quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Despedida

Quarta-feira, 19 de dezembro. 9h. O despertador do celular toca pela enésima vez, e pela enésima vez eu o aperto, sem qualquer vontade de sair da cama. Estou exausto. Viro-me para o lado, passo a mão pelo rosto, contraio as pernas e estico os braços, na tentativa de espantar o sono. Lembro-me então que hoje será um dia muito corrido. Às 11h haverá churrasco na escola e às 19 h, a colação de graus da 11ª. Turma de Bacharéis em Química, lá na universidade. “Caramba, sou paraninfo e ainda não preparei o discurso!”, penso comigo mesmo, passando os dedos entre os cabelos que ainda resistem bravamente em meu couro cabeludo. Certo, viver a vida perigosamente tem lá os seus momentos, mas a possibilidade de discursar para centenas de pessoas no improviso está me parecendo loucura. Dou então um impulso e jogo minhas pernas para fora da cama, colocando-me de pé. Respiro fundo, faço o sinal da cruz. “Que Deus esteja comigo em mais um dia”.
9h30min. Feito o desjejum e a higiene bucal, sigo até o papai. Ele está no alpendre, deitado na rede. Uma das pernas está para fora da rede, mostrando que ele está completamente “desmontado”. Toco-lhe o braço com a mão direita. “Papai, o senhor me empresta a churrasqueira pequena para o churrasco lá a escola?” Ele acorda meio assustado. “Hã?”, murmura ele, com cara de quem não sabe nem onde está. Repito a pergunta. “Pode pegar. Mas você toma muito cuidado com ela! Se quebrar, você vai se ver comigo!” Agradeço e caminho para o quarto de despejo, para buscar a churrasqueira. Enquanto isso, o papai continua rezando a cartilha de precauções para não quebrar sua “churrasqueira de estimação”.
11h. Acabo de manobrar o carro no estacionamento do colégio. Pego os espetos, coloco-os em cima da churrasqueira e sigo escola adentro com os “apetrechos” para o churrasco. Enquanto caminho, distribuo os “bom dia” de sempre. Após três anos nesta escola, sinto-me em casa. As situações que experimentamos - professores, alunos, funcionários e a amiga Ivani, nossa coordenadora (que devido a algumas mudanças, infelizmente está de partida...) – tornaram-nos muito amigos. Enquanto dirijo-me ao pátio, onde estão sendo montadas as mesas para a realização do almoço, fico olhando para as salas de aula vazias. A garganta seca quando me recordo que minha passagem por aqui chegou ao fim...
11h20min. O professor Wagner está, enfim, se candidata a churrasqueiro. “Onde está a churrasqueira que você disse que ia trazer?”, pergunta-me. Ao acompanhar o meu dedo apontando para a pequena churrasqueira que o papai me emprestou, ele balança a cabeça em sinal de desapontamento, e dando as costas, diz:: “Ah, não, pode esquecer. Essa aí é a churrasqueira? Pára com isso! Uma churrasqueira desse tamanho pra assar carne pra esse tanto de gente? Não, nem pensar!” Enquanto ele se distancia com um cigarro nas mãos, desmerecendo a churrasqueira do papai, pego a churrasqueira e, abraçando-a, sigo na direção oposta. “Ei, onde você vai?”, diz ele ao perceber que estou me retirando. “Arrume outra churrasqueira. Você disse que esta não presta, não disse? Então se vira.” Neste instante estou ofegante. Não, não estou cansado. Estou apenas muito irritado com as palavras daquele “cara”. Afinal, uma das poucas coisas que me tira do sério é ver alguém menosprezar pessoas e desvalorizar as coisas alheias. “Ei, Eduardo, peraí! Onde você vai? Volte aqui com essa churrasqueira!” Finjo não estar ouvindo. “Ô Eduardo, peraí! Volta aqui!”. Nossa, hoje é dia de formatura... “Pô, Eduardo, que caramba! Volta aqui, caramba!” Putz, e o discurso? Ainda não o preparei! “Eduardo! Você ta me ouvindo? Sem essa churrasqueira não tem churrasco!” Nossa, preciso voltar mais cedo do churrasco pra preparar o discurso... “Tá bom, foi mal! Traz essa churrasqueira aqui, vamos colocar carvão e esquentá-la para o churrasco.” Paro. Esboço um sorriso de canto de boca. “Assim está bem melhor”, penso comigo. Enfim, dou meia volta e levo a churrasqueira para ele. Vamos começar o churrasco.
11h30min. O celular toca. É a Débora, pedindo-me para gravar um CD com as fotos do casamento da Elaine. “Preciso levá-lo ainda hoje... Você me ajuda?”, diz ela com aquela voz manhosa irresistível... Como dizer não? Assim que desligo o celular, ouço uma professora dizendo: “Você não tem nenhum CD bom aí não? Eu não agüento mais ouvir o professor Rinaldo tocando violão! Queria saber quem foi que o convenceu de que ele é cantor.”, diz a professora Isabel.
12h15min. Após ter comprado o CD para gravar para a Débora e ter ido buscar lá em casa os CD’s que a professora Isabel pediu, estaciono o carro no pátio da escola. Todos já estão almoçando. Agora é a minha vez.
15h. Estou tentando limpar a churrasqueira para levá-la de volta para casa. Ainda há carvão em seu interior. Preciso encontrar uma maneira de esfriá-la e levá-la de volta para o papai. “Joga água nela que ela esfria”, diz o professor Wagner. Recebo sua sugestão, dita com a língua meio enrolada, com risos, pois ela me faz recordar uma das recomendações que o papai havia feito. “Não vai inventar de jogar água na churrasqueira quente que ela racha, viu?” Deus me livre chegar em casa com essa churrasqueira rachada! O papai me mata!
15h20min. Estou pronto para partir. Sigo em direção aos professores, para despedir-me. Sim, despedir-me. Esta é, na verdade, uma despedida, pois em 2008 não mais serei professor no ensino médio. É uma decisão que tomei após muita reflexão e conversas com a Débora. É um sacrifício humano enorme trabalhar de manhã, à tarde e à noite todos os dias da semana, como eu fiz durante este ano. Da mesma forma, é impossível (pelo menos para mim) dar boas aulas e fazer pesquisa de qualidade diante de uma jornada de trabalho tão exaustiva. Além disso, vou casar-me em maio e quero curtir meu casamento. Quero chegar à tarde do serviço e descansar ao lado de minha esposa, e poder curtir meus filhos assim que eles vierem – e se Deus quiser eles virão! Ao saberem que estou de partida, alguns professores se entreolham, aparentemente assustados. Parecem não acreditar no que estão ouvindo. “Não exxxxxxxxonera, não...”, diz a professora Cândida, passando seus braços pelo meu ombro. “Te conssssssssssidero praaaa caraaaaaaaaaamba”, continua ela enquanto esvazia mais um copo de cerveja. “Vamos ver o que a gente pode fazer pra você, Eduardo”, diz a Jacira, nossa eterna vice-diretora, sempre disposta a encontrar um "plano B" para ajudar. 15h45min. Após algumas fotos e algumas lágrimas, ganho enfim a avenida Orestes Quércia. De longe avisto a Via Anhanguera e admiro a visão que daqui se tem. O céu está carregado de nuvens escuras, e uma chuva fina molha o pára-brisa do carro. Por mais que eu tenha perdido a conta de quantas vezes trafeguei por aqui nos últimos três anos de minha vida, pela primeira vez eu me sinto sem rumo...

Amigos reunidos: Uma foto pra guardar de recordação.
Amanda (inspetora), Hercílio (prof. de História), dona Efigênia (profa. de Geografia, recé-aposentada), Suzana (funcionária da limpeza), profa. Kelly (Ciências), profa. Isabel (Matemática), Veridiana (funcionária da Limpeza) e profa. Adriana Félice (profa. de Português) Prof. Wanderley (Português) prestando homenagem à diretora Marli Prezoto. Enquanto rola o pagode, a profa. Cândida (Artes) vigia sua cerveja. Olha o passarinho! Susana (funcionária da limpeza) demonstrando seu carinho pela Jacira, nossa vice-diretora.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Problemas na escola pública

18 de dezembro de 2007. As aulas já terminaram, mas eu ainda estou aqui na escola. O que se vê, por todos os lados, é um imenso vazio. Não há alunos conversando nas salas de aula nem tampouco correndo pelo pátio. Os alunos, sabiamente, já estão de férias. Por outro lado, os professores, como eu, encontram-se todos na escola. “Ora, se a função do professor é ensinar, o que fazer em uma escola se nela não há alunos?”, deve você estar se perguntando a esta altura. Pois bem. Indigne-se comigo: estamos preenchendo as malditas “compensações de ausência”. Ah, você nunca ouviu falar? Pois é, eu também não, até que a Ivani nos comunicou que a nova supervisora quer que ofereçamos aos alunos o direito de compensar suas faltas. Dizem que é lei. Enquanto preencho as benditas fichas (ah, você acha que estou sendo irônico ao usar o “benditas” ao invés de “malditas”?), fico refletindo sobre o caos e o descaso que se instalaram sobre a escola pública nos últimos 15 ou 20 anos. Na minha época – e aqui devo me abraçar com orgulho ao saudosismo – a realidade era completamente diferente. Filhos de todas as classes sociais estudavam na escola pública. Alunos com poucos dentes conviviam com alunos eram levados pelos pais até a porta da escola em carros novos. Negros, brancos, mulatos e – sim – descendentes de índios dividiam as mesmas salas de aula. Em suas camisas brancas e calças jeans, todos éramos iguais. A disciplina predominava e o professor era visto como uma autoridade. Não havia outra forma de referir-se ao professor que não fosse com respeito e admiração. A maioria dos alunos que freqüentava a escola pública tornava-se pessoas de bem, quando não enriqueciam. “Mas e os alunos ‘ruins’?”, deve estar você se perguntando a esta altura. Pasmem: estavam nas escolas particulares. Pode parecer estranho a você que tem menos de 25 anos de idade, mas estudar em escolas como Colégio Osvaldo Cruz (COC), Objetivo e Anglo era quase sinônimo de fracasso. Nós usávamos o termo PPP, que significava “Papai Pagou Passou”. Deixemos de saudosismo e voltemos aos dias atuais. Quinze anos se passaram e o sistema de ensino da rede pública tornou-se o reflexo das desigualdades sociais. Aqui só estudam os alunos cujos pais não têm dinheiro para pagar uma escola particular. Não há o menor orgulho em se estudar na escola pública. A escola em que leciono, por exemplo, que se situa em um dos bairros mais pobres da cidade, é resultado de uma promessa de campanha política. Conforme informações que circulam pelos bastidores, no último ano de seu mandato, o então prefeito precisava de votos para a reeleição, e para consegu-los, construiu uma das escolas mais mal-feitas de que tenho conhecimento. O desrespeito para com a população do bairro foi tamanho que não houve sequer o capricho de se rebocar as paredes, toscamente construídas com enormes blocos de cimento. Não se pode sequer pregar um prego nas paredes, pois as mesmas são ocas. O espaço foi terrivelmente mal aproveitado: há um enorme espaço ocioso, e ao mesmo tempo, uma tremenda falta de espaço para salas de aula. O resultado não poderia ter sido pior: os alunos parecem não ter amor ou respeito pela escola, porém o bairro em que ela se encontra é o principal colégio eleitoral do tal ex-prefeito quando o mesmo se candidata. A experiência neste colégio tem me mostrado que nas duas últimas décadas, a educação tornou-se um simples meio de se obter votos. Os alunos deixaram de ser considerados seres humanos e passaram a ser vistos como um número, que faz diferença apenas em época de eleição ou quando se pretende obter algum financiamento junto a algum fundo de investimentos internacional. Some a este descaso do governo pela escola pública a tremenda crise que se instalou sobre a família – eis aqui outra instituição que se encontra em crise... “Com licença”, “por favor”, “obrigado” e “desculpe” são palavras desconhecidas no vocabulário de boa parte dos jovens. A educação, aquela que era recebida em casa, é oferecida a poucos. Isto é perfeitamente compreensível: os tempos mudaram, é preciso que a mulher trabalhe para contribuir com a renda familiar. De certa forma, a grande maioria dos jovens é criada “sem mãe”, ou seja, passam o dia livres, sem ter a mãe para lhes mostrar a diferença entre o certo e o errado. Se você acha que a receita está ficando explosiva, espere até adicionar o último elemento “explosivo”: o professor. Desvalorizado, desmotivado e sem poder aquisitivo, o professor da rede pública – salvem-se aqui as raríssimas exceções – encontra-se sem força para mudar a educação. A única ferramenta de que ele poderia valer-se – a reprovação – hoje é vista como um crime, como um sinônimo de fracasso do próprio professor. Ao invés de ensinar, o que se cobra do professor são os “projetos”, cujo objetivo – tcham tcham tcham tcham! – é a mídia. Desde que ingressei em 2004, é moeda corrente que “professor bom é professor que desenvolve projetos”. E o conteúdo específico? Esqueça! A filosofia do governo é que “aluno de ensino público tem que ser educado para a vida”. Não se ouve falar de vestibular. Aliás, muitas universidades privadas eliminaram o vestibular e adotaram o “pocesso seletivo”, que é sinônimo de “seja bem-vindo à universidade!”. Os pedagogos classificam o sistema de “progressão continuada” (ah, você não sabia? O aluno da rede pública não reprova mais! A não ser que seja por faltas...) como uma forma de inclusão. Dizem eles que a reprovação é uma forma de exclusão. Aos meus olhos, entretanto, o sistema educacional tornou-se uma excelente ferramenta de manutenção (ou mesmo de aumento) das diferenças sociais que sempre existiram em nosso país. Alunos de rede pública deveriam ingressar em universidades públicas, porém o próprio sistema está direcionando estes alunos às universidades particulares... Perdido entre as centenas de fichas de compensação de ausência (Olha que sistema maravilhoso! A única coisa que reprova são as faltas, e os alunos têm direito de compensá-las! O que você conclui disso?) e entre minhas reflexões, eu me sinto culpado e omisso. Ao meu redor, meus colegas professores reforçam o coro dos descontentes com este sistema. Em meio a tantas lamentações e tristeza, decido parar um minuto e contar uma piada. Ao final, todos estão rindo. porém vejo que a maior piada continua diante de meus olhos: a tal da “compensação de ausência”...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Não tenho dedos pra contar

