quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

À minha grande amiga - parte 1

Outubro de 1999. 8h. O elevador pára no 3º. andar do bloco M da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto. A porta se abre e o metal polido das portas do elevador é substituído por uma enorme parede cinzenta. Dou alguns passos para a esquerda e deixo o velho elevador para trás. À minha frente há um enorme corredor, pouco iluminado. De vez em quando algumas pessoas cruzam-no de um lado para outro. A expectativa que toma conta de mim pode ser comparada à de quem assiste a um filme de suspense (embora eu não tenha, inacreditavelmente, aos 24 anos, jamais entrado em um cinema...). Mas este não é um filme de suspense, e sim de aventura. É hoje, enfim, o dia em que iniciarei a parte experimental do mestrado, e pra falar a verdade, eu não tenho a mínima idéia de nada do que irei fazer nos próximos minutos. 8h20min. Estou na sala do professor João. Enquanto olho os diplomas pendurados pelas paredes e a quantidade enorme de projetos e artigos em cima de sua mesa, ele segue tentando explicar-me quais os procedimentos que deverei seguir para fracionar os extratos que estão sobre a mesa dele. Mas o cheiro de conhecimento daquele lugar deixa-me cego e surdo. Sinto-me um ignorante diante das coisas que ele está explicando, pois não entendo a maioria delas. Limito-me apenas a balançar a cabeça em sinal afirmativo. Ele então larga a caneta sobre a mesa, pega o papel amarelado e o estende até mim. Eu pego o papel nas mãos e tento, em vão, entender o que está escrito ali. Ele projeta seu corpo para trás e o deixa cair sobre o encosto da cadeira reclinável. “Alguma dúvida, Miller?” Claro que não. Pelo menos nenhuma que eu possa esclarecer neste momento. “Então ao trabalho”. Ele se levanta e me pede para segui-lo. 8h45min. Estou parado à porta do laboratório de Química Orgânica da USP. Ao meu lado, o professor João olha de um lado para o outro, com a caixa contendo os extratos em mão. “Venha até aqui, Miller”, diz ele, seguindo em direção a uma bancada. Ele me apresenta então o lugar onde provavelmente passarei minhas próximas noites, e talvez os meus próximos anos. Coloco sobre a bancada o papel contendo as informações que ele me passou e respiro fundo. Quando me viro em direção a ele e tento esboçar alguma reação – sim, eu estou em pânico! – sinto o peso de sua mão cair sobre o meu ombro. “Agora é contigo. Boa sorte!”. Ele se vira e retorna à sua sala. 8h55min. A situação é desesperadora. Preciso desenvolver o meu projeto de mestrado e não tenho a mínima idéia de como começar. Os esquemas que o professor João parecem-me um montem de códigos indecifráveis. Há também alguns palavrões, como “partição”, “decantação”, “cromatografia em camada delgada”. Não sei nem por onde começar. Olho ao redor. Há vários pós-graduandos trabalhando, todos vestindo seus jalecos brancos. São mulheres em sua maioria, e cada uma delas parece mergulhada em seus próprios problemas. Não tenho amizade com nenhuma delas, e pela forma como me ignoram, começo a acreditar que a parte experimental será um desafio tão difícil quanto cumprir os créditos em disciplinas. 9h15min. Após 20min tentando entender o que o professor João deixou registrado naquele papel, um profundo desânimo se abate sobre mim. Começo então a olhar para cada uma daqueles “colegas” – será que posso chamá-los assim? Todos parecem tensos, mergulhados em seus próprios problemas. Será que todos são arrogantes? Afinal, todos eles estão estudando na USP. “Ora, eu também estou!”, diz o meu lado otimista. “É, você está é encrencado!”, rebate o meu lado pessimista. Sento-me então em um pequeno tamborete, e com os dois ombros apoiados sobre a bancada, coloco as duas mãos no rosto, sem saber o que fazer. “Meu Deus, por favor, me ajude! Não sei o que fazer!”. Sinto então uma mão tocar meu ombro e uma voz feminina dizendo: “Você é o Miller, não é?”
