sábado, 7 de julho de 2007

08/08/88 e 07/07/07

Sábado, 07 de julho de 2007. Melhor dizendo: 07/07/07. Só há números 7 nesta data. A primeira vez que reparei que os números se repetiam nas datas foi em 08/08/88. Eu estava na sexta série... Eu tinha 12 anos. Eu me lembro daquele assoalho de madeira da sala de aula, com aquelas frestas entre as tábuas. Lembro do chão empoeirado, das carteiras riscadas. Lembro-me da visão que eu tinha do vitrô da sala de aula, que ficava no segundo andar. Havia uma escada enorme para se chegar até lá. Não havia onde se apoiar para descê-la, mas os colegas subiam e desciam correndo. Eu descia devagar, sempre pelos cantos, com medo de cair. Eu tinha muito medo daquela escada. Naquela época, a escola Manoel Gouveia de Lima tinha apenas uma quadra, e ela não era coberta nem tampouco seu piso é liso como é hoje. Nós brincávamos de “salva” no recreio e chegávamos todos molhados de suor para as duas últimas aulas. De vez em quando um ou outro sempre aparecia com a camisa rasgada. Em quase todas as tardes, eu brincava de carrinho com o Alessandro no monte de areia que havia atrás da casa, perto de um enorme pé de limão. Lembro-me das aulas de educação física, também à tarde, quando o Gordo, o Tião e eu ficávamos brincando de futebol entre as árvores. Quando terminávamos, eu voltava para casa e encontrava a casa limpa, que a mamãe havia acabado de encerar. Sinto ainda aquele cheirinho de casa limpa e de pão assado que ela sempre fazia. A gente não comprava o tal “filão”. Minha irmã estava na 2a. série. Brincava de Barbie, ouvia músicas da Xuxa em fitas cassete, no gravador que o papai usava quando ainda era solteiro. O papai, por sua vez, era um homem muito forte e trabalhador. Sempre me desafiava para quedas de braço. Eu nunca ganhava, mesmo usando os dois braços. Ele transportava argila de Uberaba para Sorocaba. Eram duas viagens por semana. Nós o víamos apenas uma vez na semana e nos finais de semana. Sempre voltava das viagens cheio de presentes pra mim e pra minha irmã. Geralmente trazia bichinhos de pelúcia pra minha irmã e livros da coleção “Popeye no reino animal”. Quando minha irmã se desfazia dos bichinhos mais velhos, eu os pegava para mim. Quando eu ficava feliz com os bichinhos, ela os queria de volta. Nas noites de Natal, eu ia posar com minha irmã na casa de meus avós. Havia árvore de Natal e luzes por todos os lados. Quando acordávamos, abríamos os presentes. Os meus daquele ano foram vários bonequinhos dos Comandos em Ação. Eu fazia coleção.
Já se passaram 19 anos. Hoje eu não brinco mais de salva e, ao invés de aluno, sou professor de escola pública. O chão das salas da escola Manoel Gouveia não são mais de madeira nem tampouco é empoeirado. Minha irmã mudou-se para Cosmópolis com a Clara, minha querida sobrinha e afilhada. Mamãe já não assa mais os pães que assava, pois diz que os pães a engorda. Ela está bem mais gordinha que naquela época, e por causa do problema no joelho, não mais transita correndo entre os dois terrenos. Hoje, exatamente hoje, meu pai está deitado lá na cama com uma bolsa nos rins. Fez uma cirurgia ontem para retirar uma meia dúzia de pedras que o incomodavam. Está sofrendo. Está enfraquecido. Seus cabelos estão grisalhos, não apenas os da cabeça, mas também os pêlos das sobrancelhas, do peito e das costas. Daqui dá pra ouvir seus gemidos de dor quando urina. Ele não mais me presenteia com livros do Popeye. Minhas costas doem quando jogo futebol. Não sei que fim levou o Alessandro e raramente encontro o Tião e o Gordo. O Gordo não joga mais futebol, pois está mais gordo do que era naquela época. O Tião casou-se e há tempos não o vejo. Deixei de comer pães. Agora como bolachas. Acho que elas engordam menos. Hoje não consigo entender como os alunos conseguiam brincar de “salva”. Os jovens de hoje em dia preferem fumar maconha e se embriagar a brincar. Parecem querer provar que são homens. Já não existe mais um monte de areia atrás da casa e os carrinhos que eu usava estão todos encaixotados. Hoje em dia, quando volto lá para votar, vejo o quanto ela é pequena. E, claro, o quanto eu era pequeno. Não há mais com quem brincar. A mamãe, com dores na coluna, raramente encera a casa e tampouco transita correndo pelo quintal coberto de pedras. Seus joelhos doem. Não sinto mais o cheiro de pão assado, porque a mamãe não assa mais pães. Ela diz que engorda quando come aqueles pães. Às tardes não faço mais educação física. Tenho que nadar, por causa das dores na coluna. Minha irmã não mora mais conosco. Hoje quem brinca de Barbie é a Clarinha, minha querida afilhada, que ao invés de ouvir fitas cassette, assiste a DVDs. Os bichinhos de pelúcia que eu tinha estão guardados aqui no guarda-roupa. É o que restou de minha infância com minha irmã. Minha coleção de Comandos em Ação, quase completa, hoje está guardada em uma das gavetas da velha cômoda, em sacos empoeirados. O papai está com os cabelos e os pêlos das sobrancelhas e do peito grisalhos. Está deitado lá na cama, lá dentro de casa, com uma bolsa nos rins. Fez cirurgia ontem. Ele geme de dor quando faz xixi. Nem sabemos quando poderá subir no caminhão novamente. Talvez hoje eu ganhasse dele na queda de braço, mas não tenho a mínima vontade de fazer isso. Eu ainda o vejo como o meu herói. Ainda tenho os livros do Popeye que ele me deu, mas hoje somente leio livros de Química Orgânica, todos em inglês. Hoje não acredito mais em papai Noel nem dormo mais na casa da vovó. Quanto à velha escada, eu não tenho mais medo dela, pois hoje vejo que ela não era grande – eu é que era pequeno! Ah, como eu queria voltar a ser pequeno...

Um comentário:

indianshawls disse...

nice blog