sexta-feira, 25 de abril de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 1

Novembro de 1994. É incrível como os meses passam rápido. Parece que foi outro dia que eu estava assistindo às aulas da semana preparatória para o cursinho. Sinto ainda a brisa fria que vem da piscina, em torno da qual ficavam as salas de aula. Lembro-me que aquela semana foi particularmente estressante. Tive que estudar bastante, pois minha única chance era conseguir um bom desconto. Sim, estudar aqui no colégio Objetivo custaria muito caro caso eu não tivesse obtido a primeira colocação e sido agraciado com 70% de desconto na mensalidade. O diretor, o Marcão, que também era professor de Geografia, pareceu bastante impressionado com o meu desempenho e acabou convidando-me para estudar no período da manhã, que ele dizia “ter um estudo mais forte”. Mas não era isso que eu queria. Eu não queria passar pela experiência que passei no ano passado, quando estudei na FEAM-COC, também com bolsa. Todos os meus colegas tinham pais que ganhavam bem e podiam pagar a mensalidade escolar para eles. Já eu estudava com bolsa de estudos integral, e isso me fazia diferente deles. Senti-me como um estranho no ninho durante o ano inteiro, não gostaria de sentir-me assim novamente. Por isso, disse ao Marcão que queria permanecer no período noturno, para poder estudar durante o dia todo. Isso nunca foi problemas para mim, afinal estou acostumado a lidar com os livros. Eles são os meus melhores amigos. Pra falar a verdade, afora meus entes mais queridos, os livros são os meus únicos amigos. Sou um adolescente de 18 anos, muito tímido e introspectivo, porém tenho intimidade com os livros e com os números. Alguns me acham louco, dizem que sou inteligente demais. Não, eu não sou inteligente, sou apenas muito dedicado. Isso mostra que eles realmente não me conhecem. Pois bem. Meu plano de estudar firme o dia todo teria saído conforme o planejado caso o Marcão tivesse entregado os livros que chamamos de “Os Intocáveis” à medida que as aulas fossem sendo ministradas. Mas o material referente ao 1º. bimestre veio no terceiro, o do 2º. veio no quarto e com isso meus planos foram por água abaixo. Minhas esperanças de ser aprovado no vestibular agora são bem reduzidas. Quero prestar engenharia elétrica na USP de São Carlos. No ano passado me saí muito mal nas provas de Geografia, Inglês, História e Biologia. Só me dei bem em Física, Matemática e Química. O Aires, um colega com quem estudei no ano passado na FEAM-COC, também quer prestar Engenharia Elétrica. Ele gosta de estudar comigo, ao ponto de quase ter desistido de estudar no Liceu Albert Sabin de Ribeirão Preto pra continuarmos na mesma sala. Mas eu disse a ele para seguir o caminho dele, que estudar lá era bem melhor. Na verdade, se o papai tivesse dinheiro pra pagar a mensalidade do Sabin, eu também teria ido, mas o fato é que até pra pagar a mensalidade do cursinho o papai sofre, mesmo com o desconto que consegui. O ano vai chegando ao seu fim. Fico triste só de pensar no que farei no ano que vem. Não tenho esperanças de que seja um ano bom. Não sei se serei aprovado no vestibular para Engenharia nem tampouco se prestarei o vestibular. Pra completar, há um pequeno detalhe que aumenta ainda mais o tamanho da minha interrogação: ano que vem é ano de serviço militar. Putz, era só o que me faltava...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dias de sofrimento - parte 3

