terça-feira, 17 de abril de 2007

Nunca é tarde demais

10h43min. Estou no colégio, não como aluno, mas como professor de Química de ensino médio. Há três minutos atrás, enquanto eu conversava com os alunos, fui interrompido pelo sinal, que acusou o fim de mais uma aula. Sem esperarem que eu terminasse, os alunos se levantaram e seguiram para a porta da sala, como de costume. Neste instante, estou parado na porta da sala onde será a minha próxima aula. Estou aguardando a saída do professor Procópio, que sempre se atrapalha com os dicionários de Inglês. Os alunos, no entanto, também estão todos aguardando à porta. A maioria deles pede para ir ao banheiro ou tomar água, mas eu bem sei que nenhum deles está com a bexiga cheia ou com a boca sedenta. Querem, na verdade, passear pelo pátio. Quando o professor sai e eu entro na sala, os alunos permanecem na porta. Fingem não ter percebido que entrei. Passados uns 10min da aula, consigo enfim reunir os alunos e fechar a porta. Olho então para cada um deles. Há vários que estão com celulares nas mãos, brincando. Outros, também em grande número, estão com fones nos ouvidos, provavelmente ouvindo músicas de celular ou de tocadores mp3. Levanto-me da cadeira e me coloco à frente do quadro negro. Peço para alguns alunos mudarem de lugar e para que guardem seus celulares e tocadores mp3. Quero que ouçam o que eu vou falar. “Quando eu prestei o serviço militar, notei que haviam regras a serem seguidas, e essas regras eram bem rígidas. No entanto, eu não tive dificuldade para me adaptar a elas, pois graças a Deus eu tive o privilégio de receber uma educação bem rígida de meus pais. Muitos de vocês não tiveram esse privilégio e, portanto, não sabem ainda reconhecer limites. Aqui na escola é preciso aprender a reconhecer e a respeitar os limites. Por vezes eu deixei vocês entrarem atrasados na sala e nunca liguei quando ouviam música enquanto eu explicava. Pois bem. Ao agir assim, estou sendo omisso no exercício de minha responsabilidade como professor. A partir de agora, quando eu entrar na sala, ninguém entra depois de mim. Não quero mais ninguém ouvindo música enquanto eu falo, pois vocês entenderão um dia que isso é uma tremenda falta de respeito, assim como é desrespeitoso falar ou virar o rosto enquanto uma outra pessoa está falando. Entendam que a passagem de vocês aqui pela escola é um período decisivo na vida de cada um de vocês. Enquanto estão aqui, vocês estão construindo o alicerce da casa de vocês. Quanto melhor for a formação de vocês, melhores serão as oportunidades que aparecerão pra vocês lá fora. Quantos de vocês pede licença para entrar na sala de aula? Quantos falam “por favor’ e “obrigado”? Estas palavras devem fazer parte da educação de vocês. E educação não significa sentar-se à mesa e comer sem encostar os cotovelos – isso se chama “frescura”...Nisso todos sorriem... “Eu não estou mais preocupado com o aprendizado de Química de vocês, pois eu sinto que minha passagem por esta escola terminará muito breve. Eu me preocupo é com os cidadãos que vocês irão tornar-se quando saírem por aquele portão. Eu quero ter a certeza de ter pelo menos tentado fazer o meu papel. É por isso que lhes peço para respeitarem as regras que lhes forem impostas, pois quando forem empregados, tenham a certeza de que os patrões de vocês não lhes desejarão o bem que nós, professores, desejamos.” Já não me importo se foram palavras jogadas ao vento. De qualquer forma, o vento as levará, e onde elas caírem, certamente renderão frutos. Mais cedo ou mais tarde. E nunca é tarde demais para se tornar um cidadão. Nem para se tentar ser um professor melhor.

Um comentário:

Rodrigo disse...

Rapaz, foi com grata surpresa que comecei hoje a explorar o blog do Miller e perceber que, assim como ele é no blog, ele é no dia a dia. Descobri então que sou privilegiado, pois posso compartilhar de sua amizade online e in loco. Os textos comprovam uma qualidade do Miller que conheço há tempos: esse cara tem um coração do tamanho do seu caráter - enorme.