Passei este fim de semana em meio a reflexões. A Débora leu alguns posts deste blog e disse que teve a impressão de que eu não estava querendo passar no concurso, que me achou "dividido" nas postagens que aqui deixei. Percebi então que eu tinha ínúmeros motivos para estar "dividido", com a sensação de que a vitória no concurso traria muitas perdas para mim. Pois bem. Eis abaixo vários motivos para fazer com que eu me sinta vitorioso: meus amigos, os alunos.

2a. série do curso de Química (Bacharelado), a turma mais numerosa de 2007. Talvez seja esta uma das que mais sofreu com a possibilidade de eu ir embora.

2o. ano de Química (Licenciatura). Turma pequena, mas bastante animada. Os rapazes adoram jogar "truco". Quando eu entrava na sala, eles perguntavam se podiam acabar a rodada. Quando eu saía, eles em chamavam pra jogar... E não é que eu ganhei uma partida deles? 3o. ano do ensino médio, escola Elza Miguel Francisco. Esta turma esteve comigo no primeiro ano em que comecei a lecionar. Fiz questão de escolher esta sala novamente, pois além de muito esforçados, os alunos são "muito gente fina".
2o. ano do ensino médio, turma A, da Escola Edda Cardoso de Souza Marcussi. Essa turma adorável preparou uma festinha para a minha "despedida". Eles acharam que eu ia embora...
1o. ano do ensino médio, turma B, da Escola Edda Cardoso de Souza Marcussi. Eis aí os meus "anjinhos" deste ano. A eles dedico os fios brancos de cabelo que surgiram em mim este ano...

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Antes tarde do que nunca

Sábado, 27 de outubro. São 8h42min. Estou em uma sala de aula. Sou professor avaliador da disciplina de Seminários Gerais. Na sala, junto comigo, estão o Ademar, que é o outro professor avaliador, e mais alguns doutorandos. Entre eles há um que me chama a atenção, apesar de ser um velho conhecido. Conheci aquele homem de cabelos brancos, raspado para esconder a calvície, de olhos claros, óculos e voz forte, há 12 anos atrás, no primeiro ano de graduação. Ele era meu professor de Física, a disciplina que eu mais gostava naquele ano. Entretanto, por mais que eu quisesse ter dele a amizade, ele sempre se manteve distante. Certo dia ele olhou para a nossa classe e rasgou cerca de 70 provas que ele havia preparado pra gente, alegando que éramos incapazes de fazer aquela prova. Aquele incidente deixou-me profundamente chateado, e assim permaneci por anos. Eis que vários anos se passaram e eu retornei para a universidade. Lá reencontrei aquele professor, que para a minha surpresa tratou-me como se fosse um velho amigo. Passamos a conversar com freqüência, e aquela amizade que eu tanto desejava na época de graduação tornou-se, enfim, realidade. Tamanha não foi a minha surpresa quando ouvi os alunos comentarem durante as aulas que aquele professor havia me elogiado muito e que sempre me usava como exemplo de um aluno que venceu. Pois bem. Cá estou, mais uma década depois, presenciando uma inversão de papéis. Hoje sou o professor, o professor de outrora agora é aluno. Há, no entanto, um grande respeito de minha parte, não apenas por ele ter sido o meu professor, mas também por reconhecer que ele tem um conhecimento muito mais abrangente que o meu. Segunda-feira, 29 de outubro. São 21h07min. Estou subindo a rampa de acesso ao 3º. Andar do bloco azul, onde será a próxima aula. Subo conversando e rindo com alguns alunos. Eis que de repente sinto uma mão pesada tocar-me o ombro esquerdo, e repentinamente pular para o ombro direito. Aquela pessoa continuou caminhando, agora praticamente abraçada a mim. “Miller, eu pirei ao ver você no seminário no sábado! Fiquei admirado com a forma respeitosa com que você fez os comentários sobre os seminários e, principalmente, com o seu profissionalismo. Parabéns, cara! Estou muito satisfeito.” Sem saber o que dizer (isso é comum quando recebo algum elogio...), agradeci-o timidamente, porém com um sorriso estampado no rosto diante da sinceridade daquela pessoa. Aquela pessoa, era na verdade, meu antigo professor de Física que estava assistindo aos seminários na disciplina do sábado. Aquele professor é na verdade, o prof. “Tonin” Marangoni, uma pessoa que Deus recolocou em meu caminho para me mostrar que o mundo realmente dá muitas voltas. Em uma destas voltas pude não apenas reencontrar um professor de graduação, mas também conquistar o respeito, a admiração e a amizade que eu tanto desejava que ele tivesse por mim quando era seu aluno. Obrigado, “meu amigo” prof. Marangoni! “Faze o que fazes com humildade e, mais do que a estima das pessoas, ganharás o afeto delas (...). Espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade (...). E, na sinceridade de teus conhecimentos, nunca te afastes de uma linguagem pacífica e eqüitativa. Pois uma boa palavra multiplica os amigos e apazigua os inimigos (...). A sabedoria do humilde o fará sentar-se no meio dos grandes.”

sábado, 27 de outubro de 2007

Tropa de elite

Já há algum tempo eu assisti ao filme “Tropa de elite”. Recordo-me que fiquei tão impressionado que naquela noite tive alguns pesadelos que lembravam cenas do filme.Trata-se de uma obra impactante, não por espelhar a criatividade de um roteirista ou a competência de um diretor, mas sim pela coragem de ambos em retratar uma realidade que está próxima de nós, porém muitos preferem não enxergá-la. “Tropa de elite’ foi (e até na data deste post, ainda é) objeto de várias críticas e noticiários veiculados na mídia televisiva e jornalística, principalmente por tratar da corrupção dentro da polícia no trato com traficantes. Ao meu ver, no entanto, o aspecto mais importante do filme é o esquema do tráfico de drogas. Muitos conhecidos meus ficam estarrecidos e desconfiados quando cruzam com algum jovem de boné e de roupas largas, que anda "gingando", e o olha como se ele fosse um assaltante, bandido ou traficante. Ora, a maioria dos meus alunos veste roupas largas, usa boné e anda “gingando” (ou, como diz o William, “chaveando”), e pelo que eu saiba, nenhum deles é bandido. A verdade que o filme mostra, e que na minha opinião é a mais chocante, é que quem sustenta o tráfico de drogas são os jovens das classes sociais média e alta. Ao consumirem drogas, tais jovens, que já nasceram com todas as oportunidades para vencer, acabam comprometendo a vida de várias crianças pobres, que vivem na comunidade onde habitam os traficantes.
Ao término do filme, fiquei recordando da única festa em que fui lá no campus da USP de Ribeirão Preto, quando estava cursando doutorado. Diante de tanta insistência, fui com o pessoal da moradia estudantil a um tal de "Bar da Filô". Quando estava chegando, pude observar uma fumaça de cheiro estranho pairando sobre o ambiente. Quando lá cheguei, meus colegas resolveram comprar cerveja. Caminhamos então pelo meio da "galera" e várias vezes tive que pedir licença para alguns jovens que estavam no meio do caminho. Aqueles jovens pareciam verdadeiros "zumbis", estáticos e distantes. A maioria deles sequer deve ter percebido meus "esbarros". Agora vejo a realidade com outros olhos. Filhos de classe média, "playboys" que nada entendem da vida, mas que se acham "atuantes" e críticos. "Jovens ricos adoram cuidar de crianças pobres", diz o filme. Talvez façam isso na tentativa de se isentarem da culpa de colocarem várias outras no tráfico de drogas com o seu inocente e despretensioso "cigarrinho do capeta". Quem financia o tráfico são os "riquinhos", que tragam um "bequezinho" (é essa a expressão usada no filme) só "pra ficar de boa". O grande problema é o preço social que cada trago acarreta.
Não sou, nunca fui e jamais serei usuário de qualquer tipo de droga, seja ela na forma de um cigarro (comum ou "baseado") ou bebida. Portanto, antes de assistir ao filme eu não tinha nada contra aqueles que fumassem o seu "baseado". Afinal, cada um faz da sua vida o que quiser. Entretanto, vejo agora que a cada tragada ou a cada cheirada, uma criança inocente torna-se vítima da violência nas favelas. Escrevo isso com uma enorme dor no coração, pois temo que meus filhos possam vir algum dia a se tornarem usuários de drogas. Este seria o meu maior fracasso: ter criado filhos criminosos.

domingo, 21 de outubro de 2007

O preconceito na ciência

Nesta semana que passou, um fato lamentável agitou o meio científico. O cientista James Watson, um dos descobridores do DNA e ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1962, afirmou que os negros são menos inteligentes que os brancos. É fato que o tão conhecido cientista contribuiu enormemente para o avanço da ciência com a sua descoberta, mas a julgar por esta afirmação sem pé nem cabeça, fica evidente que ele está na hora de se aposentar (ou se já o fez, está na hora de ficar de boca fechada). Basta comparar, por exemplo, os negros e os “brancos” aqui do Brasil. Brancos e negros chegaram até aqui provenientes da Europa e da África, respectivamente, porém em situações completamente distintas. Os brancos vieram para colonizar, os negros vieram para servir de mão-de-obra escrava. Quando a escravidão foi abolida, os negros permaneceram à margem da sociedade, sem oportunidade de emprego, e esta situação ecoa ainda nos dias de hoje. Atualmente, embora o número de negros nas universidades tenha aumentado nos últimos anos, estes representam uma alíquota muito pequena dos estudantes universitários, principalmente nas universidades públicas. Isso, entretanto, não tem nada a ver com inteligência ou capacidade. Na condição de professor, posso dizer que alguns de meus alunos negros são capazes de fazer o Dr. Watson “engolir” o que disse. Não há, portanto, como dizer se um é mais inteligente que o outro. O que perdura, ainda nos dias de hoje – e esta talvez seja a verdade que o Dr. Watson não queira enxergar - é uma desigualdade social desumana entre as condições em que brancos e negros crescem e chegam às universidades. Isto é, obviamente, fruto das desigualdades sociais. Se o Dr. Watson ainda acha que precisa aparecer na mídia, por que ele não vai pesquisar sobre o gene responsável pela ganância humana, responsável por tal desigualdade?

sábado, 20 de outubro de 2007

Os tempos mudaram, eu não!

