quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Despedida

Quarta-feira, 19 de dezembro. 9h. O despertador do celular toca pela enésima vez, e pela enésima vez eu o aperto, sem qualquer vontade de sair da cama. Estou exausto. Viro-me para o lado, passo a mão pelo rosto, contraio as pernas e estico os braços, na tentativa de espantar o sono. Lembro-me então que hoje será um dia muito corrido. Às 11h haverá churrasco na escola e às 19 h, a colação de graus da 11ª. Turma de Bacharéis em Química, lá na universidade. “Caramba, sou paraninfo e ainda não preparei o discurso!”, penso comigo mesmo, passando os dedos entre os cabelos que ainda resistem bravamente em meu couro cabeludo. Certo, viver a vida perigosamente tem lá os seus momentos, mas a possibilidade de discursar para centenas de pessoas no improviso está me parecendo loucura. Dou então um impulso e jogo minhas pernas para fora da cama, colocando-me de pé. Respiro fundo, faço o sinal da cruz. “Que Deus esteja comigo em mais um dia”.
9h30min. Feito o desjejum e a higiene bucal, sigo até o papai. Ele está no alpendre, deitado na rede. Uma das pernas está para fora da rede, mostrando que ele está completamente “desmontado”. Toco-lhe o braço com a mão direita. “Papai, o senhor me empresta a churrasqueira pequena para o churrasco lá a escola?” Ele acorda meio assustado. “Hã?”, murmura ele, com cara de quem não sabe nem onde está. Repito a pergunta. “Pode pegar. Mas você toma muito cuidado com ela! Se quebrar, você vai se ver comigo!” Agradeço e caminho para o quarto de despejo, para buscar a churrasqueira. Enquanto isso, o papai continua rezando a cartilha de precauções para não quebrar sua “churrasqueira de estimação”.
11h. Acabo de manobrar o carro no estacionamento do colégio. Pego os espetos, coloco-os em cima da churrasqueira e sigo escola adentro com os “apetrechos” para o churrasco. Enquanto caminho, distribuo os “bom dia” de sempre. Após três anos nesta escola, sinto-me em casa. As situações que experimentamos - professores, alunos, funcionários e a amiga Ivani, nossa coordenadora (que devido a algumas mudanças, infelizmente está de partida...) – tornaram-nos muito amigos. Enquanto dirijo-me ao pátio, onde estão sendo montadas as mesas para a realização do almoço, fico olhando para as salas de aula vazias. A garganta seca quando me recordo que minha passagem por aqui chegou ao fim...
11h20min. O professor Wagner está, enfim, se candidata a churrasqueiro. “Onde está a churrasqueira que você disse que ia trazer?”, pergunta-me. Ao acompanhar o meu dedo apontando para a pequena churrasqueira que o papai me emprestou, ele balança a cabeça em sinal de desapontamento, e dando as costas, diz:: “Ah, não, pode esquecer. Essa aí é a churrasqueira? Pára com isso! Uma churrasqueira desse tamanho pra assar carne pra esse tanto de gente? Não, nem pensar!” Enquanto ele se distancia com um cigarro nas mãos, desmerecendo a churrasqueira do papai, pego a churrasqueira e, abraçando-a, sigo na direção oposta. “Ei, onde você vai?”, diz ele ao perceber que estou me retirando. “Arrume outra churrasqueira. Você disse que esta não presta, não disse? Então se vira.” Neste instante estou ofegante. Não, não estou cansado. Estou apenas muito irritado com as palavras daquele “cara”. Afinal, uma das poucas coisas que me tira do sério é ver alguém menosprezar pessoas e desvalorizar as coisas alheias. “Ei, Eduardo, peraí! Onde você vai? Volte aqui com essa churrasqueira!” Finjo não estar ouvindo. “Ô Eduardo, peraí! Volta aqui!”. Nossa, hoje é dia de formatura... “Pô, Eduardo, que caramba! Volta aqui, caramba!” Putz, e o discurso? Ainda não o preparei! “Eduardo! Você ta me ouvindo? Sem essa churrasqueira não tem churrasco!” Nossa, preciso voltar mais cedo do churrasco pra preparar o discurso... “Tá bom, foi mal! Traz essa churrasqueira aqui, vamos colocar carvão e esquentá-la para o churrasco.” Paro. Esboço um sorriso de canto de boca. “Assim está bem melhor”, penso comigo. Enfim, dou meia volta e levo a churrasqueira para ele. Vamos começar o churrasco.
