sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Batendo à porta errada

Sexta-feira, 21 de setembro. São 19h23min. Como acontece em todas as sextas-feiras, hoje poucos alunos vieram à escola. Não tive a curiosidade de contar, mas tenho quase certeza que se o fizer, não encontrarei mais que 50 alunos na escola inteira. A compreensiva e ponderada Ivani, nossa amiga e coordenadora pedagógica da escola, decide passar um vídeo sobre aquecimento global para os alunos. Como na sala em que estou só há 4 alunos, ela pede que eu instale o DVD. Minutos depois, a Amanda, a inspetora de alunos, surge com o DVD nas mãos e com um molho de chaves. “Eduardo, aqui está o DVD e a chave. Precisa da minha ajuda?”, diz ela, com um ar de quem acha que eu não sou capaz de instalar um DVD. “Deixa comigo, Amanda”, respondo com um ar confiante. Aproximo-me da porta. Olho o cadeado que tranca a porta a grade e protege a porta de latão. A marca é Gold. Procuro entre as chaves do molho uma que tenha a mesma marca. Para minha surpresa, há pelo menos unas 12 com esta marca (!!!!). A saída é testar uma a uma. Coloco o DVD (dentro da caixa, obviamente) no chão e começo a testar as chaves. Texto todas, mas nenhuma delas é capaz de abrir o cadeado. “Não é possível!”, digo a mim mesmo, informado. Teimoso que só eu, tento abrir o maldito cadeado com cada uma das chaves do molho, mas novamente minhas tentativas são frustradas. “É, não vai ter jeito; vou ter que chamar a Amanda.” Grito o nome dela. Mesmo do outro lado do pavilhão de salas de aula, ela ouve e começa a caminhar em minha direção com um sorriso e um ar de quem quer dizer: “Ah, se não fosse eu nesta escola...”. Então eu lhe digo: “Eita, se não for você nesta escola... Nenhuma das chaves serviu!”. Ela pega o molho de chaves e segue em direção à porta que eu estava tentando abrir. Eu sigo atrás dela. De repente, percebo que eu estou parado diante daquela maldita porta e a Amanda está parada diante de uma outra, uns 5 m à frente. Já entre gargalhadas, vejo-a colocando a chave no cadeado e abrindo-o na primeira tentativa. Ela estranha minha reação, nem tampouco entende o motivo de tantos risos. “Do que está rindo, Eduardo?”, ao que respondo: “Nada não, Amanda! É que eu estava tentando abrir a porta da cantina...”

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O amor é contagioso

Uma das experiências mais gratificantes que tenho vivido como professor é dar aulas no curso supletivo. O curso, oferecido no período noturno, tem alunos com um perfil diametralmente oposto ao dos alunos do período matutino. Ao invés de jovens cheios de jovens que desperdiçam seus tempos e energias com relacionamentos casuais e vazios, bebidas e drogas, os alunos do curso supletivo são adultos em sua maioria. Todos trabalham, e ao contrário dos jovens, sabem o quanto o estudo faz falta na vida, por isso são dedicados e atenciosos. Entretanto, ao contrário da imagem que todos têm, os alunos do curso supletivo estão há milhas de distância da velhice. São pessoas maduras, sim, porém a jovialidade de seus espíritos chega a encher os olhos. Para minha surpresa, algumas vezes chego em sala de aula e eles pedem que eu conte “histórias”. As tais histórias são os “causos” de minha vida pessoal, que sempre trazem uma mensagem de motivação. Obviamente, estas história são sempre recheadas de humor, o que faz com que muitos me tenham como “o professor das piadas”. Mas esses alunos têm suas próprias histórias de vida. São histórias de vidas cheias de dificuldades e desafios, perto das quais as minhas poucas experiências de vida pouco significam. Certo dia, ao escrever no canto da lousa uma frase de um poema que escrevi para a Débora – “a razão de meus atos se perde quando ganho teus braços” – os alunos de uma turma de supletivo ficaram curiosos para saber sobre minha vida afetiva. Tive então que responder a perguntas como “Você é casado?”, “Há quanto tempo namora?”, “Vai casar quando?”. Ora, você que sempre lê as minhas “Narrativas” sabe que minha vida é um livro aberto, e eu me orgulho muito de não ter que esconder sujeita debaixo do tapete, e isso vale em qualquer lugar, inclusive em sala de aula. Pois bem. Enquanto eu fui narrando minhas poucas paixões de adolescente, e a minha intensa paixão pela Débora, percebi um brilho diferente nos olhos de alguns alunos, em particular de dois deles. Havia uma aluna que, com o cotovelo apoiado sobre a carteira e segurando o rosto, olhava-me com um olhar distante. Aquela moça, que aparenta ter entre 25 e 30 anos, parecia identificar-se naquelas minhas palavras. Era como se ela ainda nutrisse o sonho adolescente de encontrar um “príncipe encantado”, que virá buscá-la em uma carruagem e a tratará como uma princesa. Havia um outro aluno, este já com mais de 40 anos, cujos olhos estavam rasos de lágrimas. Sua expressão acusava sua emoção ao ouvir aquelas minhas palavras, talvez compartilhando da mesma dor que eu sentia convivendo com a solidão da adolescência. Após o término da história, peguei o giz e escrevi na lousa o conteúdo programado para aquela aula. Quase no final da aula, o aluno a que me referi chamou-me em sua carteira. Quando lá cheguei, ele abriu um caderno de desenho. Havia um lindo desenho. Era o desenho de uma moça de cabelos longos, alegre e sorridente. Com o caderno na mão, ele olhava para o desenho e dizia: “Ela não é linda, professor?” A moça, que prontamente identifiquei através do desenho, era aquela aluna que estava à espera de seu “príncipe encantado”. “Este desenho está perfeito!”, exclamei. A aluna, que serviu de modelo para o desenho – mas que, por incrível que pareça, não entendeu que a moça no desenho era ela – disse inocentemente: “Nossa, professor, viu só que bonitinho? Ele está apaixonado!” Às vezes a metade que você tanto procura está ao seu lado. Basta manter os olhos abertos para vê-la e o coração aberto para aceitá-la.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Diário de um professor de ensino médio - parte 2

