domingo, 24 de junho de 2007

O reencontro

Quando a porta se abriu, ela surgiu. Trajava um lindo vestido vermelho. Cabelos longos e escuros, pele morena, sorriso largo. Tinha nos olhos um brilho especial, daqueles que somente os olhos apaixonados conseguem refletir. Face corada, cheia de vida. O perfume, que seguiu em minha direção quando ela surgiu de trás da porta, hipnotizou-me. Com ombros e quadris largos, aquela moça posicionou um pé na frente do outro, e o outro na frente do um, e assim começou a caminhar em minha direção. Um movimento divinamente cadenciado de quadris e braços conferiam-lhe um ar de top model. Enquanto caminhava, seus olhos permaneciam fixos nos meus, deixando-me completamente sem ação. O balanço de seus cabelos fazia espalhar ainda mais o seu perfume. Boquiaberto, sem saber o que fazer ou o que dizer, limitei-me a admirar a singularidade daquela beleza. À medida que a distância diminuía, meu coração acelerava-se. Eis que, enfim, ela parou a poucos centímetros de mim. Então pude sentir a maciez de suas mãos tocando as minhas e jogando-as sobre seus ombros. Em seguida, seus braços enlaçaram meus ombros, levando meu tronco de encontro ao dela. Dada a proximidade, pude sentir que a respiração e o coração dela também estavam acelerados. Seus lábios, desenhando um sorriso angelical, aproximaram-se dos meus, ficando tão próximos que eu pude sentir o sabor de seu batom vermelho sem precisar tocá-lo. Uma voz linda, sussurrada e sufocada pela proximidade de nossos lábios, pude enfim ouvir. “Que saudade de você, meu amor...”

terça-feira, 12 de junho de 2007

Dia dos Namorados

Quando meus olhos te avistaram pela primeira vez, nos últimos dias do mês de maio de 1995, fiquei sem saber o que fazer. Escondido naquele abrigo do tiro-de-guerra, e aparentando ter pelo menos uma década a mais que minha idade verdadeira, eu me limitei a olhar. Lancei-lhe então um olhar descompromissado, pois bem sabia que ele não seria retribuído. E assim foi. Ignorando-me, você partiu, deixando-me novamente sem saber o que dizer. Quando te avistei naquela noite junho de 1995, meu coração novamente acelerou-se. Somente ao ver-te caminhando em direção ao meu carro foi que percebi que seu irmão estava comigo, e que certamente estaríamos muito próximos dentro de poucos instantes. E assim foi. Teus olhos foram a única coisa que eu conseguia visualizar pelo retrovisor central. Na verdade, era tudo o que eu queria ver. E pela primeira vez, após um sorriso forçado, daqueles que se oferece por educação, nossos olhos se cruzaram pela primeira vez. Neles depositei meu sono daquela noite, não me restando nada a não ser lembrar de você madrugada adentro, acordado. Mas foi em 1º de julho daquele ano que consegui ficar a sós com você pela primeira vez. Após quatro longas horas de conversa, eu permanecia de pé diante de você, admirado com aquela beleza tão singular. Naquela noite deixei-a em casa, mas ao ter minha solicitação de beijo recusada, tive que conter-me com um abraço “roubado”. O beijo tão aguardado viria somente na noite seguinte. Desde então você não mais partiu, trazendo vida à minha existência.
Feliz Dia dos namorados, minha Débora, e obrigado por dar-me inúmeros motivos para celebrar este dia tão especial!