(to be continued...)

domingo, 27 de janeiro de 2008

Inundação

19 de janeiro de 2008. 16h15min. Estou do lugar que será, dentro de três meses, o meu novo lar. As paredes estão brancas, mas a pintura ainda não foi concluída. A instalação elétrica ainda não foi feita, mas a luz que consegue atravessar os vidros é suficiente para que os olhos visualizem a sujeita que se encontra espalhada pelo chão. Há sujeira por todos os lados. Com pedreiro, pintor, eletricista e marceneiro transitando diariamente por aqui, não poderia ser diferente. Meu amigo Crevelin observa a tudo em silêncio. Seus comentários vêm sempre acompanhados por uma exclamação, mostrando que ele está gostando do que vê. “Primo, tá ficando muito bom”, diz ele, olhando para o teto. “Vamos lá na parte de baixo, quero te mostrar a garagem”, digo a ele, abrindo a porta que dá acesso à escada. Explico-lhe que havia um desnível no terreno tão grande que a única alternativa para escapar de pagar uma fortuna pelo aterramento era fazer uma garagem no fundo do quintal. Em vista do desnível do terreno, a garagem acabou ficando no nível da calçada, porém abaixo do nível da rua. Tem-se, portanto, a impressão de que se trata de uma garagem subterrânea. Mas não é. 16h19min. Mostro a garagem ao Crevelin. Explico-lhe então que já tivemos muitos problemas com aquela garagem. A sarjeta era muito baixa, então todo o volume de água da enxurrada passada pela garagem. O cano que de escape que fica exatamente no centro da grelha não era suficiente para esgotar tamanho volume de água. Muitas vezes o cano entupia, fazendo com que aquela garagem mais se assemelhasse a uma piscina. Foram meses de muita tristeza. 16h22min. Aproximo-me da grelha. Explico-lhe que nós subimos a calçada e que a enxurrada não mais irá nos incomodar. Mostro-lhe então a água que a enxurrada trazida pela chuva – sim, está chovendo forte lá fora! – agora é menor, e que o cano consegue, enfim, cumprir o seu papel. 16h24min. “Primo, tem algo de errado. A grelha tá enchendo...”, diz o Crevelin, com o dedo apontado para a grelha. “Deus do céu! O cano deve ter entupido!” Tento alcançar o cano, mas a fenda entre o portão e a grelha é bem menor que minha mão. “Caramba! Vou ter que abrir o portão!”, lamento, já olhando para o arame grosso que mantém o portão trancado. “Primo, vai rápido, porque a água tá subindo rápido!”, diz ele, afastando-se para a parte mais alta da garagem. Enquanto eu tento desfazer as voltas no arame, a água ultrapassa o volume da grelha e sobe, atingindo meus pés. Assisto então a água caminhando rapidamente em direção à parede do quarto de despejo. A garagem está sendo inundada novamente. 16h26min. Tento, desesperadamente, desfazer as voltas que foram dadas no arame. “Que b....!” Não adianta xingar nem tampouco ficar nervoso. Preciso continuar tentando. É a única chance de esvaziar esta garagem. 16h28min. A garagem está completamente inundada. Consigo, enfim, abrir o portão e levantá-lo. Rapidamente eu enfio a mão pela grelha à procura do cano entupido. Encontro então um folheto de propaganda de supermercado, que foi trazido pela enxurrada. Mas por que será que a enxurrada está conseguindo subir a calçada? Avisto então uma enorme tampa de pedra, que o Luís (nosso pedreiro) colocou para guardar o carro aqui na garagem. Olho para o céu escuro. Está chovendo muito forte. A enxurrada desce a rua em alta velocidade. Tiro então os chinelos e jogo-os para o Crevelin, que assiste àquela inundação à distância. “Que se dane!”