domingo, 1 de julho de 2007

Doze minutos com um estranho

Sexta-feira, 29 de junho. Estou na praça de alimentação aqui da universidade, jantando. Ao contrário do que costuma ocorrer, vim sozinho para esta refeição. Olho para o relógio. São 18h45min. Preciso terminar rápido, escovar os dentes e preparar-me para as aulas na pós-graduação. Anos atrás eu era o aluno, e naquela condição podia chegar atrasado. Hoje sou o professor. Tenho que apressar-me. Com a mão direita, retiro o copo de suco da mesa e trago-o em direção à boca. Com a mão esquerda, ajeito o canudo e começo a sugar o conteúdo de limão açucarado do interior do copo. Eis que surge um homem alto, com camiseta e calça pretas. O homem, que para mim é um desconhecido, pára diante da mesa onde estou e me dirige a palavra. - Com licença. Posso sentar-me? – pergunta ele, educadamente. - Sinta-se à vontade. - Eu sei que você deve achar estranho o fato de alguém que você não conhece parar para conversar com você. Mas eu estava te olhando ali daquela mesa e percebi que você é um homem jovem e parece ser bem-sucedido. Penso que você deve ser bastante experiente e acho que pode responder-me a uma dúvida que está me atormentando: como alguém pode fazer tantas escolhas erradas na vida como eu? Lentamente, eu coloco novamente o copo suco sobre a mesa. Faço o movimento lentamente, para ganhar tempo e para dizer algo que acalme a alma daquele homem, que aparenta ter entre 35 e 40 anos. Enquanto isso, meus olhos clínicos vasculham a personalidade daquela estranha figura. Seu modo de falar e de se vestir, embora extremamente discretos, revela que ele é homossexual. - No momento em que você faz uma escolha, não há como você prever se ela é certa ou errada. O tempo é que mostra isso. - Eu só faço escolhas erradas. Estou cansado de errar! Nada dá certo para mim... Ele continua o desabafo. - Responda-me uma coisa: você teria coragem de largar tudo o que tem para tentar a vida bem longe? Você faria isso se não tivesse nada a perder? Aquela pergunta deixa-me preocupado. Quais as verdadeiras intenções deste homem? Minha próxima resposta precisa colocar os pingos nos is. - Suponho que você esteja se referindo a você... - Sim! – exclama. Vou te explicar: eu cursava Direito aqui na faculdade. O prefeito da minha cidade custeada metade do curso. Após a eleição de outro prefeito, a ajuda foi cancelada, e eu tive que escolher: vender o carro e terminar a faculdade ou parar a faculdade e ficar com o carro. Eu escolhi o carro, para não perder os amigos. Parece que as pessoas só estão perto da gente se nos vê com carro e bem vestido. Parece que não se interessam pelo que somos, e sim pelo que temos. Eu moro sozinho, em uma cidade pequena. Estou cansado de os outros ficarem cobrando atitudes de mim, de ficarem cobrando que eu dê demonstrações do que sou para elas. - Meu amigo, o problema não está no mundo, e sim em você. Eu já entendi perfeitamente a sua situação. Essas pessoas só fazem isso a você porque você permite. Não precisa brigar, basta apenas voltar-se para si mesmo. Mude sua forma de ver o mundo. E ao contrário do que você pensa, você tem, sim, algo a perder sempre que faz suas escolhas. Se você disse que já errou, então lembre-se dos seus erros quando for fazer a próxima escolha. Acima de tudo, procure aprender com os erros dos seus amigos, porque a vida é muito curta para aprendermos com nossos próprios erros. E se quiser realmente provar alguma coisa para alguém, não procure fazer isso de imediato, comprando um carro ou se vestindo bem. Estude, forme-se e seja o melhor profissional que conseguir. Mas isso requer tempo, dedicação e paciência. Olho para ele. Seus olhos estão umedecidos, com o brilho característico de estar raso em lágrimas. - Eu vim aqui pra falar com você porque sei que você não me conhece, e portanto não ia me julgar. Foi muito bom ouvir estas palavras... Que Deus lhe abençoe! Obrigado! E levantando-se, ergueu a cabeça e saiu em direção ao estacionamento. Na mesa restou apenas o prato, o copo de suco e eu. Olho para o relógio. São 18h57min. Estou atrasado para a aula. Inesperadamente, recordo-me do livro “Operação Cavalo de Tróia”, que diz que três é o número divino. 1+8+5+7 = 21, e 2+1 = 3. A conversa iniciou-se às 18h45min. 1+8+4+5 = 18, sendo que 1+8 = 9. Três e nove... Múltiplos de três. Um calafrio me percorre a espinha. Teria sido aquele homem enviado por Deus para ver se em meio à rotina corrida, eu ainda me recordo da minha verdadeira missão nesta vida?

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