domingo, 27 de maio de 2007

Fragmentos de minha infância - parte 12

Março de 1980. Estou na casa da vovó Maria. Papai, mamãe e eu moramos em Quirinópolis, que fica lá em Goiás. Como é muito longe, não é sempre que a gente pode vir visitá-la, por isso estou muito feliz por estar aqui. Ela gosta muito de mim. Faz bolachinhas e “crustis” para eu comer e fica o tempo inteiro comigo. O vovô Mila e a tia Ângela também me adoram. Acho o vovô Mila muito engraçado. Parece que ele gosta de me ver dando risada, pois faz de tudo pra me fazer rir. Mas eu sinto falta de alguém da minha idade pra brincar. O Marquinho, que mora aqui na casa lado, é o único amiguinho que eu tenho, mas não é sempre que ele vem brincar comigo, pois eu tenho só 4 anos e ele já tem 7... Apesar de me sentir muito amado pela vovó, vovô e titia, eu estou sentindo muita saudade da mamãe. Nem sei quantos dias faz que eu não a vejo, mas pra mim parece que faz muito tempo. A vovó disse que ela está no hospital, internada. Eu perguntei pra vovó se ela estava doente, pois quando ela foi para lá, estava com uma barrigona enorme. A vovó disse que a barriga dela está grande porque minha irmãzinha está lá dentro. Oba! Vou ter uma irmãzinha pra brincar! Já é tarde. É hora de tomar banho. A vovó pega a toalha e minhas roupinhas e me leva para o banheiro. Ela me desveste, liga o chuveiro e começa a me ensaboar. Eu começo a rir, porque aquela espuma faz cócegas quando a vovó começa a passar a buchinha. A vovó parece mais feliz do que ontem. “Filho, a mamãe vai sair do hospital”. Ah, que bom! Eu já estava começando a ficar preocupado com ela... “Sua irmãzinha nasceu!” Olho pra vovó. Ela está rindo muito, parece muito feliz. Lembro então que a mamãe e o papai não estão estão lá no hospital, com a minha irmãzinha que acabou de nascer. Por que eles estão lá com ela e não estão comigo? Será que eles preferem ela a mim? Será que agora que ela nasceu, eles não vão mais gostar de mim? E o vovô e a titia, onde estão? Será que estão lá com a minha irmãzinha também? Será que a vovó vai me deixar sozinho aqui pra ir ver a minha irmãzinha também? Será que todos agora vão me abandonar? Será que minha irmãzinha veio pra tirar o meu lugar? Começo a então chorar. A vovó fica preocupada, porque acha que estou sentindo alguma dor. Mas ela não sabe o que está se passando comigo. Levanto do chão do banheiro e começo a correr pela casa, chorando, cheio de espuma. A vovó parece desesperada. Mas estou muito nervoso. Não estou chorando de dor, e sim de raiva. Corro então até a pia da cozinha. Abro as portas e começo a fechá-las com força. A vovó fica desesperada, não sabe o que deu em mim. Da cozinha eu sigo para o quarto, onde está a cama da vovó, coberta por uma colcha vermelha aveludada. Mesmo cheio de espuma, eu pulo sobre a colcha e começo a chorar e a bater os braços e as pernas na cama. E choro, choro muito! Acho que nunca senti tanto medo de ficar sozinho...

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Derrapagem

Terça-feira, 15h48min. Estou trafegando pela rodovia que liga Franca a Barretos. Entrarei à direita no próximo trevo, que cruza a via Anhanguera. Esta rodovia em que me encontro tem estado muito movimentada desde que começou a safra da cana-de-açúcar. “Rodotrens”, como assim são chamados, podem ser encontrados a cada quilômetro, o que tem aumentado sobremaneira o tempo de percurso entre minha casa e a faculdade. Para agravar a situação, chove. Eu até que preferia uma chuva forte, pois pelo menos a água lavaria a pista. Mas a chuva que cai é fina e, ao misturar-se com o barro que os caminhões canavieiros trazem eu seus pneus, forma uma camada de barro fino e escorregadio. É preciso ter muita atenção ao dirigir nesta estrada, o que aumenta ainda mais o meu desgaste físico a cada viagem. Estou um bagaço!
Estou a poucos quilômetros da Anhangüera. Trafego a 90 km/h, ouvindo músicas no mp3 para tentar espantar o sono. À minha frente, a aproximadamente uns 50m, segue um caminhão “três quartos”, carregado de barris de óleo em sua carroceria. Mantenho minha velocidade constante e, aos poucos, vou me aproximando do caminhão, para em seguida ensaiar uma ultrapassagem. Eis que, de repente, como se o motorista tivesse descoberto que deveria ter entrado quilômetros atrás, o caminhão reduz bruscamente sua velocidade. De ímpeto, eu piso firme no freio do automóvel. Porém, a piada está repleta de barro... e o carro, com as rodas travadas pelo freio, desliza pela pista, seguindo em direção ao outro lado da pista. Tudo acontece muito rapidamente, não consigo pensar. Do outro lado da pista vejo um carro branco, trafegando em alta velocidade. Ele vem em minha direção. Não consigo tirar os pés do freio, pois sei que se eu o fizer, meu carro irá colidir na traseira do caminhão, que a esta altura parece ter decidido ir para o acostamento. E o carro segue deslizando, fora de controle... Ouço o barulho dos pneus, derrapando no barro. O volante virou para o outro lado da pista, e é para lá que o carro continua indo. Lembro-me então do papai ter dito que quando os freios não funcionam, a melhor alternativa é utilizar as marchas. E é isso que faço. Pressiono o pedal do freio com a embreagem e puxo a alavanca do câmbio em direção à quarta marcha. O carro diminui a velocidade, mas não o suficiente. Engato então a terceira marcha... Somente então o carro retoma seu caminho correto. Assustado, começo a fazer o sinal da cruz várias vezes. Estou sem fôlego, com o coração disparado. Mais uma vez meu pai e meu Pai salvaram-me. Essa foi por pouco.
Ouça o que seus pais lhe disserem. Algum dia, quando você menos esperar, você verá que eles sempre tiveram razão.

domingo, 20 de maio de 2007

Manipulação

Sábado, 19 de maio. São 8h35min. Estou em meio a centenas de professores no anfiteatro central da universidade. Fomos convocados para assistir a uma palestra sobre a educação em nosso país. O palestrante é pós-graduado na Universidade de Yale e colunista da Folha de São Paulo. Aparentemente ele não passa de um jovem grã-fino, com cabelo com gel penteado para o lado, daqueles que nunca sofreram na vida. Quanto à situação em que nos encontramos, encaro-a até este instante como uma tentativa da universidade de passar-nos uma mensagem, e bem sabemos que esse rapaz de pele branca foi muito bem pago para fazer isso. A palestra começa. Desde o início fica evidente que o palestrante domina muito bem as palavras e que, a julgar pelo sotaque, trata-se de um cidadão sulista. Em seu sslides, o camarada começa a apresentar dados sobre a educação brasileira, alguns dos quais são muito impactantes. O que mais chama a atenção é o fato do Brasil contar com 74% de analfabetos funcionais, e o de figurar entre os países de pior nível educacional do planeta. Isso, convenhamos, não é algo que cause orgulho a ninguém. A palestra segue bem, porém percebe-se que o palestrante procura manter-se reservado quanto às suas opiniões pessoais. Fica também evidente que os números que ele apresenta foram manipulados por ele de forma a transmitir um recado que, para todos, é nitidamente um absurdo. Ao comparar o salário de um professor da rede pública com o PIB, o tal rapaz conclui que um professor da rede pública ganha bem. Inicia-se então os murmurinhos. Outro aspecto interessante levantado por ele foi que a massificação da educação resulta em avanço tecnológico. Porém, quando questionado sobre o que aconteceu com a Universidade de Buenos Aires, que absorve todo e qualquer aluno que terminou o ensino médio, ele “atira no próprio pé” ao dizer que “não se tem como oferecer uma boa qualidade de ensino a tanta gente.” Esta contradição parece minar-lhe o crédito. Era a gota d'água para que o professorado presente se manifestasse diante de tantas asneiras. A situação se agrava ao ponto da pró-reitora levantar-se e encerrar a palestra. 10h15min. A palestra terminou. Deixo o anfiteatro com algumas opiniões bem formadas. A principal delas é que ninguém conhece a realidade da escola pública, a não ser quem vivencia o seu cotidiano. Não se pode acreditar nas palavras de uma pessoa que diz: “Aproveitei o convite para deixar um pouco meu escritório”. Pessoas que vivem atrás de escrivaninhas estudando julgam-se entender de educação simplesmente porque conhecem as estatísticas. Pois bem. Além de poderem ser manipulados, os números não contêm qualquer sentimento. Concordo que a educação de nosso país é falha, mas os problemas são vários, desde a formação acadêmica do professor à formação familiar do aluno, passando, obviamente, por um sistema estúpido de progressão continuada. O equacionamento deste problema não é tão simples e a resposta para este problema certamente não sairá de uma palestra ministrada por alguém que jamais freqüentou uma escola pública como aluno. Cuidado com os números. Embora sejam exatos, eles podem ser manipulados para expressarem a medida que o dinheiro puder comprar.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

