terça-feira, 28 de agosto de 2007

Marcelo - parte 3

Quarta-feira. Estou andando apressado pelos corredores da universidade. Sigo em direção ao ginásio poliesportivo, onde será realizada a cerimônia de formatura dos formandos em Controle de Qualidade em Alimentos. É uma noite muito especial para mim, pois serei homenageado pela primeira turma para a qual dei aulas de Química Orgânica. Ando a passos largos. Quando estou passando em frente ao bloco lilás, onde os alunos do curso de Química assistem aula, sou interrompido pelo Marcelo. Com a calma de sempre, ele me pergunta: “Professor, o senhor sabe onde vai ser a prova?” Por incrível que pareça, eu não sei responder. Afinal, não serei eu quem vai aplicar a prova. Já havia conversado com o Marco Antônio, o coordenador do curso, e explicado que não poderia aplicá-la por causa da formatura. “Marcelo, procure o Verzola na sala de professores. Ele sabe onde será a prova.” E continuando: “Olha, eu quero muito que você vá bem nesta prova. Eu estou lhe oferecendo uma terceira chance porque você é um aluno muito esforçado. Mas não se esqueça: esta será a sua última chance. Nem se eu quiser, não poderei aplicar-lhe outra prova, pois tenho que entregar as notas.” Sempre calmo, aquele grande (no sentido literal da palavra!) homem limita-se a dizer: “Professor, eu não vou decepcionar o senhor”. E dando-lhe um tapa nos ombros, digo-lhe: “Eu sei que não vai, Marcelo. Boa prova!” Dito isso, sigo em direção ao estádio, torcendo para que o Marcelo consiga a nota que precise na prova. Quinta-feira. São 1h da manhã. Estou exausto! Corrigi um enorme pacote de provas. Falta apenas uma, que fiz questão de deixar por último. É a prova do Marcelo. “Caso ele não consiga a nota, pelo menos não corrigirei as outras com peso na consciência”. Porém, para minha surpresa, quando começo a corrigir a prova, percebo que o Marcelo realmente se esforçou bastante. Ao final, sua nota foi 7,5. Ele precisava de 8,0. Penso por uns instantes. “Mas ele chegou tão perto. Não vou deixar que ele morra na praia!” Aproximo então a nota para 8,0 e vou dormir, feliz e em paz com a minha consciência. Preciso descansar. Amanhã haverá churrasco do pessoal do laboratório lá em Ribeirão Preto. Sexta-feira. São 10h da manhã. Estou em plena biblioteca da USP, à procura de alguns artigos. O telefone celular toca. É a mamãe. “Filho, você comprou alguma coisa de Franca?”, pergunta ela. “Não, mamãe, eu não comprei nada, não”, respondo, muito surpreso. “Pois é... Chegou uma encomenda pra você, de Franca. Posso abrir?” Ao ouvir o meu assustado “sim”, ela desliga o telefone e combina de retornar a ligação assim que descobrir o que é a tal encomenda.” Passados alguns minutos, o telefone toca novamente. É ela. “Filho, é um rádio toca-fitas e toca-CD! E tem até controle remoto!” Encabulado, digo a ela que não faço a mínima idéia de quem podia ter me enviado aquele rádio e por qual motivo o havia feito. “Filho, tem um bilhete junto com o rádio”, diz a mamãe, prestes a matar-me de curiosidade pelo telefone. “Então leia-o, mamãe!” Então ela abre o envelope, onde estão os dizeres “Ao ilustríssimo mestre Miller (Química Orgânica).” E abrindo-o, encontra um cartão em cuja capa está escrito “A fé remove montanhas”. A mamãe, enfim, começa ler o conteúdo do cartão. “Professor Miller, foi para mim uma grande alegria tê-lo como educador. Sei que deveria ter me esforçado mais, mas saiba que na última prova (sub) com sua generosidade de m e dar uma última chance para estudar mais ainda eu compreendi a matéria com a ajuda de um “anjo” que Deus me enviou, chamado Cristiele (3º. B). Sei que o mairo presente que um aluno pode dar para um professsor é aprender na íntegra os seus ensinamentos. Posso não ter conseguido a nota que precisava, mas independente disso, sou eternamente grato pela sua bondade e respeito por mim. Te desejo felicidades neste Natal e no ano seguinte. Assim como no seu futuro como educador. Obrigado por tudo! Seu aluno Marcelo (3º. A)”.

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