domingo, 14 de janeiro de 2007

Fragmentos de minha infância - parte 11

Agosto de 1979. Eu não sei dizer exatamente que horas são, pois tenho apenas três anos. Para mim, todas as horas são iguais depois que o sol se põe. Sei apenas que é noite. Agora, por exemplo, é noite. Papai, mamãe e eu estamos dormindo em nossa humilde casa. Nela não há forro nem tampouco piso. À noite, os morcegos ficam pendurados nas telhas. Às vezes o papai e a mamãe usam a vassoura para espantá-los. Ao invés de piso, o chão de nossa casa tem tijolos, mas a mamãe os mantêm cuidadosamente limpos, como se fossem piso de verdade. A porta aqui da sala chega a dar medo. Há um buraco enorme na parte de baixo, tão grande que eu acho que dá pra passar um cachorro pequeno por ela. No entanto, eu não tenho medo, pois sei que o papai está aqui para me proteger. Para conseguir água para beber e tomar banho, a mamãe usa a cisterna. Infelizmente eu ainda não tenho forças para ajudá-la. Sequer tamanho eu tenho para isso... Mas o que mais faz falta aqui em casa é a energia elétrica. Quando é noite, como agora, por exemplo, tudo fica escuro. As lamparinas e os lampiões a gás estão desligados. Eu estou acordado, com os olhos abertos, mas não vejo absolutamente nada. Ouço apenas o papai roncando, a mamãe se virando na cama e o tio Joaquim se ajeitando na cama do quarto onde a mamãe costuma. Sim, o tio Joaquim veio visitar-nos. Ele é marido da tia Alice, que é irmã do vovô Crotti. Em outras palavras, ele é praticamente meu “tio avô”. Gosto muito dele. Ele me dá muita atenção. Ele trouxe lá de São Joaquim um ursinho amarelinho de plástico que eu adoro! Eu gosto muito quando as pessoas vêm visitar-nos aqui em casa. Somos nós três... Às vezes sinto-me um pouco sozinho, como se ainda faltasse alguém na nossa família... Ainda de fraldas, para não sujar a cama caso eu tenha vontade de fazer xixi ou cocô, eu fico olhando para cima, sem ver nada. Apenas ouço a velha sintonia repetitiva: papai roncando, mamãe se virando, tio Joaquim se ajeitando. Eis que, de repente, ouço um estrondo na porta da sala e uma voz estranha:. “Haumhaumhaumhaum”. Eu nunca tinha ouvido uma voz daquelas! Não consigo entender nada do que aquela voz quer dizer! No entanto, eu me assusto e, obviamente, encho as calças de medo e começo a chorar. Aquela voz estranha e os batidos na porta, àquela hora da madrugada, também fazem com que a mamãe acorde assustada. Parece meio bêbada de sono. “Bem do céu, que barulho é esse?” O papai dá um salto da cama, como se tivesse em estado de alerta. Imediatamente ele pega sua espingarda, que ele chama de Vinchester, e segue em direção à porta. Ao sair à porta que separa o quarto da sala, ele encontra o tio Joaquim, já com o lampião na mão. “Tair, tem alguém batendo lá fora.”, diz ele, com um sotaque de descendente de italiano. Enquanto o papai e o tio Joaquim estão na sala, a mamãe vem ao meu socorro, para trocar-me as fraldas. Mal ela acaba de dobrar a fralda de pano, cuidadosamente, e a prende com um alfinete, o estranho lá fora volta a esmurrar a porta. Ao ouvir aquela voz esquisita, “haumhaumhaumhaum”, eu me assusto... e encho novamente as calças, assustado... “Calma, fi, não chora não. A mamãe tá aqui.”, diz a mamãe, tentando me acalmar. Lá na sala, o papai carrega sua espingarda e combina com o tio Joaquim uma forma de abrir a porta com segurança. “Tio, pode ser que ele esteja armado. Não dá pra saber. Vamos fazer assim: o senhor abre a porta, ilumina com o lampião e eu já saio com a espingarda apontada.”, diz o papai, em tom de segredo, para o tio Joaquim. Enquanto a mamãe retira a segunda fralda, cheia de cocô, e se prepara para dobrar a terceira fralda, aquele “haumhaumhaumhaum” e um outro murro na porta voltam a assustar-me, e eu, pela terceira vez, encho a fralda que está debaixo do meu bumbum, que sequer chegou a ser vestida em mim... Ao ouvir-me chorando, todo sujo de cocô, a mamãe grita. “Bem, pelo amor de Deus, dá um jeito aí! O Eduardo não pára de cagar de medo!” Sem esperar a mamãe terminar de falar, o tio Joaquim puxa a porta e o papai sai com a espingarda apontada para a cabeça do homem que estava