terça-feira, 2 de outubro de 2007

56 anos de amor - parte 1

Sábado, 29 de setembro. 0h36min. Acabo de chegar em casa. A mamãe ouve o barulho da porta da cozinha se abrindo e prontamente se levanta para preparar o leite. “Filho, você vai à missa amanhã?”, pergunta ela, enquanto caminha em direção ao fogão, passando a mão pelo rosto, na tentativa de espantar o sono. “Ah, mamãe, eu queria ir, sim, mas acordar 6h é puxado, hein? Acordo nesse horário todos os dias da semana...”. Ela acende o fogão e começa a esquentar o leite. “Então... Amanhã a vovó e o vovô completam 56 anos de casamento. Ela ficaria muito feliz se você fosse”. Por um minuto meus pensamentos deixam aquela cozinha e começam a se recordar do quanto meus avós sempre me amaram. Por eu ser o único neto (e minha irmã ser a única neta), sempre fui tratado como se fosse filho deles. Lembro do quanto eu sempre brinquei de brincar com o vovô, do quanto ele sempre este presente e do quanto me ajudou, mesmo depois de adulto. Lembro da camisa do São Paulo que ele me deu de presente (tornei-se são-paulino por causa daquela camiseta!), mesmo sendo ele um santista fanático. Perdi a conta de quantos caminhões de madeira ele fez para mim usando um simples canivete de madeira. Foi também o vovô que me ensinou a amarrar o sapato. Quanto à vovó, recordo-me das vezes que ela se preocupa comigo quando a mamãe vai viajar, das inúmeras vezes que ela passava os finais de semana fazendo bolachinhas de nata pra eu comer durante a semana, na época em que eu fazia pós-graduação em Ribeirão Preto. Em meio a esses pensamentos, não há como tomar outra decisão. “Mamãe, acorde-me amanhã cedo. Eu irei à missa com a senhora.” Domingo, 30 de setembro, 1h15min. Estou diante do monitor do notebook. Minha luta contra o sono é inevitável. Mas tenho que lutar. Há uma ótima razão para isso: preciso escrever um texto. Há algo se passando aqui na minha cabeça e eu preciso colocar isso em prática... 6h55min. O padre começa o sermão. Olho para o banco de trás, onde estão a vovó Maria, o vovô Mila e a tia Ângela. Percebo que esqueci de trazer a câmera fotográfica para registrar este momento. Falo no ouvido da mamãe e percebo que ela fica triste, pois gostaria que a câmera estivesse ali. Respiro fundo e levanto. Caminho rapidamente em direção à porta. Vou em casa buscar a câmera. O que está para acontecer precisa ser registrado. 7h25min. A tia Vânia está lendo um texto lá na frente. É o texto final da missa. Em seguida o padre irá dar os recados da semana e chamará os aniversariantes para subir ao altar. Preciso agir rápido. É agora... ou nunca. Respiro fundo (novamente!) e me levanto. Sigo em direção ao padre, enquanto todos permanecem de olhos fixos no folheto. Subo ao latar e sento-me ao lado do padre. Falo então em seu ouvido: “Padre, hoje os meus avós completam 56 anos de casamento. Gostaria de fazer uma homenagem para eles.” “Homenagem? Não”, responde o padre Evaristo, com o tom de voz que lhe é peculiar. “É só um texto”. Ele retruca: “É grande?”, ao que lhe mostro a folha. “Olha, meu filho, se todo mundo resolver fazer homenagem, nós estamos encrencados. Por que você não fez esta homenagem quando eles completaram 50 anos de casamento?”. Olho firmemente para ele e respondo: “Porque há 6 anos atrás eu não via o verdadeiro significado que a minha família sempre teve para mim”. Ele parece gostar da resposta e balança a cabeça em sinal positivo. “Aguarde ali.” 7h28min. O padre termina de dar os recados e chama os aniversariantes. O vovô Miller e a vovó Maria estão vindo para o altar. Após perguntar para algumas outras pessoas que também completaram aniversário nesta semana, o padre dialoga com os dois. Ao final da conversa, ele dá a notícia: “Aquele rapaz, ali, seu neto, quer fazer uma homenagem pra vocês dois”... Eles olham para mim. Pego o microfone. A garganta seca. É agora.
(to be continued...)

3 comentários:

cristine disse...

Antonio !

Há quanto tempo não passo por aqui ...
Leitora desnaturada, é, eu sei.

Mas sabe que eu me senti "em casa", mesmo com todo esse intervalo ?

Acho que todo avô e toda avó gostaria de ter um neto como você.

Beijos e até mais !
Cristine.

cristine disse...

E agora que eu terminei de ler mais alguns textos ...

Está noivo !
Parabéns !
Com certeza você e a Débora serão muito felizes :D

E espero que a menina do supletivo descubra logo que o príncipe dela está logo ao lado ...
A maioria dos professores adora dar aula pro supletivo. É fácil imaginar o porquê. É muito duro enfrentar o descaso e a falta de interesse de algumas pessoas que estudam comigo. Isso porque eu estudo em escola particular, nas públicas deve ser um pouco pior. Ao menos é o que dizem.

Gosto tanto desse blog que não sei como fui capaz de "abandoná-lo".
Ainda bem que você não fez o mesmo ;D

Um ótimo fds.

Beijos !!

Antonio E. M. Crotti disse...

Oi Cristine, tudo bem?
Que bom tê-la de volta ao nosso blog!Obrigado pelos comentários e pelas felicitações. A propósito... leia os próximos posts. Há algo interessante a dizer sobre o rapaz do desenho!
Espero que passe sempre por aqui!
Um grande abraço!
Antônio