segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Capote

Sábado, 8 de novembro de 2008. 16h45min. Estou no campo de futebol onde costumamos jogar nos fins de semana. Há algumas figuras novas na turma, porém são velhos conhecidos. Sinto a falta de alguns grandes colegas, que costumam animar o jogo. Os times estão montados e equilibrados.

16h48min. O jogo começa. Estou um pouco inseguro por causa do joelho e da panturrilha. Estou usando duas proteções, que ajudam mas não resolvem. Poucos sabem, mas hoje eu sou o mais velho em campo. A maioria tem na faixa de 23 a 26 anos. Eu tenho 32. Meu corpo tem 32, mas minha mente parece não querer aceitar. Um dos atacantes do time deles domina a bola e a toca, partindo pra cima dela em alta velocidade. Não consigo acompanhar. A cena se repete várias vezes, o que vai me deixando nervoso. “O jeito é não deixar dominar a bola”, concluo. Eis a minha chance. Um dos jogadores protege a bola com o corpo. Eu estico a perna entre as pernas dele, na tentativa de roubar a bola. Ouço um ruído de nervos. Meu joelho e minha panturrilha já eram. Fico caído no chão enquanto o jogador do time deles parte em direção ao gol. Não dá mais pra fazer nada.

16h58min. A partida termina e meu time perdeu. Saio do campo com o joelho doendo. Pra falar a verdade, nem sei como consegui chegar até o fim da partida. Aguardo alguns instantes, pego minha bicicleta, despeço-me e vou embora. Hoje não é meu dia.

17h50min. Em meu trajeto para casa, decido passar na quadra onde joguei há algum tempo atrás. O Crevelin me disse que os colegas sempre perguntam por que é que eu parei de jogar lá. A resposta é óbvia: aquela quadra de grama sintética força mais as articulações. Foi lá que me machuquei a panturrilha pela primeira vez. Sigo pela avenida, em alta velocidade. Na esquina, avisto uma carreta fazendo a curva. Estou me aproximando da esquina e reduzo um pouco a velocidade. Eis que de repente surge uma moto com dois indivíduos e corta bruscamente minha frente. Eu me assusto e aperto os dois breques. Em um piscar de olhos, sinto a traseira da bicicleta projetando-me para frente. Busco o chão com as mãos, mas a bicicleta vem por cima de mim. Sinto a dor do atrito de minha orelha contra o chão, enquanto alguma parte da bicicleta rasga o meu joelho. Assim que paro de rolar, percebo que dois carros estão parados ao meu lado. “Você está bem?”, perguntam eles. “Acho que sim”, respondo, com um sorriso sem graça. “Você precisa de alguma coisa?”. Respiro fundo. “Não obrigado”. Porém, minha vontade era responder: preciso é dar-me conta de que estou ficando velho.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Susto

22h15min. Estou em sala de aula. Os alunos estão fazendo exercícios enquanto eu aproveito para terminar a tarefa de inglês para quarta-feira. Ouço então o celular vibrar. Há duas novas mensagens. São de ligações de um número que não conheço. Olho para a janela, onde os pingos da chuva são desenhados devido ao contraste com a luz.

22h25min. Estou indo para a sala de professores. Passo em frente à sorveteria e compro um picolé. Olho em volta à procura do Thiago e do Paulo, alunos que haviam combinado comigo de voltar comigo para São Joaquim. Não os vejo. Será que aquelas ligações eram do celular do Paulo avisando-me que eles foram embora mais cedo?

22h38min. Estou indo em direção ao carro. Sinto sobre mim pingos de uma chuva fina. Procuro mais uma vez pelo Paulo e pelo Thiago, mas não os encontro. Terei que ir embora sozinho... Há poucos carros no estacionamento. Sinto, pela primeira vez em muito tempo, um certo medo.

22h47min. Estou trafegando pela rodovia Fábio Barreto, como faço todos os dias. A pista está secando. Vejo uma fila de três caminhões e um ônibus. É um retão e estou com visão. Dá para ultrapassar. Engato então a quarta marcha, piso fundo e em pouco tempo os quatro veículos ficam para trás. Eis que de repente tenho a impressão de ver um vulto cinza atravessando a pista. Meu Deus, parece-me um carro! Piso no freio com muita força e, agora quase parado, assisto a uma pick-up Fiat branca cruzando a pista. Trata-se de algum infeliz irresponsável que está com pressa de chegar em casa. Meu coração vem à boca, meu pulso está acelerado. Faço o sinal da cruz repetidas vezes. “Obrigado, meu Deus!” Ainda não foi desta vez.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Árvore de Natal

Há muitas coisas boas acontecendo em minha vida, muitas das quais não tive tempo de registrar aqui. Há 15 dias fui padrinho de casamento de um amigo de futebol. Nós o chamamos de Gaspar, por causa de seu sobrenome. Fiquei muito feliz com o convite e o vi como uma grande consideração de sua parte. A festa foi maravilhosa! A empresa responsável pela festa foi a mesma que fez a festa do meu casamento, então pude reencontrar o Mário (não, não é aquele do armário...), que atendeu a mim e a Débora durante o nosso casamento. Para minha surpresa, ele se lembrou de mim. Entretanto, o que vai realmente ficar marcado foi a minha iniciativa de querer aprender dançar, o que em muito agradou a Débora. Voltamos para casa às 3h, exaustos, porém muito felizes.
Ontem foi também um dia muito especial. Fomos ao shopping de Ribeirão Preto comprar nossa árvore de natal! Durante muitos anos eu sonhei em ter uma árvore enorme, decorada com bolinhas brilhantes e uma estrela na ponta, repleta de luzes. Nesta época do ano sempre surgia uma expectativa enorme para o Natal, mas infelizmente eu sabia que sempre seria a mesma coisa: uma parte da família para um lado, a outra parte para o outro. Nunca consegui reunir as famílias de meus pais, principalmente por causa de problemas entre meus tios e tias e o meu pai. Não é nada fácil lidar com pessoas com personalidades difíceis e que sempre se acham donas da razão. Isso me feriu durante muitos e muitos anos e sempre me esforcei para que houvesse paz, mas senti que o esforço só saía de minha parte. Pois bem: desisti. Não que eu tenha desistido do Natal. Desisti foi de ver a família do meu pai reunida. Sendo assim, vou reunir a família da minha mãe (vovô Mila, vovó Maria e tia Ângela), meus pais, minha irmã e a Clara, juntamente com a família da Débora. Faremos então um amigo secreto na noite de Natal, deixaremos os presentes debaixo da imensa árvore de 2,50 m que comprei ontem. Sinto-me uma criança aguardando seu presente de Natal: ver a família reunida, em paz, na casa em que idealizei construir durante os últimos 10 anos de minha vida. Será uma noite muito especial, muito mágica. Sem dúvida há uma luz guiando meu caminho, e eu só tenho a agradecer (e retribuir da forma como puder) por tanta felicidade.

domingo, 26 de outubro de 2008

A bonança...

7 de outubro. 14h30min. Disco o número da escola, já memorizado no celular, e peço para chamar pela secretária. É a Regina quem atende. Peço que lea me envie, por e-mail, os documentos necessários para pedir a exoneração do meu cargo. "Meu Deus, Eduardo! Você vai mesmo ter coragem de fazer isso?" Minha resposta é imediata: "Não tenho outra escolha." Em poucos minutos os documentos estão em meu e-mail para serem preenchidos. 14h40min. Comunico à coordenadora que minha exoneração já foi solicitada e pergunto-lhe, ainda temeroso do que farei, se a minha situação está pendente ou se já foi definida (ou seja, se existe a possibilidade de ser demitido por causa desse inconveniente). "Acho que dá pra contornar." 22h15min. Encontro o ex-coordenador e peço que ele me dê alguns minutos para conversar. Peço-lhe desculpas e explico-lhe que estava apenas aguardando a aprovação do meu projeto para exonerar. Ele entende. 8 de outubro. 7h15min. É hoje o dia em que exonerarei meu cargo de professor da rede pública. Sinto a água fria cair sobre meus ombros, na esperança de que ela ative meus pensamentos e me aponte uma saída. "E se eu pedir exoneração e for dispensado da universidade?" Essa possibilidade existe. "Já sei! Entregarei os documentos para a secretária e pedirei para que ela 'segure' as pontas até que a minha situação esteja esclarecida". Com essa decisão em mente, troco-me de roupa e reúno meus pertences para sair de casa. Por curiosidade, resolvo entrar no site da Fapesp. Digito os códigos rapidamente. O número do projeto aparece. "Débora, venha ver isso aqui!" Ela corre até o escritório e eu lhe mostro o monitor. Ela lê antentamente... "Du do céu! Foi concedido!"

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A tempestade...

7 de outubro. 11h. Estou no banco, depositando o meu pagamento. É um dos dias do mês em que fico mais feliz. Aos poucos estou conseguindo controlar minha situação financeira, que ficou aos frangalhos após a construção da casa e o casamento.

12h. Estou na feira de profissões, anualmente promovida pela universidade em que trabalho. Estou no estande de Química e Engenharia Química. Sou o professor responsável pela turma de alunos que fazem os experimentos e esclarecem as dúvidas dos alunos que por aqui passam. Fico feliz em ver como eles se divertem. É um clima muito bom.

14h15min. Estou em minha sala, conversando com o Rodrigo. O vice-coordenador da pós-graduação aparece e silenciosamente faz sinal para que eu o acompanhe até a sala dele. “Não deve ser boa coisa”, penso, pois estou acostumando com ele dando berros pelos corredores quando quer falar com alguém. Entro na sala e o aguardo. Enquanto isso estou falando com o ex-coordenador, aquele que foi responsável pela minha contratação e foi o meu grande incentivo para ter cursado pós-graduação.

14h20min. O vice-coordenador retorna, agora acompanhado pela coordenadora, e se senta. A coordenadora permanece de pé e começa a falar, com um tom de voz muito precupante. “Miller, a reitoria fez um pente fino e descobriu que você está dando aulas em colégio público. Nós ligamos na escola e sabemos que você dá aula lá todas as manhãs e nas noites de quinta e sexta-feira. Você sabe que isso é proibido pelo seu contrato. Conversei com o ex-coordenador e ele havia me dito que você tinha dito que ia exonerar no início deste ano. Ninguém está te forçando a nada, mas o seu nome está lá na reitoria. Fiquei de verificar o que estava acontecendo”. “Mas eu não exonerei porque estou aguardando a resposta do projeto que enviei para a Fapesp...” O vice-coordenador então complementa. “Miller, o seu caso é caso para demissão.” O ex-coordenador sai da sala, transtornado, com a impressão de que eu traí sua confiança. “Miller, você é que decide”. Posso sentir meu coração na garganta. Minhas mãos estão tremendo. Meus olhos começam a se inundar de lágrimas. Será que vão me dispensar? Meu Deus, o que vou fazer agora?

domingo, 28 de setembro de 2008

Aventuras no congresso BR-Mass - parte final

22h. As luzes se apagam. Os canhões de luzes se acendem. A música começa a tocar. As pessoas seguem para a pista de dança e começam a chacoalhar seus corpos. É como se houvesse um diálogo íntimo entre a música e as pessoas que estão neste ambiente Tanto homens como mulheres estão sob efeito do álcool. Todos, menos eu. Talvez por isso eu seja um dos poucos que permaneço sentado, olhando para a pista e observando o que mais parece um ritual de acasalamento. Eis que me flagro olhando para um canto qualquer do piso. Fico recordando de tudo de mágico que aconteceu neste congresso. O encantamento com o luxo do hotel, a palestra do prof. Fenn, ganhador do prêmio Nobel... Foi realmente muito especial. Entretanto, como em todo coquetel de encerramento, sinto-me um estranho no ninho. No final, todos são iguais. Quero que este congresso acabe logo. Quero voltar para casa.

