segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Antes tarde do que nunca

Sábado, 27 de outubro. São 8h42min. Estou em uma sala de aula. Sou professor avaliador da disciplina de Seminários Gerais. Na sala, junto comigo, estão o Ademar, que é o outro professor avaliador, e mais alguns doutorandos. Entre eles há um que me chama a atenção, apesar de ser um velho conhecido. Conheci aquele homem de cabelos brancos, raspado para esconder a calvície, de olhos claros, óculos e voz forte, há 12 anos atrás, no primeiro ano de graduação. Ele era meu professor de Física, a disciplina que eu mais gostava naquele ano. Entretanto, por mais que eu quisesse ter dele a amizade, ele sempre se manteve distante. Certo dia ele olhou para a nossa classe e rasgou cerca de 70 provas que ele havia preparado pra gente, alegando que éramos incapazes de fazer aquela prova. Aquele incidente deixou-me profundamente chateado, e assim permaneci por anos. Eis que vários anos se passaram e eu retornei para a universidade. Lá reencontrei aquele professor, que para a minha surpresa tratou-me como se fosse um velho amigo. Passamos a conversar com freqüência, e aquela amizade que eu tanto desejava na época de graduação tornou-se, enfim, realidade. Tamanha não foi a minha surpresa quando ouvi os alunos comentarem durante as aulas que aquele professor havia me elogiado muito e que sempre me usava como exemplo de um aluno que venceu. Pois bem. Cá estou, mais uma década depois, presenciando uma inversão de papéis. Hoje sou o professor, o professor de outrora agora é aluno. Há, no entanto, um grande respeito de minha parte, não apenas por ele ter sido o meu professor, mas também por reconhecer que ele tem um conhecimento muito mais abrangente que o meu. Segunda-feira, 29 de outubro. São 21h07min. Estou subindo a rampa de acesso ao 3º. Andar do bloco azul, onde será a próxima aula. Subo conversando e rindo com alguns alunos. Eis que de repente sinto uma mão pesada tocar-me o ombro esquerdo, e repentinamente pular para o ombro direito. Aquela pessoa continuou caminhando, agora praticamente abraçada a mim. “Miller, eu pirei ao ver você no seminário no sábado! Fiquei admirado com a forma respeitosa com que você fez os comentários sobre os seminários e, principalmente, com o seu profissionalismo. Parabéns, cara! Estou muito satisfeito.” Sem saber o que dizer (isso é comum quando recebo algum elogio...), agradeci-o timidamente, porém com um sorriso estampado no rosto diante da sinceridade daquela pessoa. Aquela pessoa, era na verdade, meu antigo professor de Física que estava assistindo aos seminários na disciplina do sábado. Aquele professor é na verdade, o prof. “Tonin” Marangoni, uma pessoa que Deus recolocou em meu caminho para me mostrar que o mundo realmente dá muitas voltas. Em uma destas voltas pude não apenas reencontrar um professor de graduação, mas também conquistar o respeito, a admiração e a amizade que eu tanto desejava que ele tivesse por mim quando era seu aluno. Obrigado, “meu amigo” prof. Marangoni! “Faze o que fazes com humildade e, mais do que a estima das pessoas, ganharás o afeto delas (...). Espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade (...). E, na sinceridade de teus conhecimentos, nunca te afastes de uma linguagem pacífica e eqüitativa. Pois uma boa palavra multiplica os amigos e apazigua os inimigos (...). A sabedoria do humilde o fará sentar-se no meio dos grandes.”

