terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Problemas na escola pública

18 de dezembro de 2007. As aulas já terminaram, mas eu ainda estou aqui na escola. O que se vê, por todos os lados, é um imenso vazio. Não há alunos conversando nas salas de aula nem tampouco correndo pelo pátio. Os alunos, sabiamente, já estão de férias. Por outro lado, os professores, como eu, encontram-se todos na escola. “Ora, se a função do professor é ensinar, o que fazer em uma escola se nela não há alunos?”, deve você estar se perguntando a esta altura. Pois bem. Indigne-se comigo: estamos preenchendo as malditas “compensações de ausência”. Ah, você nunca ouviu falar? Pois é, eu também não, até que a Ivani nos comunicou que a nova supervisora quer que ofereçamos aos alunos o direito de compensar suas faltas. Dizem que é lei. Enquanto preencho as benditas fichas (ah, você acha que estou sendo irônico ao usar o “benditas” ao invés de “malditas”?), fico refletindo sobre o caos e o descaso que se instalaram sobre a escola pública nos últimos 15 ou 20 anos. Na minha época – e aqui devo me abraçar com orgulho ao saudosismo – a realidade era completamente diferente. Filhos de todas as classes sociais estudavam na escola pública. Alunos com poucos dentes conviviam com alunos eram levados pelos pais até a porta da escola em carros novos. Negros, brancos, mulatos e – sim – descendentes de índios dividiam as mesmas salas de aula. Em suas camisas brancas e calças jeans, todos éramos iguais. A disciplina predominava e o professor era visto como uma autoridade. Não havia outra forma de referir-se ao professor que não fosse com respeito e admiração. A maioria dos alunos que freqüentava a escola pública tornava-se pessoas de bem, quando não enriqueciam. “Mas e os alunos ‘ruins’?”, deve estar você se perguntando a esta altura. Pasmem: estavam nas escolas particulares. Pode parecer estranho a você que tem menos de 25 anos de idade, mas estudar em escolas como Colégio Osvaldo Cruz (COC), Objetivo e Anglo era quase sinônimo de fracasso. Nós usávamos o termo PPP, que significava “Papai Pagou Passou”. Deixemos de saudosismo e voltemos aos dias atuais. Quinze anos se passaram e o sistema de ensino da rede pública tornou-se o reflexo das desigualdades sociais. Aqui só estudam os alunos cujos pais não têm dinheiro para pagar uma escola particular. Não há o menor orgulho em se estudar na escola pública. A escola em que leciono, por exemplo, que se situa em um dos bairros mais pobres da cidade, é resultado de uma promessa de campanha política. Conforme informações que circulam pelos bastidores, no último ano de seu mandato, o então prefeito precisava de votos para a reeleição, e para consegu-los, construiu uma das escolas mais mal-feitas de que tenho conhecimento. O desrespeito para com a população do bairro foi tamanho que não houve sequer o capricho de se rebocar as paredes, toscamente construídas com enormes blocos de cimento. Não se pode sequer pregar um prego nas paredes, pois as mesmas são ocas. O espaço foi terrivelmente mal aproveitado: há um enorme espaço ocioso, e ao mesmo tempo, uma tremenda falta de espaço para salas de aula. O resultado não poderia ter sido pior: os alunos parecem não ter amor ou respeito pela escola, porém o bairro em que ela se encontra é o principal colégio eleitoral do tal ex-prefeito quando o mesmo se candidata. A experiência neste colégio tem me mostrado que nas duas últimas décadas, a educação tornou-se um simples meio de se obter votos. Os alunos deixaram de ser considerados seres humanos e passaram a ser vistos como um número, que faz diferença apenas em época de eleição ou quando se pretende obter algum financiamento junto a algum fundo de investimentos internacional. Some a este descaso do governo pela escola pública a tremenda crise que se instalou sobre a família – eis aqui outra instituição que se encontra em crise... “Com licença”, “por favor”, “obrigado” e “desculpe” são palavras desconhecidas no vocabulário de boa parte dos jovens. A educação, aquela que era recebida em casa, é oferecida a poucos. Isto é perfeitamente compreensível: os tempos mudaram, é preciso que a mulher trabalhe para contribuir com a renda familiar. De certa forma, a grande maioria dos jovens é criada “sem mãe”, ou seja, passam o dia livres, sem ter a mãe para lhes mostrar a diferença entre o certo e o errado. Se você acha que a receita está ficando explosiva, espere até adicionar o último elemento “explosivo”: o professor. Desvalorizado, desmotivado e sem poder aquisitivo, o professor da rede pública – salvem-se aqui as raríssimas exceções – encontra-se sem força para mudar a educação. A única ferramenta de que ele poderia valer-se – a reprovação – hoje é vista como um crime, como um sinônimo de fracasso do próprio professor. Ao invés de ensinar, o que se cobra do professor são os “projetos”, cujo objetivo – tcham tcham tcham tcham! – é a mídia. Desde que ingressei em 2004, é moeda corrente que “professor bom é professor que desenvolve projetos”. E o conteúdo específico? Esqueça! A filosofia do governo é que “aluno de ensino público tem que ser educado para a vida”. Não se ouve falar de vestibular. Aliás, muitas universidades privadas eliminaram o vestibular e adotaram o “pocesso seletivo”, que é sinônimo de “seja bem-vindo à universidade!”. Os pedagogos classificam o sistema de “progressão continuada” (ah, você não sabia? O aluno da rede pública não reprova mais! A não ser que seja por faltas...) como uma forma de inclusão. Dizem eles que a reprovação é uma forma de exclusão. Aos meus olhos, entretanto, o sistema educacional tornou-se uma excelente ferramenta de manutenção (ou mesmo de aumento) das diferenças sociais que sempre existiram em nosso país. Alunos de rede pública deveriam ingressar em universidades públicas, porém o próprio sistema está direcionando estes alunos às universidades particulares... Perdido entre as centenas de fichas de compensação de ausência (Olha que sistema maravilhoso! A única coisa que reprova são as faltas, e os alunos têm direito de compensá-las! O que você conclui disso?) e entre minhas reflexões, eu me sinto culpado e omisso. Ao meu redor, meus colegas professores reforçam o coro dos descontentes com este sistema. Em meio a tantas lamentações e tristeza, decido parar um minuto e contar uma piada. Ao final, todos estão rindo. porém vejo que a maior piada continua diante de meus olhos: a tal da “compensação de ausência”...