Os amigos são animados. Michel, Gobbo, Borghi e Betinho. Às vezes fico me perguntando se parte desta animação não vêm do efeito do álcool. De repente, o Michel coloca a mão no meu ombro e me diz algo em meu ouvido. “Mestrão, olha lá o criador do ressonância ciclotrônica dançando com a gravata na cabeça! Vamos tirar uma foto do cara! Vamos fazer o seguinte: a gente fica meio do lado, você finge que vai tirar uma foto da gente e tira a foto dele, beleza?” Esboço um sorriso e sigo-o até próximo ao palco, onde todos estão dançando. “Todo mundo, atenção! No três, hein? Um... dois... três!”

23h. Estou em meu quarto. Avisei o Gobbo, meu companheiro de quarto, que estava indo dormir. Não quero perder horas de sono em um ambiente onde não estou me sentindo à vontade. Além disso, minha coluna está doendo. Ela travou há alguns meses atrás e o médico disse que dormir não chão com as pernas para cima ajuda a aliviar as dores. Não terei outra opção, pois o colchão é mole demais para mim.

3h. Estou andando por uma estrada, sozinho. O céu está escuro. O silêncio toma conta de meus ouvidos. Vejo pouca coisa em minha volta. A lua não consegue iluminar tudo. De repente, começo a ouvir um grito assustador. O grito é baixo, parece vir de longe, mas parece estar se tornando mais e mais alto. Parece aproximar-se de meus ouvidos. Então eu me assusto e projeto meu corpo, deitado no chão para frente. Quase em pânico, eu o faço chamando “mamãe, mamãe!” Terá sido um pesadelo? Quando abro os olhos, vejo que Gobbo, Michel e Néri estão gritando próximo a mim. Então dou-me conta de que era eles quem gritavam. Inacreditavelmente, o grito foi tão forte que "entrou" no meu sonho. Os malditos queriam me assustar. E conseguiram. Assim que me viram levantar, chamando pela mamãe, os três saíram juntos correndo pelo corredor. Meu coração está acelerado, estou ofegante, quase sem fôlego. Se eu tivesse problemas cardíacos, eu poderia ter tido um infarto ou coisa do tipo. Levanto-me calmamente e sigo até a porta. Não há mais ninguém no corredor. Encosto a porta e sento-me na cama, rogando mil pragas sobre eles.

Olho para o canto. Há um enorme cartucho de papelão duro onde guardo o pôster. “Se eles voltarem, vou quebrar esse canudo no lombo deles!”. Pego o cartucho e fico sentado na cama. Conforme eu previa, ouço vozes e risadas altas no corredor. São eles. Voltaram para me pregar outro susto. “Rapaz, a porta está fechada! Não acredito que ele voltou a dormir! Vamos ter que pregar outro susto nele!”, ouço o Gobbo dizer. “Que filho da mãe! Foi ele quem abriu a porta para os outros!”, concluo. Escondido atrás da parede do corredor, fico aguardando o Gobbo abrir a porta. Ele o faz, sorrindo. Atrás dele estão Néri e Michel. Vejo a luz do corredor entrando pelo corredor do quarto do hotel. A sombra deles vai crescendo. Eles estão se aproximando. Estão perto. Estão chegando. Mais um pouco e.... Eis que surjo por trás da parede proferindo golpes com o cartucho. Atinjo-os na cabeça, nas costas, nas pernas, na “bunda”... Eles saem correndo pelo corredor, morrendo de rir. Na porta do quarto, caído pelo chão de tanto da risada, está o Betão, que provavelmente arquitetou essa brincadeira de mau-gosto. Nem ele escapa. São golpes nas costas e nas pernas. Ele nem se defende. Está quase sem ar de tanto rir. A única coisa que eu ouço ele dizer é: “Mamãe, mamãe!”. Que filhos da mãe! Estão me imitando! Cansado, eu me sento ao lado dele e começo a rir também. “Pô, vocês poderiam ter me matado, sabia?”

Outras narrativas sobre o congresso BR-Mass:

Parte 1: A viagem / Parte 2: O hotel / Parte 3: O dia em que fotografei John Fenn

domingo, 21 de setembro de 2008

Recebendo uma visita muito especial

Junho de 2001. Estou em minha bancada tentando re-isolar algumas substâncias para realizar os experimentos que foram propostos no meu projeto de doutorado. Há poucas pessoas no laboratório, tudo está quieto. O silêncio só é quebrado pela música que toca no rádio do Sakamoto, que repousa na parte superior de minha bancada. Apesar de concentrado, posso perceber que há um rapaz próximo à porta do laboratório, com uma pasta na mão. Eu me lembro de tê-lo visto passando por ali umas duas ou três vezes. Deve estar esperando alguém. Percebo que o Diógenes, técnico aqui do laboratório, aproxima-se dele e o cumprimenta. “E aí, Vladimir, beleza?” Vladimir... Eu ouvira o professor João mencionar este nome outro dia. Disse-me que ele irá fazer doutorado com ele na área de ressonância magnética nuclear. Decido então levantar-me e ir dar-lhe as boas vindas, da mesma forma que a Ana Cláudia fez comigo quando cheguei aqui. “E aí, beleza? Meu nome é Miller. Sou aluno do prof. João. Você o está esperando?” A resposta, no entanto, não é a que eu esperava. Ele me olha com cara de quem está achando “E daí? O que é que eu tenho com isso?” Sem abrir nenhum sorriso, limita-se a dizer: “É, estou esperando o professor João pra falar com ele.” Mesmo sem sentir nenhuma receptividade nele, resolvo continuar a conversa. “Pois é... Acho que ele não está.” A resposta veio como duas pedras em uma vidraça. “É, eu já percebi.” Puta merda! Já percebi que não vou me dar muito bem com esse cara...

Outubro de 2003. O “Vlad” teve uma idéia brilhante: vamos entrar na sala do Tomaz e leva-lo para um canto, como se fôssemos dar uma surra nele. Essas brincadeiras se tornaram constantes desde que o Vlad veio para o laboratório. Sakamoto, Vlad e eu entramos silenciosamente na sala do Tomaz. Como sempre, ele está lendo um jornal, na parte de classificados. Caminhamos em linha na direção dele. Estamos com expressão séria. Ao nos ver, ele arregala os olhos. Quando chegamos a uns 20 cm dele, ele recolhe os braços e se protege com o jornal. “Olha que eu grito, hein?”, diz ele, acuado. Ouço apenas o Vlad recusar e sua gargalhada contagiante rompendo o silêncio. Já em um outro canto da sala, apoiado na bancada para não cair, sem forças de tanto rir, ouço o Vlad falando, quase sem fôlego: “Puta que pariu, Tomaz! Um negão desse tamanho falando que vai gritar? Pó, fala sério!”

10 de outubro de 2005. Débora e eu recebemos um convite para irmos almoçar na casa do Vladimir. Conhecemos sua família e ficamos maravilhados de vermos como são felizes. Percebi que ele ficou feliz com a visita. Disse a ele que quando tivermos nossa casa (sabe lá quando isso vai acontecer...), será um prazer enorme recebê-los.

21 de setembro de 2008. Após quase três anos de nossa visita à casa do Vlad, Débora e eu tivemos o prazer de receber ele e sua família em nossa casa. Eu não imaginava que era tão bom receber um amigo de verdade em casa. Assistimos ao DVD do casamento (afinal, ele e sua esposa foram nossos padrinhos) enquanto suas crianças brincavam de pique-esconde pela casa com meu sobrinho Gustavo. Hoje foi realmente um dia muito feliz, que merece ficar registrado para lembrar daqui a alguns anos.

domingo, 7 de setembro de 2008

Troca de pneus e troca de valores

9h45min. Estamos em Orlândia para o desfile de 7 de setembro. Débora foi convocada para comparecer, mesmo não morando aqui. Após fazer o contorno pelo canteiro central da avenida do Café, consigo estacionar o carro em uma vaga próxima a uma esquina. Estamos a três esquinas do ponto de onde sairá o desfile. 9h47min. Estamos caminhando em direção ao desfile. Falta apenas uma rua para atravessarmos. O trajeto está impedido. Há quatro policiais militares vigiando o local, talvez para manter a segurança. Enquanto atravessamos a rua, avistamos um Uno vindo em nossa direção, porém em baixa velocidade. “Nossa, olha o pneu do carro!”, diz Débora, apontando para o pneu furado do veículo. Minha atenção, assim como a dela, limita-se ao pneu. “Putz, será que estragou?”, é a pergunta que me vem à monte. Distraído, esqueço de ver quem está dirigindo o carro. Provavelmente terá muito trabalho pela frente... 10h22min. Estamos retornando para o local onde estacionamos o nosso carro. Logo avistamos o Uno de cor preta, parado na mesma esquina em que o vimos pela primeira vez. Percebo que há um senhor de idade já avançada tentando trocar o pneu do carro. Fixo o meu olhar naquele senhor. Há algo que começa a me puxar em direção a ele. A Débora percebe e me apóia. “Vá ajudá-lo, meu amor.” Aproximo-me, mas mantenho certa distância. “Bom dia. O senhor aceita ajuda?” Aquele senhor de baixa estatura, cabelos e bigode esbranquiçados levanta o olhar e responde, ofegante: “Ah, seria uma boa, viu?” Abaixo-me então e peço-lhe para levantar um pouco mais o macaco. Posiciono a roda e introduzo os parafusos. Aperto um pouco, peço para ele baixar o macaco e reaperto os parafusos novamente. Ele se levanta e me aponta um olhar agradecido. “Muito obrigado, obrigado mesmo!” Mal sabe ele que quem deve agradecê-lo sou eu... 10h25min. Enquanto me afasto, os policiais, que estavam todo este tempo praticamente ao lado daquele senhor, parecem seguir-me com os olhos. Um outro homem sentado à esquina também parece olhar-me. Em dias em que todos só pensam em si mesmo, o sofrimento alheio parece um filme a ser assistido comendo pipoca e bebendo refrigerante. Por outro lado, ver alguém ajudando um senhor idoso é algo com que não estão acostumados.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Crônica 5 - Como destruir uma amizade em 5 segundos

