sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O amor é contagioso

Uma das experiências mais gratificantes que tenho vivido como professor é dar aulas no curso supletivo. O curso, oferecido no período noturno, tem alunos com um perfil diametralmente oposto ao dos alunos do período matutino. Ao invés de jovens cheios de jovens que desperdiçam seus tempos e energias com relacionamentos casuais e vazios, bebidas e drogas, os alunos do curso supletivo são adultos em sua maioria. Todos trabalham, e ao contrário dos jovens, sabem o quanto o estudo faz falta na vida, por isso são dedicados e atenciosos. Entretanto, ao contrário da imagem que todos têm, os alunos do curso supletivo estão há milhas de distância da velhice. São pessoas maduras, sim, porém a jovialidade de seus espíritos chega a encher os olhos. Para minha surpresa, algumas vezes chego em sala de aula e eles pedem que eu conte “histórias”. As tais histórias são os “causos” de minha vida pessoal, que sempre trazem uma mensagem de motivação. Obviamente, estas história são sempre recheadas de humor, o que faz com que muitos me tenham como “o professor das piadas”. Mas esses alunos têm suas próprias histórias de vida. São histórias de vidas cheias de dificuldades e desafios, perto das quais as minhas poucas experiências de vida pouco significam. Certo dia, ao escrever no canto da lousa uma frase de um poema que escrevi para a Débora – “a razão de meus atos se perde quando ganho teus braços” – os alunos de uma turma de supletivo ficaram curiosos para saber sobre minha vida afetiva. Tive então que responder a perguntas como “Você é casado?”, “Há quanto tempo namora?”, “Vai casar quando?”. Ora, você que sempre lê as minhas “Narrativas” sabe que minha vida é um livro aberto, e eu me orgulho muito de não ter que esconder sujeita debaixo do tapete, e isso vale em qualquer lugar, inclusive em sala de aula. Pois bem. Enquanto eu fui narrando minhas poucas paixões de adolescente, e a minha intensa paixão pela Débora, percebi um brilho diferente nos olhos de alguns alunos, em particular de dois deles. Havia uma aluna que, com o cotovelo apoiado sobre a carteira e segurando o rosto, olhava-me com um olhar distante. Aquela moça, que aparenta ter entre 25 e 30 anos, parecia identificar-se naquelas minhas palavras. Era como se ela ainda nutrisse o sonho adolescente de encontrar um “príncipe encantado”, que virá buscá-la em uma carruagem e a tratará como uma princesa. Havia um outro aluno, este já com mais de 40 anos, cujos olhos estavam rasos de lágrimas. Sua expressão acusava sua emoção ao ouvir aquelas minhas palavras, talvez compartilhando da mesma dor que eu sentia convivendo com a solidão da adolescência. Após o término da história, peguei o giz e escrevi na lousa o conteúdo programado para aquela aula. Quase no final da aula, o aluno a que me referi chamou-me em sua carteira. Quando lá cheguei, ele abriu um caderno de desenho. Havia um lindo desenho. Era o desenho de uma moça de cabelos longos, alegre e sorridente. Com o caderno na mão, ele olhava para o desenho e dizia: “Ela não é linda, professor?” A moça, que prontamente identifiquei através do desenho, era aquela aluna que estava à espera de seu “príncipe encantado”. “Este desenho está perfeito!”, exclamei. A aluna, que serviu de modelo para o desenho – mas que, por incrível que pareça, não entendeu que a moça no desenho era ela – disse inocentemente: “Nossa, professor, viu só que bonitinho? Ele está apaixonado!” Às vezes a metade que você tanto procura está ao seu lado. Basta manter os olhos abertos para vê-la e o coração aberto para aceitá-la.

2 comentários:

Michel Leandro disse...

Ebaaa vamos ganhar dindim.
Tudo bem já estou caindo fora foi apenas uma brincadeirinha ...

M.Costa disse...

Muito fascinante suas histórias. Ao mesmo tempo que você ensina, você aprende também e, sucessivamente a cadeia se repete a outras pessoas. É surpreendente pois, esse dito popular, ou, essa lição de vida realmente acontece e, sobre tudo, você teve a oportunidade de presenciá-la, e relatar uma narrativa tão coerente com as da conclusões já existentes.