domingo, 7 de janeiro de 2007

Noite de formatura - parte 2

Sentados próximo à porta de entrada, eu, Débora, Hercílio, seu filho e sua esposa paramos a conversa para dar atenção às palavras da professora Rose. Um a um, os nomes dos alunos vão sendo ditos ao microfone. Os momentos que se seguem são particularmente especiais. Acompanhados de suas famílias, os alunos surgem pela porta enfeitada na ordem em que são chamados e seguem desfilando até a frente do palco, para dançarem a valsa de formatura. Orgulhosos por aquele momento, a maioria deles pára à porta e fazem pose para as fotos, desfilando em seguida pelo corredor até o palco, sob as palmas dos presentes. É o momento deles. Olho para cada um deles e fico recordando cada um dos momentos que vivemos em sala de aula com eles durante os dois últimos anos. De certa forma, este é também o meu momento... Após a valsa, a professora Rose dá seqüência às homenagens. Michel, Naira e Layana, os alunos que mais se destacaram por seu desenvolvimento e liderança, lêem textos para homenagear pais, familiares, amigos e a direção da escola. Homenagens são também prestadas aos alunos mais camaradas (Adriano, Aline e André), à Layana e sua mãe, por terem se empenhado para a realização da formatura, e ao brilhante e doce Michel, por ser um amigo tão querido. Em seguida, os professores são chamados à frente para uma homenagem. Eu e o Hercílio nos olhamos e, sorrindo, levantamo-nos e seguimos para o palco, onde já estão os outros professores. Cada um dos professores recebe de um aluno uma placa de homenagem, uma flor e um CD. O Tiago entrega-me um CD, mas não as flores nem a placa. Os outros professores acham aquilo estranho. Eu apenas rio. “Agora nós vamos prestar uma homenagem especial a um professor muito querido que, por razões profissionais, não vai poder estar presente na colação de grau...”, diz a professora Rose, olhando para mim. Eu sorrio, mas estou petrificado. Sinto que estou gelado, como se estivesse com tremendo de frio. Layana, Nara, Selma, Jéssica e Michel tomam o microfone. “Nós queremos prestar essa homenagem a uma pessoa muito maravilhosa, divertida e especial... o professor Eduardo!” Extremamente lisonjeado, mas ao mesmo tempo tímido, dirijo-me para receber a placa de homenagem. Ao parar diante do microfone, olho para os alunos. Estão batendo palmas para mim, sorrindo. Seus olhares parecem transmitir agradecimento e orgulho. Então uma alegria indescritível toma momentaneamente conta de mim. De repente, as palmas cessam e a música “Mais uma vez”, do Legião Urbana, começa a tocar. Ao ver aqueles jovens que aprendi a adorar entoando “Mas é claro que o sol vai voltar amanhã...quem acredita sempre alcança!”, um nó na garganta me sufoca e eu não tenho mais como conter as lágrimas... Aquelas palavras foram justamente o grande incentivo que sempre procurei transmitir-lhes e foi isso que eles escreveram em suas camisetas verdes do uniforme: “Quem acredita, sempre alcança”. Ao verem este pobre professor desabando em lágrimas, aqueles jovens adoráveis entoam um “Discurso! Discurso!”. Tento enxugar as lágrimas e compor-me. Aproximo-me então do microfone. As vozes se calam. Querem ouvir o que tenho a dizer... Respiro fundo... “Bem, eu tinha preparado um discurso de 58 min, mas após essa homenagem, vou tentar juntar o que sobrou de mim e ver o que eu me lembro. Primeiramente gostaria de agradecer a todos por estarem aqui prestigiando este momento tão especial para nós. Nós acompanhamos de perto o esforço de todos os formandos e familiares para que esta noite de festa pudesse existir, portanto podemos dizer que são todos vitoriosos. Meus amigos formandos, esta noite será muito mais que uma noite de festa, pois será a penúltima oportunidade em que todos nós nos encontraremos reunidos. Sei que muitos de vocês não querem se separar, e pra falar a verdade, também sinto uma certa tristeza por vocês estarem partindo... Mas este é o caminho natural das coisas, e daqui a uma semana, após a colação de grau, vocês acordarão e irão se perguntar: “Acabou. E agora...”. Se ao pensarem nisso vocês sentirem um aperto no peito e um nozinho na garganta, é porque durante os anos que viveram juntos vocês construíram verdadeiras amizades. Ao fecharem os olhos, para tentarem conter as lágrimas, cada um de vocês verá anos e anos de amizade passando como um filme na mente de vocês. Mas não se preocupem. As amizades verdadeiras não acabam. Enxuguem as lágrimas, abram os olhos. E abram rapidamente, pois quando menos derem conta, esta noite também terá chegado ao fim. Por isso, nada de tristeza! Aproveitem a festa. Essa é a noite de vocês! Só não bebam muito, pois vocês têm que viver o suficiente para que, daqui a alguns anos, possam acompanhar os seus filhos na formatura do ensino médio... Com certeza nós nos encontraremos por aí nessas voltas que o mundo dá, e quando nos encontrarmos... (o maldito nó na garganta me tira a voz, deixando novamente a voz chorosa...)... saberão que ainda existirá um pouquinho de cada um de vocês aqui comigo. Um abraço bem apertado em cada um de vocês e muito obrigado por terem compartilhado estes anos de suas vidas conosco! Boa noite!” Compartilhando da mesma emoção que eu, inclusive do pranto, aqueles jovens se amontoam sobre mim, tentando abraçar-me. É um momento mágico e único. Eu diria que é o meu momento mais especial de minha vida como professor... Não há qualquer artigo científico neste mundo que possa substituir a felicidade que me toma neste momento! Reúno o que sobrou de mim e volto para a mesa, onde a Débora está conversando com a esposa do Hercílio. Ao me ver, ela sorri, feliz e orgulhosa. Após uma série de homenagens, os alunos se dispersam pelo salão. A maioria deles sai à procura dos professores (inclusive eu...) para tirar fotos. Há troca de abraços calorosos. Existe um carinho mútuo muito grande. Aqueles alunos se tornaram peça fundamental em meu cotidiano no ensino médio. Não sei o que farei sem eles por lá... Quando a música começa, o clima esquenta. Os alunos correm para o palco e, felizes, extravasam as energias em comemoração à merecida vitória. Alguns deles saem pelas mesas “arrastando” os professores para o palco. Quando me dou conta, estou sendo puxado também...Estão me chamando para dançar. “Mas eu não sei dançar”, respondo. Para eles, isso parece pouco importar. Sinto que o que é realmente importante naquele momento é a minha presença entre eles, para compartilharmos pela última vez de nossas alegrias de viver... E eu quero compartilhar com eles! Então me levanto e deixo-me levar por eles até o palco. Lá no fundo, pela primeira vez, eu danço. Provavelmente estou desconjuntado, desengonçado, descoordenado... Mas nenhum deles repara nisso. Olham para mim, às vezes me abraçam. Estão muito felizes. Eu sinto que minha presença para eles é importante. Isso me faz sentir a pessoa mais amada do mundo! “Oh, that’s the way I like it”, diz a música, cuja tradução aproximada quer dizer “Oh, é do jeito que eu gosto”. Lá da mesa, a Débora me observa, sorrindo. Está feliz por me ver, pela primeira vez, desprovido da timidez que sempre me impediu de dançar. Talvez pela primeira vez em minha vida, eu sinto que não cabe em mim tanta felicidade. A única coisa que eu lamento neste momento é de não ter braços grandes o suficiente para abraçá-los todos de uma única vez...

