quinta-feira, 12 de julho de 2007

Sustentando a malandragem

Domingo, 8 de julho. 18h32min. Débora e eu estamos em uma lanchonete, que fica no último posto antes da entrada da cidade. Estamos aguardando a salada que pedimos. Mal posso esperar para comer palmito e tomate seco... Só de pensar, sinto água na boca. Há alguns anos atrás, eu olhava para este lugar e achava que somente gente “metida” o freqüentava. Como meus bolsos e minha caarteira sempre andaram vazios, passei muitos anos nutrindo a vontade de vir aqui e, ao mesmo tempo, rogando pragas e criticando quem vinha. Hoje enxergo que Deus pregou-me uma lição com classe e mostrou-me que o problema não era no lugar, e sim na minha forma de encará-lo. De qualquer forma, gosto de estar aqui. É um lugar muito agradável, mesmo quando se está há 20 min esperando por uma simples salada. Olho para a porta da frente. Ao abrir-se, ela faz surgir por detrás dois jovens meninos, aparentando ter entre 10 e 13 anos. São meninos de pele negra. Entram no ambiente olhando para as mesas. Um deles vem na direção da mesa em que estamos. Está com as mãos para trás, com olhar triste. “Tio, o senhor tem um trocado pra me pagar um salgado?”, diz ele, com voz triste. Lembro-me então das inúmeras vezes em que tive vontade de estar neste lugar. Lembro-me das inúmeras vezes em que tive vontade de comer um lanche e não tinha dinheiro, e também das vezes em que quis ir ao shopping mas não tive condições... Abro então a carteira (sim, agora eu tenho carteira!) a menor nota que aparece. Dou-lhe então R$2,00 e o vejo sair um pouco mais alegre. A sensação de ter feito o bem é impagável. Ao olhar para o lado, no entanto, vejo a Débora olhar-me com repreensão. “Eduardo, você não devia ter feito isso! Esses meninos não têm cara de quem estão precisando de ajuda. Olha a roupa deles!” Fixo, então, o olhar naquele para quem dei a nota. Ele parece muito mais alegre do que eu imaginava. Ele a junta com outras que recebeu e segura todas elas em uma das mãos. Com a outra ele empurra o outro menino, que também parece feliz. Presto atenção em cada detalhe daquele menino. Está de chinelos e seus pés não estão sujos. Sua camiseta não está amarrotada nem tampouco suja. Seus dentes estão incrivelmente brancos e não há pêlos em sua nuca, mostrando que ele visitou o barbeiro recentemente. Ele se aproxima do balcão. Olha para o outro menino. Sorri e começa a dançar, fazendo uma espécie de movimento sexual enquanto dança. Seu olhar parece transformado, como se houvesse um ar de maldade. Uma revolta toma conta de mim, fazendo com que eu tenha vontade de ir até ele e tomar a nota que lhe dei. Mas não devo fazer isso. Aperto o punho, tentando me conter. Olho para a Débora. Ela apenas arqueia as sobrancelhas, como quem quer dizer: “Não te disse?” Os dois moleques saem então pela porta, com as mãos cheias de dinheiro. Um dinheiro retirado de pessoas ingênuas como eu, que ainda acreditam na bondade e na inocência das crianças. Pessoas que ao se mostrarem generosas, sustentam a malandragem neste nosso país, inclusive nas crianças. Não, aquelas crianças não são ingênuas como eu era na idade delas. Na verdade, na idade que elas têm, já são mais espertas que eu, aos 31 anos...

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