sábado, 27 de outubro de 2007

Tropa de elite

Já há algum tempo eu assisti ao filme “Tropa de elite”. Recordo-me que fiquei tão impressionado que naquela noite tive alguns pesadelos que lembravam cenas do filme.Trata-se de uma obra impactante, não por espelhar a criatividade de um roteirista ou a competência de um diretor, mas sim pela coragem de ambos em retratar uma realidade que está próxima de nós, porém muitos preferem não enxergá-la. “Tropa de elite’ foi (e até na data deste post, ainda é) objeto de várias críticas e noticiários veiculados na mídia televisiva e jornalística, principalmente por tratar da corrupção dentro da polícia no trato com traficantes. Ao meu ver, no entanto, o aspecto mais importante do filme é o esquema do tráfico de drogas. Muitos conhecidos meus ficam estarrecidos e desconfiados quando cruzam com algum jovem de boné e de roupas largas, que anda "gingando", e o olha como se ele fosse um assaltante, bandido ou traficante. Ora, a maioria dos meus alunos veste roupas largas, usa boné e anda “gingando” (ou, como diz o William, “chaveando”), e pelo que eu saiba, nenhum deles é bandido. A verdade que o filme mostra, e que na minha opinião é a mais chocante, é que quem sustenta o tráfico de drogas são os jovens das classes sociais média e alta. Ao consumirem drogas, tais jovens, que já nasceram com todas as oportunidades para vencer, acabam comprometendo a vida de várias crianças pobres, que vivem na comunidade onde habitam os traficantes.
Ao término do filme, fiquei recordando da única festa em que fui lá no campus da USP de Ribeirão Preto, quando estava cursando doutorado. Diante de tanta insistência, fui com o pessoal da moradia estudantil a um tal de "Bar da Filô". Quando estava chegando, pude observar uma fumaça de cheiro estranho pairando sobre o ambiente. Quando lá cheguei, meus colegas resolveram comprar cerveja. Caminhamos então pelo meio da "galera" e várias vezes tive que pedir licença para alguns jovens que estavam no meio do caminho. Aqueles jovens pareciam verdadeiros "zumbis", estáticos e distantes. A maioria deles sequer deve ter percebido meus "esbarros". Agora vejo a realidade com outros olhos. Filhos de classe média, "playboys" que nada entendem da vida, mas que se acham "atuantes" e críticos. "Jovens ricos adoram cuidar de crianças pobres", diz o filme. Talvez façam isso na tentativa de se isentarem da culpa de colocarem várias outras no tráfico de drogas com o seu inocente e despretensioso "cigarrinho do capeta". Quem financia o tráfico são os "riquinhos", que tragam um "bequezinho" (é essa a expressão usada no filme) só "pra ficar de boa". O grande problema é o preço social que cada trago acarreta.
Não sou, nunca fui e jamais serei usuário de qualquer tipo de droga, seja ela na forma de um cigarro (comum ou "baseado") ou bebida. Portanto, antes de assistir ao filme eu não tinha nada contra aqueles que fumassem o seu "baseado". Afinal, cada um faz da sua vida o que quiser. Entretanto, vejo agora que a cada tragada ou a cada cheirada, uma criança inocente torna-se vítima da violência nas favelas. Escrevo isso com uma enorme dor no coração, pois temo que meus filhos possam vir algum dia a se tornarem usuários de drogas. Este seria o meu maior fracasso: ter criado filhos criminosos.

domingo, 21 de outubro de 2007

O preconceito na ciência

Nesta semana que passou, um fato lamentável agitou o meio científico. O cientista James Watson, um dos descobridores do DNA e ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1962, afirmou que os negros são menos inteligentes que os brancos. É fato que o tão conhecido cientista contribuiu enormemente para o avanço da ciência com a sua descoberta, mas a julgar por esta afirmação sem pé nem cabeça, fica evidente que ele está na hora de se aposentar (ou se já o fez, está na hora de ficar de boca fechada). Basta comparar, por exemplo, os negros e os “brancos” aqui do Brasil. Brancos e negros chegaram até aqui provenientes da Europa e da África, respectivamente, porém em situações completamente distintas. Os brancos vieram para colonizar, os negros vieram para servir de mão-de-obra escrava. Quando a escravidão foi abolida, os negros permaneceram à margem da sociedade, sem oportunidade de emprego, e esta situação ecoa ainda nos dias de hoje. Atualmente, embora o número de negros nas universidades tenha aumentado nos últimos anos, estes representam uma alíquota muito pequena dos estudantes universitários, principalmente nas universidades públicas. Isso, entretanto, não tem nada a ver com inteligência ou capacidade. Na condição de professor, posso dizer que alguns de meus alunos negros são capazes de fazer o Dr. Watson “engolir” o que disse. Não há, portanto, como dizer se um é mais inteligente que o outro. O que perdura, ainda nos dias de hoje – e esta talvez seja a verdade que o Dr. Watson não queira enxergar - é uma desigualdade social desumana entre as condições em que brancos e negros crescem e chegam às universidades. Isto é, obviamente, fruto das desigualdades sociais. Se o Dr. Watson ainda acha que precisa aparecer na mídia, por que ele não vai pesquisar sobre o gene responsável pela ganância humana, responsável por tal desigualdade?

sábado, 20 de outubro de 2007

Os tempos mudaram, eu não!

