segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Dia de formatura - o desencontro (parte final)

23h. À medida que o tempo passa, minha agonia vai aumentando. Não sei onde a Débora está, e ela tampouco sabe onde estou. Estamos perdidos um do outro. É um desencontro ridículo. Ainda não acredito que isso esteja acontecendo. Permaneço covardemente escondido atrás do pilar de concreto, enquanto observo o Andrade se aproximar da sala de professores. Ele parece caminhar com pressa, como se quisesse encontrar alguém que esteja de saída. Vejo-o então parar à porta da sala e, humildemente, perguntar algo a um dos funcionários que está na sala, um dos responsáveis pela distribuição das becas aos professores. Não consigo entender o que ele perguntou ao rapaz, mas deduzo facilmente através da resposta do rapaz. “O Miller? Sim, ele passou por aqui, mas já deixou a beca dele e provavelmente foi embora.” Neste momento os movimentos do Andrade tornam-se lentos, como se ele estivesse experimentando pela primeira vez uma grande derrota. Ele balança a cabeça, como se estivesse agradecendo ao rapaz pela informação, e em seguida se vira para algumas pessoas que estão próximas a ele. Somente agora percebo que aquelas pessoas o seguiram durante todo o tempo. Aquelas pessoas são a família do Andrade. Elas o acompanharam até a sala de professores, e ele veio até ali à minha procura... 23h02min. Minha garganta seca. Sinto como se estivesse comido uma dúzia de bolachas de água-e-sal. “Meu Deus! Ele trouxe sua família até mim!” Recordo-me então da cena que mais emocionou-me no filme “O Resgate do Soldado Ryan”: a visita do referido soldado, já envelhecido, ao túmulo do oficial de guerra, interpretado por Tom Hanks. Naquela cena, Ryan caminhava na frente, acompanhado da grande família que ele construiu. Na visita, ele tentava mostrar ao oficial, morto durante o seu resgate, que ele tinha feito a vida dele valer a pena. Meus olhos estão úmidos, é difícil conter a emoção. 23h03min. Andrade vira-se para sua família e, cabisbaixo, diz alguma coisa que eu não consigo ouvir. Há tristeza em seu olhar. Um de seus familiares passa os braços sobre seus ombros, como se quisesse dar-lhe apoio, mas ele continua cabisbaixo. Olho para o céu. Não há nenhuma estrela. Chove forte. Encho os pulmões de ar, e com o ar alegre com que o Andrade está acostumado, surjo de trás do pilar e caminho em direção ao Andrade. “Graaaaaaaande Bira!”. Ao ouvir minha voz, o Andrade parece despertar. Ele a reconhece de imediato. Sua expressão parece viva novamente. Ao me ver caminhando em sua direção, um largo sorriso se desenha em seu rosto. “Ô Miller!!!! Achei que você tivesse ido embora.” E virando-se para aquelas pessoas que estavam próximas a ele, continua: “Venham até aqui. Quero que vocês conheçam o Miller”. Abraçado a mim, ele me apresenta aquelas pessoas, uma a uma. “... e esta é minha mãe.” Enquanto aperto a mão de sua mãe, o Andrade me apresenta a ela e aos seus familiares. “Mãe, esse aqui é o Miller. Sem esse cara eu não teria chegado até aqui.” E já entre lágrimas, abraçado a mim, finaliza: “Ele tem sido como um pai para mim”. Sem saber o que dizer, viro-me para a mãe dele, que chorando, diz: “Obrigado por tudo o que você tem feito por ele.” Com um enorme nó na garganta e com as lágrimas prestes a escorrer pela face, tento esboçar algumas palavras. “Eu é que agradeço por ter conhecido o seu filho. Ele é um exemplo de força de vontade e superação. Todos nós o admiramos muito. A senhora está de parabéns pelo filho que tem. Pode ter certeza de que eu farei tudo o que eu puder para que ele seja bem formado e tenha condições de seguir seus estudos, agora na pós-graduação”. Aparentemente agradecida, ela emenda. “Apareça lá em casa pra vocês baterem um papo. Ele gosta muito de você.” 23h12min. Retorno ao estádio onde ocorreu a cerimônia de colação de grau. A maioria das pessoas já foi embora, poucas permaneceram. Entre elas está a Débora, sentada no mesmo lugar que a deixei quando entreguei a caixa de bombons. “Você permaneceu aí o tempo todo?”. “Sim”, responde ela, aparentemente surpresa por eu não tê-la encontrado antes. “Por que você demorou?” Enquanto caminhamos de braços dados, começo a lembrar do desencontro e finalmente consigo enxergar a razão pela qual eu e a Débora nos desencontramos. Olho novamente para o céu. Uma estrela brilhante parece surgir entre as nuvens escuras. Está ventando. Sinto então que Deus está olhando para mim e que novamente tudo o que aconteceu foi por vontade Dele. Pela primeira vez após o término da colação de grau, sorrio. “Meu amor, se eu te contar, você não vai acreditar...”

2 comentários:

MEU COTIDIANO disse...

Em pesquisa da palavra "cotidiano", encontrei seu blogg e achei muito interessante. O meu trata do mesmo assunto só que de forma diferente.
Passe por lá quero sugestões, como gostei dos seus textos vc poderia me dar algumas idéias.
obeigado
Renata Alambert

M.Costa disse...

Espetacular. Sem palavras para descrever, que a história por si só descreva esse advérbio em cada leitor e em seus pensamentos.