Quando Almir ingressou no novo emprego, sua primeira iniciativa foi cultivar os colegas. Não era uma boa trabalhar em um lugar onde a harmonia não predominasse. Não foi difícil. Em pouco tempo o seu bom humor o tornara muito querido entre os funcionários do setor. Sempre sorridente, Almir recebeu de seus colegas a ajuda de que precisava para superar a inexperiência que tinha em suas novas atividades. Ninguém desconfiava que Almir só havia conseguido a vaga graças a um parente próximo que já trabalhava na empresa. Após três testes e um desempenho impecável nas provas teóricas, ele estava cansado de ver outras pessoas conseguindo a vaga que era sua por direito, então decidiu lutar com as mesmas armas.
Mas aquilo havia ficado para trás. Graças ao apoio dos colegas, Almir já sabia desempenhar quase todas as funções do setor. Durante o seu período de experiência, um dos colegas do setor dedicou-lhe especial atenção. Seu nome era Fausto. Mesmo sendo o encarregado do setor, Fausto via em Almir um grande potencial e aos poucos começou a admirar a sua força de vontade.
Após três anos na empresa, Almir passou a ser o funcionário mais requisitado. Já sabia fazer todas as atividades com muita competência e tinha a admiração de todos dentro do setor. Não raramente as pessoas que vinham ao setor chamavam diretamente por ele. Foi justamente isso que começou a despertar a inveja de Fausto. Embora ele fosse o superior imediato de Almir, este último passou a ser o símbolo do setor dentro da empresa. Aquilo feriu imensamente o ego de Fausto. A criatura tornara-se maior que o criador.
Fausto então começou a investir em seu marketing pessoal. Ele passou a fazer questão de recepcionar ele mesmo todas as pessoas que solicitavam os serviços do setor. “Pode deixar que EU faço”, dizia ele. Entretanto, todas as tarefas que ele prometia cumprir eram repassadas para Almir, que na condição de subordinado, cumpria todas elas sem pestanejar. “Almir, hoje você terá oportunidade de fazer algo novo. Será algo muito importante para a sua carreira aqui no setor. Escolhi você porque você é o melhor. Mas, claro, se você não quiser...” Muito humilde, Almir sempre dizia “sim”. Fausto agradecia e dizia a Almir que os outros setores ficariam sabendo que aquilo tinha sido feito por Almir. Este, obviamente, sentia-se todo motivado e parecia ter seu fôlego renovado a cada tarefa que Fausto lhe dava. “Deste jeito logo serei promovido. Pôxa vida, o Fausto é muito gente boa. Não dá nem pra acreditar...”
Certo dia, Almir entregou a Fausto a papelada referente a algumas questões delicadas que eram difíceis de serem resolverem. Estava tudo pronto e em ordem. Fausto colocou as mãos no ombro direito de Almir e emocionou-se. “Almir, você é o funcionário mais eficiente do setor. Todo mundo na empresa já sabe disso, inclusive até já pedi um aumento pra você.” Almir abraçou fervorosamente Fausto e saiu, sorridente. No meio do caminho, entretanto, lembrou-se de que deveria expor a Fausto toda a gratidão que tinha por ele. Quando deu meia volta, notou que Fausto estava repassando os papéis que ele havia lhe entregado para o encarregado do outro setor. Admirado com a qualidade e a eficiência do serviço, o encarregado estendeu a mão a Fausto e o cumprimentou. “Obrigado, senhor. Fui eu mesmo que fiz. Aliás, se tiver algum outro problema deste tipo, pode trazer pra mim que eu resolvo pra você bem rápido”. Escondido atrás da porta, Almir não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Revoltado, Almir decidiu colocar em prato limpo a situação que acabara de presenciar. Aproximou-se de Fausto e com expressão fechada, respirou fundo e preparou-se para falar. Foi então que Fausto lhe interrompeu: “Que bom que você apareceu! Eu acabei de entregar para o Nelson o trabalho que você fez. Ele ficou admirado com a sua eficiência. Ele pediu pra dar-lhe os parabéns.” Explodindo de ódio e decepção, Almir respirou fundo, engoliu seco, suou frio, pensou e no final disse, derrotado: “Obrigado. Você é mesmo um grande amigo”.
O ego e a inveja são os maiores inimigos de uma amizade verdadeira.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Profissão: desafio

Ser professor não é uma tarefa muito simples. Eu não fazia a mínima idéia do que me esperava quando optei por esta profissão (ou deveria dizer “ideal”?). Na adolescência eu ansiava muito pelo dia em que eu fosse professor. Ter um monte de pessoas prestando atenção no que eu tinha pra dizer era uma idéia um tanto tentadora para um jovem tímido e estudioso como eu.

Minha primeira experiência como professor deu-se ainda na pós-graduação, em 2002, como monitor da disciplina de Química Orgânica I. Foi uma excelente oportunidade para aprender e perceber o quanto pode ser complexa a relação aluno-professor. Percebi já naquela época que havia alunos que me cumprimentavam enquanto precisavam de mim. Findada a monitoria, aqueles mesmos alunos que outrora eram gentis ignoravam-me, provavelmente por não precisarem mais de minha ajuda.

Após 5 anos como docente, aprendi a não esperar nenhum retorno pessoal dos alunos. Esperar deles alguma espécie de consideração é sinônimo de pedir para se decepcionar. Dôo-me ao máximo sem esperar nada em troca. Eventualmente, entretanto, deparo-me com ex-alunos que dizem guardar boas lembranças de nossas aulas ou das piadas que eu contava. Para mim é o bastante.

No ensino médio a coisa foi diferente. Lidar com jovens era uma tarefa bem mais difícil. Os malditos hormônios que lhes afloram pelos poros tornam-lhes agressivos e irresponsáveis. É difícil impor barreiras e limites, e em meio à indisciplina, desmotivação e desinteresse, transmitir o conhecimento é uma missão pra lá de impossível. Limitava-me a dar-lhes alguns conselhos, contava algumas histórias e relatos de experiências que eu tive. Em alguns casos a semente produzia frutos muito animadores.

Se você quer entender como é difícil ser professor, assista a “Sociedade dos Poetas Mortos”. Sinta a motivação de um professor, interpretado por Robin Williams, que procura tornar pensadores seus jovens alunos. Una-se a ele em sua luta contra um sistema educacional extremamente conservador e encha os olhos para o espírito crítico e poeta que ele desperta em seus alunos. Mas esteja preparado para chorar com o final trágico de um de seus alunos e não espere que a iniciativa daquele professor tenha sido bem-vista.

Professor precisa ser pai, amigo, irmão, psicólogo. Precisa saber entender, respeitar, dar conselhos, motivar seus alunos. Se você quer ser um professor, prepare-se para receber baixos salários e a não ter reconhecimento pelo seu trabalho, inclusive por parte dos pais e dos alunos. Mas esteja ciente de que a esperança de um professor sempre renasce diante do brilho que surge nos olhos de um aluno que diz, empolgado: “Ah, entendi!”

Hoje vejo que ensinar não é uma opção. É uma obrigação. Ao ensinar, sinto-me mais próximo de Deus.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Corra, Forrest!

“Forrest Gump, o contador de histórias”, é um filme emocionante. Ao assisti-lo pela terceira vez, confesso que não consegui conter minhas lágrimas diante da inocência do personagem interpretado por Tom Hanks e que lhe conferiu um de seus Oscar de melhor ator. Em se tratando de um filme relativamente antigo e a que muitos já tiveram oportunidade de assistir em redes de televisão aberta, é bem provável que a história seja familiar a todos. Entretanto, a emoção que qualquer filme, música ou e-mail causa em cada um de nós depende muito das experiências que tivemos, e como cada um de nós é único, invariavelmente a emoção também é diferente. Para mim, “Forrest Gump” emociona-me pela sua inocência, ingenuidade e pureza. Não há maldade em nada que Forrest faça ou pense. Em função disso, ele é chamado de “idiota” por todos os que o rodeiam ao longo do filme. Isto me faz pensar no modo de vida “moderno”, onde é indispensável ser “esperto”, “velhaco” e “dinâmico”. Ora, atire a primeira pedra aquele que mesmo sentindo pena, não riu de Forrest...

Entretanto, não é a inocência de Forrest que me chamou a atenção, e sim o seu amor por Jenny. Forrest é apaixonado por ela, talvez por ela ter sido a primeira a se importar com ele. Mesmo assim, ela não o ama. “Você não sabe o que é amor”, diz ela a Forrest durante todo o filme, como se sua inocência o impedisse de entender a grandeza deste sentimento. Enquanto a vida corre e Forrest não consegue esquecer Jenny em nenhum minuto do filme, a maldita se engaja em movimentos “hippies”, fuma maconha, cheira cocaína, consome drogas injetáveis, e como se não bastasse sempre se envolve com homens “espertos”, que a agridem moralmente e fisicamente em vários momentos do filme. Será que ela acha que esses homens a amam? Será que ela acredita que eles sabem o que é o amor? Ou será que ela confundiu “amar” com “transar”?

Após quebrar a cara consecutivas vezes, Jenny enfim decide ficar com Forrest. Mas o casamento dos dois não dura por muito tempo, pois logo ela sucumbe, vítima da AIDS que contraiu durante suas incursões no movimento hippie.

O que me despertou no filme para escrever este post foi o fato de como enxergamos o sexo oposto nos dias de hoje. As mulheres que não possuem rosto angelical e/ou um corpo sedutor dificilmente ficam com suas metades. Da mesma forma, homens abobalhados (e evidentemente pobres...) estão fadados a experimentar o maldito amor platônico. Pelas experiências platônicas que colecionei na adolescência em função de minha timidez, posso afirmar que me identifico muito com Forrest Gump. Porém, ao contrário do personagem, eu soube “correr” (calma: eu não atravessei o Brasil do Oiapoque ao Chuí como maratonista...) ao invés de ficar esperando as Jenny que foram me surgindo pelo caminho.

A você, que visita este blog com certa freqüência ou que o visita casualmente, deixo um conselho: tome cuidado com as Jenny que surgem em sua vida. Seja você homem ou mulher, entenda que Forrest é um porto seguro para as Jenny. Ela sabe que ele vai estar sempre lá, cometa ela as burrices que cometer, esperando-a de braços abertos. Talvez seja por isso que ela não o valorize. Cuidado para não escolher amar uma Jenny, caso contrário nas mãos dela você tornar-se-á um Forrest e jamais será amado de verdade. A não ser que você se contente em ser um idiota mal-amado(a), não seja um Forrest Gump. A vida certamente não lhe trará um final tão emocionante como o do filme.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Imprudência