23h49min. Estou trafegando pela rua Voluntário Geraldo, a rua que dá acesso à minha casa. Estou voltando da casa da Débora. Estávamos assistindo ao programa do Tom Cavalcanti. Melhor dizendo, ela estava. Eu acabei dormindo, tamanho o cansaço que me abateu. Não vejo a hora de chegar em casa e deitar-me! 23h50min. Vejo um movimento de pessoas caminhando pela rua na mesma direção que eu. A maioria destas pessoas são adolescentes, moças e rapazes. As moças trajam “shorts” bem curtos (como o nome em inglês sugere!). Os rapazes, por sua vez, usam bonés e calças largas. Andam “gingando”, balançando os braços para trás e estufam o peito para frente. É como se com aquela forma de andar, quisessem dizer: “E aí, mano, o que é que tá olhando?”. Certo dia, perguntei ao William, um aluno do ensino médio, o que queria dizer aquela forma de andar. “Fessor, estou chaveando”. Perguntei-lhe o que queria dizer aquela expressão. “Fessor, chavear quer dizer ‘tô na área’. Vem de ‘chave de cadeia’.” Inconformado com o que ele havia me dito, disse-lhe: “William, quem fica na cadeia é bandido! E você não é nenhum bandido, ora!” Ele justificou-se. “Ah, fessor, esse é o meu estilo.” 23h51min. Estou passando em frente ao clube da Baixada, clube onde passei toda a minha adolescência jogando futebol e tênis de mesa. Hoje é dia de baile. Baile de carnaval. À frente do clube, uma multidão de jovens aguardam a abertura dos portões. Ao vê-los, a imagem que me vem à memória é a cena do baile funk do filme “Tropa de Elite.” Uma pergunta começa a incomodar-me: onde começa e onde terminam as semelhançsa entre estes jovens e aqueles do filme? A maioria dos jovens está sorrindo, mas em uma das mãos acomodam uma lata de cerveja ou um cigarro. Será que é cigarro comum ou será algum “baseado”? 23h55min. Estaciono o carro debaixo da mangueira aqui de casa. Enquanto caminho para fechar o portão, fico imaginando como a adolescência de minha época era diferente, e como eu era um adolescente completamente diferente de todos da minha época. Não gostava de sair e nunca apreciei ficar em meio a muitas pessoas. Ficava em casa estudando e ouvindo músicas da Cindy Lauper, Madonna e Roxette. Como dizem os alunos, “eu ficava na minha” ou “ficava de boa”, no meu canto. Quando ria, eu o fazia espontaneamente. Não me drogava nem precisava de álcool para tomar coragem para "chegar" em uma moça e conversar. A propósito, isso não pe preciso hoje em dia. As moças é que chegam nos rapazes!
Mas os tempos mudaram. A moda hoje é “ser igual para ser aceito”, e não importa o que se tenha que fazer para ser igual. Sim, os tempos mudaram, mas eu ainda ouço Cindy Lauper, Roxette e Madonna. Talvez eu tenha parado no tempo. Ou talvez eu esteja realmente envelhecendo.

