segunda-feira, 30 de julho de 2007

Coluna - um ano depois!

6h15min. O celular toca. É segunda-feira. As aulas recomeçam hoje. Preciso levantar-me. Faço o sinal da cruz e peço a Deus que me dê um bom dia. Suplico forças para enfentar este dia, que é o mais "puxado" da semana. Viro-me de lado, desço as pernas devagar. Não quero fazer nenhum movimento brusco, pois pode ser que minha coluna esteja prestes a "travar", como aconteceu ontem. Sigo para o banheiro. Lavo o rosto e sigo para a cozinha. Há um copo de café com leite e açúcar à minha espera. Eu o devo rapidamente. Não quero chegar atrasado.
Escovo os dentes e sigo para o meu quarto. Visto a calça, a camiseta e a meia. Falta agora colocar o tênis. Abaixo-me vagarosamente, na esperança de ser o mais cauteloso possível, mas.... "Aaaaaaaaaaaaaaaaai!" Sinto os nervos repuxarem. A dor é muito intensa. Faço um alongamento e consigo ludibriá-la. Mal sei que isso é apenas momentâneo....
Sigo para o carro. Estou pronto para sair. Abro a porta e me sento. Ao encostar a coluna no banco, sinto novamente uma "Pinçada", desta vez muito mais dolorisa. "Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai! Deus do céu, que dor!" Volto então para o meu quarto. Retiro as cintas abdominais (que desta vez de nada serviram). Pego o telefone e ligo para a escola, avisando que não poderei ir. Deito-me na cama. Aqui ficarei até melhorar. Descanso? Não, definitivamente não. Ah, como eu gostaria de estar trabalhando neste momento...
Em instantes como esse fica claro que não se deve reclamar quando se está exausto por causa do trabalho. Exaustão não é doença. Exaustão não traz dor. Pelo menos não uma dor tão terrível como esta que estou sentindo agora...

domingo, 22 de julho de 2007

Rota de colisão - parte 2

Ao ouvir o barulho da colisão do carro com a moto, e ao ver o motoqueiro cair, sumindo do meu campo de visão (terá ele ido para debaixo do carro?), entro em pânico. Minha primeira reação é levar as duas mãos à cabeça, em sinal de desespero, e a esmurrar a direção. Era como se dissesse: “Como sou péssimo motorista!” Desço do carro, tenso, procurando pelo motoqueiro. Ele está se levantando. Não parece nervoso. Ao contrário: está um pouco atordoado. Olho para ele. É um jovem rapaz, cuja idade não deve ultrapassar os 21 ou 22 anos. “Você se machucou? Ta tudo bem com você?” O rapaz, já de pé, responde: “Estou bem, não se preocupe”. “Você não quer ir a um hospital? Sua perna não ta doendo?”, insisto. “Não, pode ficar sossegado. Ta tudo certo. Só precisamos ver a moto. É do meu patrão” Vejo então o logotipo “Liberdade Auto Peças”. Ele trabalha para uma firma de peças para caminhões. Quando olho para ele, percebo que está preocupado com a moto. “Você trabalha no Liberdade? Vamos lá, eu converso com o seu patrão e combino o conserto da moto com ele.” O rapaz então se levanta, dá partida em sua moto e segue pela rua São Paulo, porém em baixa velocidade. Em poucos minutos chegamos ao nosso destino. Eu estou nervoso. Na verdade, estou chocado e impressionado com o acidente. Sigo até o balcão e cumprimento um dos donos, o Hélio, com quem estudei na adolescência. “Hélio, ocorreu um acidente e eu acabei colidindo com o seu funcionário. Felizmente nada aconteceu com ele, mas gostaria que você desse uma avaliada na moto pra gente ver o que é que precisa ser feito.” Ele segue até a moto, juntamente com o rapaz que estava conduzindo a moto no momento do acidente. O rapaz, como se tentasse me defender, disse: “Não aconteceu nada com a moto. Foi só o amortecedor. Essa pecinha aqui dá pra ‘desentortar’ e aqui na carenagem foi só um risco.” Ao ouvir as palavras do rapaz, o Hélio, que havia se abaixado para verificar de perto o prejuízo, se levanta e diz: “Não se preocupe. Foi só um amortecedor. Vá até a Motorlândia e vê quanto é, aí fica tudo certo.” Pergunto para o rapaz se ele quer ir até lá com o meu carro. Ele ri e, apontando com o dedo para a sua esquerda, diz: “A Motorlândia é aqui do lado.” Meio sem graça, e demonstrando ainda estar muito abalado com o que ocorreu, eu me levanto e sigo com ele. Ao saber do preço, retorno ao balcão e entrego o dinheiro ao Hélio. “Se você constatar algum outro problema por causa da colisão, por favor, entre em contato.” Ele aperta minha mão e sorri. “Fica tranqüilo.” Ao sair pela porta da loja, sinto uma mão tocar meu ombro. É o rapaz que estava dirigindo a moto. “Olha, me desculpa aí por alguma coisa, valeu?” Eu aperto a mão dele. “Meu amigo, eu é que deveria ter parado. O importante é que você não se feriu.” E apontando para o farol do carro e para o pára-lama amassado, digo-lhe: “Isso é lata velha. Dá pra gente consertar. O problema é se você tivesse se ferido. Isso não aconteceu, graças a Deus. De qualquer forma, procure dirigir com mais cautela também. Afinal, você estava em alta velocidade...” Entro no carro, ainda muito assustado. Dou partida, olho para todos os retrovisores e certifico-me de que não há nada de duas rodas trafegando por perto. Engato a primeira marcha, tiro o pé da embreagem. A vida continua. Ou melhor dizendo (e graças a Deus!), nossas vidas continuam.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Rota de colisão - parte 1