Minhas viagens à Franca são sempre monótonas, graças a Deus. Não aprecio grandes emoções em rodovias nem tampouco tenho paciência para trafegá-las. Na verdade, tenho adquirido certa aversão por veículos automotores, talvez pelo fato de perder boa parcela de meu tempo diário dentro de um. Esta é a forma mais dolorosa de perceber que meu pai passou os últimos 22 anos longe de casa porque precisava trabalhar, e não porque gostava, como eu achava quando era criança. Eis que durante 6 h semanais encontro-me agora na mesma condição de meu pai – a de motorista. Um de meus maiores sustos na infância deu-se na viagem de São Joaquim da Barra-SP para Quirinópolis-GO, onde moramos até os últimos meados de 1982. No início de um aclive uma pedra foi projetada involuntariamente por um caminhão carvoeiro contra o pára-brisa do carro em que estávamos mamãe, papai, minha irmã, então recém-nascida, e eu, então com 4 anos. Nem é preciso dizer que diariamente esses caminhões aparecem pelo caminho, praticamente parados. Quando não há visão, a saída é esperar pacientemente. Caminhões canavieiros aos poucos foram desaparecendo e dando lugar aos temidos treminhões. Vários destes também surgem durante o percurso. O comprimento de alguns deles chega a 30 m, sendo que a velocidade dos “danados” sempre é inversamente proporcional aos seus comprimentos. Haja paciência. Cabem aqui dois relatos de situações um tanto curiosas que se desenrolaram após ultrapassagens que fiz após o retorno das férias. Em ambas havia um caminhão carvoeiro (ou um treminhão, não me lembro com precisão...) e um carro, que aguardava a oportunidade para ultrapassar assim que tivesse uma visibilidade plena da rodovia. Pois bem. Aqueles que dirigem sabem que a visibilidade fica imensamente prejudicada quando se está atrás de um veículo, principalmente em sendo ele um caminhão longo e cuja carroceria é alta. Qualquer carro que venha “embalado” é capaz de fazer a ultrapassagem sem qualquer perigo, pois sua visibilidade geralmente é bem melhor. Já passei por isso várias vezes, e a sensação que tenho é de estar fazendo papel de bobo. A sensação, obviamente, logo desaparece. Afinal, o importante é chegar vivo, são e salvo ao trabalho Há, entretanto, alguns motoristas que não pensam desta forma. Dias atrás ultrapassei um desses carros. Era uma Parati geração 3, com placa de São José da Bela Vista. Seu interior estava lotado de pessoas, parecendo tratar-se de uma família. Após ter ultrapassado este carro e o caminhão, o motorista da Parati parece ter ficado irritado e acabou ultrapassando-me. Até aí tudo normal, não fosse o fato de um dos passageiros ter colocado uma das mãos pra fora e gesticulado, como se quisesse dizer: “Vamos, pisa fundo nessa porcaria de carro! É só isso que você consegue andar?” Ora, não demorou muito para que este motorista novamente se deparasse com um outro caminhão pesado em baixa velocidade e se posicionasse atrás dele em função da baixa visibilidade. Como eu tinha toda a visibilidade do mundo para ultrapassar, não pensei duas vezes e ultrapassei tanto a Parati como o caminhão. Aparentemente possesso, o motorista da Parati seguiu atrás de mim em alta velocidade. Sem pressa, deixei que o motorista da Parati seguisse seu caminho. Afinal, não estou em um carro de fórmula 1 nem tampouco ganho para colocar minha vida em risco. Porém, logo que passou por mim, a família inteira colocou as mãos pra fora. Uma das passageiras colocou uma canga para fora do vidro do passageiro, sendo que um dos passageiros deixou o pé para fora, como se quisesse “chamar-me para um racha”. Outro dia um Escort, curiosamente com placa da mesma cidade, fez algo muito parecido, porém suas ultrapassagens eram irresponsáveis, muitas vezes feitas pelo acostamento da outra pista. Quando estava se aproximando da entrada para São José da Bela Vista, o motorista reduziu a velocidade e começou a piscar as lanternas de seta traseiras, chamando-me para um “racha”. Ora, o próprio nome já diz o que acontece com quem entra neste tipo de desafio. Estas situações de irresponsabilidade manifestada fazem lembrar-me de uma frase que escrevi aos 11 anos e que foi premiada como uma das melhores da escola em que eu estudava: “O trânsito é diferente do brinquedo de carrinho; nas estradas só tem motorista maluquinho”. Fico pensando como é que eu pude perceber isso aos 11 anos, em meados da década de 80, quando a vida ainda andava devagar...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Labirinto

Novamente me deparo com suas páginas deste blog e não sei por onde começar a postagem. Faz tanto tempo que não lhe deixo nenhum registro pessoal. Não são as coisas que estão acontecendo agora que me fazem ausente, e sim as que aconteceram, pois nelas estão as razões de estar passando um período tão atribulado.

Os exames mostraram que não há nada de errado acontecendo comigo. A pressão está ótima, o diabetes está normal. Apenas o colesterol está um pouco acima (mas muito muito pouco mesmo!), mas não é nada que mereça preocupação. Estou com uma gordurinha acumulada na região lateral da cintura, provavelmente em virtude do tempo que não tenho para ir à academia. Tudo isso, é claro, pode ser em virtude da idade. Afinal, meu corpo já não é mais o mesmo de 15 anos atrás. Tenho 32 anos e já estou quase na metade do caminho.

Mas há algo de errado que a tomografia e o eletroencefalograma não mostraram. Nem eu nem o neurologista sabemos a razão das minhas vertigens. Elas vêm e não sem horário marcado. A visão não consegue se fixar em um único ponto. Ao invés disso, fica oscilando e causando sensação de embriaguez. Daí em diante é só apreciar o mundo rodar e procurar um lugar pra se apoiar para evitar o tombo.

A despeito das recomendações médicas, continuo viajando para Franca. Eu preciso trabalhar para sobreviver. Não posso me dar ao luxo de ficar faltando. Caso as vertigens surjam enquanto eu estiver ao volante, pararei e esperarei passar. Por outro lado, tentarei poupar-me do stress, pois pode ser ele a causa de tudo isso.

Aos poucos estou retomando minhas atividades normais. Acho que o período de depressão oriundo do falecimento da Ana Cláudia está passando. Os artigos estão voltando a ser escritos e a sensação de estar fazendo as coisas com capricho está voltando. Estou novamente no caminho certo, mas às vezes... somente às vezes... o mundo ainda parece girar rápido demais.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O fim

Quarta-feira, 6 de agosto. São 6h da manhã. Um barulho ensurdecedor vindo do portão faz com que eu me levante, asusstado. Há alguém lá fora. A Débora ainda dorme ao meu lado, parece não ter ouvido nada. Preciso sair lá fora e verificar o que está acontecendo. Abro a porta que separa o corredor dos quartos e a sala e avisto o portão aberto. Assim que adentro a sala, um homem gordo e de cor negra cruza meu caminho. "Meu Deus, o que é isso? O que esse homem está fazendo aqui em casa?" Ele caminha pela cozinha em direção à varanda. Próximo ao tanque e com os pés descalços no chão de terra, ele começa a conversar com outro homem. De onde veio essa gente? O que estão fazendo aqui em casa? De repente, ouço um grito. É a Débora. Saio em disparada em direção ao quarto, mas identifico que o grito dela veio do banheiro social. Quando a encontro, ela está com as mãos no rosto, assustada. Olho para os armários. São de madeira rústica, e não do tal MDP que compramos. Algo me preocupa. Seriam pedreiros estes homens? O curioso é que eu não me lembro de tê-los chamado para trabalhar aqui em casa... Corro então para o outro banheiro, que agora me parece maior que antes. Há ventiladores e globos luminosos por toda parte, que tornam o ambiente parecido com uma boate. Sinto a mão da Débora tocar em um de meus ombros e o seu rosto encostando no outro. “Ficou lindo!”, diz ela, demonstrando estar satisfeita com que vê. Logo em seguida ela liga os ventiladores e as luzes e começa a dançar. Eu fico admirando a beleza e a alegria de minha esposa...
Num piscar de olhos, estamos na esquina da rua Maranhão com a rua Sergipe, próximo à escola Adolfo Alfeu Ferrero. A mamãe está conosco. Ela nos comunica a notícia da morte da Alba Marcon e da Giovana de Brito. Meu coração parece parar. “Meu Deus, mas ontem mesmo nós estávamos com elas e a minha irmã naquele barzinho na rua Sergipe, próximo à casa de vovó!” A vida então começa a parecer um filme sem um final feliz. A saliva parece secar. Fecho os olhos, levo as mãos ao rosto e já me sinto em outro lugar. Parece-me a casa do colega Fernando “Pé Sujo”. Há muitas pessoas aqui, algumas da USP de Ribeirão Preto, que não são colegas do “Pé Sujo”. É uma situação muito estranha. De repente, surge o Betão, um grande colega que muito me ajudou no doutorado. Ele me parece mais jovem com os cabelos cacheados caindo-lhe pela testa. Este fato me deixa muito curioso, pois quando o conheci, ele era quase careca... “Que dia é hoje, Betão?” Alegre, ele se dirige a um canto e pega um pedaço de jornal que está no chão. “Hoje é 08/08/2004.” Lanço então um olhar perdido para um canto da varanda, assustado. Será que voltei no tempo? Será que estou em outra época? Sigo então em direção ao portão. Na calçada, encontro o Paulão, que trabalha no Studio Vilas Boas. Ele traja um terno preto e gravata, o mesmo que vestiu no dia em que eu e a Débora nos casamos. Entretanto, ele está mais cabeludo e muito mais magro. Lembro-me então de que estou no passado. Dirijo-me a ele e o abraço. “Ei, Paulão! Você precisa se cuidar, meu velho, senão vai engordar!”, digo a ele, como se já soubesse como ele seria no futuro. Caminho então pela rua Santa Catarina, em direção ao Cascata. Bem no final da rua encontro o seu Geraldo, antigo funcionário do clube da Baixada, onde tanto me divertia quando era adolescente. Fico assustado, pois ele faleceu há algum tempo. Ele percebe que estou assustado, mas mesmo assim se aproxima e toca a mão no meu ombro. “Seu Geraldo, o que está acontecendo?” Ele sorri e passa a mão pelo bigode branco. “Tonho, você está voltando no passado”, diz ele, com tentando me passar segurança. “Mas... seu Geraldo, eu não me lembro de ter vivido este momento!” Ele toma fôlego. “Sim, você viveu, sim, e este foi um dia que mudou a sua vida. Tanto este como aquele em que as suas primas faleceram.” Ainda sem me lembrar de ter vivido esses momentos e sabendo que minhas primas estão bem e com saúde, lanço-lhe uma pergunta definitiva: “Mas por que está acontecendo isso? Por que estou voltando no passado, a esses momentos?” A resposta dele também é definitiva. “Porque você está vivendo os últimos dias de sua vida.” Saio então chorando, desesperado. Meu Deus, não terei tempo de ser pai! Não poderei envelhecer ao lado da Débora... E minha família, como contarei isso a eles? Sugo novamente a rua Santa Catarina e viro na primeira esquina à direita. Fico chorando, sentado embaixo de uma árvore. Minha irmã aparece e fica preocupada quando me vê chorando. “Meu irmão, o que está acontecendo? Por que você está chorando?” Eu me levanto e a abraço. “Minha irmã, desculpe-me por não tê-la amado como você gostaria e como você merecia. Desculpe-me, por favor!” Ela não entende o que está acontecendo. “Mas... Dado, o que foi? Me conta!” Eu me limito a abraçá-la e a chorar com a cabeça apoiada sobre seu ombro.” Eis que sinto uma mão tocando o meu rosto. “Du, tá tudo bem? O que foi?” Aquela voz aveludada me parece familiar. Abro os olhos e vejo a Débora, deitada ao meu lado. Eu a abraço, ainda com lágrimas nos olhos. Tudo não passou de um sonho.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O que está acontecendo?

Domingo, 3 de agosto. São 9h da noite. Estou no sofá de casa, ao lado da Débora. Não é o sofá de couro da casa do papai e da mamãe. É o sofá da “nossa” casa. Estamos jantando, assistindo ao Pânico da TV!, programa que outrora tanto criticávamos e que agora nos atrai a atenção. Sim, muitas coisas novas estão acontecendo. Estou casado. Tenho por esposa uma mulher linda, inteligente, simpática e por quem sou apaixonado desde o primeiro olhar. Moramos na casa que sonhamos, para a qual dedicamos os últimos cinco anos de nossas vidas. Estamos sentados no sofá que tanto cobiçamos na vitrine das lojas. Estou empregado, ela também. Nossas contas estão em dia. Nossos pais estão saudáveis. Estamos apaixonados. Tudo está perfeito. Olho para a televisão. De repente, tenho a impressão de que ela está se mexendo. Olho para os lados. Tudo está se mexendo, oscilando em torno de um ponto central. Não consigo fixar a visão. Peço que a Débora leve o prato de comida que acabei de devorar. Não quero que ela se desespere, acho que vou controlar isso. Não deve ser nada. Mas a sala toda parece que começa a girar também. Não, eu não bebi nada alcoólico. Aliás, eu nunca bebi nem fumei. Então eu me deito no sofá. Parece que estou em uma roda gigante. Sempre soube que o mundo dá voltas, mas jamais desejei dar voltas junto com ele. O que será isso, meu Deus? O que está acontecendo comigo?