“Vovô, o que o senhor está sentindo?” Enquanto olho meu avô se debatendo na cama, tossindo, se esforçando para fazer algo que não consigo adivinhar, meu coração se acelera. “Vovô, fala comigo: o que é que o senhor está tentando fazer?” Ele tosse. “Quero ficar sentado”, sussurra ele com voz rouca e fraca. Faço então com que meus braços envolvem seus ombros para que ele possa neles se apoiar e ficar sentado. Enquanto ele se esforça, ofegante, puxo seu tórax para cima até que ele fique sentado. Percebo então que estou com abraçado ao meu avô, com os braços rodeando seus ombros. É a primeira vez que o faço em meus quase 32 anos de vida. “Antes tarde do que nunca”, penso comigo mesmo, mas esperançoso de que meu avô possa ler meus pensamentos e abraçar-me também pela primeira vez. Enquanto me perco em meus pensamentos, o vovô está ofegante, cansado. Deve ter se esforçado muito para colocar-se sentado, mesmo com a minha ajuda. “Vovô, o senhor precisa de alguma coisa?” Ele fixa os olhos para o chão, demonstrando estar inconformado com aquela situação de dependência. “Quero ir ao banheiro”, diz ele, jogando suas pernas para fora da cama. “Cuidado, vovô. Desse jeito o senhor não vai conseguir caminhar. Vou desenrolar o lenço das pernas do senhor, espera aí.” Após retirar o fino lenço que lhe cobria as pernas e o impedia de andar, surgem pernas brancas e finas, sem qualquer vestígio de pêlo. Aquela imagem faz recordar-me de que o papai sempre falou-nos que os pêlos caem quando envelhecemos. “Vovô, eu vou ajudar o senhor a calçar as sandálias”. Abaixo-me então e pego as sandálias de couro marrom. Puxo o velcro e ajusto-as para que fiquem confortáveis. Coloco-me de pé e ofereço-lhe a mão para que ele possa apoiar-se. Com dois ou três passos ele chega à porta do banheiro. Com uma das mãos apoiada na parede e a outra abaixando as calças, o vovô vai se virando sozinho enquanto eu respeitosamente aguardo à porta do banheiro. “Vovô, o senhor precisa de ajuda? Quer se sentar?”, ao que ele responde: “Não, eu vou fazer de pé mesmo”. Ouço então as rajadas de urina colidirem com a água do vaso sanitário. Outras, porém, colidem com o revestimento e o piso brancos. “Putz, ele é tão ruim de mira quanto eu...”, penso e sorrio, na esperança de poder aliviar um pouco da tensão e da tristeza que querem se abater sobre mim. Após pouco mais de um minuto, o vovô se vira e caminha até a cama. “Estou com frio”, diz ele ao deitar-se. Eis que quando vou cobrir-lhe com o lençol, percebo que suas sandálias e sua bermuda estão encharcadas de urina. Cubro-lhe então com o lençol e fico olhando novamente com ternura para aquele senhor outrora tão bravo, e que agora parece-me uma criança amedrontada. Deitado de lado, ele dirige seu olhar para algum outro canto perdido. Talvez esteja perdido nas lembranças do passado. Talvez ele não quisesse mais estar presente entre nós para passar por tanto sofrimento e constrangimento. Talvez ele encontre a única verdade que tanto me incomoda neste momento: o tempo não volta atrás. Nem para ele, nem para mim.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Dias de sofrimento - parte 2

Seus olhos estão arregalados. Parecem fixos em algum ponto perdido. Suas sobrancelhas, embora embranquecidas, ainda conservam os pêlos arrepiados e voltados para cima. A boca permanece aberta, mostrando os poucos dentes amarelados que ainda lhe restam. Sua pele clara apresenta vários hematomas, originados da agulha que lhe foi introduzida nas veias para que o soro lhe fosse aplicado. “Oi vovô!”, digo com a mão tocando no ombro dele. Deitado de lado, com uma das mãos entre as pernas e a outra debaixo de sua cabeça, ele apenas levanta os olhos sem pronunciar nenhuma palavra. Valter Crotti, conhecido por todos por sua voz forte e pelo energismo que conferia a seus diálogos, não consegue pronunciar uma palavra seque. Ao invés do homem de gênio forte de décadas atrás, meu avô agora se parece com uma criança amedrontada. É uma cena muito triste. Sento-me na cadeira ao lado de seu leito. Ele me olha. “E aí, vovô, como é que o senhor está?”. Ele me olha. “Hã?”. A audição também não é mais a mesma. Repito a mesma frase. “Ah, eu não estou muito bom, não. Tá tudo doendo”, diz ele com voz fraca. A tia Vânia se aproxima e levanta o lençol, deixando sua barriga à mostra. “Eduardo, olha a barriga dele. Está inchada! Um dos médicos disse que é uma bactéria que está se alastrando pelo corpo dele e que remédio nenhum é capaz de matar. Já um outro diz que o problema na próstata se alastrou pelo restou do abdômen”. Sim, o estado de saúde de meu avô é bem complicado. “Eduardo, eu preciso ir. O senhor que vai dormir com ele está quase pra chegar. Fique aí com o seu avô mais um pouco”, diz a tia fechando a porta atrás de si. Quando me viro para meu avô, percebo que ele está me olhando. “Você não foi dar aulas hoje?”, pergunta ele. “Não, vovô. Hoje é sexta-feira santa”. Ele então volta a fixar seus olhos claros em algum ponto perdido. Eu fico ao seu lado, com a mão sobre o seu ombro. Fico a olhar aquele homem que trabalhou anos e anos como motorista e que até anos atrás mantinha uma saúde de ferro. Penso então que aqueles podem ser os últimos dias de vida de meu avô. Meu coração fica apertado. Fico pensando que as coisas entre nós poderiam ter sido muito diferentes. Que eu poderia ter ido mais à casa dele para ouvir as histórias dele e que ele poderia ter sido mais atencioso comigo. Infelizmente eu falhei com ele, pois nunca consegui oferecer o amor que ele merecia, talvez por nunca ter recebido o amor que dele eu desejava receber. O fato é que meu avô parece estar chegando ao fim da linha. Enquanto me perco em minhas reflexões, as lágrimas escorrem-me pelo rosto. De repente, meu avô começa a se mexer na cama e seu fôlego começa a falhar. “Meu Deus, o que está acontecendo?”
(to be continued...)