Semana do saco cheio - parte final

Quarta-feira, 10 de outubro. 7h15min. Paro em frente à New Car, a oficina que nos últimos três dias tem sido palco de uma das minhas maiores angústias desde que adquiri um carro. O portão está fechado, mas lembro-me que o Taíde, dono da oficina, disse que costumava chegar cedo. Desço do carro e vejo o trinco inferior destrancado. Começo a mexer no trinco, na tentativa de abrir o portão. Ao ver o portão balançando, o Taíde se aproxima. “Bom dia”, diz ele, com expressão séria. “Bom dia, Taíde. Rapaz, você não vai acreditar: a luz do óleo ta acendendo!”. Ele dá um risinho de canto de boca e diz, acalmando-me: “`O problema deve ser com o cebolinha do óleo. A oficina só abre à s7h30min. Você quer esperar ou vai voltar outra hora?” Sem titubear, peço-lhe que abra o portão. Vou esperar. 7h19min. Ainda faltam alguns minutos pra oficina abrir e para eu resolver o meu problema, ou melhor, para alguém resolver o meu problema. Olho para a oficina, cheia de lixo pelo chão. O Taíde já cedo parece correr de um lado para outro, tentando organizar as coisas e fazer uma rápida faxina. “Taíde, dê-me uma vassoura. Vou varrer a oficina pra você”. Sem pensar duas vezes, ele encontra uma vassoura e uma pá para amontoar o lixo. “Tomai, já que você quer trabalhar....” Espero que o tempo passe mais rápido. 7h35min. O Taíde me comunica: “O Cidinho já está aí.”. Surge então uma dúvida: “Uai... mas o Cidinho não estava machucado?”. 7h37min. “Bom dia, Cidinho. Melhorou da mão?” O Cidinho, sem parar de varrer o chão, diz que ainda dói quando ele faz força para apertar um parafuso. Explico-lhe o problema. Ele ri. “E o rapaz, fez o serviço direitinho? Eu te falei: o cara é de confiança, do contrário não teria deixado ele fazer o serviço pra você.” 7h39min. O Bruno se aproxima. “Bom dia, Bruno”, digo, cumprimentando-lhe, ao que ele prontamente retribui. “E aí, Bruno, beleza? Então quer dizer que o rapaz aqui duvidou do seu serviço?”, diz o Cidinho, com ar irônico. O Bruno ri, e sem olhar para mim, como se eu não estivesse ali, responde: “Pois é! Ele ficou aqui ontem a tarde toda. Nem tomar café direito ele deixou, desesperado por causa do carro.” O Cidinho retoma a palavra: “Ah, se fosse comigo! Eu deixaria ele esperando a tarde toda. Sairia pra tomar café, lanche, qualquer coisa.” Ouvir aquilo me chateia, principalmente porque agora tenho a sensação de que o Cidinho não quis fazer o serviço para mim. Lembro então que naquele mesmo dia em que ele disse estar doente, eu o vi andando pelas ruas da cidade. Penso comigo: “Certo, seus filhos da mãe. Quando foi pra eu pagar pelo serviço, paguei prontamente. Agora que já receberam, ouço isso... Bom saber disso!”
7h55min. Dou partida, engato a primeira marcha e ganho a rua. Espero estar livre desta situação. De tudo isso, uma lição ficou: quando eu precisar consertar o carro, vou procurar outro mecânico. E podem ter certeza: o mecânico vai demorar para ver a cor do meu dinheiro.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Semana do saco cheio - parte 3

Quarta-feira, 10 de outubro. 7h38min. Cá estou novamente na New Car para que o jovem rapaz, o Bruno, regule o carburador e acerte o funcionamento do motor do meu carro. Quando ele me vê, fica com os olhos arregalados. “Algum problema com o motor?”, pergunta ele. “Bruno, o serviço no motor ficou jóia! Resta apenas acertar o funcionamento, porque ele está ‘falhando’ em baixa rotação. Além disso, tem um barulho estridente nas rodas que está incomodando.” O rapaz, prestativo, meio que arregaça as mangas para o serviço. “Peraí, vou passar o cartão de ponto e nós vamos resolver isso.” 7h45min. O Bruno parece decido a resolver o problema. Ao vê-lo desmontando a roda do carro, sinto uma certa “valentia”, uma coragem de enfrentar o problema que me faz acreditar que ele será um grande mecânico no futuro. Aos poucos, vejo as peças do sistema de freio caírem uma a uma, até que ele me aponta um metal que estava riscando o disco de freio e fazendo o barulho que tanto me irritava. 8h13min. O Bruno pede pra que eu vá com ele até o Léo, o filho do dono da oficina, para usar uma tal de “Lanterna de ponto” para acertar o funcionamento do motor. O tal Léo trabalhava aqui nesta oficina com o pai dele, mas por motivos que desconhecemos, os dois se desentenderam e ele saiu para montar sua própria oficina. No acerto de contas, ele ficou com a pistola. Que sorte a minha, hein? 8h25min. Estou parando em frente ao portão da New Car. Mais uma vez estou surpreso com o trabalho do Bruno. O funcionamento do carro ficou perfeito! Aperto a mão dele e digo-lhe, ao fechar a porta: “Parceiro, você me surprendeu! Parabéns! Valeu!” Engato a primeira marcha e saio, cantando pneus. Até que enfim meu carro está pronto para recomeçar a semana que vem! 9h23min. Estou em uma floricultura. A Débora pediu-me para procurar alguém para fazer o jardim, e disseram que havia um rapaz nesta floricultura que era muito bom. Quando entro, uma surpresa: o dono da floricultura é o Paulo, um de meus alunos do supletivo. Somente então é que associo os projetos à sua habilidade com os desenhos... Ele parece feliz em ver-me ali. Chamo-lhe para ir medir o jardim de casa. 9h45min. Débora está mostrando ao Paulo as plantas que gostaria de incluir no jardim. Ele vai dizendo, uma uma, o nome delas. Acho que essa conversa vai longe. 11h30min. O Paulo, após longa conversa e muita paciência e atenção, desce em frente a floricultura, na promessa de que irá ligar-me assim que o projeto do jardim estiver pronto. 22h45min. Não dá pra acreditar! Estou passeando de carro com a Débora quando vejo uma luz vermelha acendendo no painel. É a luz do óleo! Lembro-me então das palavras do papai. “Filho, nós consertamos a parte de cima do motor, agora a compressão vai aumentar. Se a parte de baixo não estiver boa, o carro vai fundir, e não vai demorar muito”. Entro então em desespero! “Meu Deus, e agora?” Após gastar quase R$600,00 com o carro, o motor fundiu? E agora? Se o carro fundir, como conseguirei dinheiro para terminar de construir a casa antes do casamento?