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 9

Junho de 1995. É sábado. Como diz aquela música do Cidade Negra, “Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite”. No meu caso, eu tenho esperado que eu me dê bem em alguma noite de sábado. E eu sinto que isso está muito perto de acontecer. Tenho melhorado bastante, graças à ajuda do Guilherme, com quem estou fazendo tratamento psicológico. Minha auto-estima tem melhorado bastante. Simplesmente aprendi a ser eu mesmo. Em meu Gol BX ano 1983, trafego pela avenida vagarosamente. O rádio toca-fitas toca “Let it me be”, da Talessa. É uma música dance. Aprendi a gostar deste estilo de música. Tive que abandonar as músicas românticas. Elas me faziam chorar e me deixavam muito triste... Para me impor, deixo o braço esquerdo cair para fora do carro, enquanto a mão direita gira o volante para a direção que eu quiser. Isso dá uma sensação boa. Traz uma sensação de imponência. Ao meu lado está o Zabalar. Ele tem sido meu companheiro de “balada”. Nós nos entendemos bem. Ele também é quieto e tímido, porém dá pra ver que os traços do rosto dele são bem mais delicados que o meu. Ele tem um nariz pequeno e arrebitado. O meu é grande e caído. De qualquer forma, estamos os dois solteiros e sem namorada, totalmente descompromissados. Ele também apóia o braço direito pra fora do carro e fica “encarando” as meninas que passam. Agora estamos passando em frente a boate. Aqui o movimento fica praticamente parado, pois os jovens se aglomeram na entrada e acabam invadindo a rua. Essa situação é um prato cheio para que possamos paquerar. Olhar é fácil, o difícil é ter um olhar retribuído. Mas eu não me importo mais com isso. Quando olho para uma moça e ela vira o rosto, eu sorrio. “Que besta!”, eu penso. O Zabalar já tem um pouco mais de sorte. Acho que em breve ele vai começar a namorar e eu vou perder meu companheiro de balada... Eis que quando o carro pára exatamente em frente a boate, duas moças se aproximam do carro. Uma delas me é familiar. Era aquela moça que encontrei na festa da soja!!! Ela pára ao lado do carro, abaixa-se um pouco e se dirije a ele: “Agnaldo, eu quero que você me leve pra casa”.Ao ouvir aquela voz pedindo pra ele levá-la em casa, meu queixo cai. Que voz linda! “Filho da mãe! Ele vai ficar com ela essa noite!” Fazer o quê, né? Sorte é pra quem tem, não pra quem quer tê-la. Mesmo assim, gostaria de admirar a beleza dessa moça mais um pouco. Acho que ele não vai se importar. É então que me intrometo na conversa. “Zabalar, se você quiser, eu posso dar uma carona pra vocês”. Ele olha pra frente, com cara de zangado. “Depois a gente passa aqui. Toca o carro, Crotti”. Ele parece nervoso. “Puta merda, eu não tenho sossego mesmo!”, lamenta ele. Mal posso acreditar no que ele está dizendo. “Zabalar, você tá doido, cara? Uma mulher linda daquelas te dando bola e você fica dando “toco”?!” Em meio a gargalhadas, ele responde: “O que é isso! Você é que tá ficando doido! Aquela morena é minha irmã, a outra é minha sobrinha!” Ah, é? Então não resisto. “Uai, ela não tem namorado?” Ele me olha, com cara de quem já sabe o que eu estou pensando. “Não.” Eu simplesmente sorrio. Mal posso esperar pra que a noite termine e as levemos para casa...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Carta à minha grande amiga

Querida amiga Ana Cláudia, Sei que no momento em que escrevo estas palavras os seus olhos não podem mais lê-las, mas sinto necessidade de escrevê-las. Talvez ao digitá-las eu tenha a minha última esperança de esvaziar esta angústia que tem me abatido desde que você partiu. É como se a nossa conversa tivesse sido interrompida sem que eu tenha lhe dito tudo o que eu queria dizer. Na verdade, acho que eu jamais conseguiria traduzir em palavras toda a amizade, a gratidão e a admiração que sempre tive por você. Mesmo assim, há uma força que me impele a escrever. Nos últimos anos tenho refletido bastante sobre a vida e como somos pouco evoluídos para entender o rumo que Deus dá aos nossos destinos. Quando fazemos uma análise detalhada de cada pequeno instante que se passou, percebemos que cada um deles foi importante para nos tornarmos quem somos agora. Cada suspiro nos torna pessoas diferentes das que érmos um segundo atrás, e nada disso acontece por acaso. Obviamente não foi por acaso que você surgiu em um momento tão difícil de minha vida. Eu era um estudante de pós-graduação sem qualquer traquejo de laboratório, em um lugar em que todos me eram completamente estranhos. Eis que você surgiu como um anjo e ofereceu-me a ajuda que eu precisava sem eu sequer ter pedido. Olhando agora com outros olhos, não me resta qualquer dúvida de que foi Deus quem a enviou naquele momento. Foi você quem me ajudou a dar os primeiros passos na parte experimental, tendo inclusive preparado o experimento que foi definitivo para obter os resultados que eu defenderia dois anos depois. Tamanha gratidão transformou-se em amizade. Éramos praticamente vizinhos de banca e conversávamos praticamente o tempo todo. Você ria das histórias e das piadas que eu contava. “Credo, que horrível, Miller!” Era sempre essa a sua reação, e no final das contas era você quem me fazia rir. Ter você como companheira de laboratório era um privilégio para todos. Você sempre estava cercada de pessoas que sempre vinham desabafar com você, e mesmo com todos os experimentos que precisavam ser feitos, lá estava você com o coração aberto para ouvir as nossas queixas. Eu passei a chamá-la de “amiiiiiiiga” e você me chamava de “amiiiiiiigo!” para ironizar a forma como a Ednéia se referia aos colegas de laboratório. Você era a que mais entendia de ressonância magnética nuclear, era a mais competente de nós todos. Em suas mãos um espectro de RMN tornava-se algo tão simples como um jogo de dominó. Lembro-me da sua letra, da forma como você pegava na caneta... Jamais vou me esquecer que você pedia pra aumentar o volume do rádio do Sakamoto quando tocava “Mambo no. 5”. Você começava ensaiar alguns passos atrás da sua bancada e acompanhava a letra da música em inglês. Eu achava o máximo, principalmente porque nunca soube dançar nem tampouco consegui dominar a língua inglesa. Quando você terminou o doutorado, eu herdei aquelas miniaturas dos Flinstones, aqueles que você tinha ganhado em uma promoção de não sei o que. Então você foi viajar para a Espanha, e quando voltou trouxe inúmeras fotos pra gente ver. “Gente, não há nada que pague a realização de um sonho”. Essas palavras nunca me saíram da memória. Voltamos a nos encontrar em 2004, agora como professores dividindo a disciplina de Química Orgânica na Unifran. Que orgulho! Eu me lembro de você trazendo as cadernetas e me entregando-as no laboratório, todas preenchidas. Sua humildade estava à altura do seu conhecimento, e isso aos poucos tornou-a, merecidamente, uma das professoras mais queridas do curso de Química. Não foi à toa que você foi eleita “nome de turma” dos formandos de 2006. Os alunos adoravam o apito que você usava para chamar-lhes a atenção durante as aulas de Química Orgânica expeirmental! Lembro-me das viagens de quarta-feira, quando íamos conversando no ônibus de Ribeirão Preto para Franca. Parece que ainda a vejo entrando no ônibus... Como o ônibus sempre chegava em cima da hora, você sempre chegava na sala de professores e sempre ia passar o cartão de ponto. Sempre chegava com os óculos de armação fina e dourada, de jaleco e com sua enorme bolsa no ombro. Mesmo na correria, você ainda teve tempo para me ouvir contar-lhe que eu estava com sapatos de pares diferentes nos pés. De nada adiantou pedir sua discrição... “Miiiiiler!! Você está de sapatos trocados!!!” Você quase teve um acesso de risos! Veio então a segunda gravidez e então você pediu afastamento. Fomos nos reencontrar na formatura de 2006, quando você foi nome de uma das turmas e eu fui nome da outra. Sim, nós formávamos uma dupla e tanto! Você estava com um chapeuzinho para esconder a ausência de cabelos. Era a única evidência de que você estava se tratando. Seu sorriso continuava o mesmo, sua bondade continuava a despertar a admiração de todos. Voltei a vê-la quando fui entregar-lhe o convite para o meu casamento. Foi tão emocionante reencontrar minha grande amiga após tanto tempo... Tive que conter as lágrimas, mas você não conseguiu conter as suas quando lhe contei que todos lá da Unifran te mandaram lembranças e que estavam com saudade. Você mencionou os posts do blog que escrevi sobre você (“à minha grande amiga...”). Ainda me lembro de você dando “tchau” quando a porta do elevador se fechou. Mal sabia que aquela seria a última vez que a veria com vida. Passados mais de 30 dias do meu casamento – como lamentei sua ausência... – recebi uma ligação sua. Como foi bom ouvir sua voz! Você me ofereceu alguns livros – eu adoro aquela coleção do Solomons que você usou na época de graduação e que me deu de presente! – e eu os aceitei. Disse que ia buscá-los na sua casa quando pudesse. Perguntei como você estava. As notícias não eram boas: o câncer havia se alastrado para o crânio e para a medula. Duas semanas depois eu liguei para a sua casa, preocupado, com o pretexto de marcar uma data para buscar os livros. Sua mãe atendeu, disse que você estava internada. A notícia trágica veio como uma bomba às 9h53min do dia 26 de junho de 2008. Você partira às 5h da manhã. Refiz então o mesmo percurso que fizemos tantas vezes de ônibus. As lembranças foram brotando, as lágrimas também. Elas ainda brotam quando eu me lembro. Havia muitas pessoas no seu velório e muita tristeza. Olhei para o João. Havia muita dor no seu semblante. Quando nossos olhares se cruzaram, ele apontou para você, como quem queria dizer: “Olha só, Miller... ela se foi!” Quando o abracei, ele me disse: “Obrigado por você ter vindo. Você não faz idéia do quanto a Ana Cláudia gostava de você.” Ah, Ana, ele é que não faz idéia do quanto eu gostava de você, minha grande amiga... Sempre que me lembro de você, querida amiga, meus olhos ficam úmidos de lágrimas. Não sei te explicar por que elas surgem, mas não tenho conseguido evitá-las. Talvez seja saudade de você e dos momentos que jamais me esquecerei. Talvez seja a necessidade de viver, a mesma que você manteve até o último minuto. Talvez seja o peso da responsabilidade de ter que fazer pelos meus semelhantes aquilo que você fazia pelos seus. Talvez seja a alegria de ter tido o privilégio de compartilhar alguns instantes desta nossa breve existência ao lado de uma pessoa tão grandiosa como você. Quero que você saiba que seguirei todos os seus ensinamentos e tentarei seguir os seus passos, sendo um bom esposo, um bom amigo, um bom professor, um bom filho. Seja qual for o motivo, saiba que você está mais viva e mais presente do que nunca em minhas lembranças. E seja qual for o caminho que Deus der para minha vida, tenho uma grande certeza: “Qualquer dia, amiga, a gente vai se encontrar...”