batendo a porta. “Fala o que você quer, senão eu atiro!”, diz o papai, já com a ponta da espingarda encostada na testa dele. “haumhaumhaumhaum”, responde o rapaz, como se estivesse tentando se comunicar e não conseguisse. Então eu começo a chorar e borro de cocô (meu Deus do céu!) a quarta fralda da noite... O papai olha para o homem, que passa a mão na barriga e move as mãos em direção à boca, como se quisesse expressar que está com fome. Ele, abaixando a espingarda, diz sorrindo para o tio Joaquim. “Ah, tio, é só um surdo-mudo que está com fome”. O papai e o tio Joaquim se dirigem com o surdo-muro para a varanda, onde dão comida para ele e preparam um cantinho para que ele possa passar a noite ali. No quarto, a mamãe se vê desesperada à procura de mais uma fralda, na esperança de que o mudo não tente se expressar novamente com palavras. Caso contrário, acho que ela vai ter trabalho pelo resto da noite...
Outros fragmentos de minha infância:

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Memórias de um almoxarife - parte 7

Se eu tivesse inimigos, juro que não desejaria ao pior deles que estivesse na situação em que eu me encontro neste momento. Após ser pisoteado pelo Alceu na sala do Edvaldo por causa do maldito “braço da roda da enleiradeira DMB”, que o Jaime acabou dando entrada no estoque no código do “cubo da roda da enleiradeira DMB”, eu passei a odiar a tal enleiradeira e qualquer outro implemento que essa tal de DMB possa vir a fabricar. Eu me encontro em pânico neste momento. Olho para a prateleira, onde se encontra a maldita peça. Lembro-me que ela devia ter sido devolvida há uma semana, conforme o Alceu exigiu, e juro que tenho vontade de chorar... Ao adentrar no recebimento, o João (a quem apelidamos de Joãozinho ou “João três quartos”, por causa do tamanho dele...) me vê sentado na cadeira, desconsolado, e logo se aproxima para ver o que está acontecendo. Com a mão no meu ombro, ele diz: “Jeromão, o que é que está acontecendo? Vai, se abre pro seu amigo aqui”. Ao notar que está fazendo mais uma de suas brincadeiras, eu sorrio educadamente ao invés de mandá-lo para um lugar bem longe. Estou em uma situação delicadíssima e ele ainda vem fazer uma brincadeira dessas comigo... Mesmo assim, eu insisto no diálogo. “João, lembra daquela peça que o Alceu pediu pra devolver semana passada?”. “Sim, eu lembro. Ela já foi devolvida, não foi?”, responde ele com outra pergunta. “Eu olho fixo pra ele, com cara de desânimo. “Não, ainda não”. Imediatamente ele manda as duas mãos à cabeça, em sinal de desespero. “Jeromão do céu! Cê tá ficando doido, hômi?”, diz ele com o sotaque caipira que em tantas outras ocasiões tanto me fez sorrir. Desta vez, incapaz de sorrir diante de tão tensa situação, eu tento manter o diálogo. “João, o que é que eu faço? Pra fazer a devolução eu preciso que o Alceu assine uma CI para a balança. Se o Alceu me vir na sala dele com uma CI que deveria ter sido expedida uma semana atrás, eu estou na rua!”. Ao ouvir isso, o João endurece a expressão e, finalmente, assume um tom de discurso mais sério. “Tonhão, o negócio é o seguinte: a gente tem que assumir os erros da gente. O que aconteceu foi uma falha de sua parte, e assim como você assumiu a falha de ter recebido a maldita peça, precisa assumir também mais esta falha. Isso pode acontecer com todo mundo.” E colocando novamente a mão sobre meu ombro, diz: “Vai lá, mostra a CI para o Alceu e pede a assinatura dele. Se ele questionar, você explica de novo, e pronto. Pelo menos o Alceu verá que você está assumindo sua falha”. Aquelas palavras conseguem me acalmar e me trazem fôlego para mais uma última investida, que pode ser a minha última como funcionário do almoxarifado... Peço então ajuda ao Jaime, que a esta altura pede desculpas por ter esquecido de digitar a CI na quinta-feira e a imprime rapidamente. Assim que a CI termina de ser imprimida, anexo uma cópia da 2a via da nota e parto em direção ao Setor de Planejamento e Custos, onde fica a sala do Alceu. Quando fecho a porta da sala do Edvaldo e me aproximo da sala do Valdir e da Gislene, que também pertencem ao mesmo setor do