23h49min. Estou trafegando pela rua Voluntário Geraldo, a rua que dá acesso à minha casa. Estou voltando da casa da Débora. Estávamos assistindo ao programa do Tom Cavalcanti. Melhor dizendo, ela estava. Eu acabei dormindo, tamanho o cansaço que me abateu. Não vejo a hora de chegar em casa e deitar-me! 23h50min. Vejo um movimento de pessoas caminhando pela rua na mesma direção que eu. A maioria destas pessoas são adolescentes, moças e rapazes. As moças trajam “shorts” bem curtos (como o nome em inglês sugere!). Os rapazes, por sua vez, usam bonés e calças largas. Andam “gingando”, balançando os braços para trás e estufam o peito para frente. É como se com aquela forma de andar, quisessem dizer: “E aí, mano, o que é que tá olhando?”. Certo dia, perguntei ao William, um aluno do ensino médio, o que queria dizer aquela forma de andar. “Fessor, estou chaveando”. Perguntei-lhe o que queria dizer aquela expressão. “Fessor, chavear quer dizer ‘tô na área’. Vem de ‘chave de cadeia’.” Inconformado com o que ele havia me dito, disse-lhe: “William, quem fica na cadeia é bandido! E você não é nenhum bandido, ora!” Ele justificou-se. “Ah, fessor, esse é o meu estilo.” 23h51min. Estou passando em frente ao clube da Baixada, clube onde passei toda a minha adolescência jogando futebol e tênis de mesa. Hoje é dia de baile. Baile de carnaval. À frente do clube, uma multidão de jovens aguardam a abertura dos portões. Ao vê-los, a imagem que me vem à memória é a cena do baile funk do filme “Tropa de Elite.” Uma pergunta começa a incomodar-me: onde começa e onde terminam as semelhançsa entre estes jovens e aqueles do filme? A maioria dos jovens está sorrindo, mas em uma das mãos acomodam uma lata de cerveja ou um cigarro. Será que é cigarro comum ou será algum “baseado”? 23h55min. Estaciono o carro debaixo da mangueira aqui de casa. Enquanto caminho para fechar o portão, fico imaginando como a adolescência de minha época era diferente, e como eu era um adolescente completamente diferente de todos da minha época. Não gostava de sair e nunca apreciei ficar em meio a muitas pessoas. Ficava em casa estudando e ouvindo músicas da Cindy Lauper, Madonna e Roxette. Como dizem os alunos, “eu ficava na minha” ou “ficava de boa”, no meu canto. Quando ria, eu o fazia espontaneamente. Não me drogava nem precisava de álcool para tomar coragem para "chegar" em uma moça e conversar. A propósito, isso não pe preciso hoje em dia. As moças é que chegam nos rapazes!
Mas os tempos mudaram. A moda hoje é “ser igual para ser aceito”, e não importa o que se tenha que fazer para ser igual. Sim, os tempos mudaram, mas eu ainda ouço Cindy Lauper, Roxette e Madonna. Talvez eu tenha parado no tempo. Ou talvez eu esteja realmente envelhecendo.

Semana do saco cheio - parte final

Quarta-feira, 10 de outubro. 7h15min. Paro em frente à New Car, a oficina que nos últimos três dias tem sido palco de uma das minhas maiores angústias desde que adquiri um carro. O portão está fechado, mas lembro-me que o Taíde, dono da oficina, disse que costumava chegar cedo. Desço do carro e vejo o trinco inferior destrancado. Começo a mexer no trinco, na tentativa de abrir o portão. Ao ver o portão balançando, o Taíde se aproxima. “Bom dia”, diz ele, com expressão séria. “Bom dia, Taíde. Rapaz, você não vai acreditar: a luz do óleo ta acendendo!”. Ele dá um risinho de canto de boca e diz, acalmando-me: “`O problema deve ser com o cebolinha do óleo. A oficina só abre à s7h30min. Você quer esperar ou vai voltar outra hora?” Sem titubear, peço-lhe que abra o portão. Vou esperar. 7h19min. Ainda faltam alguns minutos pra oficina abrir e para eu resolver o meu problema, ou melhor, para alguém resolver o meu problema. Olho para a oficina, cheia de lixo pelo chão. O Taíde já cedo parece correr de um lado para outro, tentando organizar as coisas e fazer uma rápida faxina. “Taíde, dê-me uma vassoura. Vou varrer a oficina pra você”. Sem pensar duas vezes, ele encontra uma vassoura e uma pá para amontoar o lixo. “Tomai, já que você quer trabalhar....” Espero que o tempo passe mais rápido. 7h35min. O Taíde me comunica: “O Cidinho já está aí.”. Surge então uma dúvida: “Uai... mas o Cidinho não estava machucado?”. 7h37min. “Bom dia, Cidinho. Melhorou da mão?” O Cidinho, sem parar de varrer o chão, diz que ainda dói quando ele faz força para apertar um parafuso. Explico-lhe o problema. Ele ri. “E o rapaz, fez o serviço direitinho? Eu te falei: o cara é de confiança, do contrário não teria deixado ele fazer o serviço pra você.” 7h39min. O Bruno se aproxima. “Bom dia, Bruno”, digo, cumprimentando-lhe, ao que ele prontamente retribui. “E aí, Bruno, beleza? Então quer dizer que o rapaz aqui duvidou do seu serviço?”, diz o Cidinho, com ar irônico. O Bruno ri, e sem olhar para mim, como se eu não estivesse ali, responde: “Pois é! Ele ficou aqui ontem a tarde toda. Nem tomar café direito ele deixou, desesperado por causa do carro.” O Cidinho retoma a palavra: “Ah, se fosse comigo! Eu deixaria ele esperando a tarde toda. Sairia pra tomar café, lanche, qualquer coisa.” Ouvir aquilo me chateia, principalmente porque agora tenho a sensação de que o Cidinho não quis fazer o serviço para mim. Lembro então que naquele mesmo dia em que ele disse estar doente, eu o vi andando pelas ruas da cidade. Penso comigo: “Certo, seus filhos da mãe. Quando foi pra eu pagar pelo serviço, paguei prontamente. Agora que já receberam, ouço isso... Bom saber disso!”
7h55min. Dou partida, engato a primeira marcha e ganho a rua. Espero estar livre desta situação. De tudo isso, uma lição ficou: quando eu precisar consertar o carro, vou procurar outro mecânico. E podem ter certeza: o mecânico vai demorar para ver a cor do meu dinheiro.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Semana do saco cheio - parte 3

Quarta-feira, 10 de outubro. 7h38min. Cá estou novamente na New Car para que o jovem rapaz, o Bruno, regule o carburador e acerte o funcionamento do motor do meu carro. Quando ele me vê, fica com os olhos arregalados. “Algum problema com o motor?”, pergunta ele. “Bruno, o serviço no motor ficou jóia! Resta apenas acertar o funcionamento, porque ele está ‘falhando’ em baixa rotação. Além disso, tem um barulho estridente nas rodas que está incomodando.” O rapaz, prestativo, meio que arregaça as mangas para o serviço. “Peraí, vou passar o cartão de ponto e nós vamos resolver isso.” 7h45min. O Bruno parece decido a resolver o problema. Ao vê-lo desmontando a roda do carro, sinto uma certa “valentia”, uma coragem de enfrentar o problema que me faz acreditar que ele será um grande mecânico no futuro. Aos poucos, vejo as peças do sistema de freio caírem uma a uma, até que ele me aponta um metal que estava riscando o disco de freio e fazendo o barulho que tanto me irritava. 8h13min. O Bruno pede pra que eu vá com ele até o Léo, o filho do dono da oficina, para usar uma tal de “Lanterna de ponto” para acertar o funcionamento do motor. O tal Léo trabalhava aqui nesta oficina com o pai dele, mas por motivos que desconhecemos, os dois se desentenderam e ele saiu para montar sua própria oficina. No acerto de contas, ele ficou com a pistola. Que sorte a minha, hein? 8h25min. Estou parando em frente ao portão da New Car. Mais uma vez estou surpreso com o trabalho do Bruno. O funcionamento do carro ficou perfeito! Aperto a mão dele e digo-lhe, ao fechar a porta: “Parceiro, você me surprendeu! Parabéns! Valeu!” Engato a primeira marcha e saio, cantando pneus. Até que enfim meu carro está pronto para recomeçar a semana que vem! 9h23min. Estou em uma floricultura. A Débora pediu-me para procurar alguém para fazer o jardim, e disseram que havia um rapaz nesta floricultura que era muito bom. Quando entro, uma surpresa: o dono da floricultura é o Paulo, um de meus alunos do supletivo. Somente então é que associo os projetos à sua habilidade com os desenhos... Ele parece feliz em ver-me ali. Chamo-lhe para ir medir o jardim de casa. 9h45min. Débora está mostrando ao Paulo as plantas que gostaria de incluir no jardim. Ele vai dizendo, uma uma, o nome delas. Acho que essa conversa vai longe. 11h30min. O Paulo, após longa conversa e muita paciência e atenção, desce em frente a floricultura, na promessa de que irá ligar-me assim que o projeto do jardim estiver pronto. 22h45min. Não dá pra acreditar! Estou passeando de carro com a Débora quando vejo uma luz vermelha acendendo no painel. É a luz do óleo! Lembro-me então das palavras do papai. “Filho, nós consertamos a parte de cima do motor, agora a compressão vai aumentar. Se a parte de baixo não estiver boa, o carro vai fundir, e não vai demorar muito”. Entro então em desespero! “Meu Deus, e agora?” Após gastar quase R$600,00 com o carro, o motor fundiu? E agora? Se o carro fundir, como conseguirei dinheiro para terminar de construir a casa antes do casamento?

