segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Como conheci a profa. Helena Ferraz

22 Outubro de 2004. São 13h25min. Estou na biblioteca do Instituto de Química da USP. Acabo de almoçar com o prof. Luiz Fernando, que me convidou para proferir uma palestra para o pessoal de seu laboratório. Há uma ansiedade enorme e incômoda tomando conta de mim. Pela janela só consigo ver o céu cinzento, que acaba por entristecer-me ainda mais. Estou longe de casa e não sei exatamente o que me moveu a aceitar a “empreitada” de apresentar um seminário no IQ da USP. Talvez fosse a curiosidade de conhecer este ambiente, ou o orgulho de dizer que proferi um seminário aqui. O fato é que agora, faltando cerca de 1h para iniciar a apresentação, eu me encontro quase em pânico, sem sequer ter apresentado uma única prévia deste seminário... 14h28min Estou na sala onde o seminário será apresentado. Há cerca de 20 pessoas na sala, dentre elas 3 professores: o prof. Massuo, um verdadeiro ícone brasileiro na área de Química de Produtos Naturais; o prof. Luis Fernando Silva Júnior, que apesar de jovem já é considerado um dos expoentes na na área de Síntese Orgânica em nosso país; e uma outra professora que eu não conheço. Aparentando ter mais de 60 anos, esta professora chama-me a atenção pela forma carinhosa e respeitosa que é tratada pelos colegas. Deduzo que ela seja uma das líderes do departamento. Ao vê-la na porta da sala, apoiada a uma bengala, sigo em direção a ela, e humildemente estendo a mão. “Muito prazer, Miller. Sou Helena Ferraz”. Aquele aperto de mão acolhedor traz-me segurança. Era como se através dele, e daquele olhar firme, aquela senhora quisesse dizer: “Boa sorte no seminário, meu filho”. Percebo então que a professora senta-se em uma das primeiras carteiras. Por incrível que pareça, já não me sinto mais nervoso. 14h32min. O seminário começa. Falo com uma tranqüilidade que para mim é inesperada. Afinal, há menos de meia hora atrás eu me encontrava praticamente em pânico. O que terá me acalmado? Teria sido o aperto de mão da prof. Helena? Enquanto falo, olho para os espectadores. Por alguns instantes, tenho a impressão que o prof. Massuo está cochilando. Já o prof. Luiz mantém os olhos bem abertos, aparentemente interessado no conteúdo da palestra. Quanto à profa. Helena, esta debruça-se sobre a carteira ao lado, demonstrando um grande interesse no que estou apresentando. 15h18min. O seminário termina. Como eu presumi, a profa. Helena toma a palavra e, olhando para trás, diz com voz firme: “Perguntas, por favor.” Algumas surgem, mas nenhuma delas parte dos alunos. O prof. Massuo pergunta sobre as diferenças entre a ionização por elétrons e a ionização por electrospray. O prof. Luiz Fernando apenas ressalta que gostou muito do seminário, e que não cometi erros conceituais. Tendo a palavra de volta para si, a professora Helena respira e inicia seus comentários. “Miller, vou ser sincera com você....” -e faz uma pausa de uns 2 ou 3 segundos que me dão calafrios! – “fazia muito tempo que eu não assistia a um seminário em que eu ficasse o tempo inteiro acordada. Você está de parabéns pelo seu trabalho e principalmente pela sua didática.” 17h. Estou ao lado da profa. Helena e do prof. Luiz Fernando. Eles me perguntam se eu pernoitarei aqui em São Paulo. Eu digo que prefiro voltar à noite, de ônibus, pois não gosto de ficar longe de casa. A profa. Helena então chama o prof. Luiz em particular e começam a falar algo baixinho. Parece que estão decidindo o que vão fazer. “Miller, nós vamos chamar um táxi e ele te levará até a rodoviária. De lá você poderá retornar a Ribeirão Preto. O táxi é por nossa conta.”, diz ela. Abro um largo sorriso, em sinal de agradecimento. Aperto a mão da profa. Helena, desta vez agradecendo-lhe pela recepção, pela oportunidade e, principalmente, pela forma como me tratou. Entro no táxi, na esperança de voltar a vê-la algum dia, talvez como membro de minha banca de defesa de doutorado. 23h. O Betão vem buscar-me na rodoviária. Parece curioso para saber do seminário. Afinal, foi ele quem havia me indicado para o prof. Luiz Fernando. Conto-lhe então os detalhes da apresentação e pergunto sobre a profa. Helena. “Miller, a Helena é uma das maiores professoras da área de Síntese Orgânica do Brasil. É uma das mulheres que mais sabe Química Orgânica neste país”. Enquanto ele vai narrando o extenso currículo da profa. Helena, eu fixo meu olhar em algum ponto perdido no chão. Fico lembrando da humildade daquela senhora e da forma respeitosa como me tratou. Dou então um sorriso, daqueles que procuram disfarçar os olhos rasos em lágrimas. 03 de setembro de 2008. Abro o e-mail e vejo uma mensagem: “Missa Helena Ferraz.” A profa. Helena partiu e eu não tive a oportunidade de reencontrá-la para agradecer-lhe pela sua rápida, porém importante participação em um momento crítico de minha vida. Deixo expresso nestas linhas o meu eterno agradecimento a ela, pelo exemplo de competência, humanismo e de humildade que foi para mim.

Nenhum comentário: