ano. Desde que compareci pela primeira vez, em 2000 (se não me engano...), nunca deixei de comparecer a nenhum churrasco. Digo isso com certo orgulho, pois a maioria dos ex-alunos do laboratório (como eu, por exemplo) geralmente não comparecem, muitas vezes por não terem sido convidados. Neste ano a confraternização foi realizada na casa do meu amigo Tomaz. O grande ‘Tomaizão” (é assim que o chamamos...) demonstrou estar muito satisfeito com as visitas dos amigos e foi recepcionar-me no portão. Assim que entrei, saí à procura de algo para comer. Por mais estranho que possa parecer, eu não me refiro a carne (que, aliás, havia em abundância e para todos os gostos...), e sim a algum tipo de fruta. Os amigos que ali estavam já sabem, de outros tempos, que eu sou fanático por melancia. Desta forma, lembraram-se de comprar uma melancia enorme, que avistei por cima da janela que separava a varanda da cozinha do fundo da casa. De qualquer forma, preferi deixar a melancia para o final da festa, contentando momentaneamente com alguns cachinhos de uva... Assim que cumprimentei a todos, tomei posse de uma das cadeiras brancas de plástico e sentei-me. Enquanto degustava as uvas, fiquei analisando as pessoas que ali estavam.
À minha direita, reunidos em um pequeno círculo, estavam o Gilberto, o Roberto e o Diógenes. Trajando roupa social, o Gilberto (a quem apelidamos de Giba) parecia um professor. Quem não o conhece certamente o confundiria com um docente. Muito sorridente, faz lembrar-me dos tempos em que ele coordenava a animada turma de futebol das quartas-feiras, com quem joguei durante 4 anos de minha pós-graduação. Bons tempos... O Roberto, a quem apelidaram de general, é o mais forte deles. Não me refiro aqui ao porte físico, e sim à capacidade de ingerir uma quantidade impressionante de álcool sem levantar para ir ao banheiro ou ficar embriagado. Esteja bêbado ou não, poucos são os músculos de sua face que parecem se mover quando sorri. É muito sério – daí veio o apelido de “general”. Já o Diógenes ri à toa. É bastante tímido e discreto, mas dá risada das piadas e “causos” engraçados que o Giba segue contando ao longo do churrasco. Próximo a eles, de pé, o Vladimir participa da conversa, degustando um enorme pedaço de carne. O Vlad é um ex-colega de pós-graduação. Durante o período em que convivemos, nos tornamos grandes amigos. Nossa amizade fortaleceu-se com o passar dos anos e culiminou com um convite para visitá-lo em sua casa no ano passado (12/12/05). Hoje tenho o prazer de dividir com ele o mesmo espaço de trabalho lá na universidade.

Vladimir (Vlad), Roberto (general), Gilberto (Giba) e Diógenes (Barba)
À minha esquerda, Carla e Janaína colocam o assunto em dia. A Carla é a secretária do laboratório de Química Orgânica que me acolheu em minha pós-graduação. Ela veio cumprir uma difícil tarefa: substituir a Irani, que era uma profissional altamente competente, e tem feito isso com autoridade. A Janaína é uma ex-colega de laboratório, que hoje faz doutorado na Biologia. Está sempre sorridente e alegre, apesar das decepções que sofreu no âmbito pessoal...
Janaína e Carla
Um pouco mais próximo à churrasqueira, o professor João e o Fernandinho estão falando dos problemas da faculdade. Pelo que conheço deles, sei que não conseguem se separar dos assuntos da faculdade...

Na piscina, o Tomaizão brinca com sua filhinha, a Sarah, e sua sobrinha. Nada mais justo! Afinal, além de ser o churrasqueiro, elé é também o dono da casa...
Tomaz
Também na piscina, Leonardo (Léo) e Vessecchi tentam aproveitam os raros momentos de folga para poder degustar uma cerveja na piscina...
Léo e Vessecchi
Como não poderia deixar de ser, os "manguaceiros" surgem quando estou prestes a ir embora. Gobbo, Betão e Mazza, ao redor de uma mesa, estão rindo das situações cômicas lá da faculdade.
Prof. João, Luís Elídio (Mazza), Norberto (Betão), Vladimir (Vlad) e Leonardo (Gobb0)
O tempo voa... Infelizmente já é hora de ir embora. Ainda tenho que dar aulas no período noturno... Já no meio do caminho, começou a sentir algumas voltas no abdômen... O intestino parece que precisa trabalhar em breve. Acho que um churrasco à base de uvas e de melancia não foi uma boa idéia...