sábado, 13 de outubro de 2007

Semana do saco cheio - parte 2

7h38min. Estou entrando na New Car, a oficina mecânica onde meu carro está “internado”. Do portão avisto-o, todo empoeirado, com o capô levantado. Estaciono o carro do papai e saio procurando pelo mecânico, o Cidinho, mas não o vejo. Próximo ao lugar onde está o meu carro, um rapaz muito jovem, que trabalha com ele, varre o chão. Acho que deve ser ajudante. Ao perguntar-lhe onde está o Cidinho, ele responde: “O Cidinho foi ao hospital. Ele cortou a mão semana passada e agora a mão dele inchou...”, diz ele. “Meu Deus, era só o que me faltava!”, penso. Ciente de que preciso resolver o problema do motor, peço a ajuda ao rapaz para colocar o cabeçote no porta-malas do carro. “Vamos acabar com isso logo”, penso, decidido a acabar com esta situação. 7h52min. Estaciono à porta da retífica Santa Rita. Cuidadosamente, retiro o cabeçote do motor do porta-malas. Na verdade, o que devia ser uma tarefa simples, acaba se tornando um verdadeiro malabarismo, pois os amortecedores do porta-malas estão estragados e não suportam o peso da tampa por muito tempo. Sendo assim, logo que eu retiro o cabeçote, sinto o movimento da tampa movimentar meus cabelos, seguindo-se um estrondo. “Deus do céu, quase fico sem pescoço!”. Entro na retífica e coloco o cabeçote no chão. A dona da loja vem e pede para um rapaz analisar e ver quais peças precisam ser trocadas. Curiosamente, o rapaz tem o mesmo sobrenome do papai: Altair. Após saber quais peças precisam ser trocadas, sigo em direção à Alfa Auto Peças. 8h27min. Acabo de pedir as peças para o Jean, o vendedor que me atendeu. Em poucos minutos ele me apresenta uma pequena sacola e dispara o preço. “São R$180,00”. Meio assustado com o preço, retiro o dinheiro da carteira e pago ao senhor que atende no caixa. Já na saída da loja, meio desnorteado e cabisbaixo, ouço alguém chamando. “E aí, fessor, beleza?” São o Guilherme e o Flávio, alunos do ensino médio. “Olha lá, Flavim, ele não parece o Van Damme?”, diz o Guilherme, fazendo-me rir. Já há algum tempo ele faz essa brincadeira, em alusão aos óculos que uso. Segundo ele, meus óculos escuros são parecidos com o que o Jean-Claude Van Damme usa. Balanço a cabeça, sorrindo. “Você é mesmo um brincalhão, Guilherme!”. 8h48min. Deixo as peças na retífica e pergunto à moça que horas posso voltar para buscar. “Uma hora da tarde, moço”. Entro no carro e volto correndo para casa, na esperança de poder estudar um pouco. 13h18min. Estou de volta à retífica, para pegar o cabeçote e levá-lo ao mecânico. Pergunto pelo preço do serviço. “R$180,00”. Sem ter outra alternativa, sorrio e volto para a oficina, na esperança de que meu carro esteja pronto ainda hoje, para viajar com a Débora para São José da Bela Vista. 13h30min. Peço ao ajudante do Cidinho que me auxilie a colocar o cabeçote do motor em cima da bancada. Feito isso, pergunto-lhe novamente pelo Cidinho. “O Cidinho não volta hoje. Só volta na segunda-feira. Ele pediu pra mim montar o motor pra você...” Respiro fundo, dou meia volta e solto um “Pu-ta-que-pa-riu”, quase pensado letra por letra. “Se o papai souber que este ‘moleque’ montou o cabeçote, ele me mata!”. Ligo para a mamãe e ela entra em contato com o papai. Ele disse pra chamar alguém da retífica pra montar, pois não quer que “qualquer moleque” monte o motor. O rapaz, muito tímido, apenas assiste a minha reação, já imaginando o que está acontecendo. O Taíde, dono da oficina, se aproxima e diz: “Fala para o seu pai que eu garanto o serviço deste rapaz. Eu me responsabilizo pelo que acontecer. Este moleque é muito bom! Você vai se surpreender com o serviço dele!”. Respiro fundo. “Pode montar”, digo, dividindo com ele a responsabilidade. Vamos ver no que vai dar. 15h30min. O carro está pronto. Para minha surpresa, está tudo funcionando direitinho! O rapaz, que descobri chamar-se Bruno, tem 17 anos e trabalha desde os 10 em oficina mecânica. “Vou chegar em casa e mostrar ao papai”. 18h15min. Chego em casa. O papai, apreensivo e ansioso, me aguarda no portão. “Abre o capô e dê partida no carro”. Ele pára na frente do carro e fica observando. “Esse motor está desregulado, mas prece que o serviço ficou bom. O problema é que parece que tem algo batendo aqui...” 18h30min. O papai liga para a retífica para saber se o barulho do motor está normal. Ao desligar o telefone, ele me olha meio sem graça. “O cara da retífica disse que o rapaz que montou o motor é muito bom.” Conclusão: o motor está perfeito, mas preciso voltar amanhã para regular o motor. E lá se vai a terça-feira e eu não estudei praticamente nada para o concurso.... Quer saber? Essa “novela” está me deixando de saco cheio.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Semana do saco cheio - parte 1

7h. Inicia-se hoje a tão aguardada semana do saco cheio. É uma semana em que não há aulas na universidade. Para mim, no entanto, não haverá descanso. Há um concurso pela frente e eu preciso estudar se quiser ser aprovado. É a chance da minha vida de realizar um grande sonho. Já liguei no colégio e comuniquei que não irei dar aulas esta semana. Seremos apenas eu e os livros. Como não viajarei para Franca esta semana, aproveitarei para dar uma “geral” no meu carro. Pobre coitado! Ele tem sido meu companheiro constante, e graças a Deus não tem me deixado na mão. Preciso cuidar dele. 8h. Estou no mecânico. O “Cidinho”, como costumamos chamá-lo, é bastante experiente e sabe tratar os seus fregueses. Peço-lhe que faça uma revisão no carro: trocar pastilhas e lonas de freio, limpar e regular o carburador. 8h25min. Estou em casa. Abro no notebook. Estou pronto para começar a estudar. Começarei pelas reações de adição eletrofílica. É um assunto extenso, mas que não é tão estranho para mim. Tentarei estudar também acidez e basicidade. 15h. O Cidinho me liga. Disse que houve um pequeno problema e que precisa falar comigo. 15h15min. Estou na oficina. O Cidinho introduz um aparelho na saída das velas do motor e disse que não há pressão suficiente no último cilindro. “O que significa isso?”, perguntou-lhe, solicitando que seja mais “didático”. “Seu carro está trabalhando com apenas 3 cilindros. Vamos ter que retirar o cabeçote”. Agora sim ficou tudo muito claro! É a mesma coisa que dizer: “Coloque a mão no bolso, parceiro; isso vai ficar caro pra caramba!” Ligo para o papai, sem saber o que fazer. 15h28min. O papai chegou. Parece afoito, meio apreensivo. Na verdade, deve estar preocupado e vai logo pedindo que o Cidinho lhe explique qual é o verdadeiro problema. Ao entender a situação, o papai dá sua opinião. Olha pra mim e diz: “Ta vendo, filho? A gente devia ter retirado o cabeçote aquele dia. Mas você quis economizar... “ E já na seqüência, dispara: “Cidinho, pode tirar o cabeçote. Nós vamos fazer a coisa certa desta vez.” 16h. Papai e eu estamos na retífica. Ele conversa com o Walter, o dono da retífica, e deixa tudo acertado para amanhã de manhã. “Amanhã de manhã?” – penso eu – “mas e o meu concurso? Preciso estudar...” Ao contrário do que eu pensava, esta semana será para eu ficar de saco cheio.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

56 anos de amor - parte 2

Padre Evaristo, vovô Miller, vovó Maria, eu, mamãe e tia Ângela
"Meus irmãos e minhas irmãs, bom dia. Antes que retornemos aos nossos lares, alimentados pelo pão do Senhor e pelas palavras do Evangelho, gostaria de contar-lhes uma história. É uma história longa e cheia de amor, que se iniciou há 56 anos. Tudo começou quando Maria Olívia, uma jovem linda e cheia de vida, conheceu Antônio, um jovem honesto, trabalhador e muito bem humorado. Maria Olívia e Antônio apaixonaram-se, e conforme manda as leis de Deus, casaram-se. Como os dois jovens eram de origem muito humilde, inúmeras foram as dificuldades que lhes foram impostas, mas o amor entre eles em nenhum momento deixou de existir ou sequer enfraqueceu. Muito pelo contrário: o amor daquele casal resultou em uma linda menina, a quem eles batizaram como Carmem. Anos depois, aquela família seria abençoada com um novo fruto, a quem eles batizaram como Ângela. Maria Olívia e Antônio agradeciam a cada dia as duas bênçãos que Deus havia lhes dado. Os anos foram se passando. Maria Olívia e Antônio assistiram Carmem e Ângela crescerem em físico, em espírito e na fé. Aquelas duas jovens foram educadas com muito amor, em um ambiente cheio de paz e harmonia, pois Deus sempre esteve presente entre no seio daquela família. Ângela, a caçula, em meio a muitas privações, mas sempre apoiada por Maria Olívia e Antônio, graduou-se em Economia. Carmem, a mais velha, tornou-se costureira. Nas linhas de sua história Deus colocou um jovem, que por coincidência também se chamava Antônio Altair. Carmem e Antônio Altair casaram-se, e do fruto de sua união nasceu um filho, também batizado como Antônio Eduardo, que foi batizado por Maria Olívia e Antônio. Apesar de ainda serem jovens, Maria Olívia e Antônio já eram avós. Quatro anos depois, Carmem daria a luz à Hérica, tornando Maria Olívia e Antônio avós pela segunda vez. Maria Olívia e Antônio viam a família crescer e agradeciam a Deus a cada amanhecer e anoitecer pelas bênçãos derramadas sobre eles. Como prova de agradecimento a Deus por tamanha bondade, Maria Olívia e Antônio amavam Antônio Eduardo e Hérica como se fossem seus próprios filhos. Quantas vezes Maria Olívia, nas eventuais ausências de Carmem, não preparou deliciosos almoços para seu neto... Na época em que ele passava a semana fora, estudando, Maria Olívia passava os fins de semana preparando deliciosas bolachinhas de nata. O amor e a preocupação de Maria Olívia para com seus netos era tão intenso que às vezes ela passava mal. Já Antônio, seu esposo, era atencioso e divertido para com seus netos. O amor dele era tamanho que ele chegava a produzir caminhões de madeira para seu neto brincar usando um canivete, ou mesmo a fazer guardas-roupas para sua neta guardar vestidos de boneca. Foi com Antônio, seu atencioso e bem-humorado avô, que Eduardo aprendeu a fazer o laço no cordão do sapato. Foi com Antônio que Eduardo aprendeu a sorrir e a tratar seus semelhantes de forma sempre respeitosa. Os anos se passaram. Hérica casou-se, e de seu casamento nasceu Clara, a bisneta de Maria Olívia e Antônio. Os dois amam Clara assim com amaram seus netos Eduardo e Hérica, e suas filhas Carmem e Ângela. Após 56 anos, Maria Olívia continua linda e cheia de vontade de viver, e ainda faz as deliciosas bolachinhas de nata. Antônio Miller ainda é o mesmo homem honesto e trabalhador, e está mais bem-humorado que nunca. Para mim, os dois são mais do que meus avós e padrinhos. São modelos de pessoas e da família que eu devo construir. Dentre todas as bênçãos que Deus derramou sobre mim, uma das maiores é ter crescido recebendo o amor, o carinho e a atenção de vocês dois. Agradeço a Deus a cada dia anoitecer e a cada amanhecer por poder chamá-los de “vovó e vovô”. Que Deus continue abençoando-os com muita saúde e renove a cada dia o amor que os mantêm unidos há 56 anos, para que os meus filhos, quando nascerem, possam amá-los como nós os amamos. Parabéns!"