8h42min. Estou em meu quarto, tentando estudar. Sobre a mesa há um livro de Química Orgânica. Estou estudando Análise Configuracional, um dos temas que será exigido no concurso. Estou preocupado, porque a preparação das aulas não tem rendido como eu gostaria. Na verdade, estou apreensivo. Fico pensando nas horas que precisei dispor para negociar o piso para a casa que eu e a Débora estamos construindo. Penso ainda nas malditas cadernetas (ah, como eu as odeio!) que precisavam ser preenchidas e que me tomaram praticamente toda a primeira semana de julho. Realmente as coisas não estão indo muito bem. 8h54min. O telefone celular está tocando. É a moça da empresa com quem negociamos o piso. Ela está pedindo meus dados (CPF, RG, endereço etc.). Começo a fornecê-los, mas de repente dou-me conta de que não devo fornecer meus dados pelo telefone. “Olha, eu vou passar aí pra te levar esses dados, pode ser?” Ela se surpreende, mas responde que sim. Certo, ter que sair assim realmente me deixa muito irritado, mas é melhor que seja assim do que arriscar a ter meus dados nas mãos de uma estranha. 9h7min. Estou no balcão da firma, fornecendo as informações que a moça solicitou. A peleja não leva mais que 5min. De volta ao meu carro, olho para o céu. Está fechado, cheio de nuvens carregadas. As ruas da cidade estão molhadas pela chuva e o clima está frio. O dia não está dos mais alegres. “Já que estou aqui mesmo, vou dar uma esticada até a construção”, penso comigo mesmo. 9h16min. Estou em minha futura casa. Os pedreiros estão preparando para construírem a escada que liga a garagem até a varanda. Até que enfim! Há muito tempo venho contendo minha curiosidade para ver como ficará a escada. Em meio à minha satisfação, lembro-me que preciso voltar para casa e estudar. Volto então para o carro. Engato a primeira e paro por um minuto. Por qual caminho devo seguir? “Ah, vou descer por esta rua aqui mesmo. Hoje não vou descer pela rua São Paulo.”, decido, como se quisesse fazer o caminho mais rápido. 9h22min. Estou passando em frente aos chamados “predinhos”. À esquerda está a garagem da Transoper, uma empresa de ônibus que leva estudantes para Franca. Estou dando tapinhas ao volante, acompanhando o ritmo da música “On your side’, do TH Express. É uma música dance que fez muito sucesso em meados da década de 90. Chego na esquina da rua Sergipe. Como sempre costumo fazer, reduzo a velocidade, e ao ver que não há nenhum veículo se aproximando, piso no acelerador e continuo. Estou me aproximando da rua São Paulo. À esquerda avisto a casa verde que tanto nos inspirou para projetarmos nossa casa. “Nossa, minha casa vai acabar ficando mais bonita que essa aqui...” E sorrio. Já na esquina, olho para cima. Avisto um caminhão vindo em marcha lenta. Como eu havia feito na esquina anterior, começo a acelerar para passar por este cruzamento sem precisar parar. Eis que de trás do caminhão, fora do meu campo visual, vem uma moto, em alta velocidade. Ouço apenas o estrondo da colisão entre o pára-choque do carro e o meio da moto. Num piscar de olhos, o motoqueiro, caído, sume de meu campo de visão. "Meu Deus! O que foi que eu fiz?"
(to be continued...)