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 8

Maio de 1995. Parece engraçado a forma como uma conversa por semana com o Guilherme possa ter causado tantas mudanças em mim. Hoje amo o papai mais que antes e aprendi a não dar tanta importância às críticas que ele faz. Deixei de fazer as coisas na expectativa de que ele me elogie. Sou um dos melhores alunos de minha sala na universidade e um dos melhores atiradores do tiro-de-guerra. Estou treinando para a próxima sessão de tiros e estou me saindo bem. Ao olhar no espelho, percebo que não sou feio quanto eu imaginava. Além disso, me disseram que há outras coisas além de beleza e dinheiro que as mulheres procuram. O senso de humor é uma delas. Meus amigos de adolescência seguiram outros rumos. O Carlos e o Tião estão namorando e o Gordo só sai para tomar umas “cachaças”. Na ausência deles, estou aproveitando o tiro-de-guerra para ampliar meu círculo de amizades. Um de meus novos amigos é o atirador 01, cujo nome de guerra é “Zabalar”. Sei muito pouco sobre ele, mas sempre que nos encontramos à noite na avenida damos boas risadas. Em sua companhia sempre estão o atirador Marques, o Mutão e o Everaldo. São eles os meus mais novos amigos. São tranqüilos, não bebem e saem apenas para bater papo. Acho que enfim encontrei pessoas como eu. Neste momento estamos todos no parque de exposição Tancredo Neves, onde está sendo realizada a Festa da Soja. Lá no palco está sendo realizado o show do “Só pra Contrariar”, o grupo de pagode de maior sucesso da atualidade. Embora as músicas sejam boas, continuamos nossa conversa normalmente. Enquanto conversamos, olhamos para as moças que passam. Nenhuma delas retribui ao meu olhar, mas isso pouco me importa. Há dois meses atrás eu sequer tinha coragem de olha-las... Estou com o abrigo de tiro-de-guerra, a pedido do sargento. Ele pediu a todos os atiradores que fossem à festa de abrigo. A julgar pelos companheiros de TG que avistei, percebo que fui o único a seguir a ordem. “É, Crotti, acho que só você veio com o abrigo...”, diz o Zabalar, entre risos. Enquanto ele ri, avisto uma mão tocando-lhe o ombro. “E aí, Zabalar, tudo bem?” Meu queixo quase vai ao chão ao avistar aquela jovem aparentando uns 14 ou 15 anos,morena, magra, de cabelos escuros longos e nariz arrebitado puxando conversa com ele. Ela tenta manter um diálogo com ele, mas ele não parece muito receptivo. “Deus dá asas para quem não sabe voar...”, penso comigo. Tento disfarçar mas não consigo tirar os olhos daquela linda jovem. “Espero que o Zabalar não perceba. Não quero que ele pense que estou de olho em uma paquera dele...” Embora esteja com os olhos vidrados naquela jovem, ela parece não tirar os olhos do Zabalar e sequer percebe que esotu presente. Após alguns minutos ela se despede do Zabalar e meus olhos a perdem no meio da multidão. Resta-me apenas suspirar e torcer para que eu a reencontre algum dia...

domingo, 8 de junho de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 7

Abril de 2005. Hoje o papai e a mamãe realmente me levaram ao psicólogo. Quando foi me apresentar a ele, o papai foi logo dizendo: “Doutor, dá um jeito nesse moleque aí. Vê se arranja uma namorada pra ele. Esse filho da puta tem medo de mulher!” A resposta do psicólogo foi imediata: “O seu filho tem outros problemas mais complicados a serem resolvidos”. Aquele homem de baixa estatura, com barriga de cerveja e com uma barba preta cerrada conduziu-me a uma sala mal iluminada. Sentou-se à minha frente, tirou os óculos redondos, apoiou os ombros sobre a mesa redonda envernizada e se apresentou. “Meu nome é Guilherme Davoli. Estou aqui para ajudá-lo.” Inicialmente constrangido por estar me submetendo àquela situação, e acreditando que estava perdendo o meu tempo, limitei-me a balançar a cabeça. Com uma voz que transmitia confiança, o Guilherme iniciou então o seu trabalho. “Pelo que pude perceber, você tem sérios problemas com o seu pai. Fale-me um pouco da relação de vocês.” Os 50 min que se seguiram foram talvez os mais tortuosos que já havia vivido. Foram momentos de pranto intenso. A pedido dele, comecei a mexer em feridas do passado que não haviam sido totalmente cicatrizadas, e que segundo suas palavras são as grandes responsáveis pela minha personalidade e pela situação em que me encontro. Descobri que a surra que eu havia levado aos 5 anos tornou-me um adolescente tímido e introspectivo, e fez com que eu deixasse de ver o papai como o meu grande amigo e passasse a vê-lo como um patrão autoritário. Descobri que a minha timidez com relação às mulheres vinha do fato dele ter me chamado de “feio” aos 10 anos e que por eu nunca ter conseguido um elogio sequer dele, acabei anulando a minha auto-estima. Ao apontar essas razões, o Guilherme explicou-me: “Seu pai sequer sabe que cometeu esses equívocos. Ele acha, inclusive, que está fazendo a coisa certa. Não o culpe por isso, ele o ama muito. Todos cometemos erros. Mas não espere que o seu pai assuma esses erros nem tampouco cobre o perdão dele. Perdoe-o desde já. E não se esqueça: quando você sair pela aquela porta, uma nova vida se iniciará. As mudanças no seu mundo dependerão das mudanças em você. Nos vemos semana que vem.” Quando me viu saindo pela porta, o papai levantou-se do sofá. "E aí, filho, como foi?" Corri em sua direção e o abracei com força. Ele achou estranho, mas sorriu. No meu íntimo, eu também sorri. “Papai, a partir de agora o senhor tem um novo filho...”

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 6

Abril de 1995. Estou me saindo bem no tiro-de-guerra. Ao contrário do que o papai achava, eu ainda não tomei nenhum chute na canela e não perdi nenhum ponto dos 20 que todos os atiradores recebem. Tenho tido um comportamento disciplinar exemplar e sou um dos poucos que o sargento ainda não puniu com as tradicionais 20 flexões de braços. Já aprendi a marchar e umas ou duas vezes fui elogiado pelo próprio sargento pela destreza nos movimentos. Também sou bastante dedicado ao estudo da apostila e no desarme do fuzil. Na verdade, às custas de muito treinamento nas noites de plantão, sou recordista: desmonto o fuzil em 9s e o monto em 18s. Por outro lado, tenho problemas com a pontaria. Em nossa primeira visita ao estande de tiros eu não me saí muito bem. Tirei um “R” de “regular”, que quer dizer “mais ou menos”. Fiquei um pouco abatido, principalmente por saber que o papai era o melhor de pontaria de sua turma. No mesmo dia em que fomos dar o primeiro tiro o sargento fez uma competição entre os atiradores de números pares e os de número ímpar. Segundo as regras, cada atirador deveria rastejar em um trecho, correr no outro, rastejar em um terceiro trecho e correr no trecho final. Perdi para o Araújo. O filho da mãe trapaceou... Ele percorreu correndo uns 5m do terceiro trecho, que deveria ser percorrido rastejando... Eu deveria ter ficado nervoso, mas senti-me tão abatido que não pude sequer reclamar com o sargento. Aquele dia ficou marcado de forma negativa, e apesar do meu desempenho na desmontagem do armamento, na ordem unida (marcha) e na parte teórica, tenho me sentido muito triste. Acho que jamais serei tão bom quanto o papai...

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 5

Março de 1995. Este ano está sendo muito diferente do que eu pensava. Eu achava que seria um ano sem grandes novidades, mas muitas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Há um mês estou servindo o tiro-de-guerra. Vestir esta farda camuflada faz com que eu me sinta uma pessoa de bem. Eu me sinto importante, é como se as pessoas olhassem para mim com respeito. Não tenho encontrado dificuldades em me adaptar à disciplina militar, pois o papai sempre exigiu muita educação na forma de tratar com ele. Já meus colegas dizem “você” para o sargento, e ao invés de responderem “senhor”, dizem “oi”. E lá vão eles pagando mais duas dezenas de flexões de braços... Também estou fazendo faculdade, mas estou estranhando um pouco. Para começar, estranhei minha classificação no vestibular. Fui aprovado em 2º. Lugar dentre os 2.500 vestibulandos, uma colocação inesperada para quem sequer ia prestar vestibular. Minha sala é enorme, a única pessoa que conheço de vista é o Gracioli. Não somos próximos, mas sei que estamos servindo o tiro-de-guerra. Mas o que tem mais me incomodado é andar pelos corredores da faculdade. Sinto-me estranho, como se todas as pessoas ficassem me analisando. É uma situação de desconforto enorme, e isso me deixa ainda mais tímido. Com relação ao conteúdo das disciplinas de Química, até agora não vi nada de novo. Dizem que o primeiro ano é uma espécie de nivelamento. Vamos aguardar pra ver. Na minha vida pessoal, entretanto, pouca coisa mudou. Ainda estou sem namorada e fico envergonhado quando as moças passam e o papai me diz para olhar para o “traseiro” delas. Ao me ver abaixar a cabeça, todo vermelho, ele fica raivoso. “Esse desgraçado é viado!”, esbraveja ele. Fico triste quando ele diz isso, pois ele não faz idéia do que se passa comigo. Por mais que isso pareça estranho, sei que não sou o único problema que ele tem. A “Fia” também tem o deixado preocupado. No auge de seus 15 anos, ela encontra-se muito rebelde. Além de gritar com a mamãe, ela se tranca no banheiro e diz que vai tomar remédio pra se matar. Outro dia tive que impedi-la de sair de mobilete, pois ela disse que ia se jogar debaixo de um caminhão. Com tanta rebeldia, o papai chegou a achar que ela tivesse com algum “encosto”. Após várias consultas a centros espíritas, a saída que o papai e a mamãe encontraram foi levá-la a um psicólogo. O discurso do papai para o psicólogo surpreendeu-me. “Doutor, essa menina tá dando muito trabalho. Ela responde pra mãe dela, é muito rebelde. Já o outro, de 19 anos, é totalmente o oposto. É bonzinho, quietinho e educado. Quase não fala." Mas a resposta do psicólogo foi mais surpreendente ainda. “Então traz o seu filho porque o problema está nele. Ela está na adolescência, é uma fase naturalmente rebelde.” Putz! Imagine se aqueles que me chamam de “doido” descobrirem que estou indo a um psicólogo... Minha vida, definitivamente, está indo para o buraco.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 4