terça-feira, 2 de outubro de 2007

56 anos de amor - parte 1

Sábado, 29 de setembro. 0h36min. Acabo de chegar em casa. A mamãe ouve o barulho da porta da cozinha se abrindo e prontamente se levanta para preparar o leite. “Filho, você vai à missa amanhã?”, pergunta ela, enquanto caminha em direção ao fogão, passando a mão pelo rosto, na tentativa de espantar o sono. “Ah, mamãe, eu queria ir, sim, mas acordar 6h é puxado, hein? Acordo nesse horário todos os dias da semana...”. Ela acende o fogão e começa a esquentar o leite. “Então... Amanhã a vovó e o vovô completam 56 anos de casamento. Ela ficaria muito feliz se você fosse”. Por um minuto meus pensamentos deixam aquela cozinha e começam a se recordar do quanto meus avós sempre me amaram. Por eu ser o único neto (e minha irmã ser a única neta), sempre fui tratado como se fosse filho deles. Lembro do quanto eu sempre brinquei de brincar com o vovô, do quanto ele sempre este presente e do quanto me ajudou, mesmo depois de adulto. Lembro da camisa do São Paulo que ele me deu de presente (tornei-se são-paulino por causa daquela camiseta!), mesmo sendo ele um santista fanático. Perdi a conta de quantos caminhões de madeira ele fez para mim usando um simples canivete de madeira. Foi também o vovô que me ensinou a amarrar o sapato. Quanto à vovó, recordo-me das vezes que ela se preocupa comigo quando a mamãe vai viajar, das inúmeras vezes que ela passava os finais de semana fazendo bolachinhas de nata pra eu comer durante a semana, na época em que eu fazia pós-graduação em Ribeirão Preto. Em meio a esses pensamentos, não há como tomar outra decisão. “Mamãe, acorde-me amanhã cedo. Eu irei à missa com a senhora.” Domingo, 30 de setembro, 1h15min. Estou diante do monitor do notebook. Minha luta contra o sono é inevitável. Mas tenho que lutar. Há uma ótima razão para isso: preciso escrever um texto. Há algo se passando aqui na minha cabeça e eu preciso colocar isso em prática... 6h55min. O padre começa o sermão. Olho para o banco de trás, onde estão a vovó Maria, o vovô Mila e a tia Ângela. Percebo que esqueci de trazer a câmera fotográfica para registrar este momento. Falo no ouvido da mamãe e percebo que ela fica triste, pois gostaria que a câmera estivesse ali. Respiro fundo e levanto. Caminho rapidamente em direção à porta. Vou em casa buscar a câmera. O que está para acontecer precisa ser registrado. 7h25min. A tia Vânia está lendo um texto lá na frente. É o texto final da missa. Em seguida o padre irá dar os recados da semana e chamará os aniversariantes para subir ao altar. Preciso agir rápido. É agora... ou nunca. Respiro fundo (novamente!) e me levanto. Sigo em direção ao padre, enquanto todos permanecem de olhos fixos no folheto. Subo ao latar e sento-me ao lado do padre. Falo então em seu ouvido: “Padre, hoje os meus avós completam 56 anos de casamento. Gostaria de fazer uma homenagem para eles.” “Homenagem? Não”, responde o padre Evaristo, com o tom de voz que lhe é peculiar. “É só um texto”. Ele retruca: “É grande?”, ao que lhe mostro a folha. “Olha, meu filho, se todo mundo resolver fazer homenagem, nós estamos encrencados. Por que você não fez esta homenagem quando eles completaram 50 anos de casamento?”. Olho firmemente para ele e respondo: “Porque há 6 anos atrás eu não via o verdadeiro significado que a minha família sempre teve para mim”. Ele parece gostar da resposta e balança a cabeça em sinal positivo. “Aguarde ali.” 7h28min. O padre termina de dar os recados e chama os aniversariantes. O vovô Miller e a vovó Maria estão vindo para o altar. Após perguntar para algumas outras pessoas que também completaram aniversário nesta semana, o padre dialoga com os dois. Ao final da conversa, ele dá a notícia: “Aquele rapaz, ali, seu neto, quer fazer uma homenagem pra vocês dois”... Eles olham para mim. Pego o microfone. A garganta seca. É agora.
(to be continued...)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Batendo à porta errada

Sexta-feira, 21 de setembro. São 19h23min. Como acontece em todas as sextas-feiras, hoje poucos alunos vieram à escola. Não tive a curiosidade de contar, mas tenho quase certeza que se o fizer, não encontrarei mais que 50 alunos na escola inteira. A compreensiva e ponderada Ivani, nossa amiga e coordenadora pedagógica da escola, decide passar um vídeo sobre aquecimento global para os alunos. Como na sala em que estou só há 4 alunos, ela pede que eu instale o DVD. Minutos depois, a Amanda, a inspetora de alunos, surge com o DVD nas mãos e com um molho de chaves. “Eduardo, aqui está o DVD e a chave. Precisa da minha ajuda?”, diz ela, com um ar de quem acha que eu não sou capaz de instalar um DVD. “Deixa comigo, Amanda”, respondo com um ar confiante. Aproximo-me da porta. Olho o cadeado que tranca a porta a grade e protege a porta de latão. A marca é Gold. Procuro entre as chaves do molho uma que tenha a mesma marca. Para minha surpresa, há pelo menos unas 12 com esta marca (!!!!). A saída é testar uma a uma. Coloco o DVD (dentro da caixa, obviamente) no chão e começo a testar as chaves. Texto todas, mas nenhuma delas é capaz de abrir o cadeado. “Não é possível!”, digo a mim mesmo, informado. Teimoso que só eu, tento abrir o maldito cadeado com cada uma das chaves do molho, mas novamente minhas tentativas são frustradas. “É, não vai ter jeito; vou ter que chamar a Amanda.” Grito o nome dela. Mesmo do outro lado do pavilhão de salas de aula, ela ouve e começa a caminhar em minha direção com um sorriso e um ar de quem quer dizer: “Ah, se não fosse eu nesta escola...”. Então eu lhe digo: “Eita, se não for você nesta escola... Nenhuma das chaves serviu!”. Ela pega o molho de chaves e segue em direção à porta que eu estava tentando abrir. Eu sigo atrás dela. De repente, percebo que eu estou parado diante daquela maldita porta e a Amanda está parada diante de uma outra, uns 5 m à frente. Já entre gargalhadas, vejo-a colocando a chave no cadeado e abrindo-o na primeira tentativa. Ela estranha minha reação, nem tampouco entende o motivo de tantos risos. “Do que está rindo, Eduardo?”, ao que respondo: “Nada não, Amanda! É que eu estava tentando abrir a porta da cantina...”

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O amor é contagioso

Uma das experiências mais gratificantes que tenho vivido como professor é dar aulas no curso supletivo. O curso, oferecido no período noturno, tem alunos com um perfil diametralmente oposto ao dos alunos do período matutino. Ao invés de jovens cheios de jovens que desperdiçam seus tempos e energias com relacionamentos casuais e vazios, bebidas e drogas, os alunos do curso supletivo são adultos em sua maioria. Todos trabalham, e ao contrário dos jovens, sabem o quanto o estudo faz falta na vida, por isso são dedicados e atenciosos. Entretanto, ao contrário da imagem que todos têm, os alunos do curso supletivo estão há milhas de distância da velhice. São pessoas maduras, sim, porém a jovialidade de seus espíritos chega a encher os olhos. Para minha surpresa, algumas vezes chego em sala de aula e eles pedem que eu conte “histórias”. As tais histórias são os “causos” de minha vida pessoal, que sempre trazem uma mensagem de motivação. Obviamente, estas história são sempre recheadas de humor, o que faz com que muitos me tenham como “o professor das piadas”. Mas esses alunos têm suas próprias histórias de vida. São histórias de vidas cheias de dificuldades e desafios, perto das quais as minhas poucas experiências de vida pouco significam. Certo dia, ao escrever no canto da lousa uma frase de um poema que escrevi para a Débora – “a razão de meus atos se perde quando ganho teus braços” – os alunos de uma turma de supletivo ficaram curiosos para saber sobre minha vida afetiva. Tive então que responder a perguntas como “Você é casado?”, “Há quanto tempo namora?”, “Vai casar quando?”. Ora, você que sempre lê as minhas “Narrativas” sabe que minha vida é um livro aberto, e eu me orgulho muito de não ter que esconder sujeita debaixo do tapete, e isso vale em qualquer lugar, inclusive em sala de aula. Pois bem. Enquanto eu fui narrando minhas poucas paixões de adolescente, e a minha intensa paixão pela Débora, percebi um brilho diferente nos olhos de alguns alunos, em particular de dois deles. Havia uma aluna que, com o cotovelo apoiado sobre a carteira e segurando o rosto, olhava-me com um olhar distante. Aquela moça, que aparenta ter entre 25 e 30 anos, parecia identificar-se naquelas minhas palavras. Era como se ela ainda nutrisse o sonho adolescente de encontrar um “príncipe encantado”, que virá buscá-la em uma carruagem e a tratará como uma princesa. Havia um outro aluno, este já com mais de 40 anos, cujos olhos estavam rasos de lágrimas. Sua expressão acusava sua emoção ao ouvir aquelas minhas palavras, talvez compartilhando da mesma dor que eu sentia convivendo com a solidão da adolescência. Após o término da história, peguei o giz e escrevi na lousa o conteúdo programado para aquela aula. Quase no final da aula, o aluno a que me referi chamou-me em sua carteira. Quando lá cheguei, ele abriu um caderno de desenho. Havia um lindo desenho. Era o desenho de uma moça de cabelos longos, alegre e sorridente. Com o caderno na mão, ele olhava para o desenho e dizia: “Ela não é linda, professor?” A moça, que prontamente identifiquei através do desenho, era aquela aluna que estava à espera de seu “príncipe encantado”. “Este desenho está perfeito!”, exclamei. A aluna, que serviu de modelo para o desenho – mas que, por incrível que pareça, não entendeu que a moça no desenho era ela – disse inocentemente: “Nossa, professor, viu só que bonitinho? Ele está apaixonado!” Às vezes a metade que você tanto procura está ao seu lado. Basta manter os olhos abertos para vê-la e o coração aberto para aceitá-la.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Diário de um professor de ensino médio - parte 2

8h44min. Estou na porta da sala de uma turma de 3ª. Série do ensino médio. Há poucos alunos na sala. Estou aguardando o retorno deles, já que a maioria está na outra exremidade do pavilhão. Aliás, praticamente todos os alunos d aescola estão lá, ouriçados, “apreciando” alguma briga ou confusão. “Fessor, bateram no Ronaldo!”. Ao perguntar o motivo da briga, não me surpreendo com a resposta. “Mexeram com a mina dele, fessor. Ele saiu para o braço e o Babão bateu nele”. Recordo-me então que o Ronaldo deixara recentemente alguns recados no meu orkut, sempre associados com o nome de uma moça – uma tal Mariana. Adentro a sala e fecho a porta. Abro a caderneta e anoto presença apenas para aqueles alunos que estão na sala. Os que estão lá fora, assistindo ao espetáculo de violência, estão ausentes. Eu os advferti na última aula e pedi para corrigirem este péssimo costume. Como sempre, eles ouviram mas não escutaram. Quando entram na sala e eu lhes comunico que estão com falta, nem retrucar eles retrucam. “Não dá nada, não”, devem estar pensando eles. Para eles, nada “dá em alguma coisa”, pois eles não se importam com nada. Resta saber até quando Deus me dará forças para continuar me importando com eles...

