domingo, 22 de julho de 2007

Rota de colisão - parte 2

Ao ouvir o barulho da colisão do carro com a moto, e ao ver o motoqueiro cair, sumindo do meu campo de visão (terá ele ido para debaixo do carro?), entro em pânico. Minha primeira reação é levar as duas mãos à cabeça, em sinal de desespero, e a esmurrar a direção. Era como se dissesse: “Como sou péssimo motorista!” Desço do carro, tenso, procurando pelo motoqueiro. Ele está se levantando. Não parece nervoso. Ao contrário: está um pouco atordoado. Olho para ele. É um jovem rapaz, cuja idade não deve ultrapassar os 21 ou 22 anos. “Você se machucou? Ta tudo bem com você?” O rapaz, já de pé, responde: “Estou bem, não se preocupe”. “Você não quer ir a um hospital? Sua perna não ta doendo?”, insisto. “Não, pode ficar sossegado. Ta tudo certo. Só precisamos ver a moto. É do meu patrão” Vejo então o logotipo “Liberdade Auto Peças”. Ele trabalha para uma firma de peças para caminhões. Quando olho para ele, percebo que está preocupado com a moto. “Você trabalha no Liberdade? Vamos lá, eu converso com o seu patrão e combino o conserto da moto com ele.” O rapaz então se levanta, dá partida em sua moto e segue pela rua São Paulo, porém em baixa velocidade. Em poucos minutos chegamos ao nosso destino. Eu estou nervoso. Na verdade, estou chocado e impressionado com o acidente. Sigo até o balcão e cumprimento um dos donos, o Hélio, com quem estudei na adolescência. “Hélio, ocorreu um acidente e eu acabei colidindo com o seu funcionário. Felizmente nada aconteceu com ele, mas gostaria que você desse uma avaliada na moto pra gente ver o que é que precisa ser feito.” Ele segue até a moto, juntamente com o rapaz que estava conduzindo a moto no momento do acidente. O rapaz, como se tentasse me defender, disse: “Não aconteceu nada com a moto. Foi só o amortecedor. Essa pecinha aqui dá pra ‘desentortar’ e aqui na carenagem foi só um risco.” Ao ouvir as palavras do rapaz, o Hélio, que havia se abaixado para verificar de perto o prejuízo, se levanta e diz: “Não se preocupe. Foi só um amortecedor. Vá até a Motorlândia e vê quanto é, aí fica tudo certo.” Pergunto para o rapaz se ele quer ir até lá com o meu carro. Ele ri e, apontando com o dedo para a sua esquerda, diz: “A Motorlândia é aqui do lado.” Meio sem graça, e demonstrando ainda estar muito abalado com o que ocorreu, eu me levanto e sigo com ele. Ao saber do preço, retorno ao balcão e entrego o dinheiro ao Hélio. “Se você constatar algum outro problema por causa da colisão, por favor, entre em contato.” Ele aperta minha mão e sorri. “Fica tranqüilo.” Ao sair pela porta da loja, sinto uma mão tocar meu ombro. É o rapaz que estava dirigindo a moto. “Olha, me desculpa aí por alguma coisa, valeu?” Eu aperto a mão dele. “Meu amigo, eu é que deveria ter parado. O importante é que você não se feriu.” E apontando para o farol do carro e para o pára-lama amassado, digo-lhe: “Isso é lata velha. Dá pra gente consertar. O problema é se você tivesse se ferido. Isso não aconteceu, graças a Deus. De qualquer forma, procure dirigir com mais cautela também. Afinal, você estava em alta velocidade...” Entro no carro, ainda muito assustado. Dou partida, olho para todos os retrovisores e certifico-me de que não há nada de duas rodas trafegando por perto. Engato a primeira marcha, tiro o pé da embreagem. A vida continua. Ou melhor dizendo (e graças a Deus!), nossas vidas continuam.

2 comentários:

_rodrigo disse...

por incrível que pareça atropelar é pior que ser atropelado

Antonio E. M. Crotti disse...

Olá Rodrigo, tudo bem?
Graças a Deus nunca fui atropelado, mas concordo com você. O atropelado é afetado fisicamente, mas o abalo psicológico é todo do atropelador.
Muito obrigado pelo comentário e pela visita a este blog... Valeu!
AEMC