domingo, 11 de março de 2007

Aventuras de um professor - parte 5

Quinta-feira, 8 de março de 2007. 18h50min. Estou embaixo do chuveiro. Sinto a água quente caindo sobre meu pescoço e escorrendo coluna abaixo. É a minha última tentativa de aliviar as dores na coluna. Os 1500 m que acabei de nadar há uns 30 min conseguiram aliviar as dores provenientes dos três bicos-de-papagaio, mas o nervo ciático ainda dói. Sei que esta dor vem das horas consecutivas que passo sentado, sejam elas em frente ao computador ou mesmo no carro, durante as viagens até Franca. Olho para o espelho. Sinto-me enfraquecido, exausto. Minhas forças foram sendo minadas ao longo da semana, mas minha jornada ainda não terminou. Ainda há cinco aulas no período noturno. Minha vontade é de deitar-me e dormir, pelo menos uns cinco dias seguidos, tamanho o meu cansaço. Mal consigo parar de pé... 19h13min. Bato à porta de entrada do colégio. Dona Edna, sempre sorridente, vem recepcionar-me. Tento retribuir o sorriso, mas o máximo que consigo é um simples esboço, desenhado com lábios secos e sombreado por olhos cansados. “Boa noite, dona Edna, tudo bem?”, digo, aumentando o tom de voz, na tentativa de demonstrar certo ânimo. Lá de sua mesa, a coordenadora e amiga Ivani detecta minha presença e alguns segundos tira os olhos do horário, que tanto tem se esforçado para acertar, e os direcionada para mim. “Eduardo! Venha cá!”. Esta é a frase que ouço já na porta que dá acesso ao galpão de salas de aula... A verdade é que já conheço a Ivani há uns dois anos e sei que aquele tom de voz será seguido de alguma cobrança. Dou meia volta, adentro sua sala e paro ao seu lado. De ombros caídos, e agora ainda mais desanimado, suspiro: “Oi Ivani. Pode falar.” “Eduardo, você está me devendo as cadernetas do ano passado e os planos de ensino deste ano”. Estava certo quanto aos meus temores. Ao ver-me de ombros caídos, ela sorri. “Não desanima não, Eduardo. Seja forte!”, diz ela na tentativa de motivar-me. 19h20min. Chego, enfim à sala onde será a primeira aula. É uma turma de suplência do 1º ano. A sala está cheia. “Boa noite, pessoal. Desculpem-me pelo atraso.” Coloco os livros sobre a mesa e fecho à porta. Mais uma vez meu cansaço e meus problemas devem ficar lá fora. Agora eu sou um professor. Após apagar a lousa, sinto como se houvesse areia em meus olhos. Sinto como se todo o pó de giz espalhado pelo apagador estivesse em minhas lentes de contato. Então começo a pensar em tudo o que aconteceu durante a semana, o meu cansaço, o pó de giz nas lentes, as dores na coluna... Então sorrio comigo mesmo, em silêncio. Olho para a lousa. Decido então escrever algo na lousa, para que os alunos possam acalmar-se. Após terminar de escrever, dirijo-me ao fundo da sala, onde estão os alunos mais falan tes. Sento em uma das cadeiras e puxo conversa, na tentativa de esquecer o cansaço. Em poucos minutos, estão todos rindo. Inclusive eu. Após a correção dos exercícios, conto a eles sobre o “Narrativas do meu cotidiano” e narro a história do surdo-mudo. Todos morrem de rir e pedem o endereço para visitarem. 20h32min. Adentro agora a sala onde será a terceira aula da noite. É uma turma de 3ª. Série do ensino médio regular. Alguns alunos me cercam, solicitando que eu promova uma excursão para o cinema, pois eles querem assistir ao “Motoqueiro Fantasma”. Coloco os livros na mesa e digo-lhes que já assisti ao filme. Alguns ficam inicialmente desapontados, mas logo se animam quando começo a narrar o filme. “Caramba, fessor, que jeitado!”, vão dizendo eles, à medida que vou descrevendo o filme, com riqueza de detalhes. “Vocês viram o trailer do Quarteto Fantástico?” E lá sigo novamente, contando mais um trailer. No final, a maioria se encontra empolgada com a possibilidade de irem assistir ao filme do “Motoqueiro Fantasma”, enquanto eu me sinto um pouco mais feliz. 21h33min. Quarta aula da noite. É uma turma de 2º. Ano do ensino médio. Após o ritual do “Boa noite”-colocar livros sobre a mesa-fechar a porta, alguns me notam cansado. “É isso aí, fessor! Tá trabalhando muito e ficando rico, tem que ficar cansado também!” Ao ouvir esta frase, dita por um dos alunos, recordo-me do meu amigo Norberto, que na época em que foi nosso professor na faculdade, dedicou uma aula exclusivamente para falar de sua trajetória pessoal em resposta a um aluno que tinha lhe dito que o achava com cara de “filhinho de papai”. Respiro fundo. Agora é minha vez de lavar a alma. A história se alonga por quase 1h20min. Durante a narrativa, que abordou desde a minha infância até os tempos de pós-graduação, pude notar que alguns alunos se entreolhavam, aparentemente satisfeitos com o que ouviam. Era como se estivessem se identificando com aquilo que eu estava contando. Já no final da história, um dos alunos toma a palavra e começa a contar sua vida. Fala de seus problemas no trabalho, do pai que abandonou a família por causa do álcool e do orgulho que sente por sua mãe. Ao bater o sinal, os alunos vão saindo, um a um. “Fessor, na aula que vem o senhor continua. Queremos ouvir mais!”. Todos vão saindo, exceto o aluno que também contou sua vida. Parece haver algo mais que ele quer contar. Diz que não sente raiva de seu pai, apesar de tudo o que ele fez. “Estou orgulhoso pela sua atitude. Saiba que com o seu perdão e com o seu amor, o seu pai ainda vai reconhecer o erro dele e vai lhe pedir perdão pelo que fez.” Com os olhos úmidos, o aluno vai se despedindo. “É, fessor, vou falar uma coisa: professor igual ao senhor a gente não encontra em qualquer lugar, não.” Agora sozinho no pavilhão de salas de aula. Olho para o céu. A luz reina entre as estrelas. Sinto então a presença de Deus e compreendo que eu realmente precisava estar aqui nesta noite. Sinto a brisa de verão sussurrando em meus ouvidos. Enfim, chegou a hora de descansar.

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