Diário de um professor de ensino médio

7h46min. Estou em uma sala do colégio, mais precisamente em uma turma de 1ª. Série do ensino médio. No nosso último encontro, estudamos as famílias representativas da tabela periódica. Combinamos que hoje seria a prova. Uma prova oral, simples e rápida. Mas ninguém estudou. Alguns dizem que não se lembraram, outros assumem que não quiseram estudar. Como haverá outra aula ainda hoje, às 9h50min, ofereço-lhes esta primeira aula para estudar e aviso que a prova será após o intervalo. Fico então olhando o que eles vão fazer. Alguns alunos abrem seus cadernos e começam a ler, mas logo desistem, enquanto outros sequer tentam. É como se não dessem a mínima para o que pode acontecer caso não sejam aprovados ao final do ano. Uma das alunas senta-se ao lado de uma amiga e contra sobre a briga que teve com o namorado no fim de semana. Uma outra olha um livro sobre sonhos, pois está curiosa para saber o significado do sonho que teve esta noite. Uma outra, no fundo da sala, está debruçada sobre a carteira. Disse que ficou até altas na Internet. Um outro aluno, que raramente aparece, limita-se a “zuar” alguns colegas. Este é o cenário que se apresenta aos meus olhos. Um cenário muito triste e desolador: adolescentes desinteressados por tudo o que possa exigir algum esforço da parte deles. Estes jovens parecem pouco preocupados com o futuro. Às vezes tenho a impressão de que eles não acreditam em seus futuros, como se fossem morrer ao final de cada dia. Contudo, mesmo que amanhã acordem fortes e sadios, é como se estivessem “vegetando”, pois em nada terão evoluído. Tudo permanecerá como está agora. Todos continuarão vítimas da sociedade que os marginalizou e não ofereceu perspectivas de um futuro melhor. São vítimas de famílias desmanteladas, filhos de pais embriagados e egoístas e de mulheres que não souberam escolher os pais para seus filhos, ou que não foram fortes e responsáveis o suficiente para assegurar-lhes uma família de verdade. Eu, que tive uma família perfeita e fui criado com muito amor, não sei o que dizer a eles, pois não sei qual é a extensão da dor que estão sentindo. Apenas olho e espero o tempo passar, como se a cada segundo uma punhalada transpassasse meu coração. Meu espírito está triste, eu me sinto derrotado. A diferença entre eles e eu é que, por acreditar no futuro, amanhã acordarei renovado.

domingo, 9 de setembro de 2007

Feriado prolongado, prelúdio de solidão

0h15min. Já estava desligando o computador quando, ao olhar para este monitor, resolvi escrever algumas linhas sobre o que ocorreu nos últimos cinco dias de minha vida. Não há nada de extraordinário ou novo pra contar, mas há sempre uma forma diferente de se olhar velhas coisas. 6 de setembro. Tentei voltar um pouco mais cedo da universidade, com o intuito de nadar e, assim, aliviar minhas dores nas costas. Quando cheguei em casa, porém, encontro o portão fechado por dentro. Como dizem, “rolou um stress”, pois aquilo significaria que eu não chegaria a tempo para a natação. Vi-me então forçado a pular o muro de minha própria casa e abrir o portão pelo lado de dentro. Ao chegar na academia, para meu desapontamento, vi que estava vazia. Ocorreu um vazamento em um cano e o conserto só ocorrerá na próxima segunda-feira... À noite não havia alunos no colégio. Enquanto esperava o tempo passar, conversava com a Jacira, nossa vice-diretora. O prof. Vanderlei apareceu e conversou conosco por alguns minutos. Algum tempo depois, a Jacira sentiu falta de um de seus sapatos. “Vanderlei, seu filho da mãe!” Com o pé no chão, a Jacira sai em busca do Vanderlei e de seu sapato. Uma cena que me causou risos, pois fez lembrar-me a cena que presenciei anos atrás no almoxarifado da usina. 7 de setembro. Acordo muito tarde. Eu deveria ter ido ao colégio para cumprir horário, mas chego quando todos já estão de saída... Papai e mamãe não estão em casa. O dia será bem triste, pois sem eles esta casa fica muito vazia. Sinto-me só nestes dias. Ainda bem que almocei na casa da vovó Maria e encontrei a Débora à noite. Assistimos “Efeito borboleta” e ficamos pensando sobre como o destino foi bom em nos ter colocado um no caminho do outro. À noite, quando voltei para casa, recebi um telefone da Mariane, afilhada do papai e da mamãe. Aos prantos, ela comunicou que seu irmão foi assassinado a pontapés pelos policiais aqui da cidade. 8 de setembro. Débora e eu saímos cedo para ver como está a construção da nossa casa. Já estamos colocando o piso e a casa, enfim, começa a ganhar suas formas finais. Descemos até o centro da cidade e lá comemos um lanche. Foi o nosso almoço. Durmi o restante da tarde até o momento de ir jogar futebol. “Faminto” por futebol, joguei em dois horários: das 16h30min às 17h30min e das 18h às 17h. No primeiro horário, embora estivesse jogando em um time pouco competitivo, conseguimos permanecer três partidas consecutivas. No segundo horário, mesmo com o pé machucado, consegui marcar um “gol de placa”, característico de jogadores raçudos (porém pouco técnicos...). Todos os companheiros de time vieram cumprimentar-me. À noite Débora e eu comemos uma deliciosa pizza de lombo canadense com bordas de catupiry. 9 de setembro. Acordei às 8h45min. Ouvi a bola batendo aqui no clube em frente à minha casa, mas prefiro resistir e dar seguimento àquilo que deveria ter feito no feriado e no sábado, mas que não consegui. À tarde, Débora e eu fomos ao shopping para assistir ao filme “Licença para casar”, com Robin Williams. O filme é muito bom e foi perfeito para a ocasião, já que no próximo fim de semana VAMOS PARTICIPAR DO CURSO DE NOIVOS. “Eita, óia o casório cheganu aí, sô!”

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Como conheci a profa. Helena Ferraz

22 Outubro de 2004. São 13h25min. Estou na biblioteca do Instituto de Química da USP. Acabo de almoçar com o prof. Luiz Fernando, que me convidou para proferir uma palestra para o pessoal de seu laboratório. Há uma ansiedade enorme e incômoda tomando conta de mim. Pela janela só consigo ver o céu cinzento, que acaba por entristecer-me ainda mais. Estou longe de casa e não sei exatamente o que me moveu a aceitar a “empreitada” de apresentar um seminário no IQ da USP. Talvez fosse a curiosidade de conhecer este ambiente, ou o orgulho de dizer que proferi um seminário aqui. O fato é que agora, faltando cerca de 1h para iniciar a apresentação, eu me encontro quase em pânico, sem sequer ter apresentado uma única prévia deste seminário... 14h28min Estou na sala onde o seminário será apresentado. Há cerca de 20 pessoas na sala, dentre elas 3 professores: o prof. Massuo, um verdadeiro ícone brasileiro na área de Química de Produtos Naturais; o prof. Luis Fernando Silva Júnior, que apesar de jovem já é considerado um dos expoentes na na área de Síntese Orgânica em nosso país; e uma outra professora que eu não conheço. Aparentando ter mais de 60 anos, esta professora chama-me a atenção pela forma carinhosa e respeitosa que é tratada pelos colegas. Deduzo que ela seja uma das líderes do departamento. Ao vê-la na porta da sala, apoiada a uma bengala, sigo em direção a ela, e humildemente estendo a mão. “Muito prazer, Miller. Sou Helena Ferraz”. Aquele aperto de mão acolhedor traz-me segurança. Era como se através dele, e daquele olhar firme, aquela senhora quisesse dizer: “Boa sorte no seminário, meu filho”. Percebo então que a professora senta-se em uma das primeiras carteiras. Por incrível que pareça, já não me sinto mais nervoso. 14h32min. O seminário começa. Falo com uma tranqüilidade que para mim é inesperada. Afinal, há menos de meia hora atrás eu me encontrava praticamente em pânico. O que terá me acalmado? Teria sido o aperto de mão da prof. Helena? Enquanto falo, olho para os espectadores. Por alguns instantes, tenho a impressão que o prof. Massuo está cochilando. Já o prof. Luiz mantém os olhos bem abertos, aparentemente interessado no conteúdo da palestra. Quanto à profa. Helena, esta debruça-se sobre a carteira ao lado, demonstrando um grande interesse no que estou apresentando. 15h18min. O seminário termina. Como eu presumi, a profa. Helena toma a palavra e, olhando para trás, diz com voz firme: “Perguntas, por favor.” Algumas surgem, mas nenhuma delas parte dos alunos. O prof. Massuo pergunta sobre as diferenças entre a ionização por elétrons e a ionização por electrospray. O prof. Luiz Fernando apenas ressalta que gostou muito do seminário, e que não cometi erros conceituais. Tendo a palavra de volta para si, a professora Helena respira e inicia seus comentários. “Miller, vou ser sincera com você....” -e faz uma pausa de uns 2 ou 3 segundos que me dão calafrios! – “fazia muito tempo que eu não assistia a um seminário em que eu ficasse o tempo inteiro acordada. Você está de parabéns pelo seu trabalho e principalmente pela sua didática.” 17h. Estou ao lado da profa. Helena e do prof. Luiz Fernando. Eles me perguntam se eu pernoitarei aqui em São Paulo. Eu digo que prefiro voltar à noite, de ônibus, pois não gosto de ficar longe de casa. A profa. Helena então chama o prof. Luiz em particular e começam a falar algo baixinho. Parece que estão decidindo o que vão fazer. “Miller, nós vamos chamar um táxi e ele te levará até a rodoviária. De lá você poderá retornar a Ribeirão Preto. O táxi é por nossa conta.”, diz ela. Abro um largo sorriso, em sinal de agradecimento. Aperto a mão da profa. Helena, desta vez agradecendo-lhe pela recepção, pela oportunidade e, principalmente, pela forma como me tratou. Entro no táxi, na esperança de voltar a vê-la algum dia, talvez como membro de minha banca de defesa de doutorado. 23h. O Betão vem buscar-me na rodoviária. Parece curioso para saber do seminário. Afinal, foi ele quem havia me indicado para o prof. Luiz Fernando. Conto-lhe então os detalhes da apresentação e pergunto sobre a profa. Helena. “Miller, a Helena é uma das maiores professoras da área de Síntese Orgânica do Brasil. É uma das mulheres que mais sabe Química Orgânica neste país”. Enquanto ele vai narrando o extenso currículo da profa. Helena, eu fixo meu olhar em algum ponto perdido no chão. Fico lembrando da humildade daquela senhora e da forma respeitosa como me tratou. Dou então um sorriso, daqueles que procuram disfarçar os olhos rasos em lágrimas. 03 de setembro de 2008. Abro o e-mail e vejo uma mensagem: “Missa Helena Ferraz.” A profa. Helena partiu e eu não tive a oportunidade de reencontrá-la para agradecer-lhe pela sua rápida, porém importante participação em um momento crítico de minha vida. Deixo expresso nestas linhas o meu eterno agradecimento a ela, pelo exemplo de competência, humanismo e de humildade que foi para mim.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Marcelo - parte 3

Quarta-feira. Estou andando apressado pelos corredores da universidade. Sigo em direção ao ginásio poliesportivo, onde será realizada a cerimônia de formatura dos formandos em Controle de Qualidade em Alimentos. É uma noite muito especial para mim, pois serei homenageado pela primeira turma para a qual dei aulas de Química Orgânica. Ando a passos largos. Quando estou passando em frente ao bloco lilás, onde os alunos do curso de Química assistem aula, sou interrompido pelo Marcelo. Com a calma de sempre, ele me pergunta: “Professor, o senhor sabe onde vai ser a prova?” Por incrível que pareça, eu não sei responder. Afinal, não serei eu quem vai aplicar a prova. Já havia conversado com o Marco Antônio, o coordenador do curso, e explicado que não poderia aplicá-la por causa da formatura. “Marcelo, procure o Verzola na sala de professores. Ele sabe onde será a prova.” E continuando: “Olha, eu quero muito que você vá bem nesta prova. Eu estou lhe oferecendo uma terceira chance porque você é um aluno muito esforçado. Mas não se esqueça: esta será a sua última chance. Nem se eu quiser, não poderei aplicar-lhe outra prova, pois tenho que entregar as notas.” Sempre calmo, aquele grande (no sentido literal da palavra!) homem limita-se a dizer: “Professor, eu não vou decepcionar o senhor”. E dando-lhe um tapa nos ombros, digo-lhe: “Eu sei que não vai, Marcelo. Boa prova!” Dito isso, sigo em direção ao estádio, torcendo para que o Marcelo consiga a nota que precise na prova. Quinta-feira. São 1h da manhã. Estou exausto! Corrigi um enorme pacote de provas. Falta apenas uma, que fiz questão de deixar por último. É a prova do Marcelo. “Caso ele não consiga a nota, pelo menos não corrigirei as outras com peso na consciência”. Porém, para minha surpresa, quando começo a corrigir a prova, percebo que o Marcelo realmente se esforçou bastante. Ao final, sua nota foi 7,5. Ele precisava de 8,0. Penso por uns instantes. “Mas ele chegou tão perto. Não vou deixar que ele morra na praia!” Aproximo então a nota para 8,0 e vou dormir, feliz e em paz com a minha consciência. Preciso descansar. Amanhã haverá churrasco do pessoal do laboratório lá em Ribeirão Preto. Sexta-feira. São 10h da manhã. Estou em plena biblioteca da USP, à procura de alguns artigos. O telefone celular toca. É a mamãe. “Filho, você comprou alguma coisa de Franca?”, pergunta ela. “Não, mamãe, eu não comprei nada, não”, respondo, muito surpreso. “Pois é... Chegou uma encomenda pra você, de Franca. Posso abrir?” Ao ouvir o meu assustado “sim”, ela desliga o telefone e combina de retornar a ligação assim que descobrir o que é a tal encomenda.” Passados alguns minutos, o telefone toca novamente. É ela. “Filho, é um rádio toca-fitas e toca-CD! E tem até controle remoto!” Encabulado, digo a ela que não faço a mínima idéia de quem podia ter me enviado aquele rádio e por qual motivo o havia feito. “Filho, tem um bilhete junto com o rádio”, diz a mamãe, prestes a matar-me de curiosidade pelo telefone. “Então leia-o, mamãe!” Então ela abre o envelope, onde estão os dizeres “Ao ilustríssimo mestre Miller (Química Orgânica).” E abrindo-o, encontra um cartão em cuja capa está escrito “A fé remove montanhas”. A mamãe, enfim, começa ler o conteúdo do cartão. “Professor Miller, foi para mim uma grande alegria tê-lo como educador. Sei que deveria ter me esforçado mais, mas saiba que na última prova (sub) com sua generosidade de m e dar uma última chance para estudar mais ainda eu compreendi a matéria com a ajuda de um “anjo” que Deus me enviou, chamado Cristiele (3º. B). Sei que o mairo presente que um aluno pode dar para um professsor é aprender na íntegra os seus ensinamentos. Posso não ter conseguido a nota que precisava, mas independente disso, sou eternamente grato pela sua bondade e respeito por mim. Te desejo felicidades neste Natal e no ano seguinte. Assim como no seu futuro como educador. Obrigado por tudo! Seu aluno Marcelo (3º. A)”.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

