sábado, 27 de outubro de 2007

Tropa de elite

Já há algum tempo eu assisti ao filme “Tropa de elite”. Recordo-me que fiquei tão impressionado que naquela noite tive alguns pesadelos que lembravam cenas do filme.Trata-se de uma obra impactante, não por espelhar a criatividade de um roteirista ou a competência de um diretor, mas sim pela coragem de ambos em retratar uma realidade que está próxima de nós, porém muitos preferem não enxergá-la. “Tropa de elite’ foi (e até na data deste post, ainda é) objeto de várias críticas e noticiários veiculados na mídia televisiva e jornalística, principalmente por tratar da corrupção dentro da polícia no trato com traficantes. Ao meu ver, no entanto, o aspecto mais importante do filme é o esquema do tráfico de drogas. Muitos conhecidos meus ficam estarrecidos e desconfiados quando cruzam com algum jovem de boné e de roupas largas, que anda "gingando", e o olha como se ele fosse um assaltante, bandido ou traficante. Ora, a maioria dos meus alunos veste roupas largas, usa boné e anda “gingando” (ou, como diz o William, “chaveando”), e pelo que eu saiba, nenhum deles é bandido. A verdade que o filme mostra, e que na minha opinião é a mais chocante, é que quem sustenta o tráfico de drogas são os jovens das classes sociais média e alta. Ao consumirem drogas, tais jovens, que já nasceram com todas as oportunidades para vencer, acabam comprometendo a vida de várias crianças pobres, que vivem na comunidade onde habitam os traficantes.
Ao término do filme, fiquei recordando da única festa em que fui lá no campus da USP de Ribeirão Preto, quando estava cursando doutorado. Diante de tanta insistência, fui com o pessoal da moradia estudantil a um tal de "Bar da Filô". Quando estava chegando, pude observar uma fumaça de cheiro estranho pairando sobre o ambiente. Quando lá cheguei, meus colegas resolveram comprar cerveja. Caminhamos então pelo meio da "galera" e várias vezes tive que pedir licença para alguns jovens que estavam no meio do caminho. Aqueles jovens pareciam verdadeiros "zumbis", estáticos e distantes. A maioria deles sequer deve ter percebido meus "esbarros". Agora vejo a realidade com outros olhos. Filhos de classe média, "playboys" que nada entendem da vida, mas que se acham "atuantes" e críticos. "Jovens ricos adoram cuidar de crianças pobres", diz o filme. Talvez façam isso na tentativa de se isentarem da culpa de colocarem várias outras no tráfico de drogas com o seu inocente e despretensioso "cigarrinho do capeta". Quem financia o tráfico são os "riquinhos", que tragam um "bequezinho" (é essa a expressão usada no filme) só "pra ficar de boa". O grande problema é o preço social que cada trago acarreta.
Não sou, nunca fui e jamais serei usuário de qualquer tipo de droga, seja ela na forma de um cigarro (comum ou "baseado") ou bebida. Portanto, antes de assistir ao filme eu não tinha nada contra aqueles que fumassem o seu "baseado". Afinal, cada um faz da sua vida o que quiser. Entretanto, vejo agora que a cada tragada ou a cada cheirada, uma criança inocente torna-se vítima da violência nas favelas. Escrevo isso com uma enorme dor no coração, pois temo que meus filhos possam vir algum dia a se tornarem usuários de drogas. Este seria o meu maior fracasso: ter criado filhos criminosos.

Um comentário:

M.costa disse...

Questões inquestionáveis de se discutir, está coberto de razão e, foi essa a mensagem que o filme pretendeu transmitir para o povo brasileiro, tanto é que conseguiu