. Dou um pulo e consigo atingir a sarjeta. Coloco um dos pés na enxurrada e mantenho o outro na calçada. É difícil equilibrar-me. A chuva fria molha minha roupa por inteiro. Desesperado, esqueço-me dos problemas na coluna e abaixo-me, trazendo na volta a enorme e pesada tampa de concreto que estava direcionamento a água para dentro da garagem. Jogo a tampa sobre a calçada, deixando a passagem livre para a enxurrada. 16h35min. Volto então para dentro da garagem e vejo aquela imensa piscina que se formou esvaziar-se rapidamente. “Agora ela não vai mais conseguir ultrapassar a altura da calçada”, digo ao Eduardo. Noto então que o Luís está ao lado dele. “Rapaz, mas isso encheu muito rápido!”, comenta ele. “Mas perceba que a água foi embora na mesma velocidade que chegou. Nosso dispositivo funciona! O problema foi o papel que entupiu o cano”, diz ele, tentando acalmar-me. 16h45min. A rua transformou-se em um enorme rio. Com a enxurrada vem uma grande quantidade de sujeita. A rua vai se transformando aos poucos em um grande depósito de lixo. Nuvens escuras demonstram que a chuva não vai dar trégua tão cedo. Não consigo ouvir as coisas que o Luís e o Crevelin estão me dizendo. Estou longe, fora de mim, lembrando do que acabou de ocorrer. Eu no meio da enxurrada, lutando para “salvar” minha propriedade. O Crevelin de longe, olhando, na condição de expectador. Não que ele tivesse que me ajudar. Muito pelo contrário. A questão é que todos nós diariamente presenciamos todos os dias as inundações que são mostradas pela televisão. Milhares de famílias têm suas casas invadidas pela enxurrada, e não raramente perdem todos os seus pertences por causa das chuvas nesta época do ano. É uma realidade que parece muito distante para muitas pessoas, inclusive para mim. 16h50min. Olho pra garagem. A água foi embora e levou consigo o meu desespero. Enquanto isso, distante daqui, famílias estão desesperadas neste momento ao verem suas casas sendo invadidas pela enxurrada. Por aqui nada se perdeu, mas sei que muitas famílias não terão a mesma sorte. Todos temos problemas em nossas vidas. O tamanho de cada um deles depende da importância que você dá a deles e da forma como você os encara. Aquele problema que a princípio parece insolúvel pode tornar-se risível se você olhar ao redor e ver que outras pessoas têm problemas muito maiores que o seu, e nem por isso desistiram de resolvê-los.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Dia de formatura - o desencontro (parte final)

23h. À medida que o tempo passa, minha agonia vai aumentando. Não sei onde a Débora está, e ela tampouco sabe onde estou. Estamos perdidos um do outro. É um desencontro ridículo. Ainda não acredito que isso esteja acontecendo. Permaneço covardemente escondido atrás do pilar de concreto, enquanto observo o Andrade se aproximar da sala de professores. Ele parece caminhar com pressa, como se quisesse encontrar alguém que esteja de saída. Vejo-o então parar à porta da sala e, humildemente, perguntar algo a um dos funcionários que está na sala, um dos responsáveis pela distribuição das becas aos professores. Não consigo entender o que ele perguntou ao rapaz, mas deduzo facilmente através da resposta do rapaz. “O Miller? Sim, ele passou por aqui, mas já deixou a beca dele e provavelmente foi embora.” Neste momento os movimentos do Andrade tornam-se lentos, como se ele estivesse experimentando pela primeira vez uma grande derrota. Ele balança a cabeça, como se estivesse agradecendo ao rapaz pela informação, e em seguida se vira para algumas pessoas que estão próximas a ele. Somente agora percebo que aquelas pessoas o seguiram durante todo o tempo. Aquelas pessoas são a família do Andrade. Elas o acompanharam até a sala de professores, e ele veio até ali à minha procura... 