Alceu, olho para o estoque. De lá, olhando pelo vidro encontram-se todos os colegas de almoxarifado. Penso então em duas possibilidades: ou estão torcendo por mim ou estão me comparando a alguém que caminha pelo corredor da morte. De fato, estes minutos estão sendo muito tensos... Ao dobrar à esquerda, passo em frente ao Departamento Pessoal, onde vejo dezenas de pessoas fazendo testes de admissão. A seleção é uma verdadeira peneira e a concorrência é grande. Só então me dou conta de como foi difícil ingressar aqui na usina. Em meio à crise de emprego que o país atravessa, e precisando ganhar dinheiro para pagar a faculdade, posso dizer que sou privilegiado estar empregado e de pertencer a um setor onde só há pessoas legais. A sala do Alceu é no final do corredor. Será que quando sair de lá ainda serei funcionário da usina? (to be continued...)
Para ler outras histórias sobre o almoaxarifado, clique nos links abaixo:

domingo, 7 de janeiro de 2007

Noite de formatura - parte 2

Sentados próximo à porta de entrada, eu, Débora, Hercílio, seu filho e sua esposa paramos a conversa para dar atenção às palavras da professora Rose. Um a um, os nomes dos alunos vão sendo ditos ao microfone. Os momentos que se seguem são particularmente especiais. Acompanhados de suas famílias, os alunos surgem pela porta enfeitada na ordem em que são chamados e seguem desfilando até a frente do palco, para dançarem a valsa de formatura. Orgulhosos por aquele momento, a maioria deles pára à porta e fazem pose para as fotos, desfilando em seguida pelo corredor até o palco, sob as palmas dos presentes. É o momento deles. Olho para cada um deles e fico recordando cada um dos momentos que vivemos em sala de aula com eles durante os dois últimos anos. De certa forma, este é também o meu momento... Após a valsa, a professora Rose dá seqüência às homenagens. Michel, Naira e Layana, os alunos que mais se destacaram por seu desenvolvimento e liderança, lêem textos para homenagear pais, familiares, amigos e a direção da escola. Homenagens são também prestadas aos alunos mais camaradas (Adriano, Aline e André), à Layana e sua mãe, por terem se empenhado para a realização da formatura, e ao brilhante e doce Michel, por ser um amigo tão querido. Em seguida, os professores são chamados à frente para uma homenagem. Eu e o Hercílio nos olhamos e, sorrindo, levantamo-nos e seguimos para o palco, onde já estão os outros professores. Cada um dos professores recebe de um aluno uma placa de homenagem, uma flor e um CD. O Tiago entrega-me um CD, mas não as flores nem a placa. Os outros professores acham aquilo estranho. Eu apenas rio. “Agora nós vamos prestar uma homenagem especial a um professor muito querido que, por razões profissionais, não vai poder estar presente na colação de grau...”, diz a professora Rose, olhando para mim. Eu sorrio, mas estou petrificado. Sinto que estou gelado, como se estivesse com tremendo de frio. Layana, Nara, Selma, Jéssica e Michel tomam o microfone. “Nós queremos prestar essa homenagem a uma pessoa muito maravilhosa, divertida e especial... o professor Eduardo!” Extremamente lisonjeado, mas ao mesmo tempo tímido, dirijo-me para receber a placa de homenagem. Ao parar diante do microfone, olho para os alunos. Estão batendo palmas para mim, sorrindo. Seus olhares parecem transmitir agradecimento e orgulho. Então uma alegria indescritível toma momentaneamente conta de mim. De repente, as palmas cessam e a música “Mais uma vez”, do Legião Urbana, começa a tocar. Ao ver aqueles jovens que aprendi a adorar entoando “Mas é claro que o sol vai voltar amanhã...quem acredita sempre alcança!”, um nó na garganta me sufoca e eu não tenho mais como conter as lágrimas... Aquelas palavras foram justamente o grande incentivo que sempre procurei transmitir-lhes e foi isso que eles escreveram em suas camisetas verdes do uniforme: “Quem acredita, sempre alcança”. Ao verem este pobre professor desabando em lágrimas, aqueles jovens adoráveis entoam um “Discurso! Discurso!”