8h44min. Estou na porta da sala de uma turma de 3ª. Série do ensino médio. Há poucos alunos na sala. Estou aguardando o retorno deles, já que a maioria está na outra exremidade do pavilhão. Aliás, praticamente todos os alunos d aescola estão lá, ouriçados, “apreciando” alguma briga ou confusão. “Fessor, bateram no Ronaldo!”. Ao perguntar o motivo da briga, não me surpreendo com a resposta. “Mexeram com a mina dele, fessor. Ele saiu para o braço e o Babão bateu nele”. Recordo-me então que o Ronaldo deixara recentemente alguns recados no meu orkut, sempre associados com o nome de uma moça – uma tal Mariana. Adentro a sala e fecho a porta. Abro a caderneta e anoto presença apenas para aqueles alunos que estão na sala. Os que estão lá fora, assistindo ao espetáculo de violência, estão ausentes. Eu os advferti na última aula e pedi para corrigirem este péssimo costume. Como sempre, eles ouviram mas não escutaram. Quando entram na sala e eu lhes comunico que estão com falta, nem retrucar eles retrucam. “Não dá nada, não”, devem estar pensando eles. Para eles, nada “dá em alguma coisa”, pois eles não se importam com nada. Resta saber até quando Deus me dará forças para continuar me importando com eles...

Diário de um professor de ensino médio

7h46min. Estou em uma sala do colégio, mais precisamente em uma turma de 1ª. Série do ensino médio. No nosso último encontro, estudamos as famílias representativas da tabela periódica. Combinamos que hoje seria a prova. Uma prova oral, simples e rápida. Mas ninguém estudou. Alguns dizem que não se lembraram, outros assumem que não quiseram estudar. Como haverá outra aula ainda hoje, às 9h50min, ofereço-lhes esta primeira aula para estudar e aviso que a prova será após o intervalo. Fico então olhando o que eles vão fazer. Alguns alunos abrem seus cadernos e começam a ler, mas logo desistem, enquanto outros sequer tentam. É como se não dessem a mínima para o que pode acontecer caso não sejam aprovados ao final do ano. Uma das alunas senta-se ao lado de uma amiga e contra sobre a briga que teve com o namorado no fim de semana. Uma outra olha um livro sobre sonhos, pois está curiosa para saber o significado do sonho que teve esta noite. Uma outra, no fundo da sala, está debruçada sobre a carteira. Disse que ficou até altas na Internet. Um outro aluno, que raramente aparece, limita-se a “zuar” alguns colegas. Este é o cenário que se apresenta aos meus olhos. Um cenário muito triste e desolador: adolescentes desinteressados por tudo o que possa exigir algum esforço da parte deles. Estes jovens parecem pouco preocupados com o futuro. Às vezes tenho a impressão de que eles não acreditam em seus futuros, como se fossem morrer ao final de cada dia. Contudo, mesmo que amanhã acordem fortes e sadios, é como se estivessem “vegetando”, pois em nada terão evoluído. Tudo permanecerá como está agora. Todos continuarão vítimas da sociedade que os marginalizou e não ofereceu perspectivas de um futuro melhor. São vítimas de famílias desmanteladas, filhos de pais embriagados e egoístas e de mulheres que não souberam escolher os pais para seus filhos, ou que não foram fortes e responsáveis o suficiente para assegurar-lhes uma família de verdade. Eu, que tive uma família perfeita e fui criado com muito amor, não sei o que dizer a eles, pois não sei qual é a extensão da dor que estão sentindo. Apenas olho e espero o tempo passar, como se a cada segundo uma punhalada transpassasse meu coração. Meu espírito está triste, eu me sinto derrotado. A diferença entre eles e eu é que, por acreditar no futuro, amanhã acordarei renovado.

