sábado, 21 de abril de 2007

O enigma das "Nove vaca"

Nos dias de hoje a profissão de professor encontra-se muito desvalorizada. Quando ouço meus colegas de profissão lamentando esta desvalorização, percebo que estão se referindo ao salário e ao fato de que os professores não conseguem mais “ensinar”. Embora tenha apenas três anos de experiência como professor do ensino médio e na faculdade, eu já consigo enxergar algumas possíveis explicações para o descontentamento da classe a que pertenço. Uma dessas teorias baseia-se no fato de que a maioria não encontra mais a realização que buscava quando exerce a profissão. De fato, os professores (pelo menos os da rede pública) não são bem remunerados e as condições de trabalho de hoje não são como as de antigamente. Eis aqui também um outro fator que contribui para a frustração: a comparação com outras épocas de magistério. Além disso, ao ensinar o professor busca transmitir um pouco do conhecimento que adquiriu ao longo dos sofridos anos de universidade (que, aliás, já não é mais um conhecimento tão profundo assim...). Ao agir desta maneira, o professor pensa mais em si do que no próprio aluno. Será que o aluno quer mesmo receber o conhecimento que o professor julga tão importante? Ao encontrar um aluno mais interessado no que se passa à sua volta do que em conhecimentos “chatos”, o professor se vê extremamente frustrado. Diante deste quadro, seria de se esperar que todos os professores fossem pessoas derrotadas, infelizes e à beira da depressão. Existem, no entanto, alguns professores que conseguem escapar a esta sina e conservam, ainda, o “tesão” em dar aulas. Tais professores deveriam ser chamados de “educadores”, pois conseguem transmitir algo muito além do conhecimento, colaborando, de alguma forma, para a formação de verdadeiros cidadãos. Ao analisar estes três anos de magistério, percebo que às vezes fui um professor “triste”, diante das derrotas, porém em alguns momentos sinto-me um professor “feliz” e realizado. Dar aulas para turmas de suplência (os chamados “supletivos”) é o sonho da maioria dos professores. Grande parcela dos alunos dos cursos supletivos são adultos e estão na escola para aprender de fato. São alunos curiosos, esforçados e dedicados e que, acima de tudo, respeitam a figura do professor. Para tornar tudo quase perfeito, há também aqueles alunos “moleques”, que nos mostram que os sorrisos não precisam sumir à medida que os anos se passam. Dias atrás um aluno da 1a. série de supletivo, chamado Mariano, parou-me no corredor da escola. Além de muito interessado e curioso, assim como é uma boa parte dos alunos de sua turma, o Mariano é também muito bem humorado e brincalhão. Confesso que não me recordo de uma única vez que o encontrei com um largo sorriso no rosto. Na verdade, Mariano queria lançar-me um desafio. Seguiu então para uma vazia e escreveu no quadro negro: “COLOCAR 9 VACA EM 8 CURRAIS SEM DEIXAR NENHUMA VACA FORA DOS CURRAIS (NÃO PODE COLOCAR MAIS QUE UMA EM CADA CURRAL)”. Agora, em pleno intervalo, o Mariano se aproxima com aquele velho sorriso no rosto, junto com o Luís Fernando, seu amigo. “E aí, professor, conseguiu encaixar 9 vaca nos 8 currais?”, diz ele e, sem se conter, cai na risada. Respondo: “Mariano, eu perdi umas duas noites pensando nesse problema. Ao invés de contar carneirinhos, eu contava vacas...” Ele dispara a rir, e assim permanece por uns longos 3 min ininterruptos. Vermelho, praticamente com câimbras no abdômen, o Mariano pede um papel e uma caneta e escreve: N O V E V A C A. Olho para ele, com cara de quem não acredita no que acaba de ler. Novamente ele dispara a rir, sob os olhares do amigo Luís Fernando, que ainda está curioso pela resposta. “Luís, acho que você não vai querer saber a resposta desse enigma...” Enquanto isso, o Mariano quase cai da cadeira, de tanto rir.
Ser professor não é tão ruim quanto a maioria pensa. A questão é saber encontrar em pequenos momentos como este a sua verdadeira valorização...

Um comentário:

Márcio Roberto do Prado disse...

Grande Antônio, salve!

Estive sumido por muuuuuuito tempo aqui dos comentários, mas não do blog que, embora meio “sovina” (brincadeira!) com os posts, continua sendo uma de minhas leituras favoritas. Gostei – como sempre gosto – de seus relatos a respeito de sua experiência docente, sobretudo no ensino médio e no supletivo. Realmente, há problemas consideráveis que exigem soluções que, infelizmente, parecem estar ainda longe. Bom, cê sabe, nóis professores adoramos reclamar disso, né? Bem, mas o que me levou a abandonar o silêncio (que dramático!) foi seu suspense a respeito de uma possível mudança de rumo em sua vida profissional. O que é, heim? Sei que é uma invasão de privacidade, mas acho que, como faz parte de “seu cotidiano”, esse passo pode até ser “narrado”, né não?

Abraço, brother, do

Márcio Roberto do Prado