. Tento enxugar as lágrimas e compor-me. Aproximo-me então do microfone. As vozes se calam. Querem ouvir o que tenho a dizer... Respiro fundo... “Bem, eu tinha preparado um discurso de 58 min, mas após essa homenagem, vou tentar juntar o que sobrou de mim e ver o que eu me lembro. Primeiramente gostaria de agradecer a todos por estarem aqui prestigiando este momento tão especial para nós. Nós acompanhamos de perto o esforço de todos os formandos e familiares para que esta noite de festa pudesse existir, portanto podemos dizer que são todos vitoriosos. Meus amigos formandos, esta noite será muito mais que uma noite de festa, pois será a penúltima oportunidade em que todos nós nos encontraremos reunidos. Sei que muitos de vocês não querem se separar, e pra falar a verdade, também sinto uma certa tristeza por vocês estarem partindo... Mas este é o caminho natural das coisas, e daqui a uma semana, após a colação de grau, vocês acordarão e irão se perguntar: “Acabou. E agora...”. Se ao pensarem nisso vocês sentirem um aperto no peito e um nozinho na garganta, é porque durante os anos que viveram juntos vocês construíram verdadeiras amizades. Ao fecharem os olhos, para tentarem conter as lágrimas, cada um de vocês verá anos e anos de amizade passando como um filme na mente de vocês. Mas não se preocupem. As amizades verdadeiras não acabam. Enxuguem as lágrimas, abram os olhos. E abram rapidamente, pois quando menos derem conta, esta noite também terá chegado ao fim. Por isso, nada de tristeza! Aproveitem a festa. Essa é a noite de vocês! Só não bebam muito, pois vocês têm que viver o suficiente para que, daqui a alguns anos, possam acompanhar os seus filhos na formatura do ensino médio... Com certeza nós nos encontraremos por aí nessas voltas que o mundo dá, e quando nos encontrarmos... (o maldito nó na garganta me tira a voz, deixando novamente a voz chorosa...)... saberão que ainda existirá um pouquinho de cada um de vocês aqui comigo. Um abraço bem apertado em cada um de vocês e muito obrigado por terem compartilhado estes anos de suas vidas conosco! Boa noite!” Compartilhando da mesma emoção que eu, inclusive do pranto, aqueles jovens se amontoam sobre mim, tentando abraçar-me. É um momento mágico e único. Eu diria que é o meu momento mais especial de minha vida como professor... Não há qualquer artigo científico neste mundo que possa substituir a felicidade que me toma neste momento! Reúno o que sobrou de mim e volto para a mesa, onde a Débora está conversando com a esposa do Hercílio. Ao me ver, ela sorri, feliz e orgulhosa. Após uma série de homenagens, os alunos se dispersam pelo salão. A maioria deles sai à procura dos professores (inclusive eu...) para tirar fotos. Há troca de abraços calorosos. Existe um carinho mútuo muito grande. Aqueles alunos se tornaram peça fundamental em meu cotidiano no ensino médio. Não sei o que farei sem eles por lá... Quando a música começa, o clima esquenta. Os alunos correm para o palco e, felizes, extravasam as energias em comemoração à merecida vitória. Alguns deles saem pelas mesas “arrastando” os professores para o palco. Quando me dou conta, estou sendo puxado também...Estão me chamando para dançar. “Mas eu não sei dançar”, respondo. Para eles, isso parece pouco importar. Sinto que o que é realmente importante naquele momento é a minha presença entre eles, para compartilharmos pela última vez de nossas alegrias de viver... E eu quero compartilhar com eles! Então me levanto e deixo-me levar por eles até o palco. Lá no fundo, pela primeira vez, eu danço. Provavelmente estou desconjuntado, desengonçado, descoordenado... Mas nenhum deles repara nisso. Olham para mim, às vezes me abraçam. Estão muito felizes. Eu sinto que minha presença para eles é importante. Isso me faz sentir a pessoa mais amada do mundo! “Oh, that’s the way I like it”, diz a música, cuja tradução aproximada quer dizer “Oh, é do jeito que eu gosto”. Lá da mesa, a Débora me observa, sorrindo. Está feliz por me ver, pela primeira vez, desprovido da timidez que sempre me impediu de dançar. Talvez pela primeira vez em minha vida, eu sinto que não cabe em mim tanta felicidade. A única coisa que eu lamento neste momento é de não ter braços grandes o suficiente para abraçá-los todos de uma única vez...

