quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dias de sofrimento - parte 3

“Vovô, o que o senhor está sentindo?” Enquanto olho meu avô se debatendo na cama, tossindo, se esforçando para fazer algo que não consigo adivinhar, meu coração se acelera. “Vovô, fala comigo: o que é que o senhor está tentando fazer?” Ele tosse. “Quero ficar sentado”, sussurra ele com voz rouca e fraca. Faço então com que meus braços envolvem seus ombros para que ele possa neles se apoiar e ficar sentado. Enquanto ele se esforça, ofegante, puxo seu tórax para cima até que ele fique sentado. Percebo então que estou com abraçado ao meu avô, com os braços rodeando seus ombros. É a primeira vez que o faço em meus quase 32 anos de vida. “Antes tarde do que nunca”, penso comigo mesmo, mas esperançoso de que meu avô possa ler meus pensamentos e abraçar-me também pela primeira vez. Enquanto me perco em meus pensamentos, o vovô está ofegante, cansado. Deve ter se esforçado muito para colocar-se sentado, mesmo com a minha ajuda. “Vovô, o senhor precisa de alguma coisa?” Ele fixa os olhos para o chão, demonstrando estar inconformado com aquela situação de dependência. “Quero ir ao banheiro”, diz ele, jogando suas pernas para fora da cama. “Cuidado, vovô. Desse jeito o senhor não vai conseguir caminhar. Vou desenrolar o lenço das pernas do senhor, espera aí.” Após retirar o fino lenço que lhe cobria as pernas e o impedia de andar, surgem pernas brancas e finas, sem qualquer vestígio de pêlo. Aquela imagem faz recordar-me de que o papai sempre falou-nos que os pêlos caem quando envelhecemos. “Vovô, eu vou ajudar o senhor a calçar as sandálias”. Abaixo-me então e pego as sandálias de couro marrom. Puxo o velcro e ajusto-as para que fiquem confortáveis. Coloco-me de pé e ofereço-lhe a mão para que ele possa apoiar-se. Com dois ou três passos ele chega à porta do banheiro. Com uma das mãos apoiada na parede e a outra abaixando as calças, o vovô vai se virando sozinho enquanto eu respeitosamente aguardo à porta do banheiro. “Vovô, o senhor precisa de ajuda? Quer se sentar?”, ao que ele responde: “Não, eu vou fazer de pé mesmo”. Ouço então as rajadas de urina colidirem com a água do vaso sanitário. Outras, porém, colidem com o revestimento e o piso brancos. “Putz, ele é tão ruim de mira quanto eu...”, penso e sorrio, na esperança de poder aliviar um pouco da tensão e da tristeza que querem se abater sobre mim. Após pouco mais de um minuto, o vovô se vira e caminha até a cama. “Estou com frio”, diz ele ao deitar-se. Eis que quando vou cobrir-lhe com o lençol, percebo que suas sandálias e sua bermuda estão encharcadas de urina. Cubro-lhe então com o lençol e fico olhando novamente com ternura para aquele senhor outrora tão bravo, e que agora parece-me uma criança amedrontada. Deitado de lado, ele dirige seu olhar para algum outro canto perdido. Talvez esteja perdido nas lembranças do passado. Talvez ele não quisesse mais estar presente entre nós para passar por tanto sofrimento e constrangimento. Talvez ele encontre a única verdade que tanto me incomoda neste momento: o tempo não volta atrás. Nem para ele, nem para mim.

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