terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Dia de formatura - o desencontro (parte 2)

19 de dezembro. 22h56min. Ainda estou à procura da Débora, mas não a encontro. “Que dsencontro besta!”, fico dizendo pra mim mesmo, já com um fio de paciência. Respiro fundo. Apóio-me no beiral que separa o corredor do ginásio das arquibancadas, bem em frente à sala onde os professores se trocaram, e fico olhando os formandos passando com suas famílias. É um momento de felicidade para todos. Para mim também foi uma noite feliz, até eu descobrir que não sei onde a Débora está. 22h58min. Passo os dedos pelos cabelos, já molhados. “Devo estar uma gracinha!”, penso, já balançando a cabeça em sinal de desapontamento. A situação é tão ridícula que tenho vontade de rir. Eu bem que riria, não estivesse eu tão inconformado como estou. Vários dos formandos que estão passando param para me cumprimentar. Eu, obviamente, sorrio e retribuo os parabéns pela vitória. “Ninguém tem culpa pelos meus problemas.” De qualquer forma, para evitar que alguém perceba o meu nível de stress, tento me esconder atrás do pilar. 22h59min. Apóio-me no pilar como se fosse um bêbado. Minha esperança de que a Débora apareça estão diminuindo a cada minuto. Preciso tomar alguma providência. Quando encho os pulmões de ar, disposto a reiniciar minha “caçada”, percebo que um dos formandos está passando pelo corredor. “Vou esperar esse aí passar.” Fico então observando-o e consigo identificá-lo. É um dos alunos que fazem estágio no laboratório, sob minha orientação. Enquanto ele caminha rapidamente, eu olho para um ponto perdido do chão, e com um sorriso de canto de boca, começo a lembrar-me da trajetória daquele rapaz. Eu o conheci em fevereiro de 2005. Era um aluno da turma A da 2ª série do curso de Química Industrial. Na época, aquele jovem chamou-me a atenção pela baixa estatura, pois me fazia lembrar de uma colega de pós-graduação, a “Renatinha”. Os colegas o apelidaram de “Bira”. No início, achei que o apelido fosse uma abreviação de Ubiratan, mas logo descobri que o apelido se devia à sua cidade de origem, Ibiraci. Seu nome verdadeiro era Andrade. Às vezes eu flagrava o “Bira” muito distante durante as aulas. Era como se ele não estivesse presente. Seu olhar perdido às vezes transmitia certa tristeza. Muito tímido e quieto, o “Bira” sentava-se na primeira carteira de sua fileira. Era um aluno muito dedicado e esforçado. À medida que as notas das provas foram sendo divulgadas, descobri que ele era também muito inteligente. Na verdade, era um dos 5 melhores alunos da sala. Os anos foram se passando, e já prestes a ingressar no último ano, havia chegado o momento do “Bira” fazer um estágio. No final de 2006, ele procurou o prof. Wilson, o responsável pelo laboratório de pesquisa, e pediu-lhe estágio. O Wilson disse que ele poderia voltar no início do outro ano. Eis que nos primeiros dias de fevereiro de 2007 lá estava ele aguardando na porta da sala do Wilson. Para nossa surpresa, ele realmente não havia desistido. Após uma conversa comigo, o prof. Wilson pediu que eu orientasse o “Bira”, pois naquele momento ele não tinha nenhum projeto que o Andrade pudesse desenvolver. Eu dispunha de três estagiários e uma aluna de mestrado. Era um número suficiente, portanto eu não precisava de estagiários. Mesmo assim, algo me impeliu a aceitá-lo como estagiário. Os meses se passaram e as dificuldades foram se apresentando ao “Bira”. A impressão que eu tinha era que os desafios para ele eram maiores que para os outros, mas eu ficava admirado como ele tornava os desafios pequenos. Sua força de vontade mostrava-se maior que qualquer obstáculo que alguém pudesse colocar diante dele. Aos poucos ele tornou-se um dos alunos mais admirados por todos do laboratório. Todos o viam como um exemplo de força de vontade e perseverança. Às vezes eu ficava emocionado de ver a luz nos olhos do “Bira” quando tinha aprendido uma técnica ou quando tinha um resultado novo. Certo dia um dos alunos do laboratório contou-me a história do “Bira”. Ele havia sofrido um acidente de bicicleta quando ainda era criança e sua cabeça colidiu com a guia da calçada. Quando sua mãe levou ao médico, foi diagnosticado que ele tinha uma espécie de tumor maligno na base do crânio. Se a cirurgia não fosse feita, ele morreria, e se ela fosse feita, ele teria apenas 10% de sobreviver. Caso sobrevivesse, as chances do “Bira” ficar tetraplégico eram enormes. Quando soube desta história, fiquei na porta do laboratório olhando o “Bira” trabalhando, sem que ele me percebesse. Senti-me verdadeiramente abençoado diante de meus olhos um verdadeiro milagre de Deus. Mas o “Bira” não sabia que eu sabia de sua história, e por muito tempo eu escondi dele que eu sabia. A partir daquele dia, eu passei a tratá-lo de uma forma mais “dura”. Afinal, depois que eu soube de sua história, eu estava certo de que ele era capaz de superar qualquer desafio e de resolver qualquer problema. Em meados deste ano, reunimos um grupo de ste alunos para iniciar alguns estudos. À medida que as aulas foram sendo ministradas, todos os alunos ficaram assustados com o nível das aulas e então desistiram. Todos, menos o “Bira”. “Gosto de você porque você pega firme comigo, não tem dó”, disse-me ele certa vez. De volta ao presente, percebo que o “Bira” caminha em direção à sala de professores. Será que o “Bira” também se perdeu de alguém?
(conclui no próximo post...)

2 comentários:

M.Costa disse...

No final do texto há um erro: "reunimos um grupo de ste alunos"
xD, esqueçeu do "e".
Gostei da narrativa, bem no suspense mesmo [risos] e, percebi que você a dividiu em três partes -início, meio e fim -, além de ficar mas interessante, desperta a curiosidade no leitor.
Grande Abraço!
M.Costa

Stuart (Marcelo) disse...

Poxa, Professor! E sempre que leio por aqui, aprecio mais!! E cada vez melhor a maneira que o faz e conta todas as histórias. Estou mesmo lendo um bom "livro" e naõ diferente dos que leio, espero que termine tudo bem!!