sábado, 13 de outubro de 2007

Semana do saco cheio - parte 2

7h38min. Estou entrando na New Car, a oficina mecânica onde meu carro está “internado”. Do portão avisto-o, todo empoeirado, com o capô levantado. Estaciono o carro do papai e saio procurando pelo mecânico, o Cidinho, mas não o vejo. Próximo ao lugar onde está o meu carro, um rapaz muito jovem, que trabalha com ele, varre o chão. Acho que deve ser ajudante. Ao perguntar-lhe onde está o Cidinho, ele responde: “O Cidinho foi ao hospital. Ele cortou a mão semana passada e agora a mão dele inchou...”, diz ele. “Meu Deus, era só o que me faltava!”, penso. Ciente de que preciso resolver o problema do motor, peço a ajuda ao rapaz para colocar o cabeçote no porta-malas do carro. “Vamos acabar com isso logo”, penso, decidido a acabar com esta situação. 7h52min. Estaciono à porta da retífica Santa Rita. Cuidadosamente, retiro o cabeçote do motor do porta-malas. Na verdade, o que devia ser uma tarefa simples, acaba se tornando um verdadeiro malabarismo, pois os amortecedores do porta-malas estão estragados e não suportam o peso da tampa por muito tempo. Sendo assim, logo que eu retiro o cabeçote, sinto o movimento da tampa movimentar meus cabelos, seguindo-se um estrondo. “Deus do céu, quase fico sem pescoço!”. Entro na retífica e coloco o cabeçote no chão. A dona da loja vem e pede para um rapaz analisar e ver quais peças precisam ser trocadas. Curiosamente, o rapaz tem o mesmo sobrenome do papai: Altair. Após saber quais peças precisam ser trocadas, sigo em direção à Alfa Auto Peças. 8h27min. Acabo de pedir as peças para o Jean, o vendedor que me atendeu. Em poucos minutos ele me apresenta uma pequena sacola e dispara o preço. “São R$180,00”. Meio assustado com o preço, retiro o dinheiro da carteira e pago ao senhor que atende no caixa. Já na saída da loja, meio desnorteado e cabisbaixo, ouço alguém chamando. “E aí, fessor, beleza?” São o Guilherme e o Flávio, alunos do ensino médio. “Olha lá, Flavim, ele não parece o Van Damme?”, diz o Guilherme, fazendo-me rir. Já há algum tempo ele faz essa brincadeira, em alusão aos óculos que uso. Segundo ele, meus óculos escuros são parecidos com o que o Jean-Claude Van Damme usa. Balanço a cabeça, sorrindo. “Você é mesmo um brincalhão, Guilherme!”. 8h48min. Deixo as peças na retífica e pergunto à moça que horas posso voltar para buscar. “Uma hora da tarde, moço”. Entro no carro e volto correndo para casa, na esperança de poder estudar um pouco. 13h18min. Estou de volta à retífica, para pegar o cabeçote e levá-lo ao mecânico. Pergunto pelo preço do serviço. “R$180,00”. Sem ter outra alternativa, sorrio e volto para a oficina, na esperança de que meu carro esteja pronto ainda hoje, para viajar com a Débora para São José da Bela Vista. 13h30min. Peço ao ajudante do Cidinho que me auxilie a colocar o cabeçote do motor em cima da bancada. Feito isso, pergunto-lhe novamente pelo Cidinho. “O Cidinho não volta hoje. Só volta na segunda-feira. Ele pediu pra mim montar o motor pra você...” Respiro fundo, dou meia volta e solto um “Pu-ta-que-pa-riu”, quase pensado letra por letra. “Se o papai souber que este ‘moleque’ montou o cabeçote, ele me mata!”. Ligo para a mamãe e ela entra em contato com o papai. Ele disse pra chamar alguém da retífica pra montar, pois não quer que “qualquer moleque” monte o motor. O rapaz, muito tímido, apenas assiste a minha reação, já imaginando o que está acontecendo. O Taíde, dono da oficina, se aproxima e diz: “Fala para o seu pai que eu garanto o serviço deste rapaz. Eu me responsabilizo pelo que acontecer. Este moleque é muito bom! Você vai se surpreender com o serviço dele!”. Respiro fundo. “Pode montar”, digo, dividindo com ele a responsabilidade. Vamos ver no que vai dar. 15h30min. O carro está pronto. Para minha surpresa, está tudo funcionando direitinho! O rapaz, que descobri chamar-se Bruno, tem 17 anos e trabalha desde os 10 em oficina mecânica. “Vou chegar em casa e mostrar ao papai”. 18h15min. Chego em casa. O papai, apreensivo e ansioso, me aguarda no portão. “Abre o capô e dê partida no carro”. Ele pára na frente do carro e fica observando. “Esse motor está desregulado, mas prece que o serviço ficou bom. O problema é que parece que tem algo batendo aqui...” 18h30min. O papai liga para a retífica para saber se o barulho do motor está normal. Ao desligar o telefone, ele me olha meio sem graça. “O cara da retífica disse que o rapaz que montou o motor é muito bom.” Conclusão: o motor está perfeito, mas preciso voltar amanhã para regular o motor. E lá se vai a terça-feira e eu não estudei praticamente nada para o concurso.... Quer saber? Essa “novela” está me deixando de saco cheio.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Semana do saco cheio - parte 1