De volta a Cosmópolis

8h48min. Estou morrendo de sono. Mesmo assim preciso tentar manter os olhos abertos e a atenção fixa, pois estou ao volante. O carro não é meu; é do vovô “Mila”. Como passageiros estão eu, ele, a vovó Maria e a minha Débora. Estamos indo em direção à casa de minha irmã, em Cosmópolis. Hoje à tarde será o aniversário da Clarinha. Sinto que o vovô está com pressa de chegar. Mas eu estou com sono e preciso dormir. “Vovô, vou parar pra dar um cochilo”. “Se você parar pra cochilar, eu desço do carro e vou a pé”, responde ele, prontamente. Mas eu nunca sei quando ele está falando sério ou não... 11h. Estamos perdidos pela cidade de Cosmópolis. É uma cidade ridiculamente pequena, mas eu não tenho a mínima noção pra que direção fica a casa para onde minha irmão se mudou. “Precisa achar a caixa d’água”, diz a vovó. Decido ligar para o papai para ele nos dar informações. “Pega a venida, depois vira à direita, tem uma rua que morre, vira à esquerda....” Definitivamente estamos perdidos. 11h15min. Finalmente encontramos a casa de minha irmã. A Clarinha vem receber-nos ao portão, toda dengosa. “Dinho bunitinho!”, diz ela, correndo ao meu encontro. Recebo um abraço gostoso e um beijinho molhado. Ah, que saudade...
11h26min. A Clara já se sente à vontade conosco. Ela acabou de pregar adesivo na testa de todos nós. Ela está muito feliz. Nós também. Enquanto isso, o papai assiste a missa do papa Bento XVI em Aparecida-SP. “Esse padre é nazista”, não cansa de dizer ele. 12h20min. Finalmente encontro minha irmã. Está mais magra que da última vez. Está elétrica. A festa da Clara está marcada para as 15h. Na cozinha, a mamãe e a tia Ângela preparam o almoço e terminam de preparar os últimos salgadinhos. 14h28min. Estou cansado. A gripe começa a tomar conta de mim. Estou deitado na cama da Clara, a Débora está ao lado, tirando um cochilo. Ouço do lado de fora um chorinho. “Vovóinha, eu quero o Dinho!”. De repente, uma pequena criança entra pelo quarto e deita entre mim e a Débora, que imediatamente acorda. É a Clarinha. Ela envolve meu pescoço com os braços e joga os dois pés sobre o meu peito. Débora diz: “Deixa um pouquinho do Dinho pra mim...”, ao que a Clarinha responde: “Dinha, num sobro nada du Dinho pra sinhóla.” Dito isso, me abraça mais forte e me dá um beijo gostoso no rosto. Que fofura!
15h45min. A festa está rolando. A Clarinha está muito contente, brincando na cama elástica e na piscina com bolinhas. Quando se cansa, ela vem até a nossa mesa e toma um copinho de água. Essa é também a mesa dela.
16h55min. Chamo minha irmã para conversar em um reservado. Quero saber como ela está. Parece magra e cansada. Estou preocupado com ela. Está longe de São Joaquim desde a Páscoa e sei que a saudade é grande. Apesar do gênio forte e explosivo, minha irmã é uma boa mãe. Tem também o mérito de ter saído de casa e se mudado para uma cidade completamente estranha. É uma batalhadora. Pena que cometeu alguns erros em função da imaturidade de anos atrás. Apesar disso, conserva boa a sua essência, e forte o seu temperamento. Mas é minha irmã. Minha única irmã. E eu a amo.
19h. Estamos no carro, voltando para casa. Débora ensaia um cochilo no banco da frente, ao meu lado. No banco de trás, com os olhos semi-abertos, a tia Ângela fala ininterruptamente, com medo de que eu durma no volante. Mais um dia que se foi, mais lembranças para guardar. E mais saudade pra sentir.

