domingo, 30 de março de 2008

Dias de sofrimento - parte 1

22 de abril. 22h15min. “Apartamento 01, por favor”. O porteiro vira-se para a caixa repleta de crachás e em menos de meio minuto oferece-me um referente ao apartamento que mencionei. Sem mesmo ouvir o meu “obrigado” ou assegurar-se de que peguei realmente o crachá, ele chama pelo próximo da fila. Em outra ocasião a reação deste porteiro incomodar-me-ia bastante, mas neste instante sua falta de cordialidade é o menor de meus problemas. Quando venço a porta por trás daquele homem pouco gentil, surge-me um longo corredor. Respiro fundo e sigo em direção ao apartamento 01. Enquanto caminho, homens e mulheres trajando branco cruzam apressadamente o corredor de um lado para outro. Pranto e gritos de dor saem de cada sala de atendimento e um cheiro forte de éter e de álcool se espalha pelo corredor. Sim, estou em um hospital, e este realmente não é o melhor lugar para se estar em pleno sábado à noite. Mesmo assim, preciso continuar minha caminhada. No final do corredor vejo uma enorme placa, com os dizeres “Ala Faez Badran.” Na placa há uma seta, indicando a direita. É para lá que devo seguir. Não é preciso andar muito. O apartamento que procuro é o primeiro, logo no início do corredor. Aproximo-me lentamente e lentamente espio pela fresta da porta. Vejo apenas que ele está deitado, dormindo, enquanto a tia Vânia o observa, sentada aos pés da cama. Deixo então a porta se abrir para que a tia Vânia veja que estou ali. Ela me vê e sorri. “Oi, Eduardo”. Aproximo-me do leito, onde ele repousa. Minha irmã disse-me que ele não a reconheceu. Será que ocorrerá o mesmo comigo?
(to be continued...)

domingo, 23 de março de 2008

Ressurreição

Voltei. Estive ausente por uns tempos, em uma longa e exaustiva batalha comigo mesmo. À meia dúzia de leitores que incansavelmente visita este blog à procura de histórias ou de notícias minhas, peço desculpas pela minha ausência. Eu estava esperando um dia que fosse plenamente feliz para “ressurgir”. Eis que ressurgi no dia da ressurreição – a Páscoa. Certamente este foi provavelmente o melhor dia de 2008, e há um fio de esperança que me diz que tudo será diferente a partir de hoje. É como se o ano começasse hoje. Consegui retornar definitivamente para o seio de minha família e encontrar o equilíbrio entre as atividades profissionais e o convívio familiar. Hoje reunimos a família - ou a parte dela que mais amo. Eu não poderia ter uma “desculpa” melhor para voltar a este blog que não fosse registrar minha felicidade por ter meus pais, meus avós, minha tia, minha irmã e minha querida Clarinha aqui comigo. Aproveitei cada segundo de minha última Páscoa morando com meus pais. Enquanto celebramos a Páscoa, meu avô paterno estava internado com sérios problemas de saúde. Suspeita-se de câncer. Um dos médicos disse que ele se propagou da próstata para o abdômen. Já um outro médico diz que se trata de uma bactéria que está se multiplicando e tomando conta do corpo dele. Seja o que for, a situação é grave. Tenho ido visitá-lo desde sexta-feira e lhe dedicado o amor que dele nunca recebi. Ele sempre foi ausente e pouco carinho e atenção nos deu ao longo da vida. Hoje, porém, ele parece ter grande respeito por mim, pois sou um dos poucos netos que pára para ouvi-lo. Hoje eu o senti bem melhor. Presenteei-o com um chocolate. Ontem dei-lhe um beijo. Ele me olhou com espanto, já que ele jamais me deu um abraço. É a minha tentativa de ser um bom neto. Espero que não seja tarde demais e que ele continue em recuperação - eu o tenho sentido mais disposto e feliz desde que passei a visitá-lo... Neste dia de Páscoa comemoramos a ressurreição de Jesus Cristo. Que Ele possa ressuscitar em todos os corações, assim como hoje eu O tenho ressuscitado no meu.

domingo, 9 de março de 2008

À minha grande amiga - parte 3

Outubro de 1999. 9h21min. Estou longe de casa, em meio a pessoas que não conheço. Abandonei meu emprego de almoxarife na Usina Alta Mogiana para tentar realizar o sonho de aprender Química Orgânica. Foi um investimento de risco, que ainda não sei se valerá a pena. Não, não estou me referindo ao dinheiro, mas ao conhecimento que não estou conseguindo adquirir. Digamos que construir uma boa casa sem ter um bom alicerce é uma tarefa muito difícil. Na verdade, o curso de bacharelado em Química Industrial não me preparou para trabalhar na indústria, e não para seguir a carreira acadêmica. Eu sequer tenho o conhecimento mínimo para entender o que o professor João escreveu no papel que a Ana Cláudia está me oferecendo de volta. Às vezes tenho a impressão de que estou remando contra a maré e de que eu não levo jeito pra trabalhar em laboratório. Mas minha amiga Ana Cláudia parece sentir o desespero traduzido em meu silêncio e, enfim, dá o seu parecer sobre a situação. “Miller, não precisa se preocupar. O que você vai fazer é o que a gente costuma fazer aqui no laboratório. Não tem nada aí que seja novo pra gente, então está tudo sob controle. Estamos aqui pra ajudá-lo, pode contar com a nossa ajuda.” Se eu entendi bem, ela acabou de usar “nossa” ao invés de “minha”. Considerando que ela foi a primeira a falar comigo desde que cheguei aqui no laboratório, e que nenhum dos outros alunos sentiu-se motivado a fazê-lo antes dela, sinto nas palavras dela uma grande humildade . Vou começar a fazer isso: usarei o “nós” ao invés de “eu”. Sim, agora entendo o que o Wilson quis dizer sobre ela ser humilde e inteligente. Talvez eu aprenda nestes anos muito mais sobre a vida do que sobre Química Orgânica.