Janeiro de 1995. São 7h da manhã. Estou de pé, em frente ao tiro-de-guerra, com uma radiografia da coluna nas mãos. Em minha volta estão cerca de 200 rapazes, todos da minha idade. Todos aguardamos ansiosamente que o portão se abra para que possamos ser examinados pelo médico e sabermos se vamos ou não servir o exército durante este ano, a partir do mês que vem. Não há como negar que existe uma certa tensão no ar, mas é bem provável que eu seja o mais tenso. O papai quer que eu faça faculdade este ano. Ele quer que eu estude na Unifran, mas eu quero estudar em uma universidade pública, pra não pagar. Até onde sei, somente os menos inteligentes (ou mais azarados...) é que pagam pra fazer faculdade. A gente usa o termo PPP, que quer dizer “Papai Pagou Passou” pra se referir a escolas e faculdades particulares. Pois bem, agora eu faço parte deste time. Sinto-me um fracassado, mas espero que não seja por muito tempo. Quero estudar para prestar vestibular no meio do ano. Já disse para o papai que ele vai jogar dinheiro forma, mas ele disse que não se importa. O fato é que vai ser difícil conciliar a faculdade com o tiro-de-guerra. A radiografia em minhas mãos é minha chance de ser dispensado. Tenho um problema na coluna desde os 12 anos. O médico chamou o problema de “lordose e escoliose”. Não sei bem o que é isso, mas me disseram que quem tem problema de coluna tem grandes chances de dispensa. Os jovens que formam a fila à minha frente não parecem tão preocupados como eu. Muitos riem, parecem estar se divertindo. A maioria deles conta suas peripécias de bêbados ou narra suas aventuras amorosas. Fico então me perguntando por que não acho esta situação engraçada. Sou muito diferente destes jovens. Não fumo, não bebo ou tampouco fico até altas horas pela rua. Dizem que sou “sistemático” e muito sério, pois vivo com cara de bravo. Mal sabe que é por causa da fotofobia que acompanha o meu astigmatismo. A cara de “bravo” e os óculos enormes fazem com que eu pareça ter 10 anos a mais. Como se não bastasse, sou um fracasso com as mulheres. Culpa da timidez. Na verdade, não tenho nada que atraia as moças de minha idade. Não sou falante, não me visto bem, não tenho dinheiro. Dizem que sou inteligente, mas as moças da minha idade parecem não gostar muito de rapazes inteligentes. A propósito, alguns colegas acham que eu sou “doido” por viver entre os livros. Ora, os livros são um refúgio para a minha timidez. Como eu não tenho muitos amigos nem namorada, passo a maior parte do tempo estudando. Ah, ia me esquecendo: também não sou bonito. Pelo menos é isso que o papai me disse quando aos 10 anos eu fui lhe perguntar por que é que nenhuma menina se sentia atraída por mim. “Por que você é feio, uai!”. Olho para o céu. Está azul, com poucas nuvens brancas, como se fosse uma pintura. “Ô, meu Deus do céu...”. Sinto como se o mundo estivesse sobre meus ombros, como se eu carregasse um fardo muito pesado para a minha idade. Minha vida está uma bagunça., Tenho vontade de chorar. Quando penso em pedir um sinal a Deus, vejo um jovem chegando de cadeira de rodas, estacionando no final da fila. Imediatamente olho para a radiografia em minhas mãos e me envergonho. Sinto vontade de escondê-la. Observo então os jovens se divertindo com aquela situação. Um largo sorriso brota então em meu rosto. “Se é pra ser assim, então que seja! Se estou aqui e vou ter que servir o tiro-de-guerra, com certeza é porque Deus tem um plano para mim. Vamos ver no que vai dar!”

sábado, 31 de maio de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 3

Dezembro de 1994. Às vezes eu acho que o papai consegue ler pensamentos. É a única explicação que encontro para o fato dele ter descoberto o que está se passando comigo por causa do vestibular. Acho que pode ter sido o meu silêncio que tanto o incomodou... “Filho, o que você vai fazer no ano que vem?”. Pronto. Era só o que me faltava. Não estou conseguindo lidar com os meus problemas, agora tenho que explicá-los para o papai... “Vou fazer cursinho de novo, papai.” Ele então deixa a lata de tinta no chão, levanta-se, puxa as calças pra cima, enrruga as sobrancelhas e, com cara de quem não está acreditando, dispara: “Como é que é? Mas você já fez cursinho este ano! `Por que você acha que não vai passar?” Permaneço em silêncio por um minuto. Paro de lixar, respiro fundo e tento olhá-lo de frente. “É, papai. Não vou passar porque não vou prestar nada. Não estou preparado.” Ele parece indignado. “Não, não, não, não! Você não vai perder outro ano da sua vida de jeito nenhum! Ano que vem você vai estudar na Unifran. Escolhe algum curso que você goste e preste. Não quero ver você parado de novo, não!” Que ótimo! Outro problema pra eu resolver... “Mas, papai, olha só: neste ano tem o tiro-de-guerra. Vai ficar difícil conciliar o tiro-de-guerra e a faculdade.” Ele me olha sério. Parece irritado. “Ah, é? E conciliar o tiro-de-guerra com o cursinho você consegue, né? Você ta querendo moleza, né moleque?! Você vai fazer faculdade, sim! Eu e sua tia vamos dar um jeito de pagar a faculdade pra você.” Pelo jeito meu argumento não foi bom o suficiente para convencê-lo. Que ótimo! Pelo menos ele não está me escolhendo o curso que ele quer que eu faça. Acho que vou cursar Química. Se bem que gosto mais de Física e Matemática... Não sei se vai dar pra aturar a tal de Química Orgânica. Argh!!!!

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 2

Dezembro de 1994. Mais um ano que está prestes a terminar. Eu gosto deste período porque o papai sempre fica aqui em casa. Por ser motorista de caminhão, ele passa a maior parte do tempo nas estradas, trabalhando. Às vezes ficamos quase dois meses sem vê-lo. Mamãe, a “Fia’ e eu sentimos muita saudade dele. Por outro lado, a presença dele aqui em casa também é sinônimo de serviço para mim. Ele nunca consegue ficar parado, não sei como não se cansa. Agora, por exemplo, estamos na oficina do tio Alcides, a quem carinhosamente chamamos de “tio Bixim”. Estou com uma lixa nas mãos, removendo a ferrugem do chassis e das partes metálicas da carroceria do caminhão, enquanto o papai do outro lado vem pintando as partes já lixadas. Do terreno vizinho ouço o barulho das máquinas da marcenaria do Segato, tornando reais as cozinhas planejadas por aqueles que têm dinheiro. Fico imaginando como é uma cozinha planejada e se algum dia vou poder ter uma. Aos meus ouvidos chega também o som do papai mudando a lata de lugar, sobre a qual ele se senta enquanto pinta o chassis. Na ausência de vozes, meus pensamentos começam a incomodar-me. Afinal, é muita incerteza para uma pessoa de 18 anos. Não tenho trabalho. Na verdade, jamais tive qualquer emprego. O papai sempre quis que eu estudasse e fez todo o esforço do mundo para que eu não me tornasse motorista de caminhão. O desejo dele sempre foi que eu estudasse e tivesse uma profissão, para não sofrer como ele sofreu. Sempre fui muito exigido, ele sempre quis que eu fosse o melhor. Sempre fui bom aluno, sempre estive entre os melhores, mas no momento isso de nada me serve. Estou muito desanimado para prestar o vestibular este ano. Fiz cursinho extensivo durante este ano, mas acho que não estudei o suficiente e não estou preparado. As inscrições para a Fuvest já se encerraram. Desisti de prestar, pois fiquei com medo de não passar. Não é fácil para ninguém lidar com derrotas, principalmente para uma pessoa como eu, que tenho a auto-estima bastante frágil. O papai sempre diz que eu sou lerdo, que não vou conseguir emprego. “O seu negócio é estudar. Eu criei você pra estudar!” Ora, se ele me criou pra estudar, por que é que eu tenho que ficar aqui ajudando ele a fazer serviço “bruto”? “Um homem precisa saber fazer de tudo. Nunca se sabe quando ele vai precisar usar”. Há um outro problema que me incomoda bastante: eu não sei se realmente quero fazer engenharia elétrica. Sempre gostei de desenhar painéis quando era criança, mas isso ainda assim não indica muita coisa. Acho que cursar engenharia é para mim um desafio. Dizem que é um curso difícil, então fico imaginando se não estou querendo apenas provar pra mim mesmo que sou capaz. O problema é que não estou conseguindo, e isso faz com que eu me sinta o fracassado que o papai sempre deu a entender que eu sou. No ano passado, contei aos colegas que iria prestar Licenciatura em Ciências Exatas em São Carlos. Não sei como, mas o fato é que isso foi parar nos ouvidos do seu Renato, o diretor que havia me concedido a bolsa de estudos. “Você ta louco? Tá querendo se tornar professor? Vai prestar Engenharia, Medicina, Direito ou coisa parecida!” Como eu disse, eu não sei se nasci pra ser engenheiro. O fato é que eu gosto muito de Física, mas não sei se conseguirei emprego como físico. Minha única opção será tornar-me professor, mas se não tiver aulas, terei jogado 4 anos de minha vida pela janela. O que fazer?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 1

Novembro de 1994. É incrível como os meses passam rápido. Parece que foi outro dia que eu estava assistindo às aulas da semana preparatória para o cursinho. Sinto ainda a brisa fria que vem da piscina, em torno da qual ficavam as salas de aula. Lembro-me que aquela semana foi particularmente estressante. Tive que estudar bastante, pois minha única chance era conseguir um bom desconto. Sim, estudar aqui no colégio Objetivo custaria muito caro caso eu não tivesse obtido a primeira colocação e sido agraciado com 70% de desconto na mensalidade. O diretor, o Marcão, que também era professor de Geografia, pareceu bastante impressionado com o meu desempenho e acabou convidando-me para estudar no período da manhã, que ele dizia “ter um estudo mais forte”. Mas não era isso que eu queria. Eu não queria passar pela experiência que passei no ano passado, quando estudei na FEAM-COC, também com bolsa. Todos os meus colegas tinham pais que ganhavam bem e podiam pagar a mensalidade escolar para eles. Já eu estudava com bolsa de estudos integral, e isso me fazia diferente deles. Senti-me como um estranho no ninho durante o ano inteiro, não gostaria de sentir-me assim novamente. Por isso, disse ao Marcão que queria permanecer no período noturno, para poder estudar durante o dia todo. Isso nunca foi problemas para mim, afinal estou acostumado a lidar com os livros. Eles são os meus melhores amigos. Pra falar a verdade, afora meus entes mais queridos, os livros são os meus únicos amigos. Sou um adolescente de 18 anos, muito tímido e introspectivo, porém tenho intimidade com os livros e com os números. Alguns me acham louco, dizem que sou inteligente demais. Não, eu não sou inteligente, sou apenas muito dedicado. Isso mostra que eles realmente não me conhecem. Pois bem. Meu plano de estudar firme o dia todo teria saído conforme o planejado caso o Marcão tivesse entregado os livros que chamamos de “Os Intocáveis” à medida que as aulas fossem sendo ministradas. Mas o material referente ao 1º. bimestre veio no terceiro, o do 2º. veio no quarto e com isso meus planos foram por água abaixo. Minhas esperanças de ser aprovado no vestibular agora são bem reduzidas. Quero prestar engenharia elétrica na USP de São Carlos. No ano passado me saí muito mal nas provas de Geografia, Inglês, História e Biologia. Só me dei bem em Física, Matemática e Química. O Aires, um colega com quem estudei no ano passado na FEAM-COC, também quer prestar Engenharia Elétrica. Ele gosta de estudar comigo, ao ponto de quase ter desistido de estudar no Liceu Albert Sabin de Ribeirão Preto pra continuarmos na mesma sala. Mas eu disse a ele para seguir o caminho dele, que estudar lá era bem melhor. Na verdade, se o papai tivesse dinheiro pra pagar a mensalidade do Sabin, eu também teria ido, mas o fato é que até pra pagar a mensalidade do cursinho o papai sofre, mesmo com o desconto que consegui. O ano vai chegando ao seu fim. Fico triste só de pensar no que farei no ano que vem. Não tenho esperanças de que seja um ano bom. Não sei se serei aprovado no vestibular para Engenharia nem tampouco se prestarei o vestibular. Pra completar, há um pequeno detalhe que aumenta ainda mais o tamanho da minha interrogação: ano que vem é ano de serviço militar. Putz, era só o que me faltava...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dias de sofrimento - parte 3