terça-feira, 8 de maio de 2007

O professor e seu mestre

20h15min. Estou no meio de uma aula na universidade. Na sala há cerca de 40 alunos, assistindo a uma aula de Química Orgânica II. O tema da aula é aromaticidade de compostos orgânicos. Eu sou o professor. Os alunos estão rindo do nome de alguns compostos aromáticos cuja estrutura acabo de desenhar no quadro negro. Furano, benzeno, cumeno, tiofeno. Obviamente escolho os mais engraçados, pois as risadas destes alunos são para mim os momentos mais importantes da aula. A maioria deles trabalha duramente durante o dia e vem à universidade em busca de um diploma para alvejarem um novo degrau em suas vidas. Todos têm pouco tempo para estudar, portanto a aula precisa ser bem aproveitada. Eis que a porta da sala se abre. Por trás da porta aparece a Eveline, uma aluna do 4o ano de Química Industrial. Um dos alunos do fundo da sala imediatamente assobia quando a avista. A turma fica agitada. “Miller, por favor, você tem um minutinho?”. Os alunos começam a rir. “Eeeeeeeeeeeeeeeeee, Miller!” Quando vejo que ela está acompanhada pelo Diogo, também aluno do quarto ano, olho para a turma e faço propositadamente uma cara de “convencido”, ajeito o colarinho da camisa e sigo em direção à porta, sob o delírio e risada dos demais alunos. Quando encosto a porta, a Eveline começa a falar. “Miller, a gente tem uma boa notícia pra te dar.” Ela então é interrompida pelo Diogo. “Nós fizemos uma votação entre os alunos da nossa turma pra ver quem eles gostariam que fosse o nosso paraninfo na formatura, e você foi eleito por unanimidade!”, diz ele, transparecendo muita felicidade. A Eveline começa a rir. “Miller, foi muito engraçado! Até aqueles caras grandões lá do fundo da sala... Precisavam ver eles gritando o seu nome!” Sem ter muitas palavras a dizer, mas com um enorme sorriso no rosto, eu aperto a mão de ambos e os agradeço, expondo-lhes minha gratidão pelo reconhecimento. 22h35min. Estou próximo ao relógio de ponto. Ao adentrar a sala e me avistar, o Toni vem me abraçando, com um enorme sorriso no rosto. “Parabéns, Miller! Você não faz idéia de como fiquei feliz! Eu apostava em você! Este ano você é quem vai ter que preparar o discurso! Hahaha” Abraçado ao Toni, eu agradeço imensamente o carinho que ele tem tido por mim desde que ingressei na universidade. Digo-lhe que ele (que todos os anos é homenageado) sempre foi uma inspiração para mim no que diz respeito à forma humana e respeitosa como lida com os alunos, e que eu sigo o exemplo dele. “Professores têm que ser exemplos, Toni. E você foi um exemplo para mim. Obrigado!” Ele então coloca a mão direita sobre o meu ombro e diz: “Sabe, Miller, demonstrações de carinho que os alunos têm para conosco são impagáveis.”
Ao lado de um grande professor sempre há um grande mestre.