11h30min. O celular toca. É a Débora, pedindo-me para gravar um CD com as fotos do casamento da Elaine. “Preciso levá-lo ainda hoje... Você me ajuda?”, diz ela com aquela voz manhosa irresistível... Como dizer não? Assim que desligo o celular, ouço uma professora dizendo: “Você não tem nenhum CD bom aí não? Eu não agüento mais ouvir o professor Rinaldo tocando violão! Queria saber quem foi que o convenceu de que ele é cantor.”, diz a professora Isabel.
12h15min. Após ter comprado o CD para gravar para a Débora e ter ido buscar lá em casa os CD’s que a professora Isabel pediu, estaciono o carro no pátio da escola. Todos já estão almoçando. Agora é a minha vez.
15h. Estou tentando limpar a churrasqueira para levá-la de volta para casa. Ainda há carvão em seu interior. Preciso encontrar uma maneira de esfriá-la e levá-la de volta para o papai. “Joga água nela que ela esfria”, diz o professor Wagner. Recebo sua sugestão, dita com a língua meio enrolada, com risos, pois ela me faz recordar uma das recomendações que o papai havia feito. “Não vai inventar de jogar água na churrasqueira quente que ela racha, viu?” Deus me livre chegar em casa com essa churrasqueira rachada! O papai me mata!
15h20min. Estou pronto para partir. Sigo em direção aos professores, para despedir-me. Sim, despedir-me. Esta é, na verdade, uma despedida, pois em 2008 não mais serei professor no ensino médio. É uma decisão que tomei após muita reflexão e conversas com a Débora. É um sacrifício humano enorme trabalhar de manhã, à tarde e à noite todos os dias da semana, como eu fiz durante este ano. Da mesma forma, é impossível (pelo menos para mim) dar boas aulas e fazer pesquisa de qualidade diante de uma jornada de trabalho tão exaustiva. Além disso, vou casar-me em maio e quero curtir meu casamento. Quero chegar à tarde do serviço e descansar ao lado de minha esposa, e poder curtir meus filhos assim que eles vierem – e se Deus quiser eles virão! Ao saberem que estou de partida, alguns professores se entreolham, aparentemente assustados. Parecem não acreditar no que estão ouvindo. “Não exxxxxxxxonera, não...”, diz a professora Cândida, passando seus braços pelo meu ombro. “Te conssssssssssidero praaaa caraaaaaaaaaamba”, continua ela enquanto esvazia mais um copo de cerveja. “Vamos ver o que a gente pode fazer pra você, Eduardo”, diz a Jacira, nossa eterna vice-diretora, sempre disposta a encontrar um "plano B" para ajudar. 15h45min. Após algumas fotos e algumas lágrimas, ganho enfim a avenida Orestes Quércia. De longe avisto a Via Anhanguera e admiro a visão que daqui se tem. O céu está carregado de nuvens escuras, e uma chuva fina molha o pára-brisa do carro. Por mais que eu tenha perdido a conta de quantas vezes trafeguei por aqui nos últimos três anos de minha vida, pela primeira vez eu me sinto sem rumo...

Amigos reunidos: Uma foto pra guardar de recordação.