Noite de formatura - parte 1

15 de dezembro de 2006. São 20h15min. Eu e a Débora estamos nos aproximando do recinto de exposição “Tancredo Neves”, onde é realizada anualmente a “Festa da Soja”. Olho para ela, sorrindo. Ela retribui com um sorriso largo e incrivelmente branco, destacado ainda mais pelo vermelho de seu batom. Seus cabelos cuidadosamente escovados e seu vestido azul escuro dão indícios de que a noite de hoje será muito mais marcante do que qualquer show da Festa da Soja que possa vir a se realizar neste recinto. É noite de formatura do pessoal do ensino médio do colégio Edda Cardoso de Souza Marcussi, onde ministro aulas de Química. Por causa do horário de verão, começou a escurecer agora há pouco. No entanto, ainda se pode ver o céu cinzento, repleto de nuvens pesadas que avisam que está prestes a chover. Lembro-me então de minha formatura de 8a série, em 1990, quando fui orador da turma. Recordo-me que iniciei meu discurso com “essa noite estrelada seria apenas mais uma...” Depois me disseram sob risos, que não havia sequer uma estrela no céu naquela noite... Ao pensar nisso, tranqüilizo-me, pois sei que as nuvens não são capazes de ofuscar o brilho de uma noite especial. Na entrada, seguranças trajando os usuais ternos pretos solicitam o ingresso. Retiro então a carteira e começo a procurá-los, sob os olhar de censura da Débora. “Eduardo, você já devia estar com esses ingressos na mão...” Após colocar quase meio conteúdo da carteira para fora, encontro os tais bilhetes. Recoloco tudo em seu devido lugar e de braços dados, Débora e eu entramos no recinto. Paramos à porta. Com um simples e rápido movimento de olhos, vasculho o ambiente, que se encontra devidamente decorado para a ocasião. Mesas cobertas por panos brancos e cor-de-carne. Lá na frente, aviso o palco iluminado, com um microfone ao centro. Do lado esquerdo o DJ confere as instalações do som. Dou uma rápida vasculhada pelas mesas. Avisto professores, cujas mesas foram dispostas do lado esquerdo do corredor pelo qual os alunos irão entrar. Alunos que durante todo o ano se vestiram de maneira simples agora parecem “celebridades”. Certo, essa é a noite deles. Para muitos será a noite mais importante de suas vidas. Sempre discreta, Débora escolhe uma mesa à esquerda, daquelas que foram reservadas para os professores, porém a mais afastada do palco. Ali sentamo-nos e ficamos a observar o ambiente. Após olhar em minha volta, percebo que a Débora está me olhando. “Você está ansioso, né?” Ela me conhece, não há como esconder: estou realmente ansioso. O motivoé bem simples. Como no dia da colação de grau eu não poderei estar presente, por causa da formatura lá da faculdade (em que serei homenageado como “nome da turma”), ouvi dizer que eles farão uma homenagem para mim... Mergulhado em minhas reflexões, assisto ao Hercílio, professor de História, esticando a mão para cumprimentar-me e perguntar se ele e sua família podem dividir a mesa conosco. “Boa noite!”, ouço a Rose, professora de Português e mestre de cerimônia, dizer ao microfone. A formatura vai começar.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Memórias de um almoxarife - parte 6

(continuação do post do dia 13/06/06)
Quarta-feira. Eu realmente estava encrencado. Ao deixar a sala em que o Edvaldo trabalhava, após ouvir (e ver...) o Alceu falar comigo de uma forma tão desrespeitosa que alguém jamais havia falado antes, nem mesmo o papai, eu me encontrava sem saber o que fazer. Juro que se fosse fora da usina e se a pessoa que tivesse dito aquelas palavras tão ríspidas não fosse meu superior hierárquico, eu teria saído na porrada. “O que aconteceu?”, perguntaram o Caio e o Zé Luís. Não, eu não estava com paciência para explicar. Era preciso ficar sozinho para colocar as idéias no lugar. Precisava elaborar um plano para sumir com aquele maldito braço da roda antes que ele fosse a última lembrança que me restasse do almoxarifado... Dirigi-me então