terça-feira, 17 de julho de 2007

Confuso e dividido

Para que a vida seja uma aventura, não é necessário pendurar-se em um elástico, a dezenas de metros de altura, ou praticar qualquer outro tipo de esporte radical. Basta apenas "sentir" cada momento e vivê-lo com intensidade. Ainda assim, passado algum tempo, tem-se a impressão de que aquele momento não foi bem aproveitado... No meu caso, não está sendo difícil concentrar-me nestas férias nem tampouco cutir este momento tão confuso. A construção de minha casa foi retomada e agora está em fase de acabamento. Como o próprio diz, o acabamento literalmente acaba com nossas energias, paciência e, sobretudo, com o dinheiro. Esgotado e cansado, vejo-me ainda aproximar-se o concurso que tanto esperava, sem ter estudado o que eu gostaria. Para completar a confusão, minha irmã e a Clarinha está nos visitando. A Clarinha está um grude comigo! Às vezes deixo de preparar minhas aulas para brincar com ela. Olho para ela como se fosse minha filha, então peso e escolho brincar com ela. Ela, por sua vez, diz que "o Dinho" é só dela... Ah, que saudade ela vai deixar quando voltar pra casa dela!

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Sustentando a malandragem

Domingo, 8 de julho. 18h32min. Débora e eu estamos em uma lanchonete, que fica no último posto antes da entrada da cidade. Estamos aguardando a salada que pedimos. Mal posso esperar para comer palmito e tomate seco... Só de pensar, sinto água na boca. Há alguns anos atrás, eu olhava para este lugar e achava que somente gente “metida” o freqüentava. Como meus bolsos e minha caarteira sempre andaram vazios, passei muitos anos nutrindo a vontade de vir aqui e, ao mesmo tempo, rogando pragas e criticando quem vinha. Hoje enxergo que Deus pregou-me uma lição com classe e mostrou-me que o problema não era no lugar, e sim na minha forma de encará-lo. De qualquer forma, gosto de estar aqui. É um lugar muito agradável, mesmo quando se está há 20 min esperando por uma simples salada. Olho para a porta da frente. Ao abrir-se, ela faz surgir por detrás dois jovens meninos, aparentando ter entre 10 e 13 anos. São meninos de pele negra. Entram no ambiente olhando para as mesas. Um deles vem na direção da mesa em que estamos. Está com as mãos para trás, com olhar triste. “Tio, o senhor tem um trocado pra me pagar um salgado?”, diz ele, com voz triste. Lembro-me então das inúmeras vezes em que tive vontade de estar neste lugar. Lembro-me das inúmeras vezes em que tive vontade de comer um lanche e não tinha dinheiro, e também das vezes em que quis ir ao shopping mas não tive condições... Abro então a carteira (sim, agora eu tenho carteira!) a menor nota que aparece. Dou-lhe então R$2,00 e o vejo sair um pouco mais alegre. A sensação de ter feito o bem é impagável. Ao olhar para o lado, no entanto, vejo a Débora olhar-me com repreensão. “Eduardo, você não devia ter feito isso! Esses meninos não têm cara de quem estão precisando de ajuda. Olha a roupa deles!” Fixo, então, o olhar naquele para quem dei a nota. Ele parece muito mais alegre do que eu imaginava. Ele a junta com outras que recebeu e segura todas elas em uma das mãos. Com a outra ele empurra o outro menino, que também parece feliz. Presto atenção em cada detalhe daquele menino. Está de chinelos e seus pés não estão sujos. Sua camiseta não está amarrotada nem tampouco suja. Seus dentes estão incrivelmente brancos e não há pêlos em sua nuca, mostrando que ele visitou o barbeiro recentemente. Ele se aproxima do balcão. Olha para o outro menino. Sorri e começa a dançar, fazendo uma espécie de movimento sexual enquanto dança. Seu olhar parece transformado, como se houvesse um ar de maldade. Uma revolta toma conta de mim, fazendo com que eu tenha vontade de ir até ele e tomar a nota que lhe dei. Mas não devo fazer isso. Aperto o punho, tentando me conter. Olho para a Débora. Ela apenas arqueia as sobrancelhas, como quem quer dizer: “Não te disse?” Os dois moleques saem então pela porta, com as mãos cheias de dinheiro. Um dinheiro retirado de pessoas ingênuas como eu, que ainda acreditam na bondade e na inocência das crianças. Pessoas que ao se mostrarem generosas, sustentam a malandragem neste nosso país, inclusive nas crianças. Não, aquelas crianças não são ingênuas como eu era na idade delas. Na verdade, na idade que elas têm, já são mais espertas que eu, aos 31 anos...