23h02min. Minha garganta seca. Sinto como se estivesse comido uma dúzia de bolachas de água-e-sal. “Meu Deus! Ele trouxe sua família até mim!” Recordo-me então da cena que mais emocionou-me no filme “O Resgate do Soldado Ryan”: a visita do referido soldado, já envelhecido, ao túmulo do oficial de guerra, interpretado por Tom Hanks. Naquela cena, Ryan caminhava na frente, acompanhado da grande família que ele construiu. Na visita, ele tentava mostrar ao oficial, morto durante o seu resgate, que ele tinha feito a vida dele valer a pena. Meus olhos estão úmidos, é difícil conter a emoção. 23h03min. Andrade vira-se para sua família e, cabisbaixo, diz alguma coisa que eu não consigo ouvir. Há tristeza em seu olhar. Um de seus familiares passa os braços sobre seus ombros, como se quisesse dar-lhe apoio, mas ele continua cabisbaixo. Olho para o céu. Não há nenhuma estrela. Chove forte. Encho os pulmões de ar, e com o ar alegre com que o Andrade está acostumado, surjo de trás do pilar e caminho em direção ao Andrade. “Graaaaaaaande Bira!”. Ao ouvir minha voz, o Andrade parece despertar. Ele a reconhece de imediato. Sua expressão parece viva novamente. Ao me ver caminhando em sua direção, um largo sorriso se desenha em seu rosto. “Ô Miller!!!! Achei que você tivesse ido embora.” E virando-se para aquelas pessoas que estavam próximas a ele, continua: “Venham até aqui. Quero que vocês conheçam o Miller”. Abraçado a mim, ele me apresenta aquelas pessoas, uma a uma. “... e esta é minha mãe.” Enquanto aperto a mão de sua mãe, o Andrade me apresenta a ela e aos seus familiares. “Mãe, esse aqui é o Miller. Sem esse cara eu não teria chegado até aqui.” E já entre lágrimas, abraçado a mim, finaliza: “Ele tem sido como um pai para mim”. Sem saber o que dizer, viro-me para a mãe dele, que chorando, diz: “Obrigado por tudo o que você tem feito por ele.” Com um enorme nó na garganta e com as lágrimas prestes a escorrer pela face, tento esboçar algumas palavras. “Eu é que agradeço por ter conhecido o seu filho. Ele é um exemplo de força de vontade e superação. Todos nós o admiramos muito. A senhora está de parabéns pelo filho que tem. Pode ter certeza de que eu farei tudo o que eu puder para que ele seja bem formado e tenha condições de seguir seus estudos, agora na pós-graduação”. Aparentemente agradecida, ela emenda. “Apareça lá em casa pra vocês baterem um papo. Ele gosta muito de você.” 23h12min. Retorno ao estádio onde ocorreu a cerimônia de colação de grau. A maioria das pessoas já foi embora, poucas permaneceram. Entre elas está a Débora, sentada no mesmo lugar que a deixei quando entreguei a caixa de bombons. “Você permaneceu aí o tempo todo?”. “Sim”, responde ela, aparentemente surpresa por eu não tê-la encontrado antes. “Por que você demorou?” Enquanto caminhamos de braços dados, começo a lembrar do desencontro e finalmente consigo enxergar a razão pela qual eu e a Débora nos desencontramos. Olho novamente para o céu. Uma estrela brilhante parece surgir entre as nuvens escuras. Está ventando. Sinto então que Deus está olhando para mim e que novamente tudo o que aconteceu foi por vontade Dele. Pela primeira vez após o término da colação de grau, sorrio. “Meu amor, se eu te contar, você não vai acreditar...”