para o fundo do almoxarifado, onde o seu Boné costumava sentar-se para almoçar. Ajeitei-me então naquilo que o seu Boné chamava de banco e ali permaneci durante alguns minutos. Olhava para o chão e não via nada além da poeira e dos “fagulhos” de cana. Respirei fundo e olhei para cima, na esperança que Deus me enviasse um sinal, mas visualize momentaneamente apenas as telhas empoeiradas do tipo “eternit”. De repente, uma idéia fez ressurgir as esperanças. “Vou perguntar para o Jaime. Claro! Meu Deus, como não pensei nisso antes?” O Jaime é um excelente amigo. Está sempre sorridente e é a pessoa mais camarada do nosso setor. No entanto, no que se refere a normas e procedimentos, eu procuro evitar ao máximo procurar-lhe, pois ele já recebeu algumas advertências e um “gancho” por alguns deslizes que cometeu na digitação de notas e no recebimento de peças. A pessoa mais confiável para orientar-me seria o Edvaldo, mas como ele teve que ir embora mais cedo, o Jaime é minha única opção. Aproximo-me dele, um pouco ressabiado. Ele já sabe do que vou falar. No entanto, enquanto eu lhe explico a grande encrenca em que me meti, ele sequer tira os olhos das peças que está conferindo, agachado no chão verde do recebimento. Eu não o censuro, pois bem sei que a situação dele após o último gancho que levou não ficou nada boa perante o Alceu. Um outro ponto que o deixa muito chateado é o fato de eu sempre ter recorrido ao Edvaldo para esclarecer minhas dúvidas com relação ao recebimento, ao invés de procurá-lo. Sinto que ele acha que eu não confio nele ou que eu que ele não sabe fazer o serviço. Embora ele esteja parcialmente equivocado com relação ao que eu realmente penso, eu evito tentar convencê-lo e limito-me a perguntar o que devo fazer para devolver a maldita peça. “Vai na oficina, pega o código certo no catálogo com o ‘Sebim’ e escreve ele no pedido para mim alterar. Depois digita uma correspondência interna para o Natal da Balança solicitando a emissão de uma nota de devolução e leva a CI para o Alceu assinar. Sem a assinatura do Alceu o Natal não emite a nota.” Embora parecesse muita coisa a ser feita, o que mais me preocupava naquilo tudo era elaborar a tal CI para coletar a assinatura do Alceu. O fato de ter que ficar cara-a-cara com o Alceu novamente me desagrada profundamente... Quinta-feira. Hoje cheguei no almoxarifado disposto a resolver aquela situação que havia me tirado o sono na noite anterior. Às 9h eu já estava com a primeira parte concluída, ou seja, já havia confirmado o código da peça no catálogo com o Luís Carlos (o “Sebim” a quem o Jaime tinha se referido, que é encarregado da oficina mecânica agrícola...) e marcado no pedido as alterações que precisavam ser feitas. Faltava agora o mais complicado: a maldita CI... “E agora, Jaime?”, perguntei a ele mostrando as alterações que eu havia marcado no pedido. Sua reação mostrou-me que ele estava feliz por eu estar pedindo ajuda a ele. “Deixa a nota ali em cima da mesa que eu faço a CI pra você. Eu já tenho o modelo pronto no computador, depois eu digito pra você”, ao que eu prontamente expressei minha gratidão através de um “Valeu Jaime!”. Um pouco mais calmo, deixei a nota em cima da mesa dele, próxima ao computador, e voltei aos trabalhos rotineiros de conferência de peças. Durante toda a manhã notei que o Jaime estava trabalhando em um ritmo acima do normal. Conferia as peças, marcava os códigos e imediatamente as colocava nas prateleiras. Confesso que o ânimo dele me contagiou, fazendo com que eu também “engatei uma quinta marcha”. Às onze horas, horário em que eu ia almoçar, restavam poucas peças a serem conferidas. A manhã havia sido muito proveitosa. Após o almoço, senti a ausência do Jaime, mas deduzi que ele tivesse saído atrás dos mecânicos para conferir as ferramentas de suas caixas de ferramentas. Esta era uma tarefa que ele havia dito que precisava fazer há muito tempo, e que o Edvaldo sempre o ficava lembrando. “Enquanto