domingo, 3 de dezembro de 2006

Quarta-feira estressante - parte 3: fundo do poço

Não consigo conformar-me. Olho para o portão da casa da Débora. Passo a mão na fechadura do portão de correr, puxo-o novamente. Está trancado. Olho para o chão, balanço a cabeça, desapontado. “Não, eu não posso estar tendo um dia tão ruim...” Vendo todos os planos que havia feito para a minha tarde desabarem diante dos portões fechados, o da minha casa e o da casa da Débora, decido fazer uma última investida. “Passarei na construção da minha casa, para ouvir o que o encanador quer dizer-me. Depois volto para minha casa. Aí a mamãe já deve ter chegado”. Enfio a chave rapidamente na fechadura do meu carro, abro a porta. Já dentro do carro, puxo-a. Ouço um estrondo, como se dois ferros tivessem se chocado. Vejo então que a porta não está fechada, pois a fechadura travou. “Não, não é possível!” Puxo o gatilho da maçaneta, coloco a trava da fechadura de volta no lugar. Dois minutos depois estou na construção. O encanador parecia estar à minha espera. A situação realmente não é boa. “Olha, os canos do esgoto da lavanderia vão ter que aparecer no teto do quarto de despejo. Não há outra forma de fazer. Além disso, o ralo da lavanderia vai ficar esposto.” Após entender visualizar o que ele disse, o sangue ferveu. “Caramba, estou pagando uma fortuna pra esse cara e ele vai deixar esses canos expostos... Vai ficar horrível!”, penso comigo, enquanto olho atento ele apontando os canos e tentando convencer-me de que não há outra forma de fazer-me. Ao segui-lo, sinto minha coluna fisgar. “Calma! Ninguém é culpado por você estar tendo um dia difícil”, reflito enquanto o sigo, mostrando que o trabalho está quase concluído. “Bom, eu vou trocar uma idéia com o pedreiro. Pedirei a ele que venha conversar com você amanhã, pode ser?” Sem mesmo ouvir sua voz, mas sabendo que ele concordou (se é que ele tinha outra opção...) por causa do seu movimento de pescoço, entro rapidamente no carro e sigo em alta velocidade pelas ruas da cidade, de volta pra casa. “Minha natação, não posso perde-la!” Olho para o relógio. São 15h56min. Às 16h4min estaciono diante do portão de casa. Ao girar a maçaneta, vejo que a mamãe ainda não chegou. Desta vez não chuto nem soco o portão. Limito-me a passar as mãos pelo rosto e cabelo e dizer, agora já rindo da situação: “Hoje é o meu dia!”. Olho então para o canto do muro. “Vou pular!”, penso, já sabendo que a sunga está no varal. Apóio-me no portão da oficina do terreno vizinho, que é mais baixo, e consigo chegar à torre de eletricidade. Daquele ponto até o varal do quintal são apenas 2 min. Às 16h15min eu estava estacionando em frente à academia. O ânimo parece ter voltado, como se tivesse vencido. “Farei uma sessão de hidroginástica e depois nadarei. Vou dar um jeito nesta dor nas costas!”. No entanto, novamente meus planos são desfeitos ao perceber que estou com as lentes de contato e que não tenho onde guarda-las. “Não acredito! Além de não poder nadar, vou ter que tomar cuidado pra não voar água nos olhos durante a hidroginástica!”. A revolta começa a tomar conta de mim novamente... Ao entrar na piscina, ouço o professor Alessandro, sempre brincalhão, recepcionar-me. “Olha só, o professor chegou na hora do intervalo!”. Embora eu saiba que ele sempre faz aquela brincadeira, limitei-me a dar um sorriso tímido. “Calma, ele não tem culpa de você estar tendo um dia ruim”. Começo então a fazer os exercícios, tomando o devido cuidado para executa-los lentamente e impedir que a água da piscina entre em meus olhos, por causa das lentes. Ao perceber o meu ritmo, bem mais lento que o de costume, o professor resolve fazer outra brincadeira, pra descontrair. “Vamos lá, pessoal, todo mundo no ritmo do Antônio”. “Era só o que me faltava mesmo!”, penso, já rindo do meu próprio destino...

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