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Dia de formatura - o desencontro (parte 2)

19 de dezembro. 22h56min. Ainda estou à procura da Débora, mas não a encontro. “Que dsencontro besta!”, fico dizendo pra mim mesmo, já com um fio de paciência. Respiro fundo. Apóio-me no beiral que separa o corredor do ginásio das arquibancadas, bem em frente à sala onde os professores se trocaram, e fico olhando os formandos passando com suas famílias. É um momento de felicidade para todos. Para mim também foi uma noite feliz, até eu descobrir que não sei onde a Débora está. 22h58min. Passo os dedos pelos cabelos, já molhados. “Devo estar uma gracinha!”, penso, já balançando a cabeça em sinal de desapontamento. A situação é tão ridícula que tenho vontade de rir. Eu bem que riria, não estivesse eu tão inconformado como estou. Vários dos formandos que estão passando param para me cumprimentar. Eu, obviamente, sorrio e retribuo os parabéns pela vitória. “Ninguém tem culpa pelos meus problemas.” De qualquer forma, para evitar que alguém perceba o meu nível de stress, tento me esconder atrás do pilar. 22h59min. Apóio-me no pilar como se fosse um bêbado. Minha esperança de que a Débora apareça estão diminuindo a cada minuto. Preciso tomar alguma providência. Quando encho os pulmões de ar, disposto a reiniciar minha “caçada”, percebo que um dos formandos está passando pelo corredor. “Vou esperar esse aí passar.” Fico então observando-o e consigo identificá-lo. É um dos alunos que fazem estágio no laboratório, sob minha orientação. Enquanto ele caminha rapidamente, eu olho para um ponto perdido do chão, e com um sorriso de canto de boca, começo a lembrar-me da trajetória daquele rapaz. Eu o conheci em fevereiro de 2005. Era um aluno da turma A da 2ª série do curso de Química Industrial. Na época, aquele jovem chamou-me a atenção pela baixa estatura, pois me fazia lembrar de uma colega de pós-graduação, a “Renatinha”. Os colegas o apelidaram de “Bira”. No início, achei que o apelido fosse uma abreviação de Ubiratan, mas logo descobri que o apelido se devia à sua cidade de origem, Ibiraci. Seu nome verdadeiro era Andrade. Às vezes eu flagrava o “Bira” muito distante durante as aulas. Era como se ele não estivesse presente. Seu olhar perdido às vezes transmitia certa tristeza. Muito tímido e quieto, o “Bira” sentava-se na primeira carteira de sua fileira. Era um aluno muito dedicado e esforçado. À medida que as notas das provas foram sendo divulgadas, descobri que ele era também muito inteligente. Na verdade, era um dos 5 melhores alunos da sala. Os anos foram se passando, e já prestes a ingressar no último ano, havia chegado o momento do “Bira” fazer um estágio. No final de 2006, ele procurou o prof. Wilson, o responsável pelo laboratório de pesquisa, e pediu-lhe estágio. O Wilson disse que ele poderia voltar no início do outro ano. Eis que nos primeiros dias de fevereiro de 2007 lá estava ele aguardando na porta da sala do Wilson. Para nossa surpresa, ele realmente não havia desistido. Após uma conversa comigo, o prof. Wilson pediu que eu orientasse o “Bira”, pois naquele momento ele não tinha nenhum projeto que o Andrade pudesse desenvolver. Eu dispunha de três estagiários e uma aluna de mestrado. Era um número suficiente, portanto eu não precisava de estagiários. Mesmo assim, algo me impeliu a aceitá-lo como estagiário. Os meses se passaram e as dificuldades foram se apresentando ao “Bira”. A impressão que eu tinha era que os desafios para ele eram maiores que para os outros, mas eu ficava admirado como ele tornava os desafios pequenos. Sua força de vontade mostrava-se maior que qualquer obstáculo que alguém pudesse colocar diante dele. Aos poucos ele tornou-se um dos alunos mais admirados por todos do laboratório. Todos o viam como um exemplo de força de vontade e perseverança. Às vezes eu ficava emocionado de ver a luz nos olhos do “Bira” quando tinha aprendido uma técnica ou quando tinha um resultado novo. Certo dia um dos alunos do laboratório contou-me a história do “Bira”. Ele havia sofrido um acidente de bicicleta quando ainda era criança e sua cabeça colidiu com a guia da calçada. Quando sua mãe levou ao médico, foi diagnosticado que ele tinha uma espécie de tumor maligno na base do crânio. Se a cirurgia não fosse feita, ele morreria, e se ela fosse feita, ele teria apenas 10% de sobreviver. Caso sobrevivesse, as chances do “Bira” ficar tetraplégico eram enormes. Quando soube desta história, fiquei na porta do laboratório olhando o “Bira” trabalhando, sem que ele me percebesse. Senti-me verdadeiramente abençoado diante de meus olhos um verdadeiro milagre de Deus. Mas o “Bira” não sabia que eu sabia de sua história, e por muito tempo eu escondi dele que eu sabia. A partir daquele dia, eu passei a tratá-lo de uma forma mais “dura”. Afinal, depois que eu soube de sua história, eu estava certo de que ele era capaz de superar qualquer desafio e de resolver qualquer problema. Em meados deste ano, reunimos um grupo de ste alunos para iniciar alguns estudos. À medida que as aulas foram sendo ministradas, todos os alunos ficaram assustados com o nível das aulas e então desistiram. Todos, menos o “Bira”. “Gosto de você porque você pega firme comigo, não tem dó”, disse-me ele certa vez. De volta ao presente, percebo que o “Bira” caminha em direção à sala de professores. Será que o “Bira” também se perdeu de alguém?