4 comentários:

Cristine disse...

Eu sou do tempo em que estudar em escola particular tornou-se praticamente uma obrigação dos cidadãos de classe média, e não um luxo ...

Mas sinceramente, o que fazer para melhorar o ensino público ?
Existem sim colégios conceituados que não são mantidas pelo poder privado, como as federais e os técnicos (embora atualmente até estes estejam caindo na avaliação popular), mas a maioria dos colégios públicos encontra-se em franca deterioração.
Você como professor tem alguma sugestão ?
Não é uma cobrança, é uma pergunta sincera ...

M.Costa disse...

Olá amigo Antônio,
Não sei se lembrará de mim,
todavia, começara a ler seus textos a um tempo e, gostei e apreciei muito.
Com isso, você encontrou o meu blog, comentou e tal tal tal... - estou sem muito tempo agora. Estava de "recesso" e fiquei ausente de uma internet por perto.
Enfim, li esse seu texto e achei a puríssima e nua verdade, assim como todas as outras que você crítica e se expõem, considero isso muito bacana.
Quando tiver tempo, passe no meu blog, tem dois textos bacanas que eu postei recentemente, deve gostar.

Abraços,
Feliz Ano Novo!

Anônimo disse...

Talvez muitos portugueses ainda não se tenham apercebido de que as reprovações nas escolas públicas vão ser gradualmente banidas. A tendência é que ao fim de 12 anos de escola todos os alunos possam ter o 12.º ano de escolaridade

O nível de conhecimentos poderá ser muito baixo e inconsistente, mas poderão ostentar "orgulhosamente" o certificado de habilitações do 12.º ano, que, afinal, é tão só a escolaridade mínima obrigatória. Portugal poderá assim figurar nas estatísticas como sendo um país com uma população com bastantes anos de escolaridade, embora isso não dê qualquer indicação em termos de conhecimentos dos portugueses.

Nas escolas públicas, os alunos poucas possibilidades terão de atingir os conhecimentos necessários para prosseguirem os estudos.

Com este panorama, os pais que desejem para os seus filhos um curso superior têm que começar já a consciencializar-se de que a escola pública não será o caminho mais aconselhável para a preparação dos seus filhos; nem para o prosseguimento de estudos, nem para o desempenho de funções com maior complexidade.

Ainda que algumas crianças e jovens se interessem pelos estudos o ambiente será impróprio para que tenham sucesso, porque na mesma sala coexistirão alunos com deficiências várias: alguns delinquentes, outros com fracos conhecimentos adquiridos anteriormente por falta de assiduidade às aulas ou porque não havendo reprovações, não haverá necessidade de empenho nos estudos; outros porque têm deficiências psíquicas e até de comunicação; muitos sem qualquer interesse pelas matérias escolares e que apenas por ali andam porque o sistema a isso os obriga.

Zé da Burra o Alentejano

marineude disse...

oi amigo,gostei do seu comentário e gostaria de me comunicar com você, trocar idéias, ouvir suas experiências, se não for incômodo, e você puder acessar o meu email, estarei aguardando seu contato, não se preocupe tudo profissional. bjs!