ele faz isso, eu vou terminado de conferir essas mercadorias aqui”. Às 16h não havia mais nenhuma peça a ser conferida. Mas a maldita nota ainda estava sobre a mesa do Jaime. “Caio, cadê o Jaime?”, pergunto. “O Jaime?”, responde o Caio, agachado entre as duas prateleiras de material elétrico, sempre vestindo a camisa azul do uniforme da empresa e com sua caneta Bic acima da orelha. “É, Caio, o Jaime”, respondo educadamente, mas com uma paciência já bem abatida... “Ah, o Jaime foi ao médico na parte da tarde e não volta hoje, não. Ele não te falou?”, responde ele, esboçando uma certa surpresa. A notícia que o Caio acabara de dar-me era uma verdadeira bomba, pois amanhã eu irei viajar para Quirinópolis, no Estado de Goiás, onde fui criado, e voltarei só na terça-feira! Não posso perder a viagem, mas também não posso arriscar perder o emprego. O que fazer? Explico a situação ao Caio, e ele se mostra pronto a ajudar. “Não, Toim, fica tranqüilo. Deixa anotado na mesa dele que amanhã eu lembro ele de fazer a CI pra você”, disse ele, prontificandoo-se a “quebrar um galho” para mim. Diante das palavras do Caio eu fico mais sossegado e consigo ir para casa bem animado, só pensando na viagem de amanhã. Terça-feira. Hoje é dia de voltar ao trabalho. Após 4 dias ausentes do almoxarifado, eu volto com o ânimo renovado. Aproveitei bem os dias que passamos em Quirinópolis. Reencontrei muitas pessoas que fizeram parte de minha infância, pude voltar ao lugar onde eu morava (hoje só resta o alicerce...). Aproveitei também para descansar bastante. Quando adentro o recebimento, logo no início do expediente, olho para a prateleira vermelha onde colocamos as peças de não-conformidade e fico petrificado. Sobre ela repousa, em cor alaranjada, o maldito braço da roda que eu precisava devolver! Sobre a mesa ainda está a maldita nota, do jeito que deixei para o Jaime fazer a CI... Em outras palavras, a peça que o Alceu exigiu que fosse devolvida ainda está na prateleira do almoxarifado, uma semana depois..Meu Deus, e agora?
(to be continued...)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Feliz 2007!

Ano novo, vida nova. É essa a promessa (ou a esperança...) que se renova a cada ano se inicia. Famílias e amigos se reúnem para celebrar a chegada de um novo ano, no qual se espera ter saúde, amor, paz e muito sucesso, na maioria das vezes traduzido através do dinheiro. Fogos de artifício colorem os céus, enquanto as pessoas em suas casas se abraçam, desejando umas às outras tudo o que podem desejar de melhor. Junto com a alegria de mais um ano vivido surge a expectativa de se repetir novamente a celebração dali a 365 dias. Infelizmente muitos se perdem pelo caminho, ou levados por Deus ou mesmo abatidos em seu estado de saúde. Saúde... É esse o pedido que todos priorizam...
Como costumamos fazer todos os anos, a Débora e eu assistimos à chegada de um novo ano acompanhados de sua família. Sob uma chuva intensa, meu sogro, meu cunhado Luís (Carabina), Solange (sua esposa), e a Débora esperavam 2007 da forma que mais gostam de fazer: dançando forró. Mesmo eu, que estou a anos-luz de poder ser chamado de pé-de-valsa arrisquei um "dois pra lá, dois pra cá" ao melhor estilo "Coisinha de Jesus"...
Há muitos planos para 2007. Alguns deles são profissionais, como conseguir aprovar um projeto de pesquisa em uma instituição de fomento, publicar mais uma meia dúzia de artigos científicos, terminar a redação de um livro que comecei a escrever. No entanto, a idéia que ecoa aqui, e é a que mais me empolga, é de âmbito pessoal: terminar a construção da minha casa para que eu e a Débora possamos nos casar em breve. Já começo a imaginar os próximos reveillons lá em nossa casa nova. Sonhar não custa nada, principalmente em uma data como esta... Aproveito a oportunidade para desejar tudo o que pode haver de melhor aos amigos que acessam este espaço e agradecê-los pelas mais de 7.000 visitas... Feliz 2007 a todos! Obrigado!