Rendição

10h15min. Estou na turma mais “temida” pelos professores do ensino médio. Aqui a maioria não consegue dar aulas. Todos são uníssonos quando se referem à conversa e à baderna. Mas os alunos não são baderneiros. Não é exatamente assim que eu os vejo. Minha opinião é que eles apenas não gostam de estudar. Apenas uns dois ou três alunos é que realmente estão dispostos a aprender, mas muitas vezes a disposição deles acaba sendo diluída e ofuscada pelo desinteresse dos demais. Estou parado aqui na frente deles, apoiado na lousa. Um ou outro olha pra mim de vez em quando, mas logo desvia o olhar de volta e começa a sorrir junto dos colegas. É como se ignorassem completamente a minha presença, ou como se ela não fizesse a mínima diferença. Na faculdade os alunos reagem de uma forma diferente. Uns policiam os outros. Aqui não. Todos estão no mesmo barco. Um barco que certamente irá naufragar daqui uns 4 ou 5 anos, quando estes jovens, agora cheios de vida e alegria, cairão em si e notarão que o precioso tempo perdido não volta atrás. Na última aula eu bem que tentei dizer isso a eles. Um deles disse: “Senta, que lá vem história.” Mas minha tentativa foi em vão e minha voz acabou sendo calada pelas gargalhadas dos alunos e alunas, certamente mais interessados nas piadinhas e besteiras que um deles estava contando, do que no que eu ia dizer. 10h20min. Ainda estou em frente ao quadro negro. Nenhum dos alunos ainda se tocou que é preciso parar. Pego então o livro, apago a lousa e faço uma das coisas que mais me envergonham como professor: passar a matéria na lousa. Ficar de costas para os alunos não apenas é desrespeitoso, como também é perigoso, pois nunca se sabe o que se pode encontrar quando virar as costas. De qualquer forma, eu escrevo e tento, aos poucos, dominar meu desânimo e desapontamento. “Deus do céu! O que estou fazendo aqui?” Sim, minhas forças estão indo embora. Quanto mais o tempo passa, eu me sinto longe daqui. Minha alma parece já não estar mais aqui na escola, como se eu estivesse me preparando para abandonar de vez este ambiente que tantas alegrias já me trouxe. Mas o corpo ainda sofre. Meus ouvidos ainda doem quando ouço os gritos deles. Minha coluan dói quando fico muito tempo de pé. Alheios a tudo isso, os alunos mantêm-se alegres, embora não saibam divertir-se comportadamente. Parecem que desejam mostrar ao mundo que estão alegres. De súbito, flagro um dos alunos está imitando um professor. Quando eles percebem minha expressão, faz-se o silêncio. Como se tivesse me rendido, deixo o livro cair sobre a mesa, coloco o giz no escorredor do quadro negro e começo a rir. “Vamos lá! Continue! Não pare! Quero ver se você é um bom artista...” Os risos ressurgem e ele vai até a frente da sala para imitar o professor, que é homossexual declarado. Seus trejeitos arrancam gargalhadas dos alunos. De longe, fico apenas observando. Estou rindo. Não rindo da imitação, mas da situação. Os alunos estão se divertindo, enquanto deveriam estar aprendendo. É preciso separar as coisas. Mas eles não conseguem. Eu, sem forças, me rendo. E fico observando. Meus olhos vêem, meus lábios sorriem. Mas eu não estou aqui. Prefiro que seja assim. Não quero admitir que perdi, que me rendi diante da dramática e desesperadora situação em que se encontra a educação do nosso país. Não quero assumir que eu também sou um responsável por isso, e que ao “render-me”, estou omitindo-me. Farei então como estes jovens, de famílias tão sofridas e desmanteladas: irei iludir-me, fingir que tudo está bem.

sábado, 9 de junho de 2007

A pista que faltava

Quem pacientemente dedica alguns minutos de seu dia à leitura deste blog, certamente já se acostumou com minha ausência de tempos em tempos. Estes amigos assíduos, e obviamente aqueles que não são tão assíduos assim, já perceberam que faz quase duas semanas que este blog não recebe uma atualização “decente”. Pra ser sincero, sinto-me em débito comigo mesmo por não ser capaz de postar atualizações diárias. Os motivos são diversos, mas há um em especial que tem me tirado o sono e tomado-me o tempo que eu reservava para as atualizações. Tenho gastado meu tempo na preparação de um memorial, que fala sobre minha vida acadêmica. O motivo deste memorial ainda permanecerá no ar, se bem que aqueles que pertencem ao meio acadêmico já têm neste memorial a pista que precisavam para “adivinhar” o que tem tanto mexido comigo nos últimos meses...

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Desânimo

São 23h46min. O sono e o cansaço estão prestes a derrubar-me. Estou exausto. Hoje foi um dia muito cansativo, principalmente a parte da manhã. Tive aulas no colégio e, como de costume, as aulas nos primeiros anos do ensino médio foram terríveis. Não consegui sequer falar... Quando precisava de silêncio, batia a caixinha do apagador na mesa, mas diante de tantas pancadas, ela se desfez em vários pedaços, o que foi mais um motivo de risos para os alunos. Confesso que jamais me senti tão desanimado e sem forças para dar aulas no ensino médio como agora. Já não consigo ver o que posso fazer por aqueles jovens. Em uma das salas, quando comecei a falar, um deles disse: “Vixi, senta que lá vem história”. Na outra, quando fui chegando, uma aluna foi irônica e disse: “Sabia que eu não senti falta de você?” Por essas e outras (talvez, obviamente, por mais do que outras), que eu começando a desejar que minha passagem pelo ensino médio termine em breve e ocorra o que eu estou sonhando... Para isso, no entanto, terei que arranjar forças para lutar. No momento, entretanto, a única luta que quero travar é com o meu travesseiro, deitado naquela cama aconchegante lá do quarto. Essa é uma luta que eu quero muito perder o mais breve possível...