7h. Inicia-se hoje a tão aguardada semana do saco cheio. É uma semana em que não há aulas na universidade. Para mim, no entanto, não haverá descanso. Há um concurso pela frente e eu preciso estudar se quiser ser aprovado. É a chance da minha vida de realizar um grande sonho. Já liguei no colégio e comuniquei que não irei dar aulas esta semana. Seremos apenas eu e os livros. Como não viajarei para Franca esta semana, aproveitarei para dar uma “geral” no meu carro. Pobre coitado! Ele tem sido meu companheiro constante, e graças a Deus não tem me deixado na mão. Preciso cuidar dele. 8h. Estou no mecânico. O “Cidinho”, como costumamos chamá-lo, é bastante experiente e sabe tratar os seus fregueses. Peço-lhe que faça uma revisão no carro: trocar pastilhas e lonas de freio, limpar e regular o carburador. 8h25min. Estou em casa. Abro no notebook. Estou pronto para começar a estudar. Começarei pelas reações de adição eletrofílica. É um assunto extenso, mas que não é tão estranho para mim. Tentarei estudar também acidez e basicidade. 15h. O Cidinho me liga. Disse que houve um pequeno problema e que precisa falar comigo. 15h15min. Estou na oficina. O Cidinho introduz um aparelho na saída das velas do motor e disse que não há pressão suficiente no último cilindro. “O que significa isso?”, perguntou-lhe, solicitando que seja mais “didático”. “Seu carro está trabalhando com apenas 3 cilindros. Vamos ter que retirar o cabeçote”. Agora sim ficou tudo muito claro! É a mesma coisa que dizer: “Coloque a mão no bolso, parceiro; isso vai ficar caro pra caramba!” Ligo para o papai, sem saber o que fazer. 15h28min. O papai chegou. Parece afoito, meio apreensivo. Na verdade, deve estar preocupado e vai logo pedindo que o Cidinho lhe explique qual é o verdadeiro problema. Ao entender a situação, o papai dá sua opinião. Olha pra mim e diz: “Ta vendo, filho? A gente devia ter retirado o cabeçote aquele dia. Mas você quis economizar... “ E já na seqüência, dispara: “Cidinho, pode tirar o cabeçote. Nós vamos fazer a coisa certa desta vez.” 16h. Papai e eu estamos na retífica. Ele conversa com o Walter, o dono da retífica, e deixa tudo acertado para amanhã de manhã. “Amanhã de manhã?” – penso eu – “mas e o meu concurso? Preciso estudar...” Ao contrário do que eu pensava, esta semana será para eu ficar de saco cheio.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