(conclui no próximo post...)

domingo, 13 de janeiro de 2008

P.S.: Eu te amo

13 de janeiro. 17h35min. Estou dentro de um cinema. A sala está escura, como deveria estar. Débora e eu estamos assistindo ao filme “P.S: eu te amo”. Não estamos sozinhos, obviamente. Outros casais também assistem à comédia romântica que vai sendo rodada na enorme tela à nossa frente. É provável que aqueles que vieram em busca de risos estejam frustrados neste momento. Poucas são as cenas engraçadas, afinal é difícil rir de um filme que mostra a dor de uma mulher que perdeu o grande amor de sua vida e que após sua morte, começa a receber cartas por ele assinadas, todas com os dizeres “p.s.: eu te amo” - daí o nome do filme. É como se o “defunto” se mantivesse presente a todo instante, fazendo a jovem viúva remexer em suas lembranças. Abraçado à Débora e com o rosto dela apoiado em meu ombro, sinto minhas lágrimas quentes escorrendo face abaixo. Apesar do refrigerante, a garganta se mantém seca. O único som que se ouve é o de narizes congestionados, típicos de quem está chorando. O que faz o expectador chorar quando assiste a um filme? Será a pena que sente ao ver a personagem sofrendo? Provavelmente não. Cada expectador torna-se o protagonista do filme a que está assistindo. Há uma identificação com as personagens. Cada um desta sala coloca-se no lugar da mulher que, ainda muito jovem, perdeu o grande amor de sua vida. Lembrar de alguém que partiu dói, e dói muito. Encontrar os vestígios daquela pessoa em todos os lugares é como ter o coração transpassado por um punhal a cada milímetro cúbido de ar inalado. Dói lembrar, não importam quais sejam as lembranças, porque tais lembranças sempre trazem uma triste verdade: a ausência permanente. Você jamais rirá junto com uma pessoa que partiu nem tampouco terá o conforto de seu ombro amigo em um momento de tristeza. Você sequer terá a chance de brigar novamente com ela! De todas as dores, a do remorso talvez seja a mais cruel. O remorso é a dor de quem não terá uma segunda chance de pedir perdão ou de fazer algo pela pessoa que partiu. Todos temos planos para o futuro. Alguns pretendem “curtir a vida”, permanecendo eternamente aventureiros. Outros pretendem se casar, constituir família, ter filhos. A dor de quem aparece na tela é a de uma mulher que perdeu sua outra metade e agora não consegue continuar sua vida. Choro porque me identifico com aquela mulher. Choro porque assim como ela, sentir-me-ia ao meio e sem rumo sem minha outra metade. Mas choro também por ter em meus braços neste instante uma pessoa com quem posso sonhar e que me faz sentir vivo. Levanto o ombro. A Débora me olha. A luz que vem da tela ilumina suas lágrimas. Eu a olho com ternura. “Amo você”, digo com voz chorosa. Ela sorri. Lentamente, vai fechando os olhos e seu rosto vai se aproximando do meu. Fecho também os olhos. Enfim a escuridão. Viva a vida com intensidade. Perdoe a todos os seus “inimigos”, faça as pazes com aqueles com quem discutiu. Peça perdão, se preciso for. Diga às pessoas importantes para você o quanto as ama, mas cuide para fazer isso sem precisar usar um "P.S." Escreva “Eu te amo” nas linhas do destino destas pessoas. Lembre-se que a vida é tão breve que pode não lhe restar tempo nem para um “P.S.”