sábado, 7 de julho de 2007

08/08/88 e 07/07/07

Sábado, 07 de julho de 2007. Melhor dizendo: 07/07/07. Só há números 7 nesta data. A primeira vez que reparei que os números se repetiam nas datas foi em 08/08/88. Eu estava na sexta série... Eu tinha 12 anos. Eu me lembro daquele assoalho de madeira da sala de aula, com aquelas frestas entre as tábuas. Lembro do chão empoeirado, das carteiras riscadas. Lembro-me da visão que eu tinha do vitrô da sala de aula, que ficava no segundo andar. Havia uma escada enorme para se chegar até lá. Não havia onde se apoiar para descê-la, mas os colegas subiam e desciam correndo. Eu descia devagar, sempre pelos cantos, com medo de cair. Eu tinha muito medo daquela escada. Naquela época, a escola Manoel Gouveia de Lima tinha apenas uma quadra, e ela não era coberta nem tampouco seu piso é liso como é hoje. Nós brincávamos de “salva” no recreio e chegávamos todos molhados de suor para as duas últimas aulas. De vez em quando um ou outro sempre aparecia com a camisa rasgada. Em quase todas as tardes, eu brincava de carrinho com o Alessandro no monte de areia que havia atrás da casa, perto de um enorme pé de limão. Lembro-me das aulas de educação física, também à tarde, quando o Gordo, o Tião e eu ficávamos brincando de futebol entre as árvores. Quando terminávamos, eu voltava para casa e encontrava a casa limpa, que a mamãe havia acabado de encerar. Sinto ainda aquele cheirinho de casa limpa e de pão assado que ela sempre fazia. A gente não comprava o tal “filão”. Minha irmã estava na 2a. série. Brincava de Barbie, ouvia músicas da Xuxa em fitas cassete, no gravador que o papai usava quando ainda era solteiro. O papai, por sua vez, era um homem muito forte e trabalhador. Sempre me desafiava para quedas de braço. Eu nunca ganhava, mesmo usando os dois braços. Ele transportava argila de Uberaba para Sorocaba. Eram duas viagens por semana. Nós o víamos apenas uma vez na semana e nos finais de semana. Sempre voltava das viagens cheio de presentes pra mim e pra minha irmã. Geralmente trazia bichinhos de pelúcia pra minha irmã e livros da coleção “Popeye no reino animal”. Quando minha irmã se desfazia dos bichinhos mais velhos, eu os pegava para mim. Quando eu ficava feliz com os bichinhos, ela os queria de volta. Nas noites de Natal, eu ia posar com minha irmã na casa de meus avós. Havia árvore de Natal e luzes por todos os lados. Quando acordávamos, abríamos os presentes. Os meus daquele ano foram vários bonequinhos dos Comandos em Ação. Eu fazia coleção.
