segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Antes tarde do que nunca

Sábado, 27 de outubro. São 8h42min. Estou em uma sala de aula. Sou professor avaliador da disciplina de Seminários Gerais. Na sala, junto comigo, estão o Ademar, que é o outro professor avaliador, e mais alguns doutorandos. Entre eles há um que me chama a atenção, apesar de ser um velho conhecido. Conheci aquele homem de cabelos brancos, raspado para esconder a calvície, de olhos claros, óculos e voz forte, há 12 anos atrás, no primeiro ano de graduação. Ele era meu professor de Física, a disciplina que eu mais gostava naquele ano. Entretanto, por mais que eu quisesse ter dele a amizade, ele sempre se manteve distante. Certo dia ele olhou para a nossa classe e rasgou cerca de 70 provas que ele havia preparado pra gente, alegando que éramos incapazes de fazer aquela prova. Aquele incidente deixou-me profundamente chateado, e assim permaneci por anos. Eis que vários anos se passaram e eu retornei para a universidade. Lá reencontrei aquele professor, que para a minha surpresa tratou-me como se fosse um velho amigo. Passamos a conversar com freqüência, e aquela amizade que eu tanto desejava na época de graduação tornou-se, enfim, realidade. Tamanha não foi a minha surpresa quando ouvi os alunos comentarem durante as aulas que aquele professor havia me elogiado muito e que sempre me usava como exemplo de um aluno que venceu. Pois bem. Cá estou, mais uma década depois, presenciando uma inversão de papéis. Hoje sou o professor, o professor de outrora agora é aluno. Há, no entanto, um grande respeito de minha parte, não apenas por ele ter sido o meu professor, mas também por reconhecer que ele tem um conhecimento muito mais abrangente que o meu. Segunda-feira, 29 de outubro. São 21h07min. Estou subindo a rampa de acesso ao 3º. Andar do bloco azul, onde será a próxima aula. Subo conversando e rindo com alguns alunos. Eis que de repente sinto uma mão pesada tocar-me o ombro esquerdo, e repentinamente pular para o ombro direito. Aquela pessoa continuou caminhando, agora praticamente abraçada a mim. “Miller, eu pirei ao ver você no seminário no sábado! Fiquei admirado com a forma respeitosa com que você fez os comentários sobre os seminários e, principalmente, com o seu profissionalismo. Parabéns, cara! Estou muito satisfeito.” Sem saber o que dizer (isso é comum quando recebo algum elogio...), agradeci-o timidamente, porém com um sorriso estampado no rosto diante da sinceridade daquela pessoa. Aquela pessoa, era na verdade, meu antigo professor de Física que estava assistindo aos seminários na disciplina do sábado. Aquele professor é na verdade, o prof. “Tonin” Marangoni, uma pessoa que Deus recolocou em meu caminho para me mostrar que o mundo realmente dá muitas voltas. Em uma destas voltas pude não apenas reencontrar um professor de graduação, mas também conquistar o respeito, a admiração e a amizade que eu tanto desejava que ele tivesse por mim quando era seu aluno. Obrigado, “meu amigo” prof. Marangoni! “Faze o que fazes com humildade e, mais do que a estima das pessoas, ganharás o afeto delas (...). Espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade (...). E, na sinceridade de teus conhecimentos, nunca te afastes de uma linguagem pacífica e eqüitativa. Pois uma boa palavra multiplica os amigos e apazigua os inimigos (...). A sabedoria do humilde o fará sentar-se no meio dos grandes.”

Um comentário:

M.Costa disse...

É verdade, sua conclusão.
Mais uma vez com suas fabulosas histórias que tem a nos contar.