quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Marcelo - parte 1

2004. Este é meu primeiro ano como professor de Química Orgânica. Assumi as aulas que eram do Vítor, que foi meu professor na graduação, portanto a responsabilidade é grande. Ao mesmo tempo que me sinto privilegiado por tê-las, sinto-me mal por estar no lugar dele. Eu gostaria que ele estivesse ainda aqui conosco, mas ele foi dispensado por estar desmotivado e por ter sempre problemas na forma com lidava com os alunos. Bem, essas foram as alegações da diretoria do curso. Dou aulas de Química Orgânica I e Química Orgânica II. Duas das turmas que estão tendo aula comigo já tiveram aula com o outro professor e, assim, a comparação é inevitável. Logicamente, e talvez por questões óbvias de interesse, sinto que alguns alunos “puxam a sardinha” para o meu lado na forma de tratar-me. Entretanto, há um que me chama a atenção, não apenas pelo tamanho, mas pela forma respeitosa com que me trata. Seu nome é Marcelo. Seu físico chama a atenção por causa da enorme quantidade de gordura na região abdominal. Têm os olhos claros e uma careca já em estado avançado. A despeito da calvície e da obesidade, o Marcelo transparece ser uma boa pessoa. Sempre me chama de “professor”, e quando vou fazer a correção dos exercícios, ele é um dos primeiros a cobrar o silêncio dos colegas de turma. Pelo que percebo, sua idade é superior à dos demais alunos, porém perguntar-lhe a idade é algo que não me cabe na condição de professor. Hoje é dia de prova substitutiva do 2º. Semestre. Esta é a última oportunidade que os alunos têm. Dentre eles, está o Marcelo. Faltando 5 min para o término da prova, olho de longe para a prova do Marcelo. Está praticamente em branco. Para minha surpresa, ele se encontra calmo, sem demonstrar desespero. Aproximo-me dele. “E aí, Marcelo, como está indo a prova?” “Ah, professor, tá indo tranqüilo.” Ao ver a prova dele praticamente em branco, não me contenho: “Marcelo, qual é a nota que você precisa?” “Preciso só de 5,0, professor.” Fico surpreso com a resposta dele. “Mas só?”, reforço a pergunta. “Sim, pois somando os pontos da parte experimental, dá o 8,0 que eu preciso”. “Deus do céu, Marcelo! Na prova substitutiva não entra os 3,0 da Ana Cláudia, não! Você vai ter que tirar 8,0 ... na raça!" Ele me olha com uma cara de desapontado. “Ah, é? Vixi...” Pego a prova dele nas mãos. Mesmo que eu quisesse ajudá-lo, não teria como, pois a prova dele não soma sequer os 5,0 pontos que ele pensava quei fosse suficiente. Em outras palavras, ele vai perder o ano letivo e ficar de dependência. E agora, o que fazer?

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