domingo, 9 de março de 2008

À minha grande amiga - parte 3

Outubro de 1999. 9h21min. Estou longe de casa, em meio a pessoas que não conheço. Abandonei meu emprego de almoxarife na Usina Alta Mogiana para tentar realizar o sonho de aprender Química Orgânica. Foi um investimento de risco, que ainda não sei se valerá a pena. Não, não estou me referindo ao dinheiro, mas ao conhecimento que não estou conseguindo adquirir. Digamos que construir uma boa casa sem ter um bom alicerce é uma tarefa muito difícil. Na verdade, o curso de bacharelado em Química Industrial não me preparou para trabalhar na indústria, e não para seguir a carreira acadêmica. Eu sequer tenho o conhecimento mínimo para entender o que o professor João escreveu no papel que a Ana Cláudia está me oferecendo de volta. Às vezes tenho a impressão de que estou remando contra a maré e de que eu não levo jeito pra trabalhar em laboratório. Mas minha amiga Ana Cláudia parece sentir o desespero traduzido em meu silêncio e, enfim, dá o seu parecer sobre a situação. “Miller, não precisa se preocupar. O que você vai fazer é o que a gente costuma fazer aqui no laboratório. Não tem nada aí que seja novo pra gente, então está tudo sob controle. Estamos aqui pra ajudá-lo, pode contar com a nossa ajuda.” Se eu entendi bem, ela acabou de usar “nossa” ao invés de “minha”. Considerando que ela foi a primeira a falar comigo desde que cheguei aqui no laboratório, e que nenhum dos outros alunos sentiu-se motivado a fazê-lo antes dela, sinto nas palavras dela uma grande humildade . Vou começar a fazer isso: usarei o “nós” ao invés de “eu”. Sim, agora entendo o que o Wilson quis dizer sobre ela ser humilde e inteligente. Talvez eu aprenda nestes anos muito mais sobre a vida do que sobre Química Orgânica.

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