terça-feira, 12 de junho de 2007

Rendição

10h15min. Estou na turma mais “temida” pelos professores do ensino médio. Aqui a maioria não consegue dar aulas. Todos são uníssonos quando se referem à conversa e à baderna. Mas os alunos não são baderneiros. Não é exatamente assim que eu os vejo. Minha opinião é que eles apenas não gostam de estudar. Apenas uns dois ou três alunos é que realmente estão dispostos a aprender, mas muitas vezes a disposição deles acaba sendo diluída e ofuscada pelo desinteresse dos demais. Estou parado aqui na frente deles, apoiado na lousa. Um ou outro olha pra mim de vez em quando, mas logo desvia o olhar de volta e começa a sorrir junto dos colegas. É como se ignorassem completamente a minha presença, ou como se ela não fizesse a mínima diferença. Na faculdade os alunos reagem de uma forma diferente. Uns policiam os outros. Aqui não. Todos estão no mesmo barco. Um barco que certamente irá naufragar daqui uns 4 ou 5 anos, quando estes jovens, agora cheios de vida e alegria, cairão em si e notarão que o precioso tempo perdido não volta atrás. Na última aula eu bem que tentei dizer isso a eles. Um deles disse: “Senta, que lá vem história.” Mas minha tentativa foi em vão e minha voz acabou sendo calada pelas gargalhadas dos alunos e alunas, certamente mais interessados nas piadinhas e besteiras que um deles estava contando, do que no que eu ia dizer. 10h20min. Ainda estou em frente ao quadro negro. Nenhum dos alunos ainda se tocou que é preciso parar. Pego então o livro, apago a lousa e faço uma das coisas que mais me envergonham como professor: passar a matéria na lousa. Ficar de costas para os alunos não apenas é desrespeitoso, como também é perigoso, pois nunca se sabe o que se pode encontrar quando virar as costas. De qualquer forma, eu escrevo e tento, aos poucos, dominar meu desânimo e desapontamento. “Deus do céu! O que estou fazendo aqui?” Sim, minhas forças estão indo embora. Quanto mais o tempo passa, eu me sinto longe daqui. Minha alma parece já não estar mais aqui na escola, como se eu estivesse me preparando para abandonar de vez este ambiente que tantas alegrias já me trouxe. Mas o corpo ainda sofre. Meus ouvidos ainda doem quando ouço os gritos deles. Minha coluan dói quando fico muito tempo de pé. Alheios a tudo isso, os alunos mantêm-se alegres, embora não saibam divertir-se comportadamente. Parecem que desejam mostrar ao mundo que estão alegres. De súbito, flagro um dos alunos está imitando um professor. Quando eles percebem minha expressão, faz-se o silêncio. Como se tivesse me rendido, deixo o livro cair sobre a mesa, coloco o giz no escorredor do quadro negro e começo a rir. “Vamos lá! Continue! Não pare! Quero ver se você é um bom artista...” Os risos ressurgem e ele vai até a frente da sala para imitar o professor, que é homossexual declarado. Seus trejeitos arrancam gargalhadas dos alunos. De longe, fico apenas observando. Estou rindo. Não rindo da imitação, mas da situação. Os alunos estão se divertindo, enquanto deveriam estar aprendendo. É preciso separar as coisas. Mas eles não conseguem. Eu, sem forças, me rendo. E fico observando. Meus olhos vêem, meus lábios sorriem. Mas eu não estou aqui. Prefiro que seja assim. Não quero admitir que perdi, que me rendi diante da dramática e desesperadora situação em que se encontra a educação do nosso país. Não quero assumir que eu também sou um responsável por isso, e que ao “render-me”, estou omitindo-me. Farei então como estes jovens, de famílias tão sofridas e desmanteladas: irei iludir-me, fingir que tudo está bem.

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