Amanda (inspetora), Hercílio (prof. de História), dona Efigênia (profa. de Geografia, recé-aposentada), Suzana (funcionária da limpeza), profa. Kelly (Ciências), profa. Isabel (Matemática), Veridiana (funcionária da Limpeza) e profa. Adriana Félice (profa. de Português) Prof. Wanderley (Português) prestando homenagem à diretora Marli Prezoto. Enquanto rola o pagode, a profa. Cândida (Artes) vigia sua cerveja. Olha o passarinho! Susana (funcionária da limpeza) demonstrando seu carinho pela Jacira, nossa vice-diretora.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Problemas na escola pública

18 de dezembro de 2007. As aulas já terminaram, mas eu ainda estou aqui na escola. O que se vê, por todos os lados, é um imenso vazio. Não há alunos conversando nas salas de aula nem tampouco correndo pelo pátio. Os alunos, sabiamente, já estão de férias. Por outro lado, os professores, como eu, encontram-se todos na escola. “Ora, se a função do professor é ensinar, o que fazer em uma escola se nela não há alunos?”, deve você estar se perguntando a esta altura. Pois bem. Indigne-se comigo: estamos preenchendo as malditas “compensações de ausência”. Ah, você nunca ouviu falar? Pois é, eu também não, até que a Ivani nos comunicou que a nova supervisora quer que ofereçamos aos alunos o direito de compensar suas faltas. Dizem que é lei. Enquanto preencho as benditas fichas (ah, você acha que estou sendo irônico ao usar o “benditas” ao invés de “malditas”?), fico refletindo sobre o caos e o descaso que se instalaram sobre a escola pública nos últimos 15 ou 20 anos. Na minha época – e aqui devo me abraçar com orgulho ao saudosismo – a realidade era completamente diferente. Filhos de todas as classes sociais estudavam na escola pública. Alunos com poucos dentes conviviam com alunos eram levados pelos pais até a porta da escola em carros novos. Negros, brancos, mulatos e – sim – descendentes de índios dividiam as mesmas salas de aula. Em suas camisas brancas e calças jeans, todos éramos iguais. A disciplina predominava e o professor era visto como uma autoridade. Não havia outra forma de referir-se ao professor que não fosse com respeito e admiração. A maioria dos alunos que freqüentava a escola pública tornava-se pessoas de bem, quando não enriqueciam. “Mas e os alunos ‘ruins’?”, deve estar você se perguntando a esta altura. Pasmem: estavam nas escolas particulares. Pode parecer estranho a você que tem menos de 25 anos de idade, mas estudar em escolas como Colégio Osvaldo Cruz (COC), Objetivo e Anglo era quase sinônimo de fracasso. Nós usávamos o termo PPP, que significava “Papai Pagou Passou”. Deixemos de saudosismo e voltemos aos dias atuais. Quinze anos se passaram e o sistema de ensino da rede pública tornou-se o reflexo das desigualdades sociais. Aqui só estudam os alunos cujos pais não têm dinheiro para pagar uma escola particular. Não há o menor orgulho em se estudar na escola pública. A escola em que leciono, por exemplo, que se situa em um dos bairros mais pobres da cidade, é resultado de uma promessa de campanha política. Conforme informações que circulam pelos bastidores, no último ano de seu mandato, o então prefeito precisava de votos para a reeleição, e para consegu-los, construiu uma das escolas mais mal-feitas de que tenho conhecimento. O desrespeito para com a população do bairro foi tamanho que não houve sequer o capricho de se rebocar as paredes, toscamente construídas com enormes blocos de cimento. Não se pode sequer pregar um prego nas paredes, pois as mesmas são ocas. O espaço foi terrivelmente mal aproveitado: há um enorme espaço ocioso, e ao mesmo tempo, uma tremenda falta de espaço para salas de aula. O resultado não poderia ter sido pior: os alunos parecem não ter amor ou respeito pela escola, porém o bairro em que ela se encontra é o principal colégio eleitoral do tal ex-prefeito quando o mesmo se candidata. A experiência neste colégio tem me mostrado que nas duas últimas décadas, a educação tornou-se um simples meio de se obter votos. Os alunos deixaram de ser considerados seres humanos e passaram a ser vistos como um número, que faz diferença apenas em época de eleição ou quando se pretende obter algum financiamento junto a algum fundo de investimentos internacional. Some a