56 anos de amor - parte 2

Padre Evaristo, vovô Miller, vovó Maria, eu, mamãe e tia Ângela
"Meus irmãos e minhas irmãs, bom dia. Antes que retornemos aos nossos lares, alimentados pelo pão do Senhor e pelas palavras do Evangelho, gostaria de contar-lhes uma história. É uma história longa e cheia de amor, que se iniciou há 56 anos. Tudo começou quando Maria Olívia, uma jovem linda e cheia de vida, conheceu Antônio, um jovem honesto, trabalhador e muito bem humorado. Maria Olívia e Antônio apaixonaram-se, e conforme manda as leis de Deus, casaram-se. Como os dois jovens eram de origem muito humilde, inúmeras foram as dificuldades que lhes foram impostas, mas o amor entre eles em nenhum momento deixou de existir ou sequer enfraqueceu. Muito pelo contrário: o amor daquele casal resultou em uma linda menina, a quem eles batizaram como Carmem. Anos depois, aquela família seria abençoada com um novo fruto, a quem eles batizaram como Ângela. Maria Olívia e Antônio agradeciam a cada dia as duas bênçãos que Deus havia lhes dado. Os anos foram se passando. Maria Olívia e Antônio assistiram Carmem e Ângela crescerem em físico, em espírito e na fé. Aquelas duas jovens foram educadas com muito amor, em um ambiente cheio de paz e harmonia, pois Deus sempre esteve presente entre no seio daquela família. Ângela, a caçula, em meio a muitas privações, mas sempre apoiada por Maria Olívia e Antônio, graduou-se em Economia. Carmem, a mais velha, tornou-se costureira. Nas linhas de sua história Deus colocou um jovem, que por coincidência também se chamava Antônio Altair. Carmem e Antônio Altair casaram-se, e do fruto de sua união nasceu um filho, também batizado como Antônio Eduardo, que foi batizado por Maria Olívia e Antônio. Apesar de ainda serem jovens, Maria Olívia e Antônio já eram avós. Quatro anos depois, Carmem daria a luz à Hérica, tornando Maria Olívia e Antônio avós pela segunda vez. Maria Olívia e Antônio viam a família crescer e agradeciam a Deus a cada amanhecer e anoitecer pelas bênçãos derramadas sobre eles. Como prova de agradecimento a Deus por tamanha bondade, Maria Olívia e Antônio amavam Antônio Eduardo e Hérica como se fossem seus próprios filhos. Quantas vezes Maria Olívia, nas eventuais ausências de Carmem, não preparou deliciosos almoços para seu neto... Na época em que ele passava a semana fora, estudando, Maria Olívia passava os fins de semana preparando deliciosas bolachinhas de nata. O amor e a preocupação de Maria Olívia para com seus netos era tão intenso que às vezes ela passava mal. Já Antônio, seu esposo, era atencioso e divertido para com seus netos. O amor dele era tamanho que ele chegava a produzir caminhões de madeira para seu neto brincar usando um canivete, ou mesmo a fazer guardas-roupas para sua neta guardar vestidos de boneca. Foi com Antônio, seu atencioso e bem-humorado avô, que Eduardo aprendeu a fazer o laço no cordão do sapato. Foi com Antônio que Eduardo aprendeu a sorrir e a tratar seus semelhantes de forma sempre respeitosa. Os anos se passaram. Hérica casou-se, e de seu casamento nasceu Clara, a bisneta de Maria Olívia e Antônio. Os dois amam Clara assim com amaram seus netos Eduardo e Hérica, e suas filhas Carmem e Ângela. Após 56 anos, Maria Olívia continua linda e cheia de vontade de viver, e ainda faz as deliciosas bolachinhas de nata. Antônio Miller ainda é o mesmo homem honesto e trabalhador, e está mais bem-humorado que nunca. Para mim, os dois são mais do que meus avós e padrinhos. São modelos de pessoas e da família que eu devo construir. Dentre todas as bênçãos que Deus derramou sobre mim, uma das maiores é ter crescido recebendo o amor, o carinho e a atenção de vocês dois. Agradeço a Deus a cada dia anoitecer e a cada amanhecer por poder chamá-los de “vovó e vovô”. Que Deus continue abençoando-os com muita saúde e renove a cada dia o amor que os mantêm unidos há 56 anos, para que os meus filhos, quando nascerem, possam amá-los como nós os amamos. Parabéns!"