domingo, 9 de setembro de 2007

Feriado prolongado, prelúdio de solidão

0h15min. Já estava desligando o computador quando, ao olhar para este monitor, resolvi escrever algumas linhas sobre o que ocorreu nos últimos cinco dias de minha vida. Não há nada de extraordinário ou novo pra contar, mas há sempre uma forma diferente de se olhar velhas coisas. 6 de setembro. Tentei voltar um pouco mais cedo da universidade, com o intuito de nadar e, assim, aliviar minhas dores nas costas. Quando cheguei em casa, porém, encontro o portão fechado por dentro. Como dizem, “rolou um stress”, pois aquilo significaria que eu não chegaria a tempo para a natação. Vi-me então forçado a pular o muro de minha própria casa e abrir o portão pelo lado de dentro. Ao chegar na academia, para meu desapontamento, vi que estava vazia. Ocorreu um vazamento em um cano e o conserto só ocorrerá na próxima segunda-feira... À noite não havia alunos no colégio. Enquanto esperava o tempo passar, conversava com a Jacira, nossa vice-diretora. O prof. Vanderlei apareceu e conversou conosco por alguns minutos. Algum tempo depois, a Jacira sentiu falta de um de seus sapatos. “Vanderlei, seu filho da mãe!” Com o pé no chão, a Jacira sai em busca do Vanderlei e de seu sapato. Uma cena que me causou risos, pois fez lembrar-me a cena que presenciei anos atrás no almoxarifado da usina. 7 de setembro. Acordo muito tarde. Eu deveria ter ido ao colégio para cumprir horário, mas chego quando todos já estão de saída... Papai e mamãe não estão em casa. O dia será bem triste, pois sem eles esta casa fica muito vazia. Sinto-me só nestes dias. Ainda bem que almocei na casa da vovó Maria e encontrei a Débora à noite. Assistimos “Efeito borboleta” e ficamos pensando sobre como o destino foi bom em nos ter colocado um no caminho do outro. À noite, quando voltei para casa, recebi um telefone da Mariane, afilhada do papai e da mamãe. Aos prantos, ela comunicou que seu irmão foi assassinado a pontapés pelos policiais aqui da cidade. 8 de setembro. Débora e eu saímos cedo para ver como está a construção da nossa casa. Já estamos colocando o piso e a casa, enfim, começa a ganhar suas formas finais. Descemos até o centro da cidade e lá comemos um lanche. Foi o nosso almoço. Durmi o restante da tarde até o momento de ir jogar futebol. “Faminto” por futebol, joguei em dois horários: das 16h30min às 17h30min e das 18h às 17h. No primeiro horário, embora estivesse jogando em um time pouco competitivo, conseguimos permanecer três partidas consecutivas. No segundo horário, mesmo com o pé machucado, consegui marcar um “gol de placa”, característico de jogadores raçudos (porém pouco técnicos...). Todos os companheiros de time vieram cumprimentar-me. À noite Débora e eu comemos uma deliciosa pizza de lombo canadense com bordas de catupiry. 9 de setembro. Acordei às 8h45min. Ouvi a bola batendo aqui no clube em frente à minha casa, mas prefiro resistir e dar seguimento àquilo que deveria ter feito no feriado e no sábado, mas que não consegui. À tarde, Débora e eu fomos ao shopping para assistir ao filme “Licença para casar”, com Robin Williams. O filme é muito bom e foi perfeito para a ocasião, já que no próximo fim de semana VAMOS PARTICIPAR DO CURSO DE NOIVOS. “Eita, óia o casório cheganu aí, sô!”