este descaso do governo pela escola pública a tremenda crise que se instalou sobre a família – eis aqui outra instituição que se encontra em crise... “Com licença”, “por favor”, “obrigado” e “desculpe” são palavras desconhecidas no vocabulário de boa parte dos jovens. A educação, aquela que era recebida em casa, é oferecida a poucos. Isto é perfeitamente compreensível: os tempos mudaram, é preciso que a mulher trabalhe para contribuir com a renda familiar. De certa forma, a grande maioria dos jovens é criada “sem mãe”, ou seja, passam o dia livres, sem ter a mãe para lhes mostrar a diferença entre o certo e o errado. Se você acha que a receita está ficando explosiva, espere até adicionar o último elemento “explosivo”: o professor. Desvalorizado, desmotivado e sem poder aquisitivo, o professor da rede pública – salvem-se aqui as raríssimas exceções – encontra-se sem força para mudar a educação. A única ferramenta de que ele poderia valer-se – a reprovação – hoje é vista como um crime, como um sinônimo de fracasso do próprio professor. Ao invés de ensinar, o que se cobra do professor são os “projetos”, cujo objetivo – tcham tcham tcham tcham! – é a mídia. Desde que ingressei em 2004, é moeda corrente que “professor bom é professor que desenvolve projetos”. E o conteúdo específico? Esqueça! A filosofia do governo é que “aluno de ensino público tem que ser educado para a vida”. Não se ouve falar de vestibular. Aliás, muitas universidades privadas eliminaram o vestibular e adotaram o “pocesso seletivo”, que é sinônimo de “seja bem-vindo à universidade!”. Os pedagogos classificam o sistema de “progressão continuada” (ah, você não sabia? O aluno da rede pública não reprova mais! A não ser que seja por faltas...) como uma forma de inclusão. Dizem eles que a reprovação é uma forma de exclusão. Aos meus olhos, entretanto, o sistema educacional tornou-se uma excelente ferramenta de manutenção (ou mesmo de aumento) das diferenças sociais que sempre existiram em nosso país. Alunos de rede pública deveriam ingressar em universidades públicas, porém o próprio sistema está direcionando estes alunos às universidades particulares... Perdido entre as centenas de fichas de compensação de ausência (Olha que sistema maravilhoso! A única coisa que reprova são as faltas, e os alunos têm direito de compensá-las! O que você conclui disso?) e entre minhas reflexões, eu me sinto culpado e omisso. Ao meu redor, meus colegas professores reforçam o coro dos descontentes com este sistema. Em meio a tantas lamentações e tristeza, decido parar um minuto e contar uma piada. Ao final, todos estão rindo. porém vejo que a maior piada continua diante de meus olhos: a tal da “compensação de ausência”...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Não tenho dedos pra contar

Passei este fim de semana em meio a reflexões. A Débora leu alguns posts deste blog e disse que teve a impressão de que eu não estava querendo passar no concurso, que me achou "dividido" nas postagens que aqui deixei. Percebi então que eu tinha ínúmeros motivos para estar "dividido", com a sensação de que a vitória no concurso traria muitas perdas para mim. Pois bem. Eis abaixo vários motivos para fazer com que eu me sinta vitorioso: meus amigos, os alunos.

2a. série do curso de Química (Bacharelado), a turma mais numerosa de 2007. Talvez seja esta uma das que mais sofreu com a possibilidade de eu ir embora.

2o. ano de Química (Licenciatura). Turma pequena, mas bastante animada. Os rapazes adoram jogar "truco". Quando eu entrava na sala, eles perguntavam se podiam acabar a rodada. Quando eu saía, eles em chamavam pra jogar... E não é que eu ganhei uma partida deles? 3o. ano do ensino médio, escola Elza Miguel Francisco. Esta turma esteve comigo no primeiro ano em que comecei a lecionar. Fiz questão de escolher esta sala novamente, pois além de muito esforçados, os alunos são "muito gente fina".
2o. ano do ensino médio, turma A, da Escola Edda Cardoso de Souza Marcussi. Essa turma adorável preparou uma festinha para a minha "despedida". Eles acharam que eu ia embora...
1o. ano do ensino médio, turma B, da Escola Edda Cardoso de Souza Marcussi. Eis aí os meus "anjinhos" deste ano. A eles dedico os fios brancos de cabelo que surgiram em mim este ano...