domingo, 14 de janeiro de 2007

Fragmentos de minha infância - parte 11

Agosto de 1979. Eu não sei dizer exatamente que horas são, pois tenho apenas três anos. Para mim, todas as horas são iguais depois que o sol se põe. Sei apenas que é noite. Agora, por exemplo, é noite. Papai, mamãe e eu estamos dormindo em nossa humilde casa. Nela não há forro nem tampouco piso. À noite, os morcegos ficam pendurados nas telhas. Às vezes o papai e a mamãe usam a vassoura para espantá-los. Ao invés de piso, o chão de nossa casa tem tijolos, mas a mamãe os mantêm cuidadosamente limpos, como se fossem piso de verdade. A porta aqui da sala chega a dar medo. Há um buraco enorme na parte de baixo, tão grande que eu acho que dá pra passar um cachorro pequeno por ela. No entanto, eu não tenho medo, pois sei que o papai está aqui para me proteger. Para conseguir água para beber e tomar banho, a mamãe usa a cisterna. Infelizmente eu ainda não tenho forças para ajudá-la. Sequer tamanho eu tenho para isso... Mas o que mais faz falta aqui em casa é a energia elétrica. Quando é noite, como agora, por exemplo, tudo fica escuro. As lamparinas e os lampiões a gás estão desligados. Eu estou acordado, com os olhos abertos, mas não vejo absolutamente nada. Ouço apenas o papai roncando, a mamãe se virando na cama e o tio Joaquim se ajeitando na cama do quarto onde a mamãe costuma. Sim, o tio Joaquim veio visitar-nos. Ele é marido da tia Alice, que é irmã do vovô Crotti. Em outras palavras, ele é praticamente meu “tio avô”. Gosto muito dele. Ele me dá muita atenção. Ele trouxe lá de São Joaquim um ursinho amarelinho de plástico que eu adoro! Eu gosto muito quando as pessoas vêm visitar-nos aqui em casa. Somos nós três... Às vezes sinto-me um pouco sozinho, como se ainda faltasse alguém na nossa família... Ainda de fraldas, para não sujar a cama caso eu tenha vontade de fazer xixi ou cocô, eu fico olhando para cima, sem ver nada. Apenas ouço a velha sintonia repetitiva: papai roncando, mamãe se virando, tio Joaquim se ajeitando. Eis que, de repente, ouço um estrondo na porta da sala e uma voz estranha:. “Haumhaumhaumhaum”. Eu nunca tinha ouvido uma voz daquelas! Não consigo entender nada do que aquela voz quer dizer! No entanto, eu me assusto e, obviamente, encho as calças de medo e começo a chorar. Aquela voz estranha e os batidos na porta, àquela hora da madrugada, também fazem com que a mamãe acorde assustada. Parece meio bêbada de sono. “Bem do céu, que barulho é esse?” O papai dá um salto da cama, como se tivesse em estado de alerta. Imediatamente ele pega sua espingarda, que ele chama de Vinchester, e segue em direção à porta. Ao sair à porta que separa o quarto da sala, ele encontra o tio Joaquim, já com o lampião na mão. “Tair, tem alguém batendo lá fora.”, diz ele, com um sotaque de descendente de italiano. Enquanto o papai e o tio Joaquim estão na sala, a mamãe vem ao meu socorro, para trocar-me as fraldas. Mal ela acaba de dobrar a fralda de pano, cuidadosamente, e a prende com um alfinete, o estranho lá fora volta a esmurrar a porta. Ao ouvir aquela voz esquisita, “haumhaumhaumhaum”, eu me assusto... e encho novamente as calças, assustado... “Calma, fi, não chora não. A mamãe tá aqui.”, diz a mamãe, tentando me acalmar. Lá na sala, o papai carrega sua espingarda e combina com o tio Joaquim uma forma de abrir a porta com segurança. “Tio, pode ser que ele esteja armado. Não dá pra saber. Vamos fazer assim: o senhor abre a porta, ilumina com o lampião e eu já saio com a espingarda apontada.”, diz o papai, em tom de segredo, para o tio Joaquim. Enquanto a mamãe retira a segunda fralda, cheia de cocô, e se prepara para dobrar a terceira fralda, aquele “haumhaumhaumhaum” e um outro murro na porta voltam a assustar-me, e eu, pela terceira vez, encho a fralda que está debaixo do meu bumbum, que sequer chegou a ser vestida em mim... Ao ouvir-me chorando, todo sujo de cocô, a mamãe grita. “Bem, pelo amor de Deus, dá um jeito aí! O Eduardo não pára de cagar de medo!” Sem esperar a mamãe terminar de falar, o tio Joaquim puxa a porta e o papai sai com a espingarda apontada para a cabeça do homem que estava batendo a porta. “Fala o que você quer, senão eu atiro!”, diz o papai, já com a ponta da espingarda encostada na testa dele. “haumhaumhaumhaum”, responde o rapaz, como se estivesse tentando se comunicar e não conseguisse. Então eu começo a chorar e borro de cocô (meu Deus do céu!) a quarta fralda da noite... O papai olha para o homem, que passa a mão na barriga e move as mãos em direção à boca, como se quisesse expressar que está com fome. Ele, abaixando a espingarda, diz sorrindo para o tio Joaquim. “Ah, tio, é só um surdo-mudo que está com fome”. O papai e o tio Joaquim se dirigem com o surdo-muro para a varanda, onde dão comida para ele e preparam um cantinho para que ele possa passar a noite ali. No quarto, a mamãe se vê desesperada à procura de mais uma fralda, na esperança de que o mudo não tente se expressar novamente com palavras. Caso contrário, acho que ela vai ter trabalho pelo resto da noite...
Outros fragmentos de minha infância:

