sexta-feira, 23 de maio de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 2

Dezembro de 1994. Mais um ano que está prestes a terminar. Eu gosto deste período porque o papai sempre fica aqui em casa. Por ser motorista de caminhão, ele passa a maior parte do tempo nas estradas, trabalhando. Às vezes ficamos quase dois meses sem vê-lo. Mamãe, a “Fia’ e eu sentimos muita saudade dele. Por outro lado, a presença dele aqui em casa também é sinônimo de serviço para mim. Ele nunca consegue ficar parado, não sei como não se cansa. Agora, por exemplo, estamos na oficina do tio Alcides, a quem carinhosamente chamamos de “tio Bixim”. Estou com uma lixa nas mãos, removendo a ferrugem do chassis e das partes metálicas da carroceria do caminhão, enquanto o papai do outro lado vem pintando as partes já lixadas. Do terreno vizinho ouço o barulho das máquinas da marcenaria do Segato, tornando reais as cozinhas planejadas por aqueles que têm dinheiro. Fico imaginando como é uma cozinha planejada e se algum dia vou poder ter uma. Aos meus ouvidos chega também o som do papai mudando a lata de lugar, sobre a qual ele se senta enquanto pinta o chassis. Na ausência de vozes, meus pensamentos começam a incomodar-me. Afinal, é muita incerteza para uma pessoa de 18 anos. Não tenho trabalho. Na verdade, jamais tive qualquer emprego. O papai sempre quis que eu estudasse e fez todo o esforço do mundo para que eu não me tornasse motorista de caminhão. O desejo dele sempre foi que eu estudasse e tivesse uma profissão, para não sofrer como ele sofreu. Sempre fui muito exigido, ele sempre quis que eu fosse o melhor. Sempre fui bom aluno, sempre estive entre os melhores, mas no momento isso de nada me serve. Estou muito desanimado para prestar o vestibular este ano. Fiz cursinho extensivo durante este ano, mas acho que não estudei o suficiente e não estou preparado. As inscrições para a Fuvest já se encerraram. Desisti de prestar, pois fiquei com medo de não passar. Não é fácil para ninguém lidar com derrotas, principalmente para uma pessoa como eu, que tenho a auto-estima bastante frágil. O papai sempre diz que eu sou lerdo, que não vou conseguir emprego. “O seu negócio é estudar. Eu criei você pra estudar!” Ora, se ele me criou pra estudar, por que é que eu tenho que ficar aqui ajudando ele a fazer serviço “bruto”? “Um homem precisa saber fazer de tudo. Nunca se sabe quando ele vai precisar usar”. Há um outro problema que me incomoda bastante: eu não sei se realmente quero fazer engenharia elétrica. Sempre gostei de desenhar painéis quando era criança, mas isso ainda assim não indica muita coisa. Acho que cursar engenharia é para mim um desafio. Dizem que é um curso difícil, então fico imaginando se não estou querendo apenas provar pra mim mesmo que sou capaz. O problema é que não estou conseguindo, e isso faz com que eu me sinta o fracassado que o papai sempre deu a entender que eu sou. No ano passado, contei aos colegas que iria prestar Licenciatura em Ciências Exatas em São Carlos. Não sei como, mas o fato é que isso foi parar nos ouvidos do seu Renato, o diretor que havia me concedido a bolsa de estudos. “Você ta louco? Tá querendo se tornar professor? Vai prestar Engenharia, Medicina, Direito ou coisa parecida!” Como eu disse, eu não sei se nasci pra ser engenheiro. O fato é que eu gosto muito de Física, mas não sei se conseguirei emprego como físico. Minha única opção será tornar-me professor, mas se não tiver aulas, terei jogado 4 anos de minha vida pela janela. O que fazer?

2 comentários:

M.Costa disse...

Grande Miller Crotti,
fico impressionado com as suas histórias, é fascinante. A riqueza de detalhes e características da época dá a crer que você produziu todas essas estórias em um diário e hoje só está "passando a limpo" para o blog, muito bom. Me identifico, em parte, com esse fato, pois, estou vivenciando isso agora; 3º ano, dedicação máxima aos estudos, prestar engenharia elétrica![risos]

Grande Abraços miller!

Antônio E. M. Crotti disse...

Grande Matheus!
O período que estou narrando foi bem difícil e doloroso, por isso me lembro de cada detalhe. Espero que se identifique apenas na parte do vestibular. Não desejo a ninguém tudo o que passei naquela época. Continue acompanhando e verá o que quero dizer!
Abraços, brother!