"Noividade"

“O homem deixará a casa de seus pais e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne”. Acho que era mais ou menos isso que diz um dos trechos da bíblia. No sábado, Débora e eu demos um grande passo rumo aos acontecimentos narrados nesta frase bíblica: noivamos! Após 11 anos e 10 meses de namoro, enfim trocamos alianças, que por enquanto ficarão na mão direita até que nossa casa esteja pronta. Não houve cerimônia alguma. Simplesmente fomos à loja buscar as alianças, que haviam sido encomendadas na segunda-feira (30/04), véspera de feriado, passando a partir de então a usá-las. Olhamos um no olho do outro e reforçamos o sentimento de mais de uma década através daquelas alianças douradas, onde nossos nomes foram gravados Nos dias de hoje muito se ouve falar em “aliança de compromisso”. Namorados que se conhecem há poucos meses fazem juras de amor eterno e trocam alianças. Poucos dias depois, após uma pequena discussão sem grandes motivos aparentes, as mesmas alianças são as primeiras a serem jogadas no chão, como sinal de que tudo está terminado. Em outras palavras, as alianças são apenas símbolos de um sentimento. Se tal sentimento não for forte e verdadeiro, as alianças nada representam.
Nos últimos dias, tenho sentido como se eu estivesse passando por uma transformação inevitável por causa da aliança: a de estar deixando definitivamente a adolescência para entrar na vida adulta. A possibilidade de ser pai começa a se tornar uma realidade mais próxima. Mas a grande maravilha, e talvez o maior encantamento de tudo isso, é olhar na pessoa que ostenta a outra aliança e ver estampado em seu rosto a mais pura felicidade. Inexplicavelmente, este anel dourado faz-me sentir um adulto adolescentemente apaixonado...

domingo, 6 de maio de 2007

Escolhas

Ontem assistimos ao tão esperado filme “Homem Aranha 3”. Os dois primeiros filmes da trilogia do “amigão da vizinhança” foram sucesso de bilheteria e constam entre as melhores adaptações de histórias em quadrinhos para os cinemas que já se viu. Ao analisar os três filmes, entende-se porque o Homem Aranha é um dos super-heróis mais queridos. Peter Parker, seu alter ego, é um jovem inteligente, porém precisa trabalhar como fotógrafo free lance para o jornal Clarim Diário para sobreviver. As fotos, a maioria delas contendo fotos do Homem Aranha (ou seja, de si mesmo...) são vendidas por ele ao desalmado J. J. Jameson, que sempre paga o que quer por elas. Sua família se resume à sua tia May e sua grande paixão, Mary Jane Watson, tem uma queda pelo melhor amigo de Peter, o milionário Harry Osborn (coincidentemente, filho do Duende Verde, seu arquiinimigo). Em outras palavras, é um herói “real”, com o qual todos se identificam. Neste último filme da trilogia (ou melhor, desta “primeira” trilogia, pois boatos dizem que uma segunda está sendo negociada!), Peter Parker deixa corromper-se pelo ego. Ao perceber que é querido por todos, que o chamam de “amigão da vizinhança” e até lhe oferecem a chave da cidade, ele se torna arrogante e presunçoso. Enquanto isso, a carreira artística de sua namorada, M. J. Watson, vai por água abaixo. Mas Peter só sabe falar de si mesmo. Neste mesmo instante, ele descobre que o verdadeiro assassino de seu tio Ben é Flint Marko, que acabara de fugir da prisão da ilha Ryker. O que ele não sabe é que Marko sofreu acidentamente alterações em sua estrutura molecular. Sedento por vingança, Parker encontra-se exalando adrenalina pelos poros, tornando-se uma presa interessante para Venom, o simbionte alienígena. A despeito das cenas de ação do filme, que deixam o espectador boquiaberto e fazem valer cada centavo pago pela entrada, a cena que mais comove é uma das últimas, na qual o Homem Areia pede a compreensão do Homem Aranha por ter matado o tio dele. Ele lhe explica que não queria matar o tio Ben, mas estava assustado e que precisava do carro dele para efetuar a fuga. O dinheiro que havia roubado seria utilizado na cirurgia da filha de Flanko, que tinha sérios problemas de saúde. No final de seu discurso, Flanko desabafa: “Eu não escolhi ser assim. ”Eu não tive outra opção”. Parker, então, diz que todos nós temos mais de uma opção quando vamos fazer nossas escolhas, e que sempre uma delas leva ao bom caminho. Percebi então que uma escolha pode alterar completamente o rumo de nossas vidas. Por exemplo: na época em que estava sendo feita a seleção do grupo de jovens que serviriam o tiro-de-guerra, eu tinha conseguido radiografias da coluna para mostrar ao médico que eu não podia levantar peso de qualquer natureza e, portanto, deveria ser dispensado. Contudo, ao ver aqueles jovens de minha idade sorrindo e se divertindo, mudei de opinião e sequer mostrei as radiografias para o médico. Caso eu as tivesse mostrado, talvez tivesse sido dispensado e jamais conheceria o Agnaldo, meu cunhado. Em outras palavras, eu jamais teria conhecido a “minha” Débora. Quando soube que tinha sido aprovado no exame de seleção para o mestrado, eu tive que escolher entre permanecer na usina ou pedir as contas e ir para a USP sem perspectiva de bolsa de estudos. Se não tivesse escolhido a segunda opção, talvez não estivesse aqui escrevendo essas linhas hoje, pois minha vida teria sido completamente diferente e eu, obviamente, seria uma pessoa diferente dessa que hoje escreve essas linhas. Fazer escolhas nem sempre é uma tarefa fácil, principalmente quando outras pessoas serão diretamente afetadas pela escolha que for feita. No caso do filme, a escolha feita pelo Homem Areia acabou afastando-o de sua mulher, que passou a sentir vergonha por ter se casado com um “bandido”. Da mesma forma, escolher significa excluir definitivamente uma das opções: a escolha feita pelo Homem Areia excluiu de vez a possibilidade de passar a vida ao lado de sua família. Por fim, ao escolher, é preciso estar consciente de que algumas das opções aparecem uma única vez na vida. Se não forem escolhidas no momento certo, certamente teremos abdicado àquelas opções pelo resto da existência. Isso fica evidente durante todo o filme, todas as vezes que o Homem Areia abre o retrato na jóia que seu filho lhe presenteou. “Eu desejei inúmeras vezes voltar atrás, mas não tem jeito”, diz ele. Por fim, nem sempre a escolha mais fácil é a que leva ao melhor caminho. Ao invés de trabalhar, Flank escolheu roubar, que lhe pareceu mais conveniente. Somos hoje fruto das escolhas que fizemos ontem. Portanto, faça suas escolhas com muita ponderação, pois elas o tornarão a pessoa que você será daqui a alguns anos.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Ser professor é...