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Dia de formatura - o desencontro

19 de dezembro de 2007. 22h40min. Assim que a pró-reitora anuncia o término da cerimônia de colação de grau, os alunos, todos em suas becas e devidamente preparados para aquela noite tão importante, lançam seus capelos para cima, comemorando assim o fim de uma fase difícil de suas vidas. A maioria destes alunos teve que conciliar longas jornadas de trabalho com viagens para a faculdade e finais de semana de estudo. Foram 4 anos de renúncia e sacrifício. Quatro anos abdicando de tempo com suas famílias, companheiros e filhos. Foi justamente sobre isso que discursei, meio que improvisadamente. Desta vez fui o único professor que discursou sem ler, não que assim eu preferisse, mas por mera falta de tempo. De qualquer forma, acredito que consegui dar o recado que eu queria aos formandos, e é isso que deve ficar de lembrança. Assim que os formandos se levantam, já com os canudos em mãos, eu me levanto da mesa de professores e procuro pela Débora. Lá está minha fiel e dedicada noiva, com um sorriso largo estampado no rosto. Estendo-lhe a mão, entregando-lhe a caixa de bombons Ferrero Rocher que ganhei por ser o paraninfo da turma, e peço-lhe para aguardar um minuto, enquanto eu cumprimento os formandos. 22h47min. Assim que termino de cumprimentar os formandos, dirijo-me até onde eu “acho” que a Débora está, mas não a encontro mais. Começo a caminhar em direção à sala de professores. “Ela deve estar me esperando lá”, penso, tentando acalmar-me. Adentro a sala, retiro a beca e saio novamente à procura da Débora. “Está chovendo. Ela não deve ter ido embora. Deve estar me esperando no final do corredor.” E para lá sigo novamente à sua procura, mas novamente minha busca é frustrada. Subo mais uma vez as escadas, na tentativa de que ela esteja vindo ao meu encontro. “Ela deve estar descendo. Se estivesse por lá, ela já deveria ter descido”. Mas nada. 22h55min. Após tanto procurar, decido parar em frente à sala dos professores e esperar que ela apareça. Passo os dedos entre os cabelos e sinto que já estou banhado de suor. “Meu Deus, onde ela estará? Não acredito que fomos nos desencontar... Por que isso foi acontecer?”
(to be continued...)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Meu último backup como solteiro

4 de janeiro de 2008. Este é o quarto dia do “ano novo”. Ainda não consegui o embalo que eu queria e fiz muito pouco do que eu havia planejado para estas férias. Sinto-me “lesado”, como se estivesse com o freio-de-mão puxado. Para falar a verdade, não consegui concentrar-me em nada que envolva trabalho. Talvez eu esteja entrando numa fria, talvez eu esteja apenas curtindo as férias tão merecidas. Em todo final (ou começo) de ano costumo fazer uma cópia de todos os meus arquivos. Guardo todos eles, sem exceção. O grande problema é que na maioria das vezes os arquivos acabam sendo armazenados em pastas que não deveriam. Há ainda aqueles arquivos que estão arquivados em um computador e não no outro. Reunir todos estes arquivos, organizá-los e gravá-los é uma tarefa que requer paciência e tempo. A primeira nunca me faltou, mas o segundo está começando a se tornar escasso. Uma das coisas que me ocorreu nestes dias é que esta será a última vez que faço minhas cópias como solteiro. Daqui a 12 meses estarei, se Deus quiser, em minha própria casa, fazendo estas cópias no escritório de minha casa. Ocorreu-me então em digitalizar todas as fotos da família, principalmente aquelas em que eu apareço, para levá-las comigo. Verifiquei então que o meu scanner está com problemas na tomada, então