sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Meu último backup como solteiro

4 de janeiro de 2008. Este é o quarto dia do “ano novo”. Ainda não consegui o embalo que eu queria e fiz muito pouco do que eu havia planejado para estas férias. Sinto-me “lesado”, como se estivesse com o freio-de-mão puxado. Para falar a verdade, não consegui concentrar-me em nada que envolva trabalho. Talvez eu esteja entrando numa fria, talvez eu esteja apenas curtindo as férias tão merecidas. Em todo final (ou começo) de ano costumo fazer uma cópia de todos os meus arquivos. Guardo todos eles, sem exceção. O grande problema é que na maioria das vezes os arquivos acabam sendo armazenados em pastas que não deveriam. Há ainda aqueles arquivos que estão arquivados em um computador e não no outro. Reunir todos estes arquivos, organizá-los e gravá-los é uma tarefa que requer paciência e tempo. A primeira nunca me faltou, mas o segundo está começando a se tornar escasso. Uma das coisas que me ocorreu nestes dias é que esta será a última vez que faço minhas cópias como solteiro. Daqui a 12 meses estarei, se Deus quiser, em minha própria casa, fazendo estas cópias no escritório de minha casa. Ocorreu-me então em digitalizar todas as fotos da família, principalmente aquelas em que eu apareço, para levá-las comigo. Verifiquei então que o meu scanner está com problemas na tomada, então reuni uma quantidade enorme de fotos e fui digitalizá-las na casa da Débora. Enquanto eu fazia a digitalização, a Débora olhava as fotos, uma a uma, e ia fazendo seus comentários, e em meio a eles eu me pegava perdido em reflexões e em uma profunda nostalgia. Há fotos que datam dos primeiros meses de minha vida. Fotos que registram momentos de nossa vida em Qurinópolis-GO, onde morei até os seis anos de idade. Há fotos de pessoas que já não estão mais entre nós. Fotos de lugares que hoje existem apenas naquelas fotos e em minhas lembranças. Há fotos de minha formatura de ensino médio, que eu sequer lembrava que existiam. Em envelopes brancos estão guardadas as fotos de nossas viagens à Aparecida-SP, datadas de 1984 a 1997, que fazíamos para cumprir uma promessa de família, e tivemos que deixar de fazê-las por causa de nossa situação financeira. Estas fotos mostram como eu e a minha irmã fomos crescendo e como meus pais foram sentindo os efeitos do tempo. Algumas fotos bem pequenas, em preto e branco, registram momentos raros de meu pai na sua puberdade, entre os 17 e 20 anos, período em que ele já era caminhoneiro. Algumas delas mostram uma manifestação rara de amizade com o “Zimi”, que hoje mora em Imperatriz-MA, talvez a única pessoa a quem eu vi o papai chamar de “amigo”. Dentre as mais de 160 fotos digitalizadas (ainda restaram algumas para amanhã...), as que mais me chamaram a atenção foram as do casamento dos meus pais. Sei muito pouco sobre o casamento deles, mas ao analisar as fotos algumas dúvidas foram surgindo. Algumas perguntas que eu jamais havia feito com relação a algumas datas e à feição de algumas pessoas que estavam presentes durante o casamento religioso fizeram com que eu olhasse para os meus pais com uma ternura que eu jamais havia olhado antes. Embora eu esteja ciente de que eu devo minha vida a eles e que jamais conseguirei retribuir ao amor que eles sempre me ofereceram, somente agora dei-me conta de quão difícil foi o começo da vida deles como um casal. Olhei para o meu pai naquelas fotos e fiquei agradecido por ele nunca ter me abandonado. Se ele o tivesse feito, eu poderia ter tornado um marginal, um bandido ou um homem desonesto. Poderia ter crescido revoltado ou não ter estudado, e certamente não teria se não fosse por ele. Meu pai sempre quis que eu fosse o que ele não foi, sempre quis que eu chegasse aonde ele não chegou. Acima de tudo, meu pai sempre me deu o amor que ele nunca recebeu. Hoje, com 31 anos de idade, vejo que o meu pai conquistou uma vitória muito maior que os meus diplomas de mestrado e de doutorado. Meu pai, embora seja um homem com defeitos peculiares a todo ser humano, conseguiu oferecer-me um amor que ele mesmo jamais havia recebido. Meu pai conseguiu filtrar suas experiências ruins e a mim só deixou chegar as coisas boas. Foi meu pai quem moldou o meu o caráter. Eu sempre me espelhei nele, ele é e sempre será o meu grande herói. Daqui a quatro meses eu começarei a trilhar o caminho que o “papai” trilhou quando tinha 24 anos de idade. Se Deus permitir, serei abençoado com um belo casal de filhos. Talvez daqui a uns 20 ou 30 anos eles se sintam curiosos em saber algo sobre o pai deles, e certamente encontrarão estas linhas que aqui escrevo hoje. E se daqui a duas ou três décadas meus filhos lerem estas linhas, espero que eles vejam que eu os amo antes mesmo de terem nascido. Se então eles tiverem de mim a mesma opinião que tenho de meu pai neste momento e me virem como exemplo, como eu vejo o papai, certamente minha passagem por este mundo -e as horas de sono perdidas para escrever este blog - terão valido a pena.

Um comentário:

M.Costa disse...

Fantástica sua história, principalmente o destaque dos seus filhos e tudo mais, muito impressionante, demais!
Eu te deixei um recado no "refletindo a vida", não sei se você percebeu ou olhou,
grandes abraços!
M.Costa