Já se passaram 19 anos. Hoje eu não brinco mais de salva e, ao invés de aluno, sou professor de escola pública. O chão das salas da escola Manoel Gouveia não são mais de madeira nem tampouco é empoeirado. Minha irmã mudou-se para Cosmópolis com a Clara, minha querida sobrinha e afilhada. Mamãe já não assa mais os pães que assava, pois diz que os pães a engorda. Ela está bem mais gordinha que naquela época, e por causa do problema no joelho, não mais transita correndo entre os dois terrenos. Hoje, exatamente hoje, meu pai está deitado lá na cama com uma bolsa nos rins. Fez uma cirurgia ontem para retirar uma meia dúzia de pedras que o incomodavam. Está sofrendo. Está enfraquecido. Seus cabelos estão grisalhos, não apenas os da cabeça, mas também os pêlos das sobrancelhas, do peito e das costas. Daqui dá pra ouvir seus gemidos de dor quando urina. Ele não mais me presenteia com livros do Popeye. Minhas costas doem quando jogo futebol. Não sei que fim levou o Alessandro e raramente encontro o Tião e o Gordo. O Gordo não joga mais futebol, pois está mais gordo do que era naquela época. O Tião casou-se e há tempos não o vejo. Deixei de comer pães. Agora como bolachas. Acho que elas engordam menos. Hoje não consigo entender como os alunos conseguiam brincar de “salva”. Os jovens de hoje em dia preferem fumar maconha e se embriagar a brincar. Parecem querer provar que são homens. Já não existe mais um monte de areia atrás da casa e os carrinhos que eu usava estão todos encaixotados. Hoje em dia, quando volto lá para votar, vejo o quanto ela é pequena. E, claro, o quanto eu era pequeno. Não há mais com quem brincar. A mamãe, com dores na coluna, raramente encera a casa e tampouco transita correndo pelo quintal coberto de pedras. Seus joelhos doem. Não sinto mais o cheiro de pão assado, porque a mamãe não assa mais pães. Ela diz que engorda quando come aqueles pães. Às tardes não faço mais educação física. Tenho que nadar, por causa das dores na coluna. Minha irmã não mora mais conosco. Hoje quem brinca de Barbie é a Clarinha, minha querida afilhada, que ao invés de ouvir fitas cassette, assiste a DVDs. Os bichinhos de pelúcia que eu tinha estão guardados aqui no guarda-roupa. É o que restou de minha infância com minha irmã. Minha coleção de Comandos em Ação, quase completa, hoje está guardada em uma das gavetas da velha cômoda, em sacos empoeirados. O papai está com os cabelos e os pêlos das sobrancelhas e do peito grisalhos. Está deitado lá na cama, lá dentro de casa, com uma bolsa nos rins. Fez cirurgia ontem. Ele geme de dor quando faz xixi. Nem sabemos quando poderá subir no caminhão novamente. Talvez hoje eu ganhasse dele na queda de braço, mas não tenho a mínima vontade de fazer isso. Eu ainda o vejo como o meu herói. Ainda tenho os livros do Popeye que ele me deu, mas hoje somente leio livros de Química Orgânica, todos em inglês. Hoje não acredito mais em papai Noel nem dormo mais na casa da vovó. Quanto à velha escada, eu não tenho mais medo dela, pois hoje vejo que ela não era grande – eu é que era pequeno! Ah, como eu queria voltar a ser pequeno...

