terça-feira, 8 de abril de 2008

Dias de sofrimento - parte 2

Seus olhos estão arregalados. Parecem fixos em algum ponto perdido. Suas sobrancelhas, embora embranquecidas, ainda conservam os pêlos arrepiados e voltados para cima. A boca permanece aberta, mostrando os poucos dentes amarelados que ainda lhe restam. Sua pele clara apresenta vários hematomas, originados da agulha que lhe foi introduzida nas veias para que o soro lhe fosse aplicado. “Oi vovô!”, digo com a mão tocando no ombro dele. Deitado de lado, com uma das mãos entre as pernas e a outra debaixo de sua cabeça, ele apenas levanta os olhos sem pronunciar nenhuma palavra. Valter Crotti, conhecido por todos por sua voz forte e pelo energismo que conferia a seus diálogos, não consegue pronunciar uma palavra seque. Ao invés do homem de gênio forte de décadas atrás, meu avô agora se parece com uma criança amedrontada. É uma cena muito triste. Sento-me na cadeira ao lado de seu leito. Ele me olha. “E aí, vovô, como é que o senhor está?”. Ele me olha. “Hã?”. A audição também não é mais a mesma. Repito a mesma frase. “Ah, eu não estou muito bom, não. Tá tudo doendo”, diz ele com voz fraca. A tia Vânia se aproxima e levanta o lençol, deixando sua barriga à mostra. “Eduardo, olha a barriga dele. Está inchada! Um dos médicos disse que é uma bactéria que está se alastrando pelo corpo dele e que remédio nenhum é capaz de matar. Já um outro diz que o problema na próstata se alastrou pelo restou do abdômen”. Sim, o estado de saúde de meu avô é bem complicado. “Eduardo, eu preciso ir. O senhor que vai dormir com ele está quase pra chegar. Fique aí com o seu avô mais um pouco”, diz a tia fechando a porta atrás de si. Quando me viro para meu avô, percebo que ele está me olhando. “Você não foi dar aulas hoje?”, pergunta ele. “Não, vovô. Hoje é sexta-feira santa”. Ele então volta a fixar seus olhos claros em algum ponto perdido. Eu fico ao seu lado, com a mão sobre o seu ombro. Fico a olhar aquele homem que trabalhou anos e anos como motorista e que até anos atrás mantinha uma saúde de ferro. Penso então que aqueles podem ser os últimos dias de vida de meu avô. Meu coração fica apertado. Fico pensando que as coisas entre nós poderiam ter sido muito diferentes. Que eu poderia ter ido mais à casa dele para ouvir as histórias dele e que ele poderia ter sido mais atencioso comigo. Infelizmente eu falhei com ele, pois nunca consegui oferecer o amor que ele merecia, talvez por nunca ter recebido o amor que dele eu desejava receber. O fato é que meu avô parece estar chegando ao fim da linha. Enquanto me perco em minhas reflexões, as lágrimas escorrem-me pelo rosto. De repente, meu avô começa a se mexer na cama e seu fôlego começa a falhar. “Meu Deus, o que está acontecendo?”
(to be continued...)

Um comentário:

Livros e Revistas disse...

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