4 comentários:

Juliana Bernardo disse...

Olá...estou começando agora e vi seu blog...muito legal!!! Se quiser ver como estou me saindo, dá uma passada no Café Forte, ai vai o endereço (http://cefeforte.blogspot.com/)

Parabéns pelo conteúdo, de muito bom gosto!!!

cristine disse...

Ai Deus, eu achei que tivesse comentado no post anterior!
Desculpe Antônio xD

Bom, essa história do braço da roda está me deixando cada vez mais curiosa...

Agora este surdo-mudo aposto que ninguém esperava!
"haumhaum"
Que susto heim!
Mas você se lembra disso tudo ou foram seus pais que te contaram?
Não lembro direito nem o que fiz com 10 anos, imagina com 3...

Adoro vir aqui porque sempre tenho meus comentários respondidos... é muito bom saber que os meus pensamentos são importantes para os outros.

Aiai... minhas aulas [re]começam semana que vem.
Se eu precisar de um reforço de Química já sei pra quem pedir heim! hehe

Brincadeira...

Beijos!
Cris.

Antonio E. M. Crotti disse...

Oi Juliana, tudo bem? Obrigado pela sua visita ao "nosso" blog! Espero que possa sempre aparecer por aqui. Adorei o seu blog! Parabéns! Vou tornar-me "freguês" do seu "café"...
Grande abraço e fique com Deus!
Antônio E. M. Crotti

Antonio E. M. Crotti disse...

Oi Cristine! Tudo bem?
Que bom que está ficando curiosa pra saber o desfecho da história da roda... Tá parecendo novela mexicana, né? Não acaba nunca! rs
A história do surdo mudo foi contada com base no que eu lembro. Meus pais confirmaram que foi assimm mesmo! Acho que me lembro da ocasião porque fiquei "traumatizado" por um bom tempo...
Pode ter certeza de que seu prazer ao receber resposta pelo seu comentário não é maior que o meu ao ler os comentários que você tem deixado por aqui. Muito obrigado!
Espero que tenha tido um bom retorno às aulas. Ainda estou "frio", mas depois do carnaval acho que as coisas vão esquentar definitivamente...
Grande abraço e fique com Deus!