O sumiço

6h20min. Acordo com o despertador do celular. Hoje é segunda-feira, preciso apressar-me. Tenho aulas de manhã e não posso chegar atrasado, pois sou o professor. Há, no entanto, um seminário que preciso preparar para apresentar na quarta-feira, na USP de Ribeirão Preto. Fui convidado por um professor e não posso fazer feio. Ligo então para o colégio e digo que não vou poder ir. Feito isso, sigo para o computador. Começo a preparar os slides. Quando termino de preparar o segundo slide do dia, a campainha toca. É o vovô Mila. Ele veio para regar as plantas. Enquanto o avisto pela janela do meu quarto a aguar as plantas, sinto vontade de tossir. O “coff cofff” da tosse é seguido por um “AaaiaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiI!”. Sinto uma fisgada na coluna. “Maldito bico-de-papagaio”, penso. Assim que o vovô termina e se despede, visto a roupa e sigo para a academia. Tentarei nadar e aliviar esta dor. 10h45min. Chego na academia. Corro uns minutinhos, depois faço uns breves exercícios. Nada de pegar peso. A intenção é só melhorar o preparo físico. Afinal, já tenho mais de três décadas de vida. Sigo depois para a piscina. Atravesso a piscina algumas vezes, mas a dor não alivia. Vejo então que o professor está só aguardando para ir almoçar. Desisto, enfim, de nadar e volto para casa. A vovó, a esta altura, já deve estar esperando com a comida na mesa. “Vou de bicicleta. Talvez minha coluna melhore”. 12h45min. Acabo de almoçar. Estou andando de bicicleta, em direção à casa que estou construindo. Trafego pela avenida mais movimentada da cidade (ou seria a única?). De repente, sinto meu sapato prender na catraca. Ao prever meu desequilíbrio e o perigo que estou correndo, freio. A bicicleta pára e tente a tombar para um dos lados. Como de costume, tombo para o lado direito... mas meu pé está preso ao pedal! Conclusão: eu vou de encontro ao chão! 2h35min. Estou pronto para ir para a faculdade. Antes, porém, preciso trocar o óleo do carro e negociar os pneus, que também precisam ser trocados. Enquanto visto a camisa, sinto um barulho estranho. Parece um estrondo de portas batendo ou sendo chutadas. Mas estou sozinho em casa... Paro por um minuto. Respiro fundo. “Não tenho medo. Tenho Deus no coração”, penso comigo, considerando a possibilidade de tratar-se de alguma “assombração”. “Ora, o que eles poderiam fazer de mal a mim?”, penso. Levo então as bolsas para o carro e fecho a porta do quarto e da cozinha. Quando vou dar partida no carro... cadê a chave??? 16h45min. Exausto, Desisto de procurar a chave. Vou ver se encontro as originais para ver se faço uma cópia. Apesar da decepção, não estou nervoso. Penso que se isso aconteceu, provavelmente Deus não quis que eu viajasse à tarde, pois algum acidente teria acontecido. Isso é o que me consola. De qualquer forma, o seminário é depois de amanhã... Meu Deus!Assim foi minha segunda-feira, muito proveitosa, com dois slides preparados...
E assim foi minha segunda-feira. Um dia tão perdido quanto a minha chave do carro.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Michael Jackson, o mestre


Segunda-feira, 19h35min. Acabo de escrever um resumo do conteúdo no quadro negro. Enquanto os alunos copiam, sigo em direção ao fundo da sala, em busca de uma cadeira para sentar-me. Trata-se de um ritual que os alunos desta sala conhecem muito bem. Por outro lado, eu bem sei que quando eu caminho entre as cadeiras, sempre os ouço zombarem uns dos outros. Em se tratando de uma turma de 2º. Ano de graduação em Engenharia Química, é natural que os homens sejam em maior número. As poucas alunas concentram-se no lado esquerdo da sala. Os rapazes ficam do lado direito. E é pra lá que eu sigo, já aguardando alguma “novidade quente” que me faça rir. Quando passo em frente ao William, lembro-me de um recado que ele deixou no orkut, solicitando uma piada do Michael Jackson. Há uma carteira vaga ao lado dele. Os alunos estão todos em silêncio, copiando. Paro ao lado dele e pergunto: “William, que história é essa de Michael Jackson?” A sala desaba em risos. “Ah, Miller, é o mestre!”, diz ele, tentando manter-se sério. “Meu Deus! O mestre está em todas!”, penso comigo. O mestre, cujo nome é Mateus, é aquele aluno a que me referi aqui anteriormente. “William, essa é quente! Vai contando aí!”, digo-lhe, já entre risos. “Bom, Miller...” – começa ele – “é o seguinte: tudo começou na semana passada, na quarta-feira, quando o Mestre estava sentado atrás do Tourinho”. Olho então para o tal “Tourinho”, cujo nome é Diego. Trata-se de um aluno de baixa estatura, que aparenta ter bem menos que a idade dele (eu diria que uns 12 ou 13 anos!!!). “Que nada, Miller, é mentira!”, defende-se ele, interrompendo o William. A sala continua copiando o texto que está no quadro negro, mas agora entre risos. “Miller, do nada, o mestre olhou para a nuca do Tourinho, deu uma coçada no cavanhaque e foi passar o cavanhaque na nuca dele...”, continua narrando o William. “Mas o Tourinho se assustou e virou para trás. Deve ter sentido o fungado do mestre se aproximando, então arrepiou-se e virou o pescoço. Aí o mestre acabou beijando o rosto dele!” Olho para a sala. Ninguém consegue ficar sério! Meu abdômen já está doendo de tanto rir. O Guilherme dispara: “Olhaí, Miller! O mestre é o novo Michael Jackson!”. O Nuliano arremata: “O mestre é o Michael Jackson, o Diego é o Macaulay Culkin!”: Eis que o mestre começa sua defesa. “Não, Miller, eu não beijei, não. Eu só passei o cavanhaque na nuca dele, então ele virou o pescoço e aí a coisa ficou meio estranha”. “Ah, então quer dizer que você passou o cavanhaque no pescoço dele?” Ele ri, a sala toda solta gargalhadas. Ele então olha para o “Tourinho” e diz: “Olha, eu acho melhor você se defender, porque quem ta ficando com fama de ‘deflorado’ aqui é você!” Terça-feira, 15h. Abro o e-mail. Há uma foto do "mestre" Jackson e de seu “tourinho” Culkin. Cinco minutos depois minha mãe aparece, preocupada por eu não conseguir parar de rir...

domingo, 12 de agosto de 2007

Marcelo - parte 2

Paro por um minuto ao lado do Marcelo. Vejo-me olhando com os olhos verdes e sua careca reluzente. Ao contrário de muitos alunos mais jovens que ele, que costumam pedir ajuda, o Marcelo não diz nada. Ele parece aceitar o resultado sem lutar. Parece rendido, como se não houvesse nada mais a ser feito. Olho para os alunos que ainda restam na sala. São alunos muito mais jovens, muitos dos quais têm disponibilidade de tempo para estudar, mas não estudam. Alguns destes alunos parecem não ter para comigo o mesmo respeito que o Marcelo tem, mas no entanto, saíram-se bem e não precisam mais de nota. Olho então para o Marcelo. Levanto a prova com as duas mãos, uma em cada ponta, e puxo uma das pontas para baixo. A prova se rasga ao meio. “Marcelo, vamos fazer o seguinte: eu vou lhe dar uma segunda chance para fazer esta prova. Na segunda-feira eu lhe aplicarei a mesma prova. Estude o máximo que puder. Será a sua grande chance.” O Marcelo parece recuperar as forças com esta minha iniciativa. Ele respira fundo e diz: “Pode deixar, professor. Estudarei este final de semana e na segunda-feira farei a prova novamente.” Segunda-feira. Estou aplicando prova em uma das salas de 2º. ano do curso de Química Industrial. O Marcelo está fazendo prova também. Desde que lhe entreguei a prova, ele mantém os olhos fixos, perdidos em algum lugar. Até agora não rabiscou uma palavra sequer, além de seu nome. Aproximo-me dele. “Marcelo, você não estudou?”. “Olha, professor, eu vou ser sincero: eu bem que tentei, mas a matéria tá muito difícil. Eu não consigo entender.” E finaliza com um “Sinto muito professor, e obrigado pela oportunidade”. Dito isso, ele estende as mãos e me entrega a prova. Com um ar de derrotado, ele se levanta e se dirige à porta, sem dizer nada. Enquanto isso, eu me lembro novamente da forma respeitosa como aquele enorme rapaz me tratou durante o ano. “Marcelo, vamos fazer uma coisa: você retorna na quarta-feira e tenta mais uma vez. Será sua última chance. Eu quero que você consiga! E eu sei que você consegue!” Um pouco mais animado, ele sai pela porta, enquanto eu fico na expectativa pelo terceiro e derradeiro “assalto” desta luta...
(to be continued...)