reuni uma quantidade enorme de fotos e fui digitalizá-las na casa da Débora. Enquanto eu fazia a digitalização, a Débora olhava as fotos, uma a uma, e ia fazendo seus comentários, e em meio a eles eu me pegava perdido em reflexões e em uma profunda nostalgia. Há fotos que datam dos primeiros meses de minha vida. Fotos que registram momentos de nossa vida em Qurinópolis-GO, onde morei até os seis anos de idade. Há fotos de pessoas que já não estão mais entre nós. Fotos de lugares que hoje existem apenas naquelas fotos e em minhas lembranças. Há fotos de minha formatura de ensino médio, que eu sequer lembrava que existiam. Em envelopes brancos estão guardadas as fotos de nossas viagens à Aparecida-SP, datadas de 1984 a 1997, que fazíamos para cumprir uma promessa de família, e tivemos que deixar de fazê-las por causa de nossa situação financeira. Estas fotos mostram como eu e a minha irmã fomos crescendo e como meus pais foram sentindo os efeitos do tempo. Algumas fotos bem pequenas, em preto e branco, registram momentos raros de meu pai na sua puberdade, entre os 17 e 20 anos, período em que ele já era caminhoneiro. Algumas delas mostram uma manifestação rara de amizade com o “Zimi”, que hoje mora em Imperatriz-MA, talvez a única pessoa a quem eu vi o papai chamar de “amigo”. Dentre as mais de 160 fotos digitalizadas (ainda restaram algumas para amanhã...), as que mais me chamaram a atenção foram as do casamento dos meus pais. Sei muito pouco sobre o casamento deles, mas ao analisar as fotos algumas dúvidas foram surgindo. Algumas perguntas que eu jamais havia feito com relação a algumas datas e à feição de algumas pessoas que estavam presentes durante o casamento religioso fizeram com que eu olhasse para os meus pais com uma ternura que eu jamais havia olhado antes. Embora eu esteja ciente de que eu devo minha vida a eles e que jamais conseguirei retribuir ao amor que eles sempre me ofereceram, somente agora dei-me conta de quão difícil foi o começo da vida deles como um casal. Olhei para o meu pai naquelas fotos e fiquei agradecido por ele nunca ter me abandonado. Se ele o tivesse feito, eu poderia ter tornado um marginal, um bandido ou um homem desonesto. Poderia ter crescido revoltado ou não ter estudado, e certamente não teria se não fosse por ele. Meu pai sempre quis que eu fosse o que ele não foi, sempre quis que eu chegasse aonde ele não chegou. Acima de tudo, meu pai sempre me deu o amor que ele nunca recebeu. Hoje, com 31 anos de idade, vejo que o meu pai conquistou uma vitória muito maior que os meus diplomas de mestrado e de doutorado. Meu pai, embora seja um homem com defeitos peculiares a todo ser humano, conseguiu oferecer-me um amor que ele mesmo jamais havia recebido. Meu pai conseguiu filtrar suas experiências ruins e a mim só deixou chegar as coisas boas. Foi meu pai quem moldou o meu o caráter. Eu sempre me espelhei nele, ele é e sempre será o meu grande herói. Daqui a quatro meses eu começarei a trilhar o caminho que o “papai” trilhou quando tinha 24 anos de idade. Se Deus permitir, serei abençoado com um belo casal de filhos. Talvez daqui a uns 20 ou 30 anos eles se sintam curiosos em saber algo sobre o pai deles, e certamente encontrarão estas linhas que aqui escrevo hoje. E se daqui a duas ou três décadas meus filhos lerem estas linhas, espero que eles vejam que eu os amo antes mesmo de terem nascido. Se então eles tiverem de mim a mesma opinião que tenho de meu pai neste momento e me virem como exemplo, como eu vejo o papai, certamente minha passagem por este mundo -e as horas de sono perdidas para escrever este blog - terão valido a pena.