domingo, 20 de maio de 2007

Manipulação

Sábado, 19 de maio. São 8h35min. Estou em meio a centenas de professores no anfiteatro central da universidade. Fomos convocados para assistir a uma palestra sobre a educação em nosso país. O palestrante é pós-graduado na Universidade de Yale e colunista da Folha de São Paulo. Aparentemente ele não passa de um jovem grã-fino, com cabelo com gel penteado para o lado, daqueles que nunca sofreram na vida. Quanto à situação em que nos encontramos, encaro-a até este instante como uma tentativa da universidade de passar-nos uma mensagem, e bem sabemos que esse rapaz de pele branca foi muito bem pago para fazer isso. A palestra começa. Desde o início fica evidente que o palestrante domina muito bem as palavras e que, a julgar pelo sotaque, trata-se de um cidadão sulista. Em seu sslides, o camarada começa a apresentar dados sobre a educação brasileira, alguns dos quais são muito impactantes. O que mais chama a atenção é o fato do Brasil contar com 74% de analfabetos funcionais, e o de figurar entre os países de pior nível educacional do planeta. Isso, convenhamos, não é algo que cause orgulho a ninguém. A palestra segue bem, porém percebe-se que o palestrante procura manter-se reservado quanto às suas opiniões pessoais. Fica também evidente que os números que ele apresenta foram manipulados por ele de forma a transmitir um recado que, para todos, é nitidamente um absurdo. Ao comparar o salário de um professor da rede pública com o PIB, o tal rapaz conclui que um professor da rede pública ganha bem. Inicia-se então os murmurinhos. Outro aspecto interessante levantado por ele foi que a massificação da educação resulta em avanço tecnológico. Porém, quando questionado sobre o que aconteceu com a Universidade de Buenos Aires, que absorve todo e qualquer aluno que terminou o ensino médio, ele “atira no próprio pé” ao dizer que “não se tem como oferecer uma boa qualidade de ensino a tanta gente.” Esta contradição parece minar-lhe o crédito. Era a gota d'água para que o professorado presente se manifestasse diante de tantas asneiras. A situação se agrava ao ponto da pró-reitora levantar-se e encerrar a palestra. 10h15min. A palestra terminou. Deixo o anfiteatro com algumas opiniões bem formadas. A principal delas é que ninguém conhece a realidade da escola pública, a não ser quem vivencia o seu cotidiano. Não se pode acreditar nas palavras de uma pessoa que diz: “Aproveitei o convite para deixar um pouco meu escritório”. Pessoas que vivem atrás de escrivaninhas estudando julgam-se entender de educação simplesmente porque conhecem as estatísticas. Pois bem. Além de poderem ser manipulados, os números não contêm qualquer sentimento. Concordo que a educação de nosso país é falha, mas os problemas são vários, desde a formação acadêmica do professor à formação familiar do aluno, passando, obviamente, por um sistema estúpido de progressão continuada. O equacionamento deste problema não é tão simples e a resposta para este problema certamente não sairá de uma palestra ministrada por alguém que jamais freqüentou uma escola pública como aluno. Cuidado com os números. Embora sejam exatos, eles podem ser manipulados para expressarem a medida que o dinheiro puder comprar.

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