terça-feira, 3 de julho de 2007

Queda de braços com o mestre

Dias de prova são geralmente estressantes tanto para o professor como para o aluno. Um precisa avaliar, o outro precisa ser avaliado. A avaliação é uma parte natural do processo, ou pelo menos deveria ser. Para que a avaliação seja a mais justa possível, o professor precisa se precaver, valendo-se de alguns truques já bem conhecidos pelos alunos, tais como: preparar vários tipos de prova e mudar os alunos do lugar em que se encontravam no início da prova. Os alunos, por outro lado, também se valem de seus truques, usando a tradicional “cola” e trocando informações entre si de maneira discreta, usando códigos. Sob esta ótica, um dia de prova pode ser comparado a uma “queda de braços” entre professor e aluno. Às vezes o professor vence, às vezes o aluno sai vencedor. Mas a situação que se apresenta neste momento é inédita para mim, e por incrível que pareça, não consigo parar de rir... O nome dele é Matheus. Os colegas de classe o chamam de “mestre”, provavelmente em alusão à sua experiência com as mulheres. Mas a velhaquice deste jovem parece ir mais além de sua habilidade com as palavras. Na última prova bimestral, sua nota 8,0 foi obtida graças a uma cola, que foi descoberta apenas no final da prova após ter cometido um deslize e deixado-a cair enquanto preparava-se para retirar-se da sala. Para aliviar a situação, o “mestre” presenteou-me com uma trufa, uma bala e um saco de pipoca... Sim, isso é velhacagem típica! Nesta prova de hoje, coloquei o Matheus praticamente colado à parede. Quando o olho, pouco familiarizado com aquela parte da sala de aula, ele passa as mãos na altura do fêmur, no sentido horizontal. “Desta vez você quebrou minhas pernas...”, brinca ele. “Quero ver ele colar desta vez...”, penso comigo. Eis que ele me chama para esclarecer uma dúvida e deixa cair do meio de sua folha de prova um pequeno papel. “É cola. Peguei!”. “Putz, você me pegou!”, lamenta. Ao abrir o papel, entretanto, escrito com a letra dele, encontra-se os dizeres: “Cadê a cola que você tava procurando?” Inconformado com a esperteza e com a pegadinha em que acabo de cair, disparo a rir, não apenas por não haver outra coisa a ser feita, mas por estar admirado com a esperteza daquele rapaz. Minutos depois, um dos alunos, o William, levanta-se e entrega a prova. Ele então diz, em voz baixa: “O mestre pediu pra você trocar-me de lugar. Agora vou me vingar dele e entregá-lo. Olha esta foto aqui...” A foto mostra o mestre com um papel branco descuidadosamente saindo de seu boné. Aproximo-me vagarosamente e peço para ele tirar o boné. “O que foi? Não to fazendo nada! Por que ta desconfiando de mim?”, diz ele, parecendo defender-se. “Tira o boné, deixa eu ver uma coisa”, digo, com voz firme. Ao retirar o boné, o pedaço de papel aparece. Quando abro o tal papel, surge diante de meus olhos os seguintes dizeres: “Cadê a cola?Bobão?” Às vezes é preciso reconhecer aqueles que são mais espertos do que a gente. Agora entendo porque o chamam de “mestre”... Ainda assim, não consigo parar de rir.