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Como conheci a profa. Helena Ferraz

22 Outubro de 2004. São 13h25min. Estou na biblioteca do Instituto de Química da USP. Acabo de almoçar com o prof. Luiz Fernando, que me convidou para proferir uma palestra para o pessoal de seu laboratório. Há uma ansiedade enorme e incômoda tomando conta de mim. Pela janela só consigo ver o céu cinzento, que acaba por entristecer-me ainda mais. Estou longe de casa e não sei exatamente o que me moveu a aceitar a “empreitada” de apresentar um seminário no IQ da USP. Talvez fosse a curiosidade de conhecer este ambiente, ou o orgulho de dizer que proferi um seminário aqui. O fato é que agora, faltando cerca de 1h para iniciar a apresentação, eu me encontro quase em pânico, sem sequer ter apresentado uma única prévia deste seminário... 14h28min Estou na sala onde o seminário será apresentado. Há cerca de 20 pessoas na sala, dentre elas 3 professores: o prof. Massuo, um verdadeiro ícone brasileiro na área de Química de Produtos Naturais; o prof. Luis Fernando Silva Júnior, que apesar de jovem já é considerado um dos expoentes na na área de Síntese Orgânica em nosso país; e uma outra professora que eu não conheço. Aparentando ter mais de 60 anos, esta professora chama-me a atenção pela forma carinhosa e respeitosa que é tratada pelos colegas. Deduzo que ela seja uma das líderes do departamento. Ao vê-la na porta da sala, apoiada a uma bengala, sigo em direção a ela, e humildemente estendo a mão. “Muito prazer, Miller. Sou Helena Ferraz”. Aquele aperto de mão acolhedor traz-me segurança. Era como se através dele, e daquele olhar firme, aquela senhora quisesse dizer: “Boa sorte no seminário, meu filho”. Percebo então que a professora senta-se em uma das primeiras carteiras. Por incrível que pareça, já não me sinto mais nervoso. 14h32min. O seminário começa. Falo com uma tranqüilidade que para mim é inesperada. Afinal, há menos de meia hora atrás eu me encontrava praticamente em pânico. O que terá me acalmado? Teria sido o aperto de mão da prof. Helena? Enquanto falo, olho para os espectadores. Por alguns instantes, tenho a impressão que o prof. Massuo está cochilando. Já o prof. Luiz mantém os olhos bem abertos, aparentemente interessado no conteúdo da palestra. Quanto à profa. Helena, esta debruça-se sobre a carteira ao lado, demonstrando um grande interesse no que estou apresentando. 15h18min. O seminário termina. Como eu presumi, a profa. Helena toma a palavra e, olhando para trás, diz com voz firme: “Perguntas, por favor.” Algumas surgem, mas nenhuma delas parte dos alunos. O prof. Massuo pergunta sobre as diferenças entre a ionização por elétrons e a ionização por electrospray. O prof. Luiz Fernando apenas ressalta que gostou muito do seminário, e que não cometi erros conceituais. Tendo a palavra de volta para si, a professora Helena respira e inicia seus comentários. “Miller, vou ser sincera com você....” -e faz uma pausa de uns 2 ou 3 segundos que me dão calafrios! – “fazia muito tempo que eu não assistia a um seminário em que eu ficasse o tempo inteiro acordada. Você está de parabéns pelo seu trabalho e principalmente pela sua didática.” 17h. Estou ao lado da profa. Helena e do prof. Luiz Fernando. Eles me perguntam se eu pernoitarei aqui em São Paulo. Eu digo que prefiro voltar à noite, de ônibus, pois não gosto de ficar longe de casa. A profa. Helena então chama o prof. Luiz em particular e começam a falar algo baixinho. Parece que estão decidindo o que vão fazer. “Miller, nós vamos chamar um táxi e ele te levará até a rodoviária. De lá você poderá retornar a Ribeirão Preto. O táxi é por nossa conta.”, diz ela. Abro um largo sorriso, em sinal de agradecimento. Aperto a mão da profa. Helena, desta vez agradecendo-lhe pela recepção, pela oportunidade e, principalmente, pela forma como me tratou. Entro no táxi, na esperança de voltar a vê-la algum dia, talvez como membro de minha banca de defesa de doutorado. 23h. O Betão vem buscar-me na rodoviária. Parece curioso para saber do seminário. Afinal, foi ele quem havia me indicado para o prof. Luiz Fernando. Conto-lhe então os detalhes da apresentação e pergunto sobre a profa. Helena. “Miller, a Helena é uma das maiores professoras da área de Síntese Orgânica do Brasil. É uma das mulheres que mais sabe Química Orgânica neste país”. Enquanto ele vai narrando o extenso currículo da profa. Helena, eu fixo meu olhar em algum ponto perdido no chão. Fico lembrando da humildade daquela senhora e da forma respeitosa como me tratou. Dou então um sorriso, daqueles que procuram disfarçar os olhos rasos em lágrimas. 03 de setembro de 2008. Abro o e-mail e vejo uma mensagem: “Missa Helena Ferraz.” A profa. Helena partiu e eu não tive a oportunidade de reencontrá-la para agradecer-lhe pela sua rápida, porém importante participação em um momento crítico de minha vida. Deixo expresso nestas linhas o meu eterno agradecimento a ela, pelo exemplo de competência, humanismo e de humildade que foi para mim.