“Vovô, o que o senhor está sentindo?” Enquanto olho meu avô se debatendo na cama, tossindo, se esforçando para fazer algo que não consigo adivinhar, meu coração se acelera. “Vovô, fala comigo: o que é que o senhor está tentando fazer?” Ele tosse. “Quero ficar sentado”, sussurra ele com voz rouca e fraca. Faço então com que meus braços envolvem seus ombros para que ele possa neles se apoiar e ficar sentado. Enquanto ele se esforça, ofegante, puxo seu tórax para cima até que ele fique sentado. Percebo então que estou com abraçado ao meu avô, com os braços rodeando seus ombros. É a primeira vez que o faço em meus quase 32 anos de vida. “Antes tarde do que nunca”, penso comigo mesmo, mas esperançoso de que meu avô possa ler meus pensamentos e abraçar-me também pela primeira vez. Enquanto me perco em meus pensamentos, o vovô está ofegante, cansado. Deve ter se esforçado muito para colocar-se sentado, mesmo com a minha ajuda. “Vovô, o senhor precisa de alguma coisa?” Ele fixa os olhos para o chão, demonstrando estar inconformado com aquela situação de dependência. “Quero ir ao banheiro”, diz ele, jogando suas pernas para fora da cama. “Cuidado, vovô. Desse jeito o senhor não vai conseguir caminhar. Vou desenrolar o lenço das pernas do senhor, espera aí.” Após retirar o fino lenço que lhe cobria as pernas e o impedia de andar, surgem pernas brancas e finas, sem qualquer vestígio de pêlo. Aquela imagem faz recordar-me de que o papai sempre falou-nos que os pêlos caem quando envelhecemos. “Vovô, eu vou ajudar o senhor a calçar as sandálias”. Abaixo-me então e pego as sandálias de couro marrom. Puxo o velcro e ajusto-as para que fiquem confortáveis. Coloco-me de pé e ofereço-lhe a mão para que ele possa apoiar-se. Com dois ou três passos ele chega à porta do banheiro. Com uma das mãos apoiada na parede e a outra abaixando as calças, o vovô vai se virando sozinho enquanto eu respeitosamente aguardo à porta do banheiro. “Vovô, o senhor precisa de ajuda? Quer se sentar?”, ao que ele responde: “Não, eu vou fazer de pé mesmo”. Ouço então as rajadas de urina colidirem com a água do vaso sanitário. Outras, porém, colidem com o revestimento e o piso brancos. “Putz, ele é tão ruim de mira quanto eu...”, penso e sorrio, na esperança de poder aliviar um pouco da tensão e da tristeza que querem se abater sobre mim. Após pouco mais de um minuto, o vovô se vira e caminha até a cama. “Estou com frio”, diz ele ao deitar-se. Eis que quando vou cobrir-lhe com o lençol, percebo que suas sandálias e sua bermuda estão encharcadas de urina. Cubro-lhe então com o lençol e fico olhando novamente com ternura para aquele senhor outrora tão bravo, e que agora parece-me uma criança amedrontada. Deitado de lado, ele dirige seu olhar para algum outro canto perdido. Talvez esteja perdido nas lembranças do passado. Talvez ele não quisesse mais estar presente entre nós para passar por tanto sofrimento e constrangimento. Talvez ele encontre a única verdade que tanto me incomoda neste momento: o tempo não volta atrás. Nem para ele, nem para mim.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Dias de sofrimento - parte 2

Seus olhos estão arregalados. Parecem fixos em algum ponto perdido. Suas sobrancelhas, embora embranquecidas, ainda conservam os pêlos arrepiados e voltados para cima. A boca permanece aberta, mostrando os poucos dentes amarelados que ainda lhe restam. Sua pele clara apresenta vários hematomas, originados da agulha que lhe foi introduzida nas veias para que o soro lhe fosse aplicado. “Oi vovô!”, digo com a mão tocando no ombro dele. Deitado de lado, com uma das mãos entre as pernas e a outra debaixo de sua cabeça, ele apenas levanta os olhos sem pronunciar nenhuma palavra. Valter Crotti, conhecido por todos por sua voz forte e pelo energismo que conferia a seus diálogos, não consegue pronunciar uma palavra seque. Ao invés do homem de gênio forte de décadas atrás, meu avô agora se parece com uma criança amedrontada. É uma cena muito triste. Sento-me na cadeira ao lado de seu leito. Ele me olha. “E aí, vovô, como é que o senhor está?”. Ele me olha. “Hã?”. A audição também não é mais a mesma. Repito a mesma frase. “Ah, eu não estou muito bom, não. Tá tudo doendo”, diz ele com voz fraca. A tia Vânia se aproxima e levanta o lençol, deixando sua barriga à mostra. “Eduardo, olha a barriga dele. Está inchada! Um dos médicos disse que é uma bactéria que está se alastrando pelo corpo dele e que remédio nenhum é capaz de matar. Já um outro diz que o problema na próstata se alastrou pelo restou do abdômen”. Sim, o estado de saúde de meu avô é bem complicado. “Eduardo, eu preciso ir. O senhor que vai dormir com ele está quase pra chegar. Fique aí com o seu avô mais um pouco”, diz a tia fechando a porta atrás de si. Quando me viro para meu avô, percebo que ele está me olhando. “Você não foi dar aulas hoje?”, pergunta ele. “Não, vovô. Hoje é sexta-feira santa”. Ele então volta a fixar seus olhos claros em algum ponto perdido. Eu fico ao seu lado, com a mão sobre o seu ombro. Fico a olhar aquele homem que trabalhou anos e anos como motorista e que até anos atrás mantinha uma saúde de ferro. Penso então que aqueles podem ser os últimos dias de vida de meu avô. Meu coração fica apertado. Fico pensando que as coisas entre nós poderiam ter sido muito diferentes. Que eu poderia ter ido mais à casa dele para ouvir as histórias dele e que ele poderia ter sido mais atencioso comigo. Infelizmente eu falhei com ele, pois nunca consegui oferecer o amor que ele merecia, talvez por nunca ter recebido o amor que dele eu desejava receber. O fato é que meu avô parece estar chegando ao fim da linha. Enquanto me perco em minhas reflexões, as lágrimas escorrem-me pelo rosto. De repente, meu avô começa a se mexer na cama e seu fôlego começa a falhar. “Meu Deus, o que está acontecendo?”
(to be continued...)

domingo, 30 de março de 2008

Dias de sofrimento - parte 1

22 de abril. 22h15min. “Apartamento 01, por favor”. O porteiro vira-se para a caixa repleta de crachás e em menos de meio minuto oferece-me um referente ao apartamento que mencionei. Sem mesmo ouvir o meu “obrigado” ou assegurar-se de que peguei realmente o crachá, ele chama pelo próximo da fila. Em outra ocasião a reação deste porteiro incomodar-me-ia bastante, mas neste instante sua falta de cordialidade é o menor de meus problemas. Quando venço a porta por trás daquele homem pouco gentil, surge-me um longo corredor. Respiro fundo e sigo em direção ao apartamento 01. Enquanto caminho, homens e mulheres trajando branco cruzam apressadamente o corredor de um lado para outro. Pranto e gritos de dor saem de cada sala de atendimento e um cheiro forte de éter e de álcool se espalha pelo corredor. Sim, estou em um hospital, e este realmente não é o melhor lugar para se estar em pleno sábado à noite. Mesmo assim, preciso continuar minha caminhada. No final do corredor vejo uma enorme placa, com os dizeres “Ala Faez Badran.” Na placa há uma seta, indicando a direita. É para lá que devo seguir. Não é preciso andar muito. O apartamento que procuro é o primeiro, logo no início do corredor. Aproximo-me lentamente e lentamente espio pela fresta da porta. Vejo apenas que ele está deitado, dormindo, enquanto a tia Vânia o observa, sentada aos pés da cama. Deixo então a porta se abrir para que a tia Vânia veja que estou ali. Ela me vê e sorri. “Oi, Eduardo”. Aproximo-me do leito, onde ele repousa. Minha irmã disse-me que ele não a reconheceu. Será que ocorrerá o mesmo comigo?
(to be continued...)

domingo, 23 de março de 2008

Ressurreição

Voltei. Estive ausente por uns tempos, em uma longa e exaustiva batalha comigo mesmo. À meia dúzia de leitores que incansavelmente visita este blog à procura de histórias ou de notícias minhas, peço desculpas pela minha ausência. Eu estava esperando um dia que fosse plenamente feliz para “ressurgir”. Eis que ressurgi no dia da ressurreição – a Páscoa. Certamente este foi provavelmente o melhor dia de 2008, e há um fio de esperança que me diz que tudo será diferente a partir de hoje. É como se o ano começasse hoje. Consegui retornar definitivamente para o seio de minha família e encontrar o equilíbrio entre as atividades profissionais e o convívio familiar. Hoje reunimos a família - ou a parte dela que mais amo. Eu não poderia ter uma “desculpa” melhor para voltar a este blog que não fosse registrar minha felicidade por ter meus pais, meus avós, minha tia, minha irmã e minha querida Clarinha aqui comigo. Aproveitei cada segundo de minha última Páscoa morando com meus pais. Enquanto celebramos a Páscoa, meu avô paterno estava internado com sérios problemas de saúde. Suspeita-se de câncer. Um dos médicos disse que ele se propagou da próstata para o abdômen. Já um outro médico diz que se trata de uma bactéria que está se multiplicando e tomando conta do corpo dele. Seja o que for, a situação é grave. Tenho ido visitá-lo desde sexta-feira e lhe dedicado o amor que dele nunca recebi. Ele sempre foi ausente e pouco carinho e atenção nos deu ao longo da vida. Hoje, porém, ele parece ter grande respeito por mim, pois sou um dos poucos netos que pára para ouvi-lo. Hoje eu o senti bem melhor. Presenteei-o com um chocolate. Ontem dei-lhe um beijo. Ele me olhou com espanto, já que ele jamais me deu um abraço. É a minha tentativa de ser um bom neto. Espero que não seja tarde demais e que ele continue em recuperação - eu o tenho sentido mais disposto e feliz desde que passei a visitá-lo... Neste dia de Páscoa comemoramos a ressurreição de Jesus Cristo. Que Ele possa ressuscitar em todos os corações, assim como hoje eu O tenho ressuscitado no meu.