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Marcelo - parte 1

2004. Este é meu primeiro ano como professor de Química Orgânica. Assumi as aulas que eram do Vítor, que foi meu professor na graduação, portanto a responsabilidade é grande. Ao mesmo tempo que me sinto privilegiado por tê-las, sinto-me mal por estar no lugar dele. Eu gostaria que ele estivesse ainda aqui conosco, mas ele foi dispensado por estar desmotivado e por ter sempre problemas na forma com lidava com os alunos. Bem, essas foram as alegações da diretoria do curso. Dou aulas de Química Orgânica I e Química Orgânica II. Duas das turmas que estão tendo aula comigo já tiveram aula com o outro professor e, assim, a comparação é inevitável. Logicamente, e talvez por questões óbvias de interesse, sinto que alguns alunos “puxam a sardinha” para o meu lado na forma de tratar-me. Entretanto, há um que me chama a atenção, não apenas pelo tamanho, mas pela forma respeitosa com que me trata. Seu nome é Marcelo. Seu físico chama a atenção por causa da enorme quantidade de gordura na região abdominal. Têm os olhos claros e uma careca já em estado avançado. A despeito da calvície e da obesidade, o Marcelo transparece ser uma boa pessoa. Sempre me chama de “professor”, e quando vou fazer a correção dos exercícios, ele é um dos primeiros a cobrar o silêncio dos colegas de turma. Pelo que percebo, sua idade é superior à dos demais alunos, porém perguntar-lhe a idade é algo que não me cabe na condição de professor. Hoje é dia de prova substitutiva do 2º. Semestre. Esta é a última oportunidade que os alunos têm. Dentre eles, está o Marcelo. Faltando 5 min para o término da prova, olho de longe para a prova do Marcelo. Está praticamente em branco. Para minha surpresa, ele se encontra calmo, sem demonstrar desespero. Aproximo-me dele. “E aí, Marcelo, como está indo a prova?” “Ah, professor, tá indo tranqüilo.” Ao ver a prova dele praticamente em branco, não me contenho: “Marcelo, qual é a nota que você precisa?” “Preciso só de 5,0, professor.” Fico surpreso com a resposta dele. “Mas só?”, reforço a pergunta. “Sim, pois somando os pontos da parte experimental, dá o 8,0 que eu preciso”. “Deus do céu, Marcelo! Na prova substitutiva não entra os 3,0 da Ana Cláudia, não! Você vai ter que tirar 8,0 ... na raça!" Ele me olha com uma cara de desapontado. “Ah, é? Vixi...” Pego a prova dele nas mãos. Mesmo que eu quisesse ajudá-lo, não teria como, pois a prova dele não soma sequer os 5,0 pontos que ele pensava quei fosse suficiente. Em outras palavras, ele vai perder o ano letivo e ficar de dependência. E agora, o que fazer?

sábado, 4 de agosto de 2007

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Coluna - um ano depois!

6h15min. O celular toca. É segunda-feira. As aulas recomeçam hoje. Preciso levantar-me. Faço o sinal da cruz e peço a Deus que me dê um bom dia. Suplico forças para enfentar este dia, que é o mais "puxado" da semana. Viro-me de lado, desço as pernas devagar. Não quero fazer nenhum movimento brusco, pois pode ser que minha coluna esteja prestes a "travar", como aconteceu ontem. Sigo para o banheiro. Lavo o rosto e sigo para a cozinha. Há um copo de café com leite e açúcar à minha espera. Eu o devo rapidamente. Não quero chegar atrasado.
Escovo os dentes e sigo para o meu quarto. Visto a calça, a camiseta e a meia. Falta agora colocar o tênis. Abaixo-me vagarosamente, na esperança de ser o mais cauteloso possível, mas.... "Aaaaaaaaaaaaaaaaai!" Sinto os nervos repuxarem. A dor é muito intensa. Faço um alongamento e consigo ludibriá-la. Mal sei que isso é apenas momentâneo....
Sigo para o carro. Estou pronto para sair. Abro a porta e me sento. Ao encostar a coluna no banco, sinto novamente uma "Pinçada", desta vez muito mais dolorisa. "Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai! Deus do céu, que dor!" Volto então para o meu quarto. Retiro as cintas abdominais (que desta vez de nada serviram). Pego o telefone e ligo para a escola, avisando que não poderei ir. Deito-me na cama. Aqui ficarei até melhorar. Descanso? Não, definitivamente não. Ah, como eu gostaria de estar trabalhando neste momento...
Em instantes como esse fica claro que não se deve reclamar quando se está exausto por causa do trabalho. Exaustão não é doença. Exaustão não traz dor. Pelo menos não uma dor tão terrível como esta que estou sentindo agora...

domingo, 22 de julho de 2007

Rota de colisão - parte 2

Ao ouvir o barulho da colisão do carro com a moto, e ao ver o motoqueiro cair, sumindo do meu campo de visão (terá ele ido para debaixo do carro?), entro em pânico. Minha primeira reação é levar as duas mãos à cabeça, em sinal de desespero, e a esmurrar a direção. Era como se dissesse: “Como sou péssimo motorista!” Desço do carro, tenso, procurando pelo motoqueiro. Ele está se levantando. Não parece nervoso. Ao contrário: está um pouco atordoado. Olho para ele. É um jovem rapaz, cuja idade não deve ultrapassar os 21 ou 22 anos. “Você se machucou? Ta tudo bem com você?” O rapaz, já de pé, responde: “Estou bem, não se preocupe”. “Você não quer ir a um hospital? Sua perna não ta doendo?”, insisto. “Não, pode ficar sossegado. Ta tudo certo. Só precisamos ver a moto. É do meu patrão” Vejo então o logotipo “Liberdade Auto Peças”. Ele trabalha para uma firma de peças para caminhões. Quando olho para ele, percebo que está preocupado com a moto. “Você trabalha no Liberdade? Vamos lá, eu converso com o seu patrão e combino o conserto da moto com ele.” O rapaz então se levanta, dá partida em sua moto e segue pela rua São Paulo, porém em baixa velocidade. Em poucos minutos chegamos ao nosso destino. Eu estou nervoso. Na verdade, estou chocado e impressionado com o acidente. Sigo até o balcão e cumprimento um dos donos, o Hélio, com quem estudei na adolescência. “Hélio, ocorreu um acidente e eu acabei colidindo com o seu funcionário. Felizmente nada aconteceu com ele, mas gostaria que você desse uma avaliada na moto pra gente ver o que é que precisa ser feito.” Ele segue até a moto, juntamente com o rapaz que estava conduzindo a moto no momento do acidente. O rapaz, como se tentasse me defender, disse: “Não aconteceu nada com a moto. Foi só o amortecedor. Essa pecinha aqui dá pra ‘desentortar’ e aqui na carenagem foi só um risco.” Ao ouvir as palavras do rapaz, o Hélio, que havia se abaixado para verificar de perto o prejuízo, se levanta e diz: “Não se preocupe. Foi só um amortecedor. Vá até a Motorlândia e vê quanto é, aí fica tudo certo.” Pergunto para o rapaz se ele quer ir até lá com o meu carro. Ele ri e, apontando com o dedo para a sua esquerda, diz: “A Motorlândia é aqui do lado.” Meio sem graça, e demonstrando ainda estar muito abalado com o que ocorreu, eu me levanto e sigo com ele. Ao saber do preço, retorno ao balcão e entrego o dinheiro ao Hélio. “Se você constatar algum outro problema por causa da colisão, por favor, entre em contato.” Ele aperta minha mão e sorri. “Fica tranqüilo.” Ao sair pela porta da loja, sinto uma mão tocar meu ombro. É o rapaz que estava dirigindo a moto. “Olha, me desculpa aí por alguma coisa, valeu?” Eu aperto a mão dele. “Meu amigo, eu é que deveria ter parado. O importante é que você não se feriu.” E apontando para o farol do carro e para o pára-lama amassado, digo-lhe: “Isso é lata velha. Dá pra gente consertar. O problema é se você tivesse se ferido. Isso não aconteceu, graças a Deus. De qualquer forma, procure dirigir com mais cautela também. Afinal, você estava em alta velocidade...” Entro no carro, ainda muito assustado. Dou partida, olho para todos os retrovisores e certifico-me de que não há nada de duas rodas trafegando por perto. Engato a primeira marcha, tiro o pé da embreagem. A vida continua. Ou melhor dizendo (e graças a Deus!), nossas vidas continuam.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Rota de colisão - parte 1

8h42min. Estou em meu quarto, tentando estudar. Sobre a mesa há um livro de Química Orgânica. Estou estudando Análise Configuracional, um dos temas que será exigido no concurso. Estou preocupado, porque a preparação das aulas não tem rendido como eu gostaria. Na verdade, estou apreensivo. Fico pensando nas horas que precisei dispor para negociar o piso para a casa que eu e a Débora estamos construindo. Penso ainda nas malditas cadernetas (ah, como eu as odeio!) que precisavam ser preenchidas e que me tomaram praticamente toda a primeira semana de julho. Realmente as coisas não estão indo muito bem. 8h54min. O telefone celular está tocando. É a moça da empresa com quem negociamos o piso. Ela está pedindo meus dados (CPF, RG, endereço etc.). Começo a fornecê-los, mas de repente dou-me conta de que não devo fornecer meus dados pelo telefone. “Olha, eu vou passar aí pra te levar esses dados, pode ser?” Ela se surpreende, mas responde que sim. Certo, ter que sair assim realmente me deixa muito irritado, mas é melhor que seja assim do que arriscar a ter meus dados nas mãos de uma estranha. 9h7min. Estou no balcão da firma, fornecendo as informações que a moça solicitou. A peleja não leva mais que 5min. De volta ao meu carro, olho para o céu. Está fechado, cheio de nuvens carregadas. As ruas da cidade estão molhadas pela chuva e o clima está frio. O dia não está dos mais alegres. “Já que estou aqui mesmo, vou dar uma esticada até a construção”, penso comigo mesmo. 9h16min. Estou em minha futura casa. Os pedreiros estão preparando para construírem a escada que liga a garagem até a varanda. Até que enfim! Há muito tempo venho contendo minha curiosidade para ver como ficará a escada. Em meio à minha satisfação, lembro-me que preciso voltar para casa e estudar. Volto então para o carro. Engato a primeira e paro por um minuto. Por qual caminho devo seguir? “Ah, vou descer por esta rua aqui mesmo. Hoje não vou descer pela rua São Paulo.”, decido, como se quisesse fazer o caminho mais rápido. 9h22min. Estou passando em frente aos chamados “predinhos”. À esquerda está a garagem da Transoper, uma empresa de ônibus que leva estudantes para Franca. Estou dando tapinhas ao volante, acompanhando o ritmo da música “On your side’, do TH Express. É uma música dance que fez muito sucesso em meados da década de 90. Chego na esquina da rua Sergipe. Como sempre costumo fazer, reduzo a velocidade, e ao ver que não há nenhum veículo se aproximando, piso no acelerador e continuo. Estou me aproximando da rua São Paulo. À esquerda avisto a casa verde que tanto nos inspirou para projetarmos nossa casa. “Nossa, minha casa vai acabar ficando mais bonita que essa aqui...” E sorrio. Já na esquina, olho para cima. Avisto um caminhão vindo em marcha lenta. Como eu havia feito na esquina anterior, começo a acelerar para passar por este cruzamento sem precisar parar. Eis que de trás do caminhão, fora do meu campo visual, vem uma moto, em alta velocidade. Ouço apenas o estrondo da colisão entre o pára-choque do carro e o meio da moto. Num piscar de olhos, o motoqueiro, caído, sume de meu campo de visão. "Meu Deus! O que foi que eu fiz?"
(to be continued...)

terça-feira, 17 de julho de 2007

Confuso e dividido

Para que a vida seja uma aventura, não é necessário pendurar-se em um elástico, a dezenas de metros de altura, ou praticar qualquer outro tipo de esporte radical. Basta apenas "sentir" cada momento e vivê-lo com intensidade. Ainda assim, passado algum tempo, tem-se a impressão de que aquele momento não foi bem aproveitado... No meu caso, não está sendo difícil concentrar-me nestas férias nem tampouco cutir este momento tão confuso. A construção de minha casa foi retomada e agora está em fase de acabamento. Como o próprio diz, o acabamento literalmente acaba com nossas energias, paciência e, sobretudo, com o dinheiro. Esgotado e cansado, vejo-me ainda aproximar-se o concurso que tanto esperava, sem ter estudado o que eu gostaria. Para completar a confusão, minha irmã e a Clarinha está nos visitando. A Clarinha está um grude comigo! Às vezes deixo de preparar minhas aulas para brincar com ela. Olho para ela como se fosse minha filha, então peso e escolho brincar com ela. Ela, por sua vez, diz que "o Dinho" é só dela... Ah, que saudade ela vai deixar quando voltar pra casa dela!