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

O verdadeiro papel do professor

Na adolescência, quando me dispus a ser professor, eu enxergava na profissão um remédio para a minha timidez. Na condição de professor, eu me imaginava como sendo o centro das atenções. Talvez a profissão despertasse em mim tanta admiração por apresentar-me uma possibilidade de poder falar e ser ouvido por todos. Além disso, eu imaginava que convivendo em meio a pessoas bem mais jovens e cheias de vida que eu, jamais envelheceria. Hoje, com quase quatro anos de magistério, incluindo universidade e ensino médio, vejo que a minha concepção estava totalmente equivocada. O professor é um mero coadjuvante, a começar pelo processo ensino-aprendizagem, onde sua função é apenas facilitar o aprendizado. Mais do que ser ouvido por todos, o que acontece em situações muito raras, o professor deve ser mais ouvinte, mais expectador. Embora as últimas semanas de aula sejam um imenso tédio, nelas é possível experimentar uma proximidade maior dos alunos e de suas vidas pessoais. No ensino médio, ao perguntar para uma aluna o porquê dela ter esquecido o caderno em casa, ela disse prontamente, com um sorriso no rosto: “Meu pai botou eu e minha mãe pra fora de casa. Ele bate nela há 17 anos e ela não faz nada...” Enquanto falava, as lágrimas foram brotando dos olhos daquela jovem de 16 anos. Já na faculdade, uma aluna assinou o registro de entregas de provas dizendo que não tinha nome. Como eu não havia entendido ao que ela estava se referindo, ela responde, dizendo: “Eu tinha duas fábricas de calçados. Quebrei. Agora estou devendo R$1.200.000,00...Aos poucos estou enxergando que eu estava totalmente equivocado, o que não quer dizer que eu seja necessariamente uma pessoa infeliz. Vejo hoje que a profissão de professor requer muita atenção e paciência, e que a figura do professor é muito mais importante na vida do aluno do que eu pensava. Ao invés de ver uma oportunidade para aparecer, sinto na profissão de professor uma oportunidade para tornar-me uma pessoa melhor e, de alguma forma, retribuir às bênçãos que Deus vem me proporcionando...

domingo, 3 de dezembro de 2006

Quarta-feira estressante - parte 3: fundo do poço

Não consigo conformar-me. Olho para o portão da casa da Débora. Passo a mão na fechadura do portão de correr, puxo-o novamente. Está trancado. Olho para o chão, balanço a cabeça, desapontado. “Não, eu não posso estar tendo um dia tão ruim...” Vendo todos os planos que havia feito para a minha tarde desabarem diante dos portões fechados, o da minha casa e o da casa da Débora, decido fazer uma última investida. “Passarei na construção da minha casa, para ouvir o que o encanador quer dizer-me. Depois volto para minha casa. Aí a mamãe já deve ter chegado”. Enfio a chave rapidamente na fechadura do meu carro, abro a porta. Já dentro do carro, puxo-a. Ouço um estrondo, como se dois ferros tivessem se chocado. Vejo então que a porta não está fechada, pois a fechadura travou. “Não, não é possível!” Puxo o gatilho da maçaneta, coloco a trava da fechadura de volta no lugar. Dois minutos depois estou na construção. O encanador parecia estar à minha espera. A situação realmente não é boa. “Olha, os canos do esgoto da lavanderia vão ter que aparecer no teto do quarto de despejo. Não há outra forma de fazer. Além disso, o ralo da lavanderia vai ficar esposto.” Após entender visualizar o que ele disse, o sangue ferveu. “Caramba, estou pagando uma fortuna pra esse cara e ele vai deixar esses canos expostos... Vai ficar horrível!”, penso comigo, enquanto olho atento ele apontando os canos e tentando convencer-me de que não há outra forma de fazer-me. Ao segui-lo, sinto minha coluna fisgar. “Calma! Ninguém é culpado por você estar tendo um dia difícil”, reflito enquanto o sigo, mostrando que o trabalho está quase concluído. “Bom, eu vou trocar uma idéia com o pedreiro. Pedirei a ele que venha conversar com você amanhã, pode ser?” Sem mesmo ouvir sua voz, mas sabendo que ele concordou (se é que ele tinha outra opção...) por causa do seu movimento de pescoço, entro rapidamente no carro e sigo em alta velocidade pelas ruas da cidade, de volta pra casa. “Minha natação, não posso perde-la!” Olho para o relógio. São 15h56min. Às 16h4min estaciono diante do portão de casa. Ao girar a maçaneta, vejo que a mamãe ainda não chegou. Desta vez não chuto nem soco o portão. Limito-me a passar as mãos pelo rosto e cabelo e dizer, agora já rindo da situação: “Hoje é o meu dia!”. Olho então para o canto do muro. “Vou pular!”, penso, já sabendo que a sunga está no varal. Apóio-me no portão da oficina do terreno vizinho, que é mais baixo, e consigo chegar à torre de eletricidade. Daquele ponto até o varal do quintal são apenas 2 min. Às 16h15min eu estava estacionando em frente à academia. O ânimo parece ter voltado, como se tivesse vencido. “Farei uma sessão de hidroginástica e depois nadarei. Vou dar um jeito nesta dor nas costas!”. No entanto, novamente meus planos são desfeitos ao perceber que estou com as lentes de contato e que não tenho onde guarda-las. “Não acredito! Além de não poder nadar, vou ter que tomar cuidado pra não voar água nos olhos durante a hidroginástica!”. A revolta começa a tomar conta de mim novamente... Ao entrar na piscina, ouço o professor Alessandro, sempre brincalhão, recepcionar-me. “Olha só, o professor chegou na hora do intervalo!”. Embora eu saiba que ele sempre faz aquela brincadeira, limitei-me a dar um sorriso tímido. “Calma, ele não tem culpa de você estar tendo um dia ruim”. Começo então a fazer os exercícios, tomando o devido cuidado para executa-los lentamente e impedir que a água da piscina entre em meus olhos, por causa das lentes. Ao perceber o meu ritmo, bem mais lento que o de costume, o professor resolve fazer outra brincadeira, pra descontrair. “Vamos lá, pessoal, todo mundo no ritmo do Antônio”. “Era só o que me faltava mesmo!”, penso, já rindo do meu próprio destino...