terça-feira, 2 de outubro de 2007

56 anos de amor - parte 1

Sábado, 29 de setembro. 0h36min. Acabo de chegar em casa. A mamãe ouve o barulho da porta da cozinha se abrindo e prontamente se levanta para preparar o leite. “Filho, você vai à missa amanhã?”, pergunta ela, enquanto caminha em direção ao fogão, passando a mão pelo rosto, na tentativa de espantar o sono. “Ah, mamãe, eu queria ir, sim, mas acordar 6h é puxado, hein? Acordo nesse horário todos os dias da semana...”. Ela acende o fogão e começa a esquentar o leite. “Então... Amanhã a vovó e o vovô completam 56 anos de casamento. Ela ficaria muito feliz se você fosse”. Por um minuto meus pensamentos deixam aquela cozinha e começam a se recordar do quanto meus avós sempre me amaram. Por eu ser o único neto (e minha irmã ser a única neta), sempre fui tratado como se fosse filho deles. Lembro do quanto eu sempre brinquei de brincar com o vovô, do quanto ele sempre este presente e do quanto me ajudou, mesmo depois de adulto. Lembro da camisa do São Paulo que ele me deu de presente (tornei-se são-paulino por causa daquela camiseta!), mesmo sendo ele um santista fanático. Perdi a conta de quantos caminhões de madeira ele fez para mim usando um simples canivete de madeira. Foi também o vovô que me ensinou a amarrar o sapato. Quanto à vovó, recordo-me das vezes que ela se preocupa comigo quando a mamãe vai viajar, das inúmeras vezes que ela passava os finais de semana fazendo bolachinhas de nata pra eu comer durante a semana, na época em que eu fazia pós-graduação em Ribeirão Preto. Em meio a esses pensamentos, não há como tomar outra decisão. “Mamãe, acorde-me amanhã cedo. Eu irei à missa com a senhora.” Domingo, 30 de setembro, 1h15min. Estou diante do monitor do notebook. Minha luta contra o sono é inevitável. Mas tenho que lutar. Há uma ótima razão para isso: preciso escrever um texto. Há algo se passando aqui na minha cabeça e eu preciso colocar isso em prática... 6h55min. O padre começa o sermão. Olho para o banco de trás, onde estão a vovó Maria, o vovô Mila e a tia Ângela. Percebo que esqueci de trazer a câmera fotográfica para registrar este momento. Falo no ouvido da mamãe e percebo que ela fica triste, pois gostaria que a câmera estivesse ali. Respiro fundo e levanto. Caminho rapidamente em direção à porta. Vou em casa buscar a câmera. O que está para acontecer precisa ser registrado. 7h25min. A tia Vânia está lendo um texto lá na frente. É o texto final da missa. Em seguida o padre irá dar os recados da semana e chamará os aniversariantes para subir ao altar. Preciso agir rápido. É agora... ou nunca. Respiro fundo (novamente!) e me levanto. Sigo em direção ao padre, enquanto todos permanecem de olhos fixos no folheto. Subo ao latar e sento-me ao lado do padre. Falo então em seu ouvido: “Padre, hoje os meus avós completam 56 anos de casamento. Gostaria de fazer uma homenagem para eles.” “Homenagem? Não”, responde o padre Evaristo, com o tom de voz que lhe é peculiar. “É só um texto”. Ele retruca: “É grande?”, ao que lhe mostro a folha. “Olha, meu filho, se todo mundo resolver fazer homenagem, nós estamos encrencados. Por que você não fez esta homenagem quando eles completaram 50 anos de casamento?”. Olho firmemente para ele e respondo: “Porque há 6 anos atrás eu não via o verdadeiro significado que a minha família sempre teve para mim”. Ele parece gostar da resposta e balança a cabeça em sinal positivo. “Aguarde ali.” 7h28min. O padre termina de dar os recados e chama os aniversariantes. O vovô Miller e a vovó Maria estão vindo para o altar. Após perguntar para algumas outras pessoas que também completaram aniversário nesta semana, o padre dialoga com os dois. Ao final da conversa, ele dá a notícia: “Aquele rapaz, ali, seu neto, quer fazer uma homenagem pra vocês dois”... Eles olham para mim. Pego o microfone. A garganta seca. É agora.
(to be continued...)