Hoje foi dia de entrega de provas na faculdade. A disciplina que ministro – a tal da Química Orgânica – tem a fama de ser uma das mais difíceis. Todos falam que “a matéria do Miller é foda!”, mas não me orgulho muito disso. Digo isso porque na condição de professor, o meu maior desejo é que todos os alunos se saiam bem nas provas. Isso mostra que eles aprenderam o conteúdo, o que sempre gera no professor a idéia de que ele ensinou bem. É claro: ensinar é uma coisa, aprender é outra. O professor pode ensinar e o aluno pode não aprender, da mesma forma que o professor pode não saber ensinar e o aluno não se sair bem. De qualquer forma, ver os alunos vencendo os obstáculos, ali impostos na forma de avaliações, é sempre gratificante.No primeiro bimestre de cada ano já me acostumei com a média de 50% de notas vermelhas. Após algum esforço e muito estudo, os alunos sempre acabam fechando suas notas e escapando das dependências. Entretanto, ocorreu algo inesperado em uma sala de 2o. ano de Licenciatura em Química. Apenas 3 alunos dentre os 15 alunos da sala obtiveram média 6,0 ou acima. Ao mesmo tempo, reconheceram que a prova não estava difícil. Esta situação levou-me a ter uma conversa muito séria com eles. Afinal, eles serão professores e um dia, se Deus quiser, estarão no meu lugar. Disse então a eles: “Estou muito preocupado com a postura de vocês. Não com a nota, mas com o desânimo de vocês. Aqui eu sinto que a maioria pensa: ‘Ah, eu vou ser professor mesmo, então não preciso aprender isso.’ Pois é justamente o contrário! Quanto mais sábio for o professor, melhor ele será. Isso me preocupa, porque ao agir assim, vocês mesmos estão desvalorizando aquela que será a futura profissão de vocês. Não se esqueçam: vocês têm que estudar bastante, ter um vasto conhecimento, saber lidar com as pessoas e, mesmo assim, ganhar pouco. Pensem bem: vocês querem realmente ser professores? Se quiserem ganhar dinheiro, visando riqueza e bens materiais, mudem de curto. Peçam transferência para o bacharelado. Ser professor não enriquece em termos materiais. Por outro lado, é preciso ser exemplo de ser humano. Quando chegarem em uma sala de aula, sorriam para os seus alunos. Um sorriso pode salvar o dia de um aluno. Façam com que seus alunos vejam vocês como exemplos. Hoje em dia a maioria dos professores é insatisfeita, o que faz com que os professores sejam vistos pelos alunos como pessoas fracassadas. Não é à toa que cursos que formam professores têm as mensalidades mais baixas. Justamente porque ninguém quer enfrentar a barra de ser professor! Há aqui nesta sala um aluno que já é professor. Eu o flagrei colando. Qual é a postura desse professor em sala de aula? Qual é a moral desse rapaz para tirar a prova de um aluno que ele flagra colando e lhe atribuir um zero como nota? Dêem exemplos, meus amigos! Sejam exemplos! O que se faz nesta vida, ecoa pela eternidade. Então façam bem feito!”