domingo, 1 de julho de 2007

Doze minutos com um estranho

Sexta-feira, 29 de junho. Estou na praça de alimentação aqui da universidade, jantando. Ao contrário do que costuma ocorrer, vim sozinho para esta refeição. Olho para o relógio. São 18h45min. Preciso terminar rápido, escovar os dentes e preparar-me para as aulas na pós-graduação. Anos atrás eu era o aluno, e naquela condição podia chegar atrasado. Hoje sou o professor. Tenho que apressar-me. Com a mão direita, retiro o copo de suco da mesa e trago-o em direção à boca. Com a mão esquerda, ajeito o canudo e começo a sugar o conteúdo de limão açucarado do interior do copo. Eis que surge um homem alto, com camiseta e calça pretas. O homem, que para mim é um desconhecido, pára diante da mesa onde estou e me dirige a palavra. - Com licença. Posso sentar-me? – pergunta ele, educadamente. - Sinta-se à vontade. - Eu sei que você deve achar estranho o fato de alguém que você não conhece parar para conversar com você. Mas eu estava te olhando ali daquela mesa e percebi que você é um homem jovem e parece ser bem-sucedido. Penso que você deve ser bastante experiente e acho que pode responder-me a uma dúvida que está me atormentando: como alguém pode fazer tantas escolhas erradas na vida como eu? Lentamente, eu coloco novamente o copo suco sobre a mesa. Faço o movimento lentamente, para ganhar tempo e para dizer algo que acalme a alma daquele homem, que aparenta ter entre 35 e 40 anos. Enquanto isso, meus olhos clínicos vasculham a personalidade daquela estranha figura. Seu modo de falar e de se vestir, embora extremamente discretos, revela que ele é homossexual. - No momento em que você faz uma escolha, não há como você prever se ela é certa ou errada. O tempo é que mostra isso. - Eu só faço escolhas erradas. Estou cansado de errar! Nada dá certo para mim... Ele continua o desabafo. - Responda-me uma coisa: você teria coragem de largar tudo o que tem para tentar a vida bem longe? Você faria isso se não tivesse nada a perder? Aquela pergunta deixa-me preocupado. Quais as verdadeiras intenções deste homem? Minha próxima resposta precisa colocar os pingos nos is. - Suponho que você esteja se referindo a você... - Sim! – exclama. Vou te explicar: eu cursava Direito aqui na faculdade. O prefeito da minha cidade custeada metade do curso. Após a eleição de outro prefeito, a ajuda foi cancelada, e eu tive que escolher: vender o carro e terminar a faculdade ou parar a faculdade e ficar com o carro. Eu escolhi o carro, para não perder os amigos. Parece que as pessoas só estão perto da gente se nos vê com carro e bem vestido. Parece que não se interessam pelo que somos, e sim pelo que temos. Eu moro sozinho, em uma cidade pequena. Estou cansado de os outros ficarem cobrando atitudes de mim, de ficarem cobrando que eu dê demonstrações do que sou para elas. - Meu amigo, o problema não está no mundo, e sim em você. Eu já entendi perfeitamente a sua situação. Essas pessoas só fazem isso a você porque você permite. Não precisa brigar, basta apenas voltar-se para si mesmo. Mude sua forma de ver o mundo. E ao contrário do que você pensa, você tem, sim, algo a perder sempre que faz suas escolhas. Se você disse que já errou, então lembre-se dos seus erros quando for fazer a próxima escolha. Acima de tudo, procure aprender com os erros dos seus amigos, porque a vida é muito curta para aprendermos com nossos próprios erros. E se quiser realmente provar alguma coisa para alguém, não procure fazer isso de imediato, comprando um carro ou se vestindo bem. Estude, forme-se e seja o melhor profissional que conseguir. Mas isso requer tempo, dedicação e paciência. Olho para ele. Seus olhos estão umedecidos, com o brilho característico de estar raso em lágrimas. - Eu vim aqui pra falar com você porque sei que você não me conhece, e portanto não ia me julgar. Foi muito bom ouvir estas palavras... Que Deus lhe abençoe! Obrigado! E levantando-se, ergueu a cabeça e saiu em direção ao estacionamento. Na mesa restou apenas o prato, o copo de suco e eu. Olho para o relógio. São 18h57min. Estou atrasado para a aula. Inesperadamente, recordo-me do livro “Operação Cavalo de Tróia”, que diz que três é o número divino. 1+8+5+7 = 21, e 2+1 = 3. A conversa iniciou-se às 18h45min. 1+8+4+5 = 18, sendo que 1+8 = 9. Três e nove... Múltiplos de três. Um calafrio me percorre a espinha. Teria sido aquele homem enviado por Deus para ver se em meio à rotina corrida, eu ainda me recordo da minha verdadeira missão nesta vida?