sábado, 6 de janeiro de 2007

Memórias de um almoxarife - parte 6

(continuação do post do dia 13/06/06)
Quarta-feira. Eu realmente estava encrencado. Ao deixar a sala em que o Edvaldo trabalhava, após ouvir (e ver...) o Alceu falar comigo de uma forma tão desrespeitosa que alguém jamais havia falado antes, nem mesmo o papai, eu me encontrava sem saber o que fazer. Juro que se fosse fora da usina e se a pessoa que tivesse dito aquelas palavras tão ríspidas não fosse meu superior hierárquico, eu teria saído na porrada. “O que aconteceu?”, perguntaram o Caio e o Zé Luís. Não, eu não estava com paciência para explicar. Era preciso ficar sozinho para colocar as idéias no lugar. Precisava elaborar um plano para sumir com aquele maldito braço da roda antes que ele fosse a última lembrança que me restasse do almoxarifado... Dirigi-me então para o fundo do almoxarifado, onde o seu Boné costumava sentar-se para almoçar. Ajeitei-me então naquilo que o seu Boné chamava de banco e ali permaneci durante alguns minutos. Olhava para o chão e não via nada além da poeira e dos “fagulhos” de cana. Respirei fundo e olhei para cima, na esperança que Deus me enviasse um sinal, mas visualize momentaneamente apenas as telhas empoeiradas do tipo “eternit”. De repente, uma idéia fez ressurgir as esperanças. “Vou perguntar para o Jaime. Claro! Meu Deus, como não pensei nisso antes?” O Jaime é um excelente amigo. Está sempre sorridente e é a pessoa mais camarada do nosso setor. No entanto, no que se refere a normas e procedimentos, eu procuro evitar ao máximo procurar-lhe, pois ele já recebeu algumas advertências e um “gancho” por alguns deslizes que cometeu na digitação de notas e no recebimento de peças. A pessoa mais confiável para orientar-me seria o Edvaldo, mas como ele teve que ir embora mais cedo, o Jaime é minha única opção. Aproximo-me dele, um pouco ressabiado. Ele já sabe do que vou falar. No entanto, enquanto eu lhe explico a grande encrenca em que me meti, ele sequer tira os olhos das peças que está conferindo, agachado no chão verde do recebimento. Eu não o censuro, pois bem sei que a situação dele após o último gancho que levou não ficou nada boa perante o Alceu. Um outro ponto que o deixa muito chateado é o fato de eu sempre ter recorrido ao Edvaldo para esclarecer minhas dúvidas com relação ao recebimento, ao invés de procurá-lo. Sinto que ele acha que eu não confio nele ou que eu que ele não sabe fazer o serviço. Embora ele esteja parcialmente equivocado com relação ao que eu realmente penso, eu evito tentar convencê-lo e limito-me a perguntar o que devo fazer para devolver a maldita peça. “Vai na oficina, pega o código certo no catálogo com o ‘Sebim’ e escreve ele no pedido para mim alterar. Depois digita uma correspondência interna para o Natal da Balança solicitando a emissão de uma nota de devolução e leva a CI para o Alceu assinar. Sem a assinatura do Alceu o Natal não emite a nota.” Embora parecesse muita coisa a ser feita, o que mais me preocupava naquilo tudo era elaborar a tal CI para coletar a assinatura do Alceu. O fato de ter que ficar cara-a-cara com o Alceu novamente me desagrada profundamente... Quinta-feira. Hoje cheguei no almoxarifado disposto a resolver aquela situação que havia me tirado o sono na noite anterior. Às 9h eu já estava com a primeira parte concluída, ou seja, já havia confirmado o código da peça no catálogo com o Luís Carlos (o “Sebim” a quem o Jaime tinha se referido, que é encarregado da oficina mecânica agrícola...) e marcado no pedido as alterações que precisavam ser feitas. Faltava agora o mais complicado: a maldita CI... “E agora, Jaime?”, perguntei a ele mostrando as alterações que eu havia marcado no pedido. Sua reação mostrou-me que ele estava feliz por eu estar pedindo ajuda a ele. “Deixa a nota ali em cima da mesa que eu faço a CI pra você. Eu já tenho o modelo pronto no computador, depois eu digito pra você”, ao que eu prontamente expressei minha gratidão através de um “Valeu Jaime!”. Um pouco mais calmo, deixei a nota em cima da mesa dele, próxima ao computador, e voltei aos trabalhos rotineiros de conferência de peças. Durante toda a manhã notei que o Jaime estava trabalhando em um ritmo acima do normal. Conferia as peças, marcava os códigos e imediatamente as colocava nas prateleiras. Confesso que o ânimo dele me contagiou, fazendo com que eu também “engatei uma quinta marcha”. Às onze horas, horário em que eu ia almoçar, restavam poucas peças a serem conferidas. A manhã havia sido muito proveitosa. Após o almoço, senti a ausência do Jaime, mas deduzi que ele tivesse saído atrás dos mecânicos para conferir as ferramentas de suas caixas de ferramentas. Esta era uma tarefa que ele havia dito que precisava fazer há muito tempo, e que o Edvaldo sempre o ficava lembrando. “Enquanto ele faz isso, eu vou terminado de conferir essas mercadorias aqui”. Às 16h não havia mais nenhuma peça a ser conferida. Mas a maldita nota ainda estava sobre a mesa do Jaime. “Caio, cadê o Jaime?”, pergunto. “O Jaime?”, responde o Caio, agachado entre as duas prateleiras de material elétrico, sempre vestindo a camisa azul do uniforme da empresa e com sua caneta Bic acima da orelha. “É, Caio, o Jaime”, respondo educadamente, mas com uma paciência já bem abatida... “Ah, o Jaime foi ao médico na parte da tarde e não volta hoje, não. Ele não te falou?”, responde ele, esboçando uma certa surpresa. A notícia que o Caio acabara de dar-me era uma verdadeira bomba, pois amanhã eu irei viajar para Quirinópolis, no Estado de Goiás, onde fui criado, e voltarei só na terça-feira! Não posso perder a viagem, mas também não posso arriscar perder o emprego. O que fazer? Explico a situação ao Caio, e ele se mostra pronto a ajudar. “Não, Toim, fica tranqüilo. Deixa anotado na mesa dele que amanhã eu lembro ele de fazer a CI pra você”, disse ele, prontificandoo-se a “quebrar um galho” para mim. Diante das palavras do Caio eu fico mais sossegado e consigo ir para casa bem animado, só pensando na viagem de amanhã. Terça-feira. Hoje é dia de voltar ao trabalho. Após 4 dias ausentes do almoxarifado, eu volto com o ânimo renovado. Aproveitei bem os dias que passamos em Quirinópolis. Reencontrei muitas pessoas que fizeram parte de minha infância, pude voltar ao lugar onde eu morava (hoje só resta o alicerce...). Aproveitei também para descansar bastante. Quando adentro o recebimento, logo no início do expediente, olho para a prateleira vermelha onde colocamos as peças de não-conformidade e fico petrificado. Sobre ela repousa, em cor alaranjada, o maldito braço da roda que eu precisava devolver! Sobre a mesa ainda está a maldita nota, do jeito que deixei para o Jaime fazer a CI... Em outras palavras, a peça que o Alceu exigiu que fosse devolvida ainda está na prateleira do almoxarifado, uma semana depois..Meu Deus, e agora?
(to be continued...)

Um comentário:

Anônimo disse...

Ha ha ha ... boas lembranças Tonhão!! Mas ... e agora??

Abracao, Tavinho.