terça-feira, 1 de maio de 2007

Medo de altura

Existem vários ditados populares que atraem a atenção pela forma divertida com que transmitem uma mensagem. Dentre todos eles, o que sempre me despertou risos foi “quem tem c..., tem medo”. Coincidentemente, acredito ser este um dos mais sábios dentre todos os ditados que me vêm à cabeça neste instante. Afinal, todo homem (e mulher também) tem seus medos e fobias. No meu caso, eu tenho duas grandes fobias: altura e água. Nos meus sonhos (ou deveria chamá-los de pesadelos?) sempre me vejo trafegando em alta velocidade em uma rodovia. Quando chego no topo de uma colina, a estrada acaba. Lá embaixo, aguardando por minha queda, há água por todos os lados... Com relação à altura, acredito que a minha fobia seja hereditária. Meu querido papai, em uma das raras vezes que demonstrou fraqueza humana (sim, os heróis também têm medo!), contou-nos da ocasião em que minha mamãe o convidou para passear na roda gigante, quando ainda eram solteiros. Diz ele que quando a roda gigante parou e os dois estavam lá na parte de cima, ele se borrou nas calças (!!!). Obviamente não consegui confirmar a veracidade desta história, pois ela foi contada entre risos e o papai adora ilustrar os “causos” que conta. O fato é que anos depois de tomar conhecimento daquela situação inusitada, “minha” Débora convidou-me para passear em um brinquedo de parque chamado de “estrela”, que em muito se assemelha a uma roda gigante. Prontamente eu aceitei. Ah, se arrependimento matasse... Já na primeira vez que a cabine começou a subir, senti voltas no estômago. A cada volta daquela enorme roda em torno do eixo central, minhas vísceras pareciam remexer dentro de mim. Na tentativa de esconder o medo, eu olhava para a minha Débora, que parecia estar feliz por estarmos ali, juntos. Após consecutivas voltas, a quantidade de “gases” que foi se acumulando não pôde ser contida. Silenciosamente, de forma bem discreta e calculada, fui liberando esses gases, que provavelmente seriam detectados pelo odor, mas não pela sua “chegada”. Assim que “aliviei” os malditos gases, o tempo se esgotou e nós tivemos que descer. Antes que a Débora detectasse o que eu acabara de aprontar, desci rapidamente da estrela e puxei-a pelo braço. “Calma, Du! Por que a pressa?”, disse ela, recriminando-me. Após nos afastarmos do maldito brinquedo, eu me aproximei dela e falei, baixinho, eu seu ouvido: “Nem te conto o que aconteceu...” Imediatamente ela voltou seus olhos para a cabine de onde acabávamos de sair, e avistamos um casal que se dirigia para lá. Eis que o casal mal acabou de se sentar e saiu com os dedos pressionando o nariz. “Deus do céu! Que fedor! Nessa cabine não tem jeito de ficar, não!” A Débora olhou-me, mergulhada em risos. “Nem precisa me contar. Eu já sei o que foi que você aprontou...”
"A verdadeira força de um homem está em olhar para suas fraquezas e rir delas."