2 comentários:

Mauro Jr disse...

Grande Miller!!! Lendo a sua narrativa confesso que não pude deixar de me emocionar. Várias são as razões, uma delas é a de poder ser amigo de um cara tão gente boa como você. Fico extremamente feliz quando vejo um amigo feliz. A missão de ser um Educador não é fácil. Existe uma diferença muito grande entre ser professor e ser Educador. O professor apenas desempenha obrigações, o Educador ultrapassa o seu dever. O professor ignora o aluno enquanto indivíduo, o Educador valoriza a contribuição pessoal do educando. O professor torna-se uma pequena lembrança, o EDUCADOR É UM MODELO A SER SEGUIDO. Algumas pessoas preferem seguir o caminho mais fácil e se tornar meros professores, outras preferem trilhar o caminho mais difícil mas muito mais gratificante e assim se tornam Educadores. Fico feliz por você ter escolhido o caminho mais difícil.

Lembre-se de uma coisa, Ensinar é um exercício de imortalidade, os alunos vão e os professores ficam, mas ficamos com a certeza de que eles vão mais levam consigo um pouquinho de nós. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor assim, não morre jamais. (Ruben Alves)

Uma ótima semana, um grande abraço.

Mauro

Michel Luis da C. R. Leandro disse...

Eita, esse cidadao Mauro Jr esta corretissimo.

Caro amigo professor Miller sua humildade, naturalidade, leveza e simples na maneira de ser mostra-me que intelectualmente falando nao precisa-se de normas ejeito coerente de falar, ser e agir, o simples emociona muito mais.

O senhor foi uma base solida que passou pela minha vida e hoje arrastara para sempre em meus caminhos no bau da memoria, gratidao, amor e lembrancas (inesqueciveis).

A formatura foi a concretizacao de que Acreditamos e Alcancamos, porem, se nao fosse a ajuda de Grandes pessoas como Voce nao teriamos conseguido.
Como diz o cantor do grupo O Rappa, Valeu a PENA! e muita.

Agradeco por tudo!
Love never fails, o amor nunca falha.
A sabedoria dos homens e loucura perante Deus.

Sou Fruto de Ti, (herois Nunca falham e nem desistem, lembra?).
Nao deixemos de florescer e se for preciso que corte-nos para que nascemos novamente a fim de dar frutos.
Sonhar nunca sera demais!

Grande!
Mestre.