domingo, 27 de janeiro de 2008

Inundação

19 de janeiro de 2008. 16h15min. Estou do lugar que será, dentro de três meses, o meu novo lar. As paredes estão brancas, mas a pintura ainda não foi concluída. A instalação elétrica ainda não foi feita, mas a luz que consegue atravessar os vidros é suficiente para que os olhos visualizem a sujeita que se encontra espalhada pelo chão. Há sujeira por todos os lados. Com pedreiro, pintor, eletricista e marceneiro transitando diariamente por aqui, não poderia ser diferente. Meu amigo Crevelin observa a tudo em silêncio. Seus comentários vêm sempre acompanhados por uma exclamação, mostrando que ele está gostando do que vê. “Primo, tá ficando muito bom”, diz ele, olhando para o teto. “Vamos lá na parte de baixo, quero te mostrar a garagem”, digo a ele, abrindo a porta que dá acesso à escada. Explico-lhe que havia um desnível no terreno tão grande que a única alternativa para escapar de pagar uma fortuna pelo aterramento era fazer uma garagem no fundo do quintal. Em vista do desnível do terreno, a garagem acabou ficando no nível da calçada, porém abaixo do nível da rua. Tem-se, portanto, a impressão de que se trata de uma garagem subterrânea. Mas não é. 16h19min. Mostro a garagem ao Crevelin. Explico-lhe então que já tivemos muitos problemas com aquela garagem. A sarjeta era muito baixa, então todo o volume de água da enxurrada passada pela garagem. O cano que de escape que fica exatamente no centro da grelha não era suficiente para esgotar tamanho volume de água. Muitas vezes o cano entupia, fazendo com que aquela garagem mais se assemelhasse a uma piscina. Foram meses de muita tristeza. 16h22min. Aproximo-me da grelha. Explico-lhe que nós subimos a calçada e que a enxurrada não mais irá nos incomodar. Mostro-lhe então a água que a enxurrada trazida pela chuva – sim, está chovendo forte lá fora! – agora é menor, e que o cano consegue, enfim, cumprir o seu papel. 16h24min. “Primo, tem algo de errado. A grelha tá enchendo...”, diz o Crevelin, com o dedo apontado para a grelha. “Deus do céu! O cano deve ter entupido!” Tento alcançar o cano, mas a fenda entre o portão e a grelha é bem menor que minha mão. “Caramba! Vou ter que abrir o portão!”, lamento, já olhando para o arame grosso que mantém o portão trancado. “Primo, vai rápido, porque a água tá subindo rápido!”, diz ele, afastando-se para a parte mais alta da garagem. Enquanto eu tento desfazer as voltas no arame, a água ultrapassa o volume da grelha e sobe, atingindo meus pés. Assisto então a água caminhando rapidamente em direção à parede do quarto de despejo. A garagem está sendo inundada novamente. 16h26min. Tento, desesperadamente, desfazer as voltas que foram dadas no arame. “Que b....!” Não adianta xingar nem tampouco ficar nervoso. Preciso continuar tentando. É a única chance de esvaziar esta garagem. 16h28min. A garagem está completamente inundada. Consigo, enfim, abrir o portão e levantá-lo. Rapidamente eu enfio a mão pela grelha à procura do cano entupido. Encontro então um folheto de propaganda de supermercado, que foi trazido pela enxurrada. Mas por que será que a enxurrada está conseguindo subir a calçada? Avisto então uma enorme tampa de pedra, que o Luís (nosso pedreiro) colocou para guardar o carro aqui na garagem. Olho para o céu escuro. Está chovendo muito forte. A enxurrada desce a rua em alta velocidade. Tiro então os chinelos e jogo-os para o Crevelin, que assiste àquela inundação à distância. “Que se dane!”. Dou um pulo e consigo atingir a sarjeta. Coloco um dos pés na enxurrada e mantenho o outro na calçada. É difícil equilibrar-me. A chuva fria molha minha roupa por inteiro. Desesperado, esqueço-me dos problemas na coluna e abaixo-me, trazendo na volta a enorme e pesada tampa de concreto que estava direcionamento a água para dentro da garagem. Jogo a tampa sobre a calçada, deixando a passagem livre para a enxurrada. 16h35min. Volto então para dentro da garagem e vejo aquela imensa piscina que se formou esvaziar-se rapidamente. “Agora ela não vai mais conseguir ultrapassar a altura da calçada”, digo ao Eduardo. Noto então que o Luís está ao lado dele. “Rapaz, mas isso encheu muito rápido!”, comenta ele. “Mas perceba que a água foi embora na mesma velocidade que chegou. Nosso dispositivo funciona! O problema foi o papel que entupiu o cano”, diz ele, tentando acalmar-me. 16h45min. A rua transformou-se em um enorme rio. Com a enxurrada vem uma grande quantidade de sujeita. A rua vai se transformando aos poucos em um grande depósito de lixo. Nuvens escuras demonstram que a chuva não vai dar trégua tão cedo. Não consigo ouvir as coisas que o Luís e o Crevelin estão me dizendo. Estou longe, fora de mim, lembrando do que acabou de ocorrer. Eu no meio da enxurrada, lutando para “salvar” minha propriedade. O Crevelin de longe, olhando, na condição de expectador. Não que ele tivesse que me ajudar. Muito pelo contrário. A questão é que todos nós diariamente presenciamos todos os dias as inundações que são mostradas pela televisão. Milhares de famílias têm suas casas invadidas pela enxurrada, e não raramente perdem todos os seus pertences por causa das chuvas nesta época do ano. É uma realidade que parece muito distante para muitas pessoas, inclusive para mim. 16h50min. Olho pra garagem. A água foi embora e levou consigo o meu desespero. Enquanto isso, distante daqui, famílias estão desesperadas neste momento ao verem suas casas sendo invadidas pela enxurrada. Por aqui nada se perdeu, mas sei que muitas famílias não terão a mesma sorte. Todos temos problemas em nossas vidas. O tamanho de cada um deles depende da importância que você dá a deles e da forma como você os encara. Aquele problema que a princípio parece insolúvel pode tornar-se risível se você olhar ao redor e ver que outras pessoas têm problemas muito maiores que o seu, e nem por isso desistiram de resolvê-los.

Um comentário:

Renata disse...

Sinceramente devo dizer que suas palavras me surprienderam pois não podia imaginar que alguém leria o que escrevo e acharia tudo aquilo.
Adoro escrever sobre tudo, só não sabia como, quando comei a pesquisar sobre esses assuntos relacionados ao cotidiano, percebi que também poderia colocar minhas idéias no papael e de alguma forma torná-las úteis.
Se tiver idéias pode deixá-las no blogg.
Obrigado pela visita.
Renata