domingo, 12 de agosto de 2007

Marcelo - parte 2

Paro por um minuto ao lado do Marcelo. Vejo-me olhando com os olhos verdes e sua careca reluzente. Ao contrário de muitos alunos mais jovens que ele, que costumam pedir ajuda, o Marcelo não diz nada. Ele parece aceitar o resultado sem lutar. Parece rendido, como se não houvesse nada mais a ser feito. Olho para os alunos que ainda restam na sala. São alunos muito mais jovens, muitos dos quais têm disponibilidade de tempo para estudar, mas não estudam. Alguns destes alunos parecem não ter para comigo o mesmo respeito que o Marcelo tem, mas no entanto, saíram-se bem e não precisam mais de nota. Olho então para o Marcelo. Levanto a prova com as duas mãos, uma em cada ponta, e puxo uma das pontas para baixo. A prova se rasga ao meio. “Marcelo, vamos fazer o seguinte: eu vou lhe dar uma segunda chance para fazer esta prova. Na segunda-feira eu lhe aplicarei a mesma prova. Estude o máximo que puder. Será a sua grande chance.” O Marcelo parece recuperar as forças com esta minha iniciativa. Ele respira fundo e diz: “Pode deixar, professor. Estudarei este final de semana e na segunda-feira farei a prova novamente.” Segunda-feira. Estou aplicando prova em uma das salas de 2º. ano do curso de Química Industrial. O Marcelo está fazendo prova também. Desde que lhe entreguei a prova, ele mantém os olhos fixos, perdidos em algum lugar. Até agora não rabiscou uma palavra sequer, além de seu nome. Aproximo-me dele. “Marcelo, você não estudou?”. “Olha, professor, eu vou ser sincero: eu bem que tentei, mas a matéria tá muito difícil. Eu não consigo entender.” E finaliza com um “Sinto muito professor, e obrigado pela oportunidade”. Dito isso, ele estende as mãos e me entrega a prova. Com um ar de derrotado, ele se levanta e se dirige à porta, sem dizer nada. Enquanto isso, eu me lembro novamente da forma respeitosa como aquele enorme rapaz me tratou durante o ano. “Marcelo, vamos fazer uma coisa: você retorna na quarta-feira e tenta mais uma vez. Será sua última chance. Eu quero que você consiga! E eu sei que você consegue!” Um pouco mais animado, ele sai pela porta, enquanto eu fico na expectativa pelo terceiro e derradeiro “assalto” desta luta...
(to be continued...)

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