terça-feira, 26 de dezembro de 2006

O calvário de um professor

13 de dezembro. Hoje terminaram as provas substitutivas na faculdade. Para os alunos, essas provas representam a última chance de recuperarem suas notas e, desta forma, evitarem a tão temida dependência. Trata-se de um período extremamente estressante e cansativo, tanto para os alunos quanto para os professores. Neste ano assumi a disciplina de Química Orgânica em 6 turmas diferentes, sendo 5 delas no curso de Química Industrial e uma no curso de Engenharia Química. Das turmas de Química Industrial, 3 delas são 2a. séries (Química Orgânica I) e 2 são 3a. séries (Química Orgânica II). Dentre estas turmas, três delas tiveram alunos em dependência. Por mais que eu queira, é muito difícil expressar aqui a dor e a tristeza que vejo nos olhos de alguns alunos após saberem a nota final. Para os que ainda acessam este blog, não é nenhum segredo o fato de eu ter uma imensa dificuldade em lidar com essas situações. É difícil ser professor quando se quer ser amigo... Um dos alunos, que acabou se tornando meu amigo pessoal (inclusive criando uma comunidade no orkut em homenagem às piadas que conto no final da aula), acabou não conseguindo obter a nota que precisava. Na verdade, ele precisava de 10. Trata-se de um aluno que tem a mesma idade que eu, porém já tem quatro filhos e trabalha em uma usina, que lhe concede bolsa de estudos. Assumir dependência em Química Orgânica significou para ele perder a bolsa de estudos... Infelizmente ele não conseguiu a nota que precisava, aliás passou bem longe e eu não tive condições de “dar um empurrãozinho”. Mas ele lutou bravamente até o último minuto, sendo o último aluno a entregar a prova. Não foi nada fácil olhar para os olhos dele e dar a triste notícia que tanto interferiria em sua vida... Na verdade, eu compartilhei com ele da sua dor e decepção, embora me sentisse uma pessoa má naquele instante. Em princípio, eu poderia ter tornado as coisas diferentes para ele. No entanto, se eu tivesse agido de maneira diferente, teria sido injusto com outros alunos. Por outro lado, muitos desses alunos não precisam trabalhar e, mesmo tendo todo o tempo disponível para estudar, vêem as oportunidades escorrerem entre seus dedos sem nada fazerem. Fico então a me perguntar: o que é ser justo? Cabe a mim fazer este tipo de julgamento? Uma outra aluna, que também carregará dependência em Química Orgânica, enviou-me um e-mail pedindo para que eu fizesse algo por ela, pois ela não conseguia olhar nos olhos de seus pais para dar a triste notícia... Um outro aluno, a quem eu havia dado uma “mãozinha” no ano passado, veio novamente pedir-me ajuda em sua nota. Eu lembrei-lhe que havia lhe dado um voto de confiança, para que este ano ele se esforçasse mais. No entanto, penso que a minha atitude deixou-lhe em uma situação um pouco cômoda, como se ele confiasse em minha boa vontade de fazer a mesma coisa este ano... Pois bem: eu não fiz e expliquei-lhe minhas razões. Ele deixou a sala irritado, como se eu fosse o grande culpado por sua situação. Mas não são essas as imagens que quero guardar desta semana. A imagem que quero guardar é a de uma aluna que precisava tirar 9,0 na prova e que, após ter estudado muito, conseguiu recuperar sua nota. Ao saber a notícia, sua alegria foi tamanha ao ponto de abraçar-me tão violentamente e, sem querer, cabecear-me o nariz... A aluna saiu comemorando, levando consigo minha lapiseira, que eu havia lhe emprestado para fazer a prova... As dificuldades existem para todos. Nosso maior problema é acreditar que as nossas são sempre maiores que as dos outros. Qualquer dificuldade será sempre grande e todo obstáculo será sempre intransponível quando o esforço não for contínuo. Só a perseverança leva à vitória. Quanto